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segunda-feira

DO JEITO QUE ELAS QUEREM


DO JEITO QUE ELAS QUEREM (Book club, 2018, June Pictures/Apartment Story/Endeavor Content, 104min) Direção: Bill Holderman. Roteiro: Bill Holderman, Erin Simms. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Peter Nashel. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Rachel O'Toole/Dena Roth. Produção executiva: Alan Blomquist, Ted Deiker. Produção: Andrew Duncan, Bill Holderman, Alex Saks, Erin Simms. Elenco: Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen, Mary Steenburgen, Andy Garcia, Craig T. Nelson, Don Johnson, Ed Begley Jr., Richard Dreyfuss, Wallace Shawn, Alicia Silverstone. Estreia: 17/5/2018

Em uma era que as aparências, a juventude e a popularidade nas redes sociais valem mais do que talento, é um alento perceber que ainda existe a possibilidade de se nadar contra a corrente mesmo na pouco ousada indústria de cinema de Hollywood. "Do jeito que elas querem" pode até não ter mudado a história da sétima arte ou a forma dos executivos enxergarem mulheres maduras como algo indesejável comercialmente, mas sua bilheteria internacional acima dos 100 milhões de dólares certamente demonstrou que, a despeito do pensamento comum, ainda existe espaço para filmes protagonizados por gente acima dos 60 anos de idade - principalmente quando esta gente é do calibre de Diane Keaton, Jane Fonda, Candice Bergen e Mary Steenburgen. São elas, do alto de seu carisma e de sua capacidade de extrair o melhor até mesmo de um roteiro bobo e quase superficial, o principal atrativo do filme de Bill Holderman - uma produção leve, divertida e que não tem medo de falar de um assunto tabu (sexo na maturidade) com a naturalidade de uma comédia adolescente. Pode até soar inverossímil em alguns momentos, mas é difícil não simpatizar com um elenco tão sensacional - que conta com participações luxuosas de Richard Dreyfuss, Andy Garcia e Don Johnson.

Filme de estreia de Holderman como diretor - como produtor seu currículo conta com obras que valorizam atores veteranos, como "O velho e a arma", que deu a Robert Redford, em 2018, um dos melhores papeis de sua carreira -, "Do jeito que elas querem" é, nitidamente, um veículo para o brilho cômico de suas estrelas, todas brilhantes e extremamente à vontade ao assumir a idade e seus efeitos colaterais na vida sexual. Tudo bem que todas são ricas (ou ao menos de classe média alta), sem problemas maiores a resolver e relativamente bem-sucedidas, mas isso não impede o público de rir de suas desventuras amorosas - e, dependendo do espectador (ou espectadora), atéomesmo identificar-se com algumas delas. Ao centrar sua trama em quatro personagens principais, o roteiro abarca diferentes tipos de relacionamentos e personalidades, e mesmo que não tente se aprofundar em nenhuma delas apresenta à plateia, de forma agradável e esteticamente sofisticada, um interessante painel sobre o amor na terceira idade.

Vivian (Jane Fonda) é uma empresária do ramo da hotelaria que tem uma vida sexual razoavelmente ativa mas que é incapaz de assumir um relacionamento sério - simplesmente não consegue dormir ao lado de um homem depois do sexo - até que reencontra um amor do passado, o músico Arthur (Don Johnson). Diane (Diane Keaton) ficou viúva recentemente e é pressionada pelas filhas casadas (uma delas vivida por Alicia Silverstone, musa dos anos 1990) para mudar de cidade e morar perto delas - sua preocupação é com sua segurança e sua saúde, como se ela fosse uma idosa inválida -, mas que se vê surpresa quando o charmoso piloto de avião Mitchell (Andy Garcia) se demonstra muito mais interessado nela do que se poderia imaginar. Sharon (Candice Bergen) é uma poderosa juíza que atravessa um período difícil depois da separação e do novo amor juvenil do ex-marido - e descobre que os sites de relacionamento podem esconder boas chances de realização sexual. E Carol (Mary Steenburgen) é uma dona-de-casa que tenta reacender a faísca amorosa do marido aposentado, Bruce (Craig T. Nelson). As quatro, amigas há décadas, se reúnem frequentemente em um Clube do Livro, onde falam de suas vidas e discutem literatura, embaladas por boas doses de vinho. Quando a obra escolhida é o polêmico "50 tons de cinza", todas elas se deixam influenciar pelo alto teor erótico da história e buscar dentro de si o melhor caminho para a felicidade a dois.


 Que não se espere maiores elocubrações intelectuais do roteiro, coescrito por Holderman e Erin Simms - atriz pouco conhecida e produtora do romântico "Nossas noites" (2017), que reuniu Jane Fonda e Robert Redford: a trama se contenta em aproveitar o talento de seu elenco para fazer rir enquanto derruba todo tipo de preconceito etário, mas jamais ambiciona discutir com seriedade o assunto. Seu objetivo é divertir o público com diálogos de duplo sentido, sequências de humor visual (o encontro de Craig T. Nelson com uma guarda de trânsito enquanto sofre os efeitos do Viagra é hilário), algum romantismo e momentos de pura comédia (o embate entre Candice Bergen e Richard Dreyfuss é delicioso). Não há a sofisticação de um Woody Allen. parceiro constante de Diane Keaton nos anos 1970, ou o engajamento dos filmes estrelados por Jane Fonda na mesma época, mas em compensação há a química precisa entre suas atrizes e a coragem da produção em apostar na experiência de seus intérpretes mesmo quando o senso comum da indústria privilegia efeitos visuais e orçamentos milionários. Além do mais, não tem preço rever o sempre ótimo Richard Dreyfuss - ainda que em um papel menor que seu talento - e testemunhar uma história que não relega mulheres com mais de 60 anos a tipos dramáticos e sofredores. 

Longe de problemas típicos de personagens de tal faixa etária - como o desprezo dos filhos, a deteriorização da saúde, a falta de oportunidades profissionais e a baixa autoestima -, as protagonistas de "Do jeito que elas querem" são festivas, alegres, independentes e donas do próprio nariz (e a mudança de tal status é o que move a personagem de Diane Keaton). Nada de lágrimas sofridas, reclamações doídas ou medo da morte. O roteiro brinca com a idade de suas heroínas de forma a envolver o espectador e fazê-lo rir de situações que, em mãos menos sutis, poderiam facilmente descambar para a vulgaridade e o mau gosto. Nenhuma atuação é digna de um Oscar e é pouco provável que o filme entre na lista dos preferidos da crítica, mas quem disse que só de obras-primas é feita a história do cinema? Se visto sem preconceitos - afinal é um "filme de mulher" -, "Do jeito que elas querem" é um programa dos mais divertidos.

sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

quarta-feira

JUVENTUDE


JUVENTUDE (Youth, 2015, Indigo Film/Barbary Film/Pathé, 124min) Direção e roteiro: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Cristiano Travagiogli. Música: David Lang. Figurino: Carlo Poggioli. Direção de arte/cenários: Ludovica Ferrario/Noel Godfrey. Produção executiva: Viola Prestieri. Produção: Carlotta Calori, Francesca Cima, Nicola Giuliano. Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda. Estreia: 20/5/2015 (Festival de Cannes)
 

Indicado ao Oscar de Melhor Canção Original ("Simple Song #3)

 O músico Fred Ballinger (Michael Caine), um veterano maestro consagrado por uma série de composições chamada "Simple songs", está passando uma temporada em um sofisticado spa localizado nos alpes suíços, acompanhado da filha e empresária, Lena (Rachel Weisz) - que está passando por uma séria crise em seu casamento. Aposentado, Ballinger é procurado por um emissário da realeza britânica para que faça uma apresentação no aniversário do Príncipe Philip - uma missão que não o interessa nem um pouco. A seu lado, dividindo lembranças de seus dias de mocidade, está o cineasta Mick Boyle (Harvey Keitel), que aproveita o descanso para, junto com uma equipe de roteiristas, criar seu novo projeto, que ele julga ser seu último grande filme. Amigos há décadas, os dois guardam na lembrança não apenas de dias livres das doenças da velhice, mas também da mulher que enfeitiçou a ambos - e tem, em comum, laços de parentesco: o filho de Mick é genro de Ballinger, o responsável pelo sofrimento de Lena, uma mulher torturada pela memória do casamento turbulento dos pais. Cercados pela beleza estonteante do lugar onde descansam, Ballinger e Boyle ainda convivem com excêntricos hóspedes do spa, como o jovem ator Jimmy Tree (Paul Dano), que está pesquisando para um novo papel, e um jogador de futebol aposentado lutando contra o declínio de sua forma física.

A trama de "Juventude" - primeiro trabalho do cineasta italiano Paolo Sorrentino depois do Oscar de melhor filme estrangeiro por "A grande beleza", de 2013 - é aparentemente superficial, mas que o espectador não se iluda: por trás da simplicidade do roteiro, escrito pelo próprio diretor, há uma poesia e uma melancolia que impõem ao filme um ritmo próprio, contemplativo mas nunca pedante ou aborrecido. Pelo contrário, "Juventude" tem, ao lado de momentos dramáticos de cortar o coração, um insuspeito senso de humor que quebra a seriedade de seu desenvolvimento. Um diretor acostumado à estranheza - afinal foi ele quem vestiu Sean Penn de roqueiro oitentista decadente em "Aqui é o meu lugar" (2013), e o colocou atrás do nazista responsável pelas humilhações sofridas por seu pai em um campo de concentração -, Sorrentino não faz a menor questão de fazer de seu filme um produto de fácil assimilação, mas engana-se quem pensa que isso faz dele algo inatingível. Da forma como é apresentado, "Juventude" é um filme que demora a fazer sentido, tarda a ressoar no coração da plateia: não à toa, o próprio Michael Caine não resistiu às lágrimas ao assisti-lo pela primeira vez. Sua mensagem - uma lição sobre aproveitar as coisas boas da vida enquanto há tempo para isso - é apresentada de maneira tão delicada que passa quase despercebida. Coisa de mestre!

Plasticamente deslumbrante - cortesia das belas paisagens dos alpes suíços e da fotografia caprichada de Luca Bigazzi - e dirigido com precisão, "Juventude" é, também, um desfile de boas atuações, com um elenco de sonhos, que mistura veteranos consagrados com jovens talentos. Enquanto Michael Caine e Harvey Keitel deitam e rolam com personagens que lhes caem como uma luva (Fred Ballinger foi escrito especialmente para Caine), novas gerações de atores são representadas por Paul Dano - quase silencioso, mas eficaz como sempre - e Rachel Weisz - dona de ao menos uma cena emocionalmente brilhante, quando declara ao pai suas lembranças de infância. Não bastasse esse quarteto brilhante, Sorrentino ainda reserva ao espectador outro presente: uma pequena participação especial de Jane Fonda como uma atriz veterana que enterra de vez os planos de sucesso de Mick Boyle. Fonda chegou a ser indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante, sendo uma espécie de representante de seus colegas, todos eles absolutamente merecedores de indicações e prêmios. Atores capazes de transmitir muito sem que precisem de longos diálogos, Caine, Keitel, Dano e Weisz encontraram na direção minimalista de Sorrentino um caminho rico e eficiente para trabalhos de destaque em suas carreiras já vitoriosas.

E se não bastasse um elenco impecável, um visual arrebatador e um roteiro com diálogos inspirados, "Juventude" ainda oferece ao público pequenos prazeres escondidos aqui e ali, em graus distintos de dificuldade para serem decodificados. Se o jogador de futebol aposentado, com sobrepeso e problemas de vício pode ser facilmente reconhecido como uma representação do ídolo argentino Diogo Maradona, o cineasta interpretado por Harvey Keitel é, segundo o diretor, um mistura entre Roger Corman, Sidney Lumet e William Friedkin. Até mesmo o fio condutor da trama - a recusa de Ballinger em tocar em um evento para o Príncipe Philp - tem ligações com a realidade: o músico Riccardo Muti também não se acertou com a realeza britânica quando convidado para um espetáculo privado e o fato inspirou Sorrentino a ponto de o diretor escrever sobre ele em um diário e, posteriormente, transformar tal incidente em um dos pontos altos de sua (ainda) curta filmografia. Com tantos pontos positivos, "Juventude" é uma pequena obra-prima, mas que fique bem claro: não é um filme para públicos menos pacientes, que vibram com blockbusters de orçamentos inchados. É, isso sim, um biscoito fino, a ser degustado com o coração e a alma.

segunda-feira

COMO ELIMINAR SEU CHEFE

COMO ELIMINAR SEU CHEFE (Nine to five, 1980, 20th Century Fox, 109min) Direção: Colin Higgins. Roteiro: Colin Higgins, Patricia Resnick, estória de Patricia Resnick. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: Pembroke J. Herring. Música: Charles Fox. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Dean Mitzner/Anne McCulley. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Dolly Parton, Dabney Coleman, Sterling Hayden, Elizabeth Wilson, Henry Jones, Lawrence Pressman. Estreia: 19/12/80

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Nine to Five")

Depois de uma série de filmes densos, com temáticas relevantes, como "Julia" (77), "Amargo regresso" (78) - que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz - e "Síndrome da China" (79), não deixou de ser uma surpresa ver o nome de Jane Fonda encabeçando os créditos de uma comédia aparentemente tão despretensiosa quanto "Como eliminar seu chefe". Produzido pela companhia de Fonda e Bruce Gilbert, a IPC Films, o filme dirigido por Colin Higgins foi um inesperado sucesso de bilheteria - foi o segundo filme mais rentável do ano nos EUA e Canadá - e provou que, além de uma atriz de prestígio e consciência social, Fonda era também extremamente popular, ainda capaz (ao contrário do que diziam seus detratores à época) de levar público às salas de cinema. Mesmo que parte do êxito possa também ser creditada à presença da sensacional Lily Tomlin e da cantora country Dolly Parton (estreando como atriz), é inegável que boa parte do interesse das plateias vinha de sua participação - em papel atípico, mas nem tão distante como parecia de seus interesses políticos. Aparentemente uma comédia inofensiva, "Como eliminar seu chefe" mantém, em seu íntimo, uma óbvia alma feminista.

Desprovida de glamour e vaidade, Fonda interpreta Judy Bernly, uma mulher recém-divorciada que, sem nunca ter trabalhado fora, conquista um emprego de secretária em uma grande empresa de Nova York. Tão logo chega a seu local de trabalho, ansiosa e insegura, ela se depara com um mundo que parece funcionar com regras próprias, criadas pelo chefe, Franklin Hart Jr. (Dabney Coleman, em papel oferecido a Gregory Peck e Charlton Heston): machista, misógino, egocêntrico, hipócrita e mentiroso, ele domina o escritório de modo despótico e cruel, sem hesitar em humilhar e assediar todas as mulheres que trabalham com ele. Mesmo casado, insiste em tentar conquistar a ingênua Doralee (Dolly Parton) e trata a experiente Violet (Lily Tomlin) como escrava - além de ter roubado dela uma promoção há muito desejada. Depois de um expediente particularmente pesado (em que as três se descobrem mutuamente revoltadas com os desmandos do patrão), elas fantasiam sobre diferentes formas de livrar-se de seus domínios, aliviando sua tensão. Acontece, porém, que logo em seguida uma de suas fantasias dá a impressão de ter-se tornado realidade - e, julgando Hart morto, as colegas se unem para despistar a polícia e manter a rotina inabalada.


Apesar do primeiro terço um tanto bobo e quase pueril - com direito a citações à Branca de Neve e outros desenhos animados -, "Como eliminar seu chefe" vai se tornando, aos poucos, em uma envolvente comédia de erros, repleta de um humor que mescla crítica social, ironia e até pastelão. Dotadas de notável timing cômico, as três protagonistas carregam nas costas a responsabilidade de fazer uma comédia adulta sem apelar para a vulgaridade ou excesso de erudição. Com um roteiro que agrada tanto àqueles que procuram sequências de gargalhar como àqueles dispostos a um humor mais sofisticado, o filme de Colin Higgins acerta em apostar todas as suas fichas no talento de suas atrizes em conseguir arrancar risadas até mesmo em situações bizarras - todas as sequências no hospital, envolvendo o sequestro de um cadáver e sua posterior reposição, são absolutamente geniais, graças ao desempenho do elenco. Famoso pelo cultuado "Ensina-me a viver" (71), Higgins brinca novamente com temas sérios sem perder a leveza e a sensibilidade.

Por trás de sua aparência histriônica, "Como eliminar seu chefe" é um filme absolutamente importante em termos sociais. Quando de seu lançamento, no final de 1980, a discussão sobre os direitos femininos estava no auge - e filmes como "Norma Rae" e "Kramer vs Kramer", ambos de 1979 e ambos premiados com o Oscar, apontavam uma direção para a qual Hollywood estava disposta a olhar com atenção. Ao conectar o espírito de seu tempo com um gênero popular - e levantar conversas sobre o assunto sem parecer didático ou panfletário - o filme de Higgins é um triunfo: mesmo que no cômputo final é pouco provável que sua mensagem vá sobrepor-se à sua trama na lembrança do espectador, uma semente foi lançada, e mais uma vez Jane Fonda teve sua parcela de responsabilidade. Afinal, mesmo brincando ela sabia muito bem o que estava fazendo!

quinta-feira

SÍNDROME DA CHINA

SÍNDROME DA CHINA (The China Syndrome, 1979, Columbia Pictures, 122min) Direção: James Bridges. Roteiro: Mike Gray, T.S. Cook, James Bridges. Fotografia: James Crabe. Montagem: David Rawlins. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Arthur Jeph Parker. Produção executiva: Bruce Gilbert. Produção: Michael Douglas. Elenco: Jane Fonda, Jack Lemmon, Michael Douglas, Scott Brady, James Hampton, Peter Donat. Estreia: 16/3/79

4 indicações ao Oscar: Ator (Jack Lemmon), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original, Direção de Arte/Cenários
Palma de Ouro de Melhor Ator (Jack Lemmon) no Festival de Cannes 

Se é verdade que a vida imita a arte uma prova disso ficou bem evidente em 28 de março de 1979, quando um acidente nuclear em Dauphin County, Pensilvânia deixou em maus lençóis os executivos das usinas nucleares americanos, que, apenas doze dias antes, haviam rechaçado violentamente a estreia do filme "Síndrome da China", taxando-o de alarmista e mentiroso. A questão era que a produção estrelada por Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas tratava, de forma clara e incisiva, sobre um grupo de cientistas nucleares tentando desesperadamente esconder da mídia a verdade sobre um perigoso vazamento em um de seus reatores. O oportunismo do lançamento (ou sua clarividência) não passou em branco, é claro, e detratores chegaram a sugerir que a Columbia Pictures (produtora do filme), havia forjado a notícia do acidente como forma de divulgá-lo. Perda de tempo: apesar do acidente na Pensilvânia ter acontecido no calor de seu lançamento, a origem da trama de "Síndrome da China" remetia a 1975, quando outro incidente, dessa vez no Alabama, chamou a atenção do roteirista Mike Gray - também engenheiro e produtor do polêmico documentário "The murder of Fred Hampton" (71), sobre a morte do famoso membro dos Panteras Negras. Com um roteiro pronto e repleto de dados técnicos que fortaleciam o tom documental da narrativa, Gray viu sua obra chegar até as mãos da atriz Jane Fonda, que, junto com seu parceiro Bruce Gilbert, procurava um filme que refletisse uma das preocupações de sua recém-fundada produtora, a IPC Films: frustrada em conseguir os direitos sobre a vida de Karen Silkwood, que morreu misteriosamente depois de descobrir falhas em uma usina (e que ganhou o rosto de Meryl Streep em 1983, em um filme de Mike Nichols), Fonda encontrou em "Síndrome da China" o que precisava. Com a ajuda de Michael Douglas (premiado com o Oscar por "Um estranho no ninho", de 1975) na produção e alguns ajustes pontuais no roteiro, o filme estava pronto para sair do papel e ganhar as telas.

Mas então começaram os problemas: a Columbia não acreditava que Mike Gray tinha potencial o bastante para comandar uma produção tão ambiciosa e o substituiu por James Bridges (já testado e aprovado por "O homem que eu escolhi", que deu o Oscar de coadjuvante a John Houseman em 1973); Richard Dreyfuss, escalado para viver o cinegrafista Richard Adams, desistiu do projeto antes do começo das filmagens; e Jack Nicholson, a quem tinha sido oferecido o papel do cientista Jack Godell, já estava comprometido com a produção de "O iluminado" (80). Como há males que vem pra bem, porém, tudo foi resolvido a tempo (e de forma mais que perfeita): Michael Douglas acumulou os papéis de produtor e ator, ficando com a vaga deixada por Dreyfuss, e Jack Lemmon - apaixonado pelo roteiro desde que o leu pela primeira vez, em 1976 - não hesitou em viver um personagem que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar e sua primeira Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes. Sucesso de público e crítica, "Síndrome da China" ainda arrebatou o prêmio do Sindicato de Roteiristas e foi eleito pelo National Board of Review como um dos melhores filmes da temporada 1979 - dominada por "Kramer vs Kramer", de Robert Benton.


A protagonista do filme é Kimberly Wells (em mais uma atuação exemplar de Jane Fonda, cuja entrada no projeto alterou tanto o sexo do personagem como inseriu na trama uma relevante discussão feminista), uma repórter talentosa mas sempre relegada a matérias de importância quase nulas, Wells deseja ser levada a sério como profissional. Sua grande chance de provar seu valor lhe cai do céu quase por acaso: durante uma reportagem banal em uma usina nuclear - onde estava apenas para mostrar aos telespectadores como funciona o dia-a-dia do local -, um acidente em um dos reatores (cujo nível de água atinge níveis alarmantes) é filmado às escondidas pelo cinegrafista Richard Adams (Michael Douglas). Excitados (depois que o incidente fica sob controle), os dois colegas percebem que tem em mãos uma explosiva reportagem-denúncia, mas são impedidos pela direção da emissora em divulgar o conteúdo das imagens, obtidos de forma ilegal. Sua indignação acaba indo ao encontro de Jack Godell (Jack Lemmon), o supervisor da usina, que, depois de investigar por conta própria, descobre que a segurança do local é falha e resolve dar uma declaração oficial a respeito dos perigos que a população corre por causa do descaso dos construtores.

Narrado em tom de urgência e sobriedade - sem uma trilha sonora original e uma edição seca e direta -, "Síndrome da China" é uma aula de concisão. Mesmo que chegue a duas horas de duração, não há cenas dispersivas ou tramas paralelas que trunquem a narrativa - até mesmo a vida pessoal de Kimberly é citada apenas de passagem, em uma cena rápida, e não há espaço para romance entre ela e Richard (apesar de algumas pistas discretas). Até mesmo a aura didática de certos momentos - imprescindível quando se trata de um assunto então sem muita divulgação pela mídia - é inteligente e ágil, impedindo que a plateia se aborreça com longas explicações ou detalhes desnecessários. E o trabalho do elenco é crucial para que o conjunto soe ainda mais homogêneo. Jack Lemmon e Jane Fonda foram indicados ao Oscar, e Michael Douglas segura bem seu personagem coadjuvante, sem  vaidade de querer aparecer mais do que a história ou a denúncia. Um filme típico dos anos 70 - com intenções sociais e políticas bem definidas e um ritmo particular, "Síndrome da China" é essencial para o público fã de thrillers bem realizados e sérios - e um dos motivos pelos quais Jane Fonda pode ser considerada uma das estrelas mais politizadas da história de Hollywood.

terça-feira

CALIFORNIA SUITE



CALIFORNIA SUITE (California Suite, 1978, Columbia Pictures, 103min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Michael A. Stevenson. Música: Claude Bolling. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. P: Produção: Ray Stark. Elenco: Jane Fonda, Alan Alda, Maggie Smith, Michael Caine, Walter Matthau, Elaine May, Richard Pryor, Bill Cosby. Estreia: 18/12/78


3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Maggie Smith), Roteiro Adaptado, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Maggie Smith)
Vencedor do Golden Globe de Atriz/Comédia ou Musical (Maggie Smith) 

Em abril de 1976, a peça teatral "California Suite", escrita pelo dramaturgo Neil Simon, estreou em Los Angeles: no espetáculo em quatro atos, quatro atores interpretavam diversos personagens que viviam situações dramáticas e cômicas em um hotel da cidade. Um dos autores mais requisitados por Hollywood na década de 70, não demorou para que Simon transferisse seu texto ácido dos palcos para as telas. Com a direção de Herbert Ross - cineasta em alta na época graças às indicações ao Oscar por dois filmes no mesmo ano, "Momento de decisão" e "A garota do adeus", escrito pelo mesmo Neil Simon - e um elenco com nomes populares e de prestígio, a adaptação foi recebida com entusiasmo pela crítica, mas é bastante óbvio que seu resultado final carece da espontaneidade do palco e da criatividade de sua montagem teatral. Com os personagens interpretados por atores variados, o filme não passa de uma agradável sessão da tarde que sofre do mal da maioria dos filmes episódicos: a irregularidade.

A estrutura da peça - quatro histórias separadas tendo em comum apenas o cenário do hotel de luxo - se mantém na adaptação, mas dessa vez as tramas são claramente distintas em tom e elenco. Quem surge primeiro - em um dos melhores episódios - é a atriz britânica Diana Barrie (Maggie Smith, sensacional), que está em Los Angeles para comparecer à entrega do Oscar, para o qual foi indicada por uma comédia que ela mesma despreza. Como intérprete dramática de clássicos do teatro, ela desdenha do cinema comercial e, em sua presença na cidade, é acompanhada do marido, Sidney Cochran (Michael Caine), que abandonou a carreira de ator e guarda um segredo a sete chaves do grande público. No mesmo hotel em que Diana se prepara para a grande noite, está a jornalista Hannah Warren (Jane Fonda), que deixou Nova York para trás com o objetivo de encontrar o ex-marido, Bill (Alan Alda), e resolver problemas pendentes em relação à filha adolescente e rebelde. O relacionamento falido dos dois ainda tem arestas a aparar - e elas vêm à tona na tarde em que eles passam juntos, relembrando o passado. É o segmento menos interessante do filme, apesar dos intérpretes afiados e do talento superlativo de Fonda.


A terceira história - apesar do fato de todas acontecerem concomitantemente - traz à cidade dois casais de Chicago dispostos a um fim-de-semana de diversão, mas que acaba se tornando um pequeno pesadelo. Os médicos Willi Panama (Bill Cosby) e Chauncey Gump (Richard Pryor) chegam à Los Angeles com suas respectivas esposas, mas o fato de apenas um deles conseguir um quarto decente (por um erro do sistema) é suficiente para que tenha início uma série de pequenas competições internas que culminará em uma confusão sem precedentes dentro do lastimável quarto onde o menos afortunado é obrigado a dormir. É a trama com humor mais físico das quatro, valorizada pela ótima química entre Cosby e Pryor, dois dos maiores nomes do cinema negro norte-americano dos anos 70. A última história é também cômica, e só a presença de Walter Matthau já é mais do que suficiente para arrancar gargalhadas. Ele vive Marvin Michaels, que, enquanto aguarda a chegada da mulher, Millie (a também escritora Elaine May), para o bar mitzvah de um sobrinho, acaba cedendo à tentação de dormir com uma garota de programa - que, para seu desespero, acaba desabando em sua cama no hotel momentos antes do reencontro com a esposa. O timing cômico perfeito de Matthau, aliado ao eterno ar de desligada de May dão o tom exato da farsa criada por Simon - que nem mesmo a direção um tanto engessada de Ross consegue atrapalhar.

No final das contas, "California Suite" é apenas isso: um entretenimento simples, realizado por gente competente e sem ambições maiores do que divertir enquanto dura. Maggie Smith se deu bem por seu desempenho, ganhando o Oscar de atriz coadjuvante (sorte que sua personagem acaba por não ter) e o Golden Globe em um ano em que as cerimônias de premiação estavam com os olhos voltados para dramas mais sérios e relevantes politicamente (foi o ano de "O franco-atirador" e "Amargo regresso", que tratavam do retorno dos americanos da Guerra do Vietnã). Despretensioso e simples, é um filme que comprova o prestígio de Neil Simon na Hollywood da época, mas que resiste ao tempo única e exclusivamente graças a seu elenco impecável. Sem maiores expectativas pode render um bom passatempo.

quarta-feira

AMARGO REGRESSO

AMARGO REGRESSO (Coming home, 1977, Jerome Hellman Productions, 127min) Direção: Hal Asbhy. Roteiro: Waldo Salt, Robert C. Jones, estória de Nancy Dowd. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Don Zimmerman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Michael Haller/George Gaines. Produção: Jerome Hellman. Elenco: Jane Fonda, Jon Voight, Bruce Dern, Penelope Milford, Robert Carradine. Estreia: 15/02/78

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hal Asbhy), Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (Penelope Milford), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jon Voight), Atriz/Drama (Jane Fonda)

Aguerrida militante contra a Guerra do Vietnã - o que lhe causou sérios problemas com o FBI, como ela mesma conta em sua autobiografia "Minha vida até agora" (Ed. Record) - a atriz Jane Fonda não apenas visitou o país como forma de entender os detalhes do sangrento conflito como empenhou-se em uma campanha para divulgar a maneira desumana com que os veteranos eram tratados pelo governo norte-americano. De inúmeras conversas com homens que voltaram aos EUA mutilados, paraplégicos e com sérios problemas psicológicos, surgiu a ideia de um filme que atingisse o público não através de discursos, mas de uma história dramática sobre pessoas comuns, que poderiam morar na casa ao lado do espectador. Sua tentativa de conscientizar a plateia - que contou com a ajuda de um ex-soldado chamado Ron Kovic, que estava tentando levar suas experiências para as telas em um filme chamado "Nascido em 4 de julho" - deu muito mais certo do que ela poderia imaginar. No mesmo ano em que outro filme sobre o Vietnã, "O franco-atirador", com uma visão mais conservadora da guerra, arrebatou os principais Oscar (filme e diretor para Michael Cimino), "Amargo regresso" saiu da festa da Academia com três estatuetas bastante importantes: ator, atriz e roteiro original. Era a prova inconteste de que o público americano estava mais do que disposto a ouvir e questionar um de seus maiores fracassos.

A ideia original de Fonda era contar com a direção do britânico John Schlesinger, que declinou do convite por considerar (acertadamente) que somente um cineasta norte-americano poderia contar a história explorando todas as suas nuances críticas e sentimentais. Entra em cena, então, Hal Ashby, dono de uma sensibilidade única, capaz de iluminar temas sombrios - como "Ensina-me a viver" (71), bizarra história de amor entre um adolescente e uma idosa - e criticar as instituições tradicionais - como visto em "A última missão" (73), estrelado por Jack Nicholson e que mirava a Marinha americana. Ciente das intenções sociopolíticas do roteiro desenvolvido por Waldo Salt e Robert C. Jones, Ashby abdicou da ironia característica de seus filmes anteriores para contar uma história de amor intensa e delicada, sem medo de expor com crueza e realismo todos os ângulos possíveis da trama, desde seu pacifismo explícito até seu foco na sexualidade de veteranos da guerra, algo até então nunca mostrado no cinema hollywoodiano. De forma poética e adulta, "Amargo regresso" conseguiu romper paradigmas e se tornou, com justiça, um dos filmes mais aclamados sobre o assunto, mostrando que Jane Fonda, mais do que uma militante de plantão, como a acusavam alguns detratores da época, ainda era uma atriz capaz de atrair público para as salas de cinema, mesmo em filmes com assuntos indigestos.


Em um grande momento da carreira, Fonda interpreta Sally Hyde, a esposa de um capitão do Exército americano que, sozinha em casa depois que o marido volta ao Vietnã, inicia um trabalho como voluntária em um hospital de veteranos. Chocada com a forma como muitos deles são tratados - praticamente ignorados pelo governo que os havia mandado para o conflito - ela reencontra, dentre os pacientes, um antigo colega de escola, Luke Martin (Jon Voight), paralisado da cintura para baixo e revoltado com sua situação. Convivendo com a jovem Violet (Penelope Milford, em papel oferecido à Meryl Streep e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) - namorada de um soldado e irmã de um rapaz com sérios problemas psicológicos depois de ter voltado da Ásia - e tomando consciência de uma realidade que conhecia apenas pelos olhos miltaristas do marido (Bruce Dern, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Sally acaba se apaixonando por Luke, iniciando um romance a que ela sente-se incapaz de resistir.

Em um papel oferecido a Sylvester Stallone, Jack Nicholson e Al Pacino, o ator Jon Voight tem o grande momento de sua carreira, com uma interpretação onde mescla indignação e doçura com uma maestria poucas vezes vista. Sua transformação no decorrer da trama - de veterano furioso a homem apaixonado e consciente de sua importância para evitar que seu drama se repita com outros jovens - é fascinante, e encontra eco em um desempenho tocante de Jane Fonda. Com uma atuação discreta e eficiente, ela faz jus a seu segundo Oscar - o primeiro foi consequência de seu trabalho em "Klute, o passado condena" (71) - sem precisar apelar para a lágrima fácil. Assim como acontece com o personagem de Voight, sua Sally Hyde passa por profundas mudanças do início ao fim do filme, e poucas intérpretes seriam capazes de apresentar tantas alterações de maneira tão sutil quanto Fonda, que transmite em cada cena a importância da mensagem pacifista da história contada. Quando estão juntos em cena, Fonda e Voight soltam faíscas - e sua cena de sexo, bem dirigida e de extremo bom-gosto, é daquelas de ficar para sempre na memória do espectador. Bonito, relevante e sensível, "Amargo regresso" é mais um marco na brilhante trajetória de Jane e um dos filmes mais importantes de sua época.

DESCALÇOS NO PARQUE

DESCALÇOS NO PARQUE (Barefoot in the park, 1967, Paramount Pictures, 106min) Direção: Gene Sacks. Roteiro: Neil Simon, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: William Lyon. Música: Neal Hefti. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Arthur Krams. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Charles Boyer, Mildred Natwick, Herbert Edelman, Mabel Albertson. Estreia: 25/02/67

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Mildred Natwick)

Um dos mais populares dramaturgos americanos de sua geração, Neil Simon nem precisava ir muito longe para buscar inspiração para seus textos, sempre recheados de fina ironia e um senso de humor inteligente. Seus casamentos, por exemplo, forneciam matéria-prima mais do que suficiente para suas peças de teatro, invariavelmente bem-sucedidas tanto nos palcos quanto nas telas de cinema. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "Descalços no parque", que escreveu inspirado nas primeiras semanas de seu relacionamento com a dançarina Joan Bain. Lançada como espetáculo da Broadway em 1963 (dirigida por Mike Nichols) e adaptada para o cinema pelo próprio autor, a história de amor e desavença entre um casal que descobre que casamento é mais do que a lua-de-mel acabou por se tornar o primeiro sucesso de bilheteria das carreiras de dois então jovens atores que não demorariam em virar ídolos: Robert Redford e Jane Fonda.

Redford já tinha defendido seu personagem, o advogado certinho Paul Bratter, nos palcos, e sua presença no filme de estreia do diretor Gene Sacks revelava um inesperado timing cômico que seria ainda mais depurado em dois de seus filmes mais populares que viriam a seguir - "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69) e "Golpe de mestre" (73), ambos ao lado do colega Paul Newman. Enquanto isso, a filha de Henry Fonda vinha de produções que nem de longe exploravam todo o seu potencial como atriz e mulher bonita, como "Até os fortes vacilam" (60), com Anthony Perkins e "Dívida de sangue" (65), realizado ao lado de Lee Marvin. Na pele da descolada e vivaz Corie, cuja espontaneidade contrasta radicalmente com a rigidez do marido, Jane deu o primeiro passo em direção ao sucesso de público e crítica que viria a lhe render dois Oscar na década de 70, juntamente com uma sucessão de polêmicas envolvendo sua militância contra a Guerra do Vietnã. Em 1967, quando o filme estreou, ambos eram apenas talentosos jovens atores em busca de um lugar ao sol - e seus desempenhos exalavam um frescor perceptível ainda hoje, a despeito do fato de o filme não ter mantido o mesmo nível de atemporalidade de suas atuações.


"Descalços no parque" começa logo após a cerimônia de casamento dos jovens, belos e saudáveis Paul e Corie Bratter, que vão demorar menos de uma semana para perceberem que a vida de casados não se resume aos seis dias que passam trancados no quarto de um hotel. Logo que se mudam para o minúsculo apartamento no quinto andar de um prédio sem elevadores - escolhido por Corie em sua ânsia de aventurar-se na rotina matrimonial - os dois passam a encarar crise após crise, seja devido ao tamanho reduzido de seu lar, seja por causa da vizinhança bizarra ou até mesmo por começarem a notar um no outro traços de personalidade pouco atraentes. Corie despreza o jeito conservador do marido, que, por sua vez, percebe na esposa um desejo quase infantil de aproveitar cada prazer da vida - inclusive ao lado do excêntrico vizinho, Victor Velasco (Charles Boyer), que ela pretende casar com sua mãe, Ethel (Mildred Natwick, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). A crise, que aparenta ser passageira, acaba por estender-se mais do que o esperado, e ambos serão obrigados a questionar seu casamento.

Analisado friamente, "Descalços no parque" não acrescenta nada ao gênero comédia romântica - ainda que mereça crédito por subverter a fórmula "rapaz encontra moça" e já começar sua narrativa com o casal de protagonistas casado. Porém, alguns diálogos brilhantes e o elenco impecável compensam certos momentos mais lentos e desnecessários. Muito do que funciona - as referências constantes às escadas que levam ao apartamento, por exemplo - vem do talento de Neil Simon em extrair humor do cotidiano e da química faiscante entre Robert Redford e Jane Fonda em seu terceiro filme juntos - eles ainda contracenaram em "O cavaleiro elétrico", em 1979, já consagrados. Eles são tão agradáveis e carismáticos que sempre que estão em cena fazem esquecer a perda de ritmo de determinadas situações criadas pelo roteiro e transformam um filme simples e despretensioso em um entretenimento acima da média. Para assistir em um domingo chuvoso nada melhor.

quinta-feira

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O MORDOMO DA CASA BRANCA (Lee Daniels' The Butler, 2013, AI-Film/Follow Through Productions/Salamander Pictures, 132min) Direção: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong, artigo "A butler well served by this election", de Wil Haygood. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Joe Klotz. Música: Rodrigo Leão. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Tim Galvin/Diane Lederman. Produção executiva: Len Blavatnik, James T. Bruce IV, Elizabeth Destro, Michael Finley, Aviv Giladi, Adonis Hadjiantonas, Vince Holden, Brett Johnson, Sheila Johnson, Jordan Kessler, Adam Merims, David Ranes, Matthew Salloway, Hilary Shor, Earl W. Stafford, Danny Strong, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, R. Bryan Wright. Produção: Lee Daniels, Cassian Elwes, Buddy Patrick, Pamela Oas Williams, Laura Ziskin. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr., Vanessa Redgrave, John Cusack, Jane Fonda, Alan Rickman, James Marsden, Robin Williams, Liev Schreiber, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Alex Pettyfer, Jim Gleeson. Estreia: 05/8/13

Alguns filmes conquistam por seu valor artístico, por sua ousadia, criatividade e técnica impecável. Outros, no entanto, chegam ao coração da audiência por seus méritos emocionais, que prescindem de teorias ou análises mais profundas. Na segunda definição encontra-se "O mordomo da Casa Branca", filme do cineasta Lee Daniels, que já em seu filme de estreia, "Preciosa", arrebatou indicações ao Oscar de filme e direção. Inspirado em uma história real, o novo filme de Daniels retrata, em pouco mais de duas horas de duração, cinco décadas da história dos EUA, concentrando-se na luta pelos direitos civis da população negra - e contrapondo-a à dedicação do protagonista em servir os governantes do país independentemente da situação política.

Interpretado por Forest Whitaker em mais uma atuação esplêndida, Cecil Gaines é um herói silencioso e discreto, que acompanha as transformações sociais dos EUA de camarote: contratado como um dos mordomos da Casa Branca durante o mandato de Eisenhower (Robin Williams), ele segue à risca os conselhos que sempre recebeu durante sua educação como serviçal, mantendo-se invisível e apolítico mesmo quando as decisões políticas afetam diretamente seu povo - e principalmente sua família. Seu filho mais velho (muito bem interpretado por David Oyelowo), revoltado com a submissão a que a população negra é obrigada, junta-se aos ativistas que exigem mudanças - desde o pacifismo de Martin Luther King à violência dos Panteras Negras -, seu caçula, crédulo em seu governo, embarca para o Vietnã, e sua mulher, Gloria (Oprah Winfrey, extraordinária) se entrega à bebida como forma de lidar com a solidão. Muitas vezes incompreendido pelas pessoas que ama - que o julgam conivente com as desigualdades - ele não se furta a manter-se fiel às suas obrigações, o que acaba por torná-lo um homem de confiança de inúmeros presidentes.


A narrativa de Daniels é quadradinha, convencional, quase sem brilho. Porém, se o roteiro muitas vezes não consegue fugir do superficial - consequência inevitável da decisão de se contar tanta coisa em tão pouco tempo - ao menos mantém um ritmo que mantém a atenção do espectador sem fazer muito esforço. Didático na medida certa (para não afugentar aqueles que não conhecem a história americana a ponto de não precisar de legendas explicativas) e emocionante em diversos momentos - principalmente quando não tem medo de mostrar a extrema violência física e psicológica sofrida pelos negros - o filme pode até ser acusado de um certo maniqueísmo, mas tem a coragem de questionar a lealdade do protagonista ao mesmo tempo em que compreende sua ideologia de fidelidade extrema e absoluta: a cena em que pai e filho discutem violentamente sobre a imagem de Sidney Poitier (epítome do negro quase branco, aceito pelo mainstream americano nos anos 60 e renegado pelo ativismo radical justamente por esse motivo) é forte e exemplifica com perfeição a dubiedade dos sentimentos da família Gaines - além de permitir a Whitaker e Winfrey um de seus melhores momentos.

Aliás, se existe um outro grande motivo para se assistir a "O mordomo da Casa Branca" é o elenco reunido por Daniels: além de Mariah Carey (em uma participação mínima) e Lenny Kravitz - que já haviam trabalhado com o diretor em "Preciosa", o filme é um desfile de grandes atores em participações especiais (e muitas vezes com maquiagem que quase os deixa irreconhecíveis). É um prazer à parte ver nomes tão díspares quanto Alan Rickman, James Marsden, Liev Schreiber, John Cusack, Vanessa Redgrave, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard e a sumida Jane Fonda em um filme com importância social tão fundamental - e não é difícil imaginar que sua inclusão no elenco tem muito a ver com suas próprias agendas políticas. É importante também perceber que o exagero do filme anterior do cineasta - o polêmico e exagerado "Obessão" - parece ter sido definitivamente enterrado, diante de uma obra tão carinhosa quanto essa.

"O mordomo da Casa Branca", ao contrário do apregoado, não tem nada a ver com "Histórias cruzadas", o superestimado que deu a Octavia Spencer o Oscar de atriz coadjuvante em 2012. Enquanto a obra de Tate Taylor era hipócrita a ponto de ter uma protagonista branca para salvar os negros oprimidos, o filme de Daniels dá aos próprios o poder de mudar sua história, lutando até o fim por seus direitos e enfrentando o sistema estabelecido. E se havia espaço para o humor escatológico e sem graça no primeiro, em "O mordomo" o registro é mais sério e apropriado ao tema. Pode não ser uma obra-prima, mas é comovente, relevante e redondinho. Merece ser apreciado por suas inúmeras qualidades.

KLUTE, O PASSADO CONDENA

KLUTE, O PASSADO CONDENA (Klute, 1971, Warner Bros, 114min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis, David E. Lewis. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Carl Lerner. Música: Michael Small. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John Mortensen. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi, Dorothy Tristan, Rita Gam. Estreia: 23/6/71

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jane Fonda)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jane Fonda)

No início dos anos 70, poucas atrizes eram consideradas tão "perigosas" quanto Jane Fonda. Suas ideias fortes e polêmicas a respeito de temas controversos como o movimento feminista e os protestos contra a guerra do Vietnã - que chegaram a lhe render o apelido nada elogioso de "Hanoi Jane" -  não apenas deixavam sua já difícil relação com seu pai Henry, um notório conservador, ainda mais complicada, como também lhe rendiam muitas antipatias. Por esse motivo, havia uma certa aura de apreensão na noite de 10 de abril de 1972, quando foram entregues as estatuetas do Oscar aos melhores do ano de 1971. Era esperado que a então caçula do clã Fonda, uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz por seu desempenho no policial "Klute, o passado condena", fosse fazer um discurso político se levasse o prêmio. Porém, se no filme de Alan J. Pakula ela não decepcionou ninguém - nem aos produtores, que a viram sagrar-se vencedora - seu discurso provavelmente deixou muita gente surpresa. Contrariando todas as expectativas, Jane foi concisa e elegante: "Há muita coisa a ser dita, mas eu não as direi hoje esta noite."

Por mais que em muitas de suas pautas políticas Jane estivesse coberta de razão, ela não poderia ter sido mais feliz em sua discrição na entrega do Oscar. O que estava sendo celebrado aquela noite era seu trabalho fascinante como Bree Daniel, uma garota de programa de luxo que comandava a ação do policial cerebral de Alan J. Pakula, um cineasta que como poucos de sua geração, conseguiu captar com perfeição o espírito paranoico de seu tempo - após "Klute" ele assinaria ainda os contundentes "A trama" e "Todos os homens do presidente", que deixariam claro ao público sua inclinação em desvendar o que se passa por trás das portas fechadas não só de pessoas comuns mas também daqueles que governam o país mais influente do mundo. Bree, a personagem de Fonda, é uma mulher que procura na prostituição uma forma de ganhar a vida enquanto não se acerta como atriz ou modelo e não faz disso um drama - ainda que tente equilibrar suas dúvidas existenciais com uma terapeuta. Sua vida aparentemente tranquila sofre uma reviravolta inesperada, porém, quando ela conhece John Klute (Donald Sutherland), um detetive particular que chega até ela em busca de um possível cliente seu misteriosamente desaparecido.


Klute é interpretado por Sutherland - vindo do sucesso da comédia de guerra "MASH", dirigida por Robert Altman - em notas sutis. Na pele de um detetive do interior, desacostumado a maiores violências e pouco à vontade com o ritmo acelerado de Nova York, o ator foge do exagero, preferindo seguir um minimalismo que combina à perfeição com o clima sóbrio e quase claustrofóbico imposto por Pakula. O roteiro não se prende à tentativa de criar um suspense convencional, revelando o criminoso bem antes do final, optando por contar mais a história da relação entre o sóbrio Klute e a sensual e insegura Bree - que a princípio assustada com a aproximação do investigador, que chega a grampear seus telefonemas, logo se vê atraída por suas maneiras delicadas e gentis. A diferença radical entre seus protagonistas e a forma com que eles lidam com ela é que segura "Klute, o passado condena" e o afasta do rótulo fácil de filme policial. Os elementos do gênero estão todos presentes (assassinatos misteriosos, telefonemas assustadores, suspeitos mal-intencionados), mas interessa mais ao cineasta o estudo de seus personagens do que viradas espetaculares na trama.

E, para sorte de Pakula, o que não falta em "Klute" são bons atores. Se Sutherland está discreto, pontuando com eficiência e sensibilidade um espetáculo que tem a violência como tema (mas não como chamariz) e Roy Scheider mostra porque era um dos vilões preferidos dos diretores de sua época pré-"Tubarão", Jane Fonda brilha radiante em mais uma atuação irretocável. Dona de um estilo de interpretação que valoriza mais os pequenos detalhes que criam a personagem do que gestos espalhafatosos, Fonda conquista o espectador pelo olhar, que diz coisas diferentes a cada momento: angústia em suas sessões de terapia, audácia em seus primeiros encontros com Klute e fragilidade logo adiante e principalmente uma certa desesperança em perceber como seus sonhos de estrelato fogem de suas mãos a cada audição frustrada. Seu Oscar foi mais do que merecido, embora o filme possa decepcionar a quem procura uma trama policial comum. Se não for esse o caso, é um belo drama de suspense que vale a pena conferir - nem que seja para aplaudir Jane, uma ausência cada vez mais sentida na tela grande.

segunda-feira

A NOITE DOS DESESPERADOS

A NOITE DOS DESESPERADOS (They shoot horses, don't they?, 1969, ABC/Palomar Pictures, 129min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe, Robert E. Thompson, romance de Horace McCoy. Fotografia: Philip H. Lathrop. Montagem: Fredrick Steinkamp. Música: John Green. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Frank McKelvey. Produção executiva: Theodore B. Sills. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis. Estreia: 10/12/69

9 indicações ao Oscar: Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Gig Young), Atriz Coadjuvante (Susannah York), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Gig Young)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Gig Young)

Um dos mais cruéis e chocantes retratos da desumanização que veio em consequência da Grande Depressão americana, o amargo "A noite dos desesperados", baseado em romance de Horace McCoy mantém até hoje, 45 anos depois de seu lançamento, a dúbia honra de ser o filme com maior número de indicações ao Oscar sem ter sido lembrado na categoria principal. Indicado em nove categorias - incluindo diretor, atriz e roteiro adaptado - o filme deu a Gig Young a estatueta de melhor ator coadjuvante, mas, visto à luz do tempo, merecia ter tido mais atenção dos eleitores. Forte, contundente e frequentemente dotado de uma ironia tão fina e sutil que muitas vezes passa despercebida, o filme de Sydney Pollack se mantém muito atual nessa época em que realities show pipocam a cada esquina, borrando a linha entre a dignidade e o desespero.

Pollack, que manteve uma carreira que flutuava entre sucessos comerciais de qualidade - "Tootsie" (82) - êxitos de prestígio e Oscars - "Entre dois amores" (85) - e filmes simplesmente medíocres - "Havana" (90) - provavelmente nunca dirigiu um filme tão poderoso quanto este, tanto em termos visuais quanto em termos de densidade psicológica. Ao fazer uma dura crítica à indiferença das classes privilegiadas em relação àqueles menos favorecidos através de uma aparentemente inocente maratona de dança, Pollack utilizou todas as ferramentas do bom cinema para construir uma obra extraordinária em todos os sentidos: a sintonia entre roteiro, direção, elenco e técnica dá à trágica e melancólica trama um revestimento de arte mesmo quando o âmago do que é contado é negro, doloroso e feio. A feiúra do que é contado encontra eco na alma dúbia de alguns personagens, mas Pollack brilhantemente enfeita o lixo com uma poesia que jamais deixa com que seu filme descambe para o dramalhão hipócrita ou falsamente panfletário. O tom seco da narrativa é o acerto final em uma obra simplesmente imperdível.


Jane Fonda - que dois anos depois ganharia seu primeiro Oscar por "Klute, o passado condena" - está fascinante na pele de Gloria Beatty, uma aspirante a atriz desencantada com a vida e a profissão que, no fundo do poço financeiro e pessoal, entra em uma maratona de dança que pagará 1.500 dólares ao par vencedor. Perdendo seu acompanhante na hora da inscrição, ela se une ao jovem e inocente Robert (Michael Sarrazin) na disputa cruel e desumana do concurso, cujas regras rígidas e violentas os impede de dormir mais do que poucos minutos por dia, os faz comer em pé e sem parar de dançar e, vez ou outra, lança mão de uma corrida que elimina os últimos colocados. Dias após o início da maratona - que é assistida por um público que escolhe seus favoritos enquanto come pipoca e aplaude sem muito interesse nas consequências físicas da disputa - Gloria começa a ver outros candidatos perderem o pouco que resta de suas dignidades pessoais. Entre eles estão Alice (Susannah York), que também sonha em ganhar Hollywood e vai perdendo sua razão dia-a-dia, um velho marinheiro (Red Buttons) que mente a idade para manter-se como concorrente e até mesmo uma jovem mulher grávida, Ruby (Bonnie Bedelia, que depois faria a ex-esposa de Bruce Willis em "Duro de matar") que não abre mão do prêmio mesmo correndo o risco de perder o bebê ou morrer. No comando de tudo, está o animador do concurso, o frio e manipulador Rocky (Gig Young, vencedor do Oscar).

Relatado de forma fria e paradoxalmente angustiante, "A noite dos desesperados" mostra um Sydney Pollack no auge da criatividade. Utilizando-se de flashforwards que dão uma pista do final trágico e de certa maneira previsível (mas nunca anticlimático) e de um ritmo que intercala dramas pessoais com momentos eletrizantes reforçados pela edição inteligente de Fredric Steinkamp - como as corridas, capazes de deixar o público na beira da poltrona - o filme também se beneficia de uma reconstituição de época caprichada e de uma história forte o bastante para falar por si. Confiando nessa força, o roteiro prescinde de artifícios que fujam do cenário único, concentrando todo o foco em Gloria, Robert e seus companheiros de dor e de cruz. Uma opção correta que fortalece um dos mais potentes dramas sociais realizados por Hollywood na década de 60.

quarta-feira

NUM LAGO DOURADO


NUM LAGO DOURADO (On golden pond, 1981, Universal Pictures, 109min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Ernest Thompson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: Dave Grusin. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Jane Bogart. Casting: Dianne Crittenden, Barry Primus. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda, Doug McKeon, Dabney Coleman. Estreia: 04/12/81

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Rydell), Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Atriz Coadjuvante (Jane Fonda), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Henry Fonda), Roteiro


Existem no mínimo dois motivos para que o filme "Num lago dourado" tenha sido feito. Primeiro, para registrar em película o emocionante encontro entre duas gerações de uma nobre linhagem do cinema americano (que vivem na tela um interessante paralelo do que viviam na realidade) e para dar a Henry Fonda, aos 76 anos de idade, sua maior chance de levar um Oscar. O primeiro objetivo foi atingido plenamente: ao lado da filha Jane, de forma comovente, o veterano ator exorcisa uma difícil relação familiar em frente à plateia de forma comovente. E no resultado do segundo motivo saiu-se ainda melhor: não só Fonda levou a estatueta como sua companheira de cena, Katharine Hepburn arrebatou seu quarto Oscar, estabelecendo um recorde que não dá sinais de ser batido tão cedo.

Escrito pelo dramaturgo Ernest Thompson baseado em sua peça teatral homônima, o roteiro de "Num lago dourado" versa sobre assuntos normalmente considerados venenos de bilheteria, como velhice, medo da morte e relações familiares problemáticas. Totalmente escorado no trabalho de atores e em seus diálogos bem escritos, em detrimento de efeitos visuais e piadas infames (que já na época de seu lançamento faziam a alegria dos estúdios), o filme de Mark Rydell conquista justamente pela simplicidade de seu enredo e pela felicidade na escalação de seu elenco. Ao contrário de aborrecer o público com falas inflamadas e lugares-comuns, "Num lago dourado" oferece à plateia um espetáculo de delicadeza e bom gosto, que exige apenas um mínimo de sensibilidade para emocionar a audiência sem apelar para golpes baixos.

A trama do filme se passa no verão em que Norman Thayler Jr (vivido com sutileza por Henry Fonda em seu último papel) completa 80 anos. Irascível, rabugento e sem maiores admirações pelos seres humanos em geral, ele chega até sua casa de verão com a dedicada esposa Ethel (Katharine Hepburn) pra comemorar seu aniversário e afastar-se do turbilhão da cidade grande. Logo em seguida sua única filha, Chelsea (Jane Fonda) também chega ao local, acompanhada do novo namorado, Bill Ray (Dabney Coleman) e do filho deste (Doug McKeon), um menino de 13 anos de idade, rebelde e pouco amistoso. Fica patente para os visitantes que a relação entre pai e filha não é das mais saudáveis, mas mesmo assim tudo transcorre dentro da normalidade. As coisas mudam de figura quando Chelsea pede aos pais que fiquem cuidando de seu futuro enteado enquanto ela viaja com Bill Ray. O que poderia ser uma temeridade, no entanto, acaba ajudando tanto o menino, que torna-se mais afável, quanto o próprio Norman, que vê no rapaz o neto que nunca teve.


A maior beleza de "Num lago dourado", além de sua fotografia deslumbrante, é a maneira com que o roteiro de Thompson trata suas personagens. Abdicando de qualquer condescendência, ele criou personagens dolorosamente reais, repletos das qualidades e defeitos de qualquer ser humano. Norman é um homem amargurado, chato, de uma misantropia quase patológica, mas ao mesmo tempo se envolve em uma relação de amizade e amor com um pré-adolescente que busca aceitação e carinho. E sua filha, uma mulher fechada em suas mágoas de infância tenta desesperadamente conquistar a admiração de um pai do qual nunca teve mais do que críticas. No meio deles, uma mãe carinhosa e amorosa que luta para uní-los através dos laços de sangue.

É inegável que "Num lago dourado" ganha muito com os embates verbais entre os dois Fonda de seu elenco, ambos vibrantes e à flor da pele. Mas é injusto não aplaudir também a química entre o bom e velho Henry e o menino Doug McKeon (que, a despeito de seu bom trabalho não conseguiu uma carreira decente em Hollywood): as cenas entre os dois transmitem uma ternura quase palpável, que emociona sem ser piegas. E emocionante, aliás, é um eufemismo para o que acontece quando Fonda e Katharine Hepburn estão juntos. O último ato do filme, em que o velho casa volta a ficar sozinho em casa depois da partida de seus convidados é de uma pungência ímpar. Sem recorrer a truques sujos para tentar a emoção do espectador, o texto de Thompson e a direção elegante de Mark Rydell atingem o máximo de beleza ao deixar que seus intérpretes brilhem ao máximo. E eles dão um show à parte, provando que talento definitivamente não envelhece.

    O PREÇO DA TRAIÇÃO

      O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...