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quarta-feira

LOUCAMENTE APAIXONADOS


LOUCAMENTE APAIXONADOS (Like crazy, 2011, Paramout Vantage, 89min) Direção: Drake Doremus. Roteiro: Drake Doremus, Ben York Jones. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Jonathan Alberts. Música: Dustin O'Halloran. Figurino: Mairi Chisholm. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachel Ferrara. Produção executiva: Steven Rales, Mark Roybal, Audrey Wilf, Zygi Wilf. Produção: Jonathan Schwartz, Andrea Sperling. Elenco: Anton Yelchin, Felicity Jones, Jennifer Lawrence, Charlie Bewley, Alex Kingston, Oliver Muirhead, Chris Messina. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

Anna Gardner é uma jovem britânica que está em Los Angeles estudando Jornalismo. Jacob Helm sonha em fazer carreira como desenhista de móveis. Os dois se apaixonam perdidamente e fazem planos de passar o resto da vida juntos. Decidida a permanecer ao lado do namorado por mais tempo que o permitido em seu visto, Anna acaba por ver-se proibida de voltar aos EUA e retomar a relação. Desesperados com a situação, os namorados resolvem manter o relacionamento mesmo à distância, enquanto tentam resolver a questão. Todas as alternativas, no entanto, soam inadequadas: ele está começando uma bem estruturada carreira profissional e não vê sentido mudar de país, e um casamento (que pode dar um green card a ela) parece algo radical demais - e tampouco é garantia de sucesso, uma vez que o processo na imigração não é tão simples. Nesse meio-tempo, depois de uma breve separação, eles se envolvem com outras pessoas, mas não conseguem esquecer a força de seus sentimentos.

Com essa trama simples e direta, que fala direto ao coração do público, o cineasta Drake Doremus fez de "Loucamente apaixonados" um dos maiores sucessos do cinema independente de 2011: de sua estreia, em Sundance (de onde saiu com dois prêmios) até o lançamento comercial, aproximadamente um ano mais tarde, o filme foi exibido em festivais pelo mundo (Toronto, Vancouver, San Diego, Austin, Amsterdam, Montreal, Estocolmo, Oslo) e conquistou a crítica com sua delicadeza e energia juvenil e romântica. Longe de ter se tornado um campeão de bilheteria - ao menos dentro do conceito de lotar salas de exibição e formar filas quilométricas - e ignorado por cerimônias de premiação mais tradicionais (Oscar, Golden Globe, SAG Awards), o filme de Doremus cativa justamente por fugir das receitas mais óbvias de sucesso comercial e abraçar uma estética mais livre de amarras ao mesmo tempo em que permite ao espectador reconhecer nas telas todos os elementos que fazem do gênero um dos mais populares do cinema. Mais próxima do dolorido "Namorados para sempre" do que do alto astral "Questão de tempo" - todos lançados no mesmo ano -, a história de amor e desencontros entre Anna e Jacob se move com desenvoltura entre bons e maus momentos, delícias e tormentos, paixão e saudade, confiança plena e dúvidas angustiantes, sempre amparada no desempenho fascinante de seus dois atores centrais, um trunfo do qual Doremus lança mão sem o menor resquício de vergonha.

 

Donos de uma química palpável que salta das tela, Anton Yelchin e Felicity Jones são a alma de "Loucamente apaixonados". Improvisando boa parte dos diálogos - depois de exaustivos ensaios -, os jovens atores se entregam nitidamente às desventuras do casal de protagonistas, a ponto de não dar espaço algum para qualquer dúvida da plateia de que foram feitos realmente um para o outro. Mesmo quando a realidade dura se impõe à fantasia romântica, ambos são capazes, sem precisar mais do que expressões faciais ou movimentos discretos, de transmitir ao espectador um leque de emoções que resume todo o turbilhão pelo qual passam. Yelchin, primeira escolha do cineasta para viver Jacob, está encantador - e sua morte precoce, em 2016, com apenas 27 anos, parece ainda mais trágica quando se vislumbra o que o futuro poderia lhe oferecer. Felicity - premiada em Sundance e posteriormente alçada à grande promessa de Hollywood graças à sua indicação ao Oscar por "A teoria de tudo" (2014) - conquistou o diretor a ponto de estrelar seu filme seguinte, "Paixão inocente" (2013) e mostra um carisma e uma delicadeza raras. O trabalho dos dois é tão brilhante que até mesmo a sempre ótima Jennifer Lawrence - que seria oscarizada dois anos depois, por "O lado bom da vida" (2013) - consegue ser eclipsada (mesmo que, quando em cena, demonstre todo o seu potencial). 

Ao apresentar vários elementos consagrados pelo cinema independente norte-americano contemporâneo - edição ágil, trilha sonora moderna - e utilizá-los a seu favor, "Loucamente apaixonados" aponta o talento de Drake Doremus, um cineasta ainda restrito a pequenos circuitos, com filmes interessantes mas pouco vistos, como "Quando te conheci" (2015) e "Amor a três" (2019). Conduzindo sua história com sutilezas visuais e dotado de grande senso de ritmo, Doremus evita o sentimentalismo fácil e aposta em uma trama de forte apelo popular sem deixar-se contaminar pelo caminho mais óbvio. Seu filme é simpático até mesmo quando se torna incômodo - afinal, a realidade como mostrada sob suas lentes é amenizada pela fotogenia de seus astros centrais e pela inteligência de um roteiro cuja principal inspiração é a vida como ela é, ainda que vista por um ângulo poético e generoso.

domingo

CELESTE E JESSE PARA SEMPRE


CELESTE E JESSE PARA SEMPRE (Celeste & Jesse forever, 2012, Envision Media Arts/Team Todd/PalmStar Media, 92min) Direção: Lee Toland Krieger. Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack. Fotografia: David Lanzenberg. Montagem: Yana Gorskaya, Jonathan Melin. Música: Zach Cowie, Sunny Levine. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Ian Phillips/Joseph Oxford. Produção executiva: Kevin Frakes, Rashida Jones, Will McCormack. Produção: Lee Nelson, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Elijah Wood, Will McCormack, Emma Roberts, Chris Messina, Chris Pine. Estreia: 20/01/2012 (Festival de Sundance)

Celeste e Jesse nasceram um para o outro. Amigos desde a escola, se descobriram almas gêmeas, se apaixonaram, se casaram e pareciam destinados a viverem felizes para sempre. Mas a vida é real e de viés, e como o amor nem sempre é o bastante, Celeste e Jesse estão se divorciando - principalmente porque ela não vê no marido a menor disposição de amadurecer e tornar-se o que ela considera um homem de verdade, digno de ser o pai de um filho seu. Apesar da separação, porém, Celeste e Jesse continuam grudados, morando praticamente juntos (ele ainda vive no estúdio nos fundos da casa dela) e enervando os amigos, que não se conformam com sua relação sui generis. A aparente tranquilidade entre Celeste e Jesse - que poderiam facilmente viver no limbo entre casamento e divórcio para o resto da vida - é quebrada, no entanto, quando o rapaz descobre que uma noite casual de sexo (quando já estava novamente solteiro) terá consequências bem mais sérias do que ele poderia esperar: subitamente, o infantil Jesse está em vias de tornar-se pai, e a exigente Celeste passa a questionar se a separação era o que ela realmente queria. Em crise no trabalho como analista de tendências e vendo o ex-marido avançando na carreira que deixava de lado durante seu relacionamento, ela tenta reconstruir a vida - mas talvez a missão não seja tão fácil quanto ela julgava.

Só de começar justamente pelo fim de um relacionamento - contrariando as regras das comédias românticas hollywoodianas e apostando na melancolia mais do que no encantamento -, "Celeste e Jesse para sempre" já merece ser aplaudido entusiasticamente. Porém, mais do que essa relativa ousadia da atriz e roteirista Rashida Jones (cansada da mesmice do gênero e disposta a enxergar os relacionamentos amorosos por ângulos menos óbvios), o filme estrelado pela própria Jones e por Andy Samberg (antes do estouro da série "Brooklyn Nine-nine") oferece ao público uma gama variada de sentimentos, que vão das risadas resultantes de piadas visuais e verbais e referências pop a algumas discretas lágrimas. Ao criar protagonistas críveis e dotados de falhas que os aproximam profundamente do espectador, o roteiro foge da idealização estéril das histórias de amor cinematográficas para entregar um sensível e (por que não?) incômodo estudo sobre relações humanas. Longe de ser um mergulho denso e sufocante ao estilo Ingmar Bergman, o filme de Lee Toland Krieger - que posteriormente assinaria episódios de séries como "Modern love", "Riverdale" e "Você" - é um exemplar típico do cinema independente norte-americano do começo dos anos 2000, como ""(500) dias com ela" (2009), de Marc Webb, com suas histórias agridoces e simpáticas dispostas a subverter um dos gêneros mais queridos e tradicionais de Hollywood. Distantes da aparência artificial dos símbolos sexuais que frequentam os romances açucarados realizados dentro dos domínios dos grandes estúdios, Jones e Samberg ainda tem a vantagem de serem excelentes intérpretes, dando consistência e veracidade a diálogos dolorosos (e também a outros, mais leves e menos marcantes).

 

"Celeste e Jesse para sempre" talvez deva muito de seu frescor e sua verdade ao fato de ter sido inspirado (muito livramente) no relacionamento dos dois roteiristas, Jones e Will McCormack (que marca presença no filme como um amigo do casal central): toda vez que o roteiro se concentra na relação dos protagonistas e deixa de lado as tramas paralelas desnecessárias (a estrelinha pop que remete a cantoras ao estilo Britney Spears, o amigo gay vivido por Elijah Wood) o filme alcança tons bem mais interessantes e sólidos. Mesmo que o humor por vezes soe um tanto deslocado (mas nunca vulgar ou pastelão em excesso), o equilíbrio entre drama e comédia é certeiro, permitindo ao público respiros aliviados enquanto acompanha as desventuras amorosas de um par que, perceptivelmente, funciona muito mais na teoria que na prática. É um toque de mestre dos roteiristas mostrar que Celeste e Jesse se amam mas estão, apesar de tanta sintonia em determinados pontos, em frequências diferentes no que mais importa - um detalhe crucial que é o algoz de seu relacionamento. Não há certo ou errado na situação (ainda que ela imprima um tom mais duro do que o simpático e quase bobalhão ex-marido) e justamente por isso as coisas funcionem tão bem a maior parte do tempo. É fácil dar razão à Celeste quando ela reclama da falta de ambição de Jesse, assim como não é difícil ficar ao lado dele quando ela resolve perceber que o ama justamente quando ele está finalmente tentando progredir emocionalmente.

São vários os momentos marcantes de "Celeste e Jesse para sempre": a constatação de Jesse que terá um filho e não será com a mulher que ama; o duro diálogo do ex-casal no meio da rua; o discurso de Celeste no casamento de uma amiga. São momentos que emocionam e tocam fundo no espectador - e que provavelmente foram responsáveis para que John Lasseter chamasse a dupla de roteiristas para criar a trama de "Toy story 4" (2019). Simples e complexo ao mesmo tempo (exatamente como a vida), o filme é uma comédia romântica sem açúcar - mas com personagens apaixonantes em suas falhas e equívocos. Uma pérola que comprova o talento de Rashida Jones atrás das câmeras e de Andy Samberg longe de sua tradicional persona boba. Para ver e rever de tempos em tempos.

JULIE & JULIA

JULIE & JULIA (Julie & Julia, 2009, Columbia Pictures, 118min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, livros de Julie Powell e Julia Child e Alex Prud'homme. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Richard Marks. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, Dana Stevens. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson, Eric Steel. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Kelly Lynch, Frances Sternhagen, Linda Emond. Estreia: 30/7/09

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep) 

Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!

Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.


Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.

Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!

quinta-feira

A LEI DA NOITE

A LEI DA NOITE (Live by night, 2016, Warner Bros, 129min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Dennis Lehane. Produção: Ben Affleck, Jennifer Davisson, Leonardo DiCaprio, Jennifer Todd. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Sienna Miller, Chris Messina, Robert Glenister, Remo Girone, Zoe Saldana, Chris Cooper. Estreia: 13/12/16

Não é a primeira vez que os caminhos de Ben Affleck e do escritor Dennis Lehane se cruzam: a estreia de Affleck como diretor, em 2007 foi com a adaptação do romance "Gone baby, gone", batizada no Brasil como "Medo da verdade" e que deu à Amy Ryan uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. De lá pra cá, Affleck colecionou elogios e prêmios com novas incursões à carreira de diretor - como a estatueta de melhor filme, por "Argo", em 2013 - e Lehane viu outro livro seu ganhar as telas ("Ilha do medo", de Martin Scorsese, de 2010) e chegou a roteirizar um conto seu em "A entrega", dirigido por Michael R. Roskam em 2014. O reencontro entre os dois, porém, não foi dos mais felizes: apático e desinteressante, "A lei da noite" decepcionou nas bilheterias e foi desprezado pela crítica e pelas cerimônias de premiação, tornando-se, até agora, o elo mais fraco de uma filmografia que vinha se mostrando bastante consistente e empolgante. Mesmo contando com algumas louváveis qualidades, o quarto trabalho de Affleck como diretor não empolga nem cativa o espectador - e só não é ainda pior porque, inteligente e já experiente, ele soube cercar-se de uma equipe acima de qualquer suspeita, que disfarça suas eventuais falhas.

Abandonando sua temática urbana contemporânea, Lehane buscou, para "A lei da noite", raízes no cinema noir e em sua iconografia facilmente reconhecível pelos cinéfilos: estão presentes no filme a narração em off, mulheres fatais, regras de moral bastante elásticas, violência e o visual deslumbrante oferecido pelo premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" (91). Porém, apesar de todos os elementos estarem no lugar, há algo que falta ao resultado final: alma. Apesar da reconstituição de época caprichada, do excelente trabalho do elenco (exceção ao próprio Affleck, mau ator como em seus piores dias) e da ambientação sofisticada, não existe empatia em relação ao protagonista e até mesmo as tramas secundárias são apresentadas de forma confusa, em um roteiro que não se aprofunda em nenhuma delas e ainda deixa o público sem ter por quem torcer. Tivesse deixado o ego um pouco de lado e escalado um ator melhor para viver o personagem principal (como Leonardo DiCaprio, que foi considerado mas permaneceu apenas como um dos produtores) talvez parte do problema resolvido, mas sua falta de expressão acaba por ser o tiro de misericórdia em uma produção morna e lenta que em nenhum momento empolga a plateia. A falta de personalidade de "A lei da noite" pode até ser creditada às diferenças criativas entre o diretor e a Warner Bros - que exigiu um filme com mais ação em detrimento de diálogos e uma trama mais psicológica que era a intenção de Affleck e deixou o resultado final capenga - mas é inegável que o domínio narrativo apresentado nos trabalhos anteriores do diretor/ator/roteirista faz uma enorme falta quando se assiste a um filme com mais de duas horas de duração que parecem o dobro de tempo quando a sessão acaba.


Assim como todo policial noir, "A lei da noite" acompanha a trajetória de um anti-herói. Joe Coughlin (Ben Affleck) é o filho caçula de um respeitado policial de Boston (Brendan Gleeson), mas isso não o impede de flertar abertamente com o mundo do crime, assaltando bancos e roubando até mesmo dos perigosos mafiosos que lucram com a Lei Seca. Um desses golpes o aproxima de Emma Gould (Sienna Miller, irreconhecível), que também é amante de um poderoso chefão local. Tal romance acaba por colocá-lo em maus lençóis: condenado à prisão e sabendo da morte da bela namorada, ele sai da cadeia disposto a vingar-se e aceita trabalhar com um dos rivais de seu novo inimigo. Enquanto sobe na carreira, se envolve com a cubana Graciela (Zoe Saldana), um relacionamento que irá despertar a fúria da Ku Klux Klan e deixá-lo em rota de colisão com rivais que também buscam enriquecer com o contrabando de bebidas - e posteriormente com o jogo. Para proteger-se, Coughlin se aproxima do xerife local, Figgis (Chris Cooper) e de sua ambiciosa filha, Loretta (Elle Fanning).

Com tantos personagens e tramas paralelas jogadas na tela, "A lei da noite" sofre de um sério problema de foco. Ben Affleck desperdiça alguns ótimos personagens como coadjuvantes de uma trama central clichê e sem novidades, deixando de lado atuações milagrosas de Chris Cooper e Elle Fanning e concentrando-se na relação entre seu protagonista e Graciela e em sua trajetória como criminoso: nenhuma das duas histórias é forte o bastante para manter o espectador interessado, e ambas são desenvolvidas superficialmente, quase com preguiça, o que é um pecado mortal para um filme que se pretende um thriller policial. Não deixa de ser lamentável que uma produção tão cuidadosa e com tantos talentos envolvidos tenha ficado tão aquém de seu potencial. Dessa vez Ben Affleck errou feio. "A lei da noite" não é um filme insuportável, mas está longe de ser bom como poderia ser - e mais longe ainda do que se esperava dele.

sábado

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, Lou Films/Echo Films/We're Not Brothers Productions, 102min) Direção: Daniel Barnz. Roteiro: Patrick Tobin. Fotografia: Rachel Morrison. Montagem: Kristina Boden, Michelle Harrison. Música: Christophe Beck. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Lisa Son. Produção executiva: Jennifer Aniston, Yu Wei-Chung, Patty Long, Shyam Madiraju. Produção: Ben Barnz, Mark Canton, Kristin Hahn, Courtney Solomon. Elenco: Jennifer Aniston, Chris Messina, Sam Worthington, Anna Kendrick, Felicity Huffman, William H. Macy, Adriana Barraza, Mamie Gummer, Lucy Punch. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto)

Conhecida do grande público por sua atuação como a mimada Rachel Green da série "Friends" - que durou dez temporadas, ganhou dezenas de prêmios e se mantém como uma das mais queridas da história - a atriz Jennifer Aniston foi a única do elenco a conseguir romper com relativo sucesso o limite entre sua carreira na televisão e no cinema. Presença cativa em comédias românticas de qualidades variadas, ela surpreendeu meio mundo em 2014 quando surgiu desglamorizada e repleta de nuances dramáticas em "Cake, uma razão para viver", que estreou no Festival de Toronto e lhe rendeu tanto elogios unânimes quanto indicações ao Golden Globe e ao Screen Actors Guild Awards - infelizmente, a esperada e merecida lembrança por parte da Academia não chegou, mas é inegável que seu trabalho, sério e denso, empurrou-a em direção a um patamar de respeito artístico junto à comunidade cinematográfica que poucos atores oriundos da TV conseguiram atingir.

Dirigido pelo mesmo Daniel Barnz que cometeu o indescritível "A fera" (2011), "Cake" é um drama intimista e delicado, com pegada de cinema europeu em seu enfoque naturalista e pouco dado a soluções fáceis - que o público não espere por intermináveis cenas de choro histérico ou uma história de superação pessoal como aquelas que Hollywood adora contar de forma enfeitada e envernizada por momentos de humor constrangedor. O roteiro de Patrick Tobin, a direção de Barnz e principalmente a interpretação de Aniston (e do elenco coadjuvante formado por rostos relativamente conhecidos da plateia) afastam o filme do convencional, e se isso pode incomodar a quem procura mais do mesmo, funciona à perfeição para aqueles que gostam de envolver-se com uma história que apresenta gente normal, com problemas reais e dificuldades palpáveis de superar seus obstáculos. E quem acha que Aniston é bonita demais para convencer como uma mulher sofrida vai se surpreender com a maturidade e a coragem com que a ex-mulher de Brad Pitt se entrega a seu melhor papel no cinema até agora.


Aniston vive, de corpo e alma, Claire Bennett, uma advogada que frequenta um grupo de apoio para mulheres que convivem com algum tipo de dor física crônica. Coberta de cicatrizes depois de um acidente de carro que matou seu filho - e consequentemente a afastou do marido, Jason (Chris Messina) - ela tenta superar suas angústias de todas as formas possíveis, desde hidroginástica até os encontros do grupo comandado por Annette (Felicity Huffman), mas são apenas os comprimidos que consegue sem receita que eventualmente dão algum resultado. Contando sempre com a ajuda da fiel empregada doméstica, a mexicana Silvana (Adriana Barraza, indicada ao Oscar por "Babel"), Claire torna-se obcecada com o suicídio de Nina Collins (Anna Kendrick, indicada ao Oscar por "Amor sem escalas"), uma colega do grupo de apoio que jogou-se de uma ponte e deixou para trás o marido e o filho pequeno. Sem razão aparente, ela procura o viúvo, Roy (Sam Worthington), e inicia com ele uma amizade inusitada que poderá ajudar a ambos a superar seus tormentos pessoais.

Oferecendo aos poucos as informações sobre seus personagens e deixando que o público se envolva devagar com seus problemas, "Cake" ainda injeta um tantinho de surrealismo ao apresentar diálogos imaginários entre Claire e Nina - que a acusa de estar dando em cima de seu marido - e induz o espectador a um estado de cumplicidade com a protagonista. Mesmo que Claire não seja exatamente simpática (e não se espera isso de alguém que perdeu tanta coisa em tão pouco tempo, afinal), é difícil não sentir empatia por sua dor e seu desespero silencioso, muitas vezes revelado em uma agressividade se não compreensível, ao menos perdoável. Sua trajetória em relação a uma paz de espírito desejada e talvez afastada por uma série de autossabotagens é recheada de grandes momentos dramáticos, felizmente espalhados pelo roteiro com cuidado e delicadeza. "Cake" é um belo e simples filme sobre a vida e suas tristezas - e de como elas podem, paradoxalmente, unir as pessoas.

terça-feira

ARGO

ARGO (Argo, 2012, Warner Bros, 120min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio, livro "The master of disguise", de Antonio J. Mendez e artigo "The great escape", de Joshuah Bearman. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Jan Pascale. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Tim Headington, Graham King, David Klawans. Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov. Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Alan Arkin, Bryan Cranston, Victor Garber, Chris Messina, Tate Donovan, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Clea DuVall, Scott McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Bob Gunton. Estreia: 31/8/12 (Festival de Telluride)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Diretor (Ben Affleck)

Desde que chegou pela primeira vez às telas, no Festival de Cinema de Telluride, em agosto de 2012, o terceiro longa-metragem do ator medíocre tornado diretor talentoso Ben Affleck começou as especulações a respeito de suas possíveis indicações ao Oscar. Nada mais justo. Enxuto, sóbrio e contando uma inacreditável história real ainda bastante relevante em uma época de constantes conflitos raciais e políticos, "Argo" conquistou a crítica e merecidos Golden Globes de melhor drama e diretor. Infelizmente a Academia não foi assim tão generosa, deixando o amigo de Matt Damon de fora do páreo e diminuindo as chances da vitória na categoria principal. Mesmo assim, indicado em 7 categorias, "Argo" deu a volta por cima e riu por último, convertendo 3 das mais importantes indicações em estatuetas douradas: melhor filme, roteiro adaptado e montagem - todos eles prêmios justos e bastante merecidos.

Tendo entre seus produtores o ator George Clooney - que tinha planos de dirigir e estrelar o filme desde 2007 - "Argo" encontrou em Ben Affleck um comandante dos melhores. Assumindo também o papel principal que quase ficou com Brad Pitt, ele consegue a proeza de deixar a vaidade de lado para focar-se totalmente na história, ocorrida em 1980 e que se manteve secreta até meados da década seguinte. Sem querer tornar-se maior do que os acontecimentos, ele dá também a oportunidade a seus atores brilharem sem fazer muito esforço - o que inclui o ótimo Bryan Cranston (consagrado pela série de TV "Breaking bad") e o veterano Alan Arkin, indicado ao Oscar de coadjuvante. Dono de um belo roteiro, que não obriga o espectador a ter prévio conhecimento dos fatos que retrata (ao menos em profundidade), explicando-os de forma clara mas nunca exageradamente didática, o filme apresenta a seu público uma história bem contada e discreta em suas ambições, mas que acaba sendo fascinante justamente por isso.


A história começa em 1979, quando um grupo de mais de 50 diplomatas americanos é mantido refém na embaixada dos EUA no Irã por um grupo de revolucionários que exigem o repatriamento de seu xá. No entanto, um grupo de seis colegas consegue escapar e encontra proteção na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber). Alguns meses depois, ao perceber que as coisas não parecem se encaminhar para um final feliz imediato, a CIA pede ajuda a Tony Mendez (interpretado com discrição pelo próprio Affleck), especialista em repatriamentos de emergência. Depois de pensar em várias possibilidades, o agente tem a ideia - a princípio tida como absurda, mas depois aceita com ressalvas por seus superiores - de disfarçar os reféns como uma equipe canadense de filmagens em busca de locações para um filme de ficção científica chamado "Argo". Contando com o apoio do produtor de cinema Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), Mendez cria uma verdadeira operação de guerra que inclui campanha de marketing em jornais temáticos, passaportes falsos e biografias inventadas. Com tudo pronto, ele embarca para Teerã com o objetivo de trazer todos os seis conterrâneos sãos e salvos para casa.

O maior mérito do roteiro de Chris Terrio - baseado em um livro escrito pelo próprio Mendez, que foi um dos apresentadores do Golden Globe de 2013 - é manter o ritmo e o suspense durante todo o tempo de projeção, mesmo contando uma história cujo final hoje em dia é amplamente conhecido. Mesmo que exagere um bocadinho na sequência final, aumentando a tensão de forma a tornar o filme mais palatável como entretenimento hollywoodiano, o script de Terrio acerta em intercalar com maestria os preparativos para a fuga com as dúvidas dos reféns e a constante ameaça dos revolucionários, sem apelar para heroísmos baratos ou vilanias maniqueístas. Ainda que seja claro quem é quem - americanos do bem contra iranianos do mal - não existe, no resultado final, aquele ranço tão ufanista que estraga boa parte do cinema que se propõe político. A ideia de Affleck não é levantar bandeiras e sim contar uma bela história. E isso ele consegue com louvor, fazendo de "Argo" um dos grandes filmes de seu tempo.

segunda-feira

DEMÔNIO

DEMÔNIO (Devil, 2010, Universal Pictures, 80min) Direção: John Erick Dowdle. Roteiro: Brian Nelson, estória de M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Elliot Greenberg. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Martin Whist. Produção executiva: Drew Dowdle, Trish Hofman. Produção: Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O'Hara, Bojana Novakovic, Bookem Woodbine, Geoffrey Arend, Jacob Vargas, Matt Craven, Josh Peace. Estreia: 17/9/10

Depois de praticamente ter virado piada em Hollywood graças a filmes como "Fim dos tempos" e "O último mestre do ar", o cineasta M. Night Shyamalan precisava urgentemente se reinventar. Porém, enquanto seu público fiel esperava seu renascimento comercial e artístico - que ainda não veio - ele manteve sua carreira de produtor, sem o peso exagerado de ter seu nome acima do título. Um de seus filmes nessa função foi "Demônio", que fez um sucesso bastante razoável nos EUA: ao custo de apenas 10 milhões de dólares, ele recuperou o orçamento em seu fim-de-semana de estreia e terminou contabilizando uma bilheteria de mais 30 milhões. Primeira parte de uma planejada trilogia chamada "The night chronicles" - que pretendia utilizar elementos sobrenaturais dentro de perímetros urbanos - o filme de John Erick Dowdle (diretor do remake americano de "[REC]") é interessante o bastante para justificar seu êxito e fazer o público aguardar as novas estreias da série, que infelizmente acabaram por não sair.

A história de "Demônio" lembra um pouco as tramas de Stephen King e se beneficia de não apelar para efeitos visuais, monstros ou maquiagem exagerada. O protagonista é Bowden (o ótimo Chris Messina, de "Julie & Julia"), um policial da Filadélfia que tenta recuperar-se da trágica morte da família em um acidente de carro, cinco anos antes. Enquanto investiga um suicídio em um luxuoso prédio comercial da cidade, ele é chamado com urgência para ajudar no resgate de cinco pessoas que ficaram presas em um elevador do mesmo edifício. Enquanto não conseguem ser resgatadas, as cinco pessoas tem que lidar com estranhos acontecimentos dentro do elevador. Um mecânico, uma senhora de idade, um segurança terceirizado, um executivo e uma bela e requintada jovem começam a morrer misteriosa e violentamente, praticamente frente às câmeras de segurança e um dos guardas do prédio, fervorosamente religioso, é o único com uma explicação para os acontecimentos: segundo ele, um dos cinco presos no elevador é o demônio disfarçado, que veio à Terra para buscar os demais.


Sem exigir mais do seu público do que simplesmente atenção e um pouco de credulidade, o roteiro enxuto de Brian Nelson utiliza todos os clichês do gênero a seu favor - algo que Shyamalan faz como poucos. O uso da cor vermelha, característica sua, se faz presente em elementos visuais das personagens, e o uso inteligente do som também colabora na tensão, nunca exagerada e usada na medida certa. E contar com Chris Messina no elenco não atrapalha em nada, muito pelo contrário: é Messina quem transmite humanidade ao filme, em uma interpretação que não lhe ajudará em cerimônias de premiação, mas que comprova o seu status de promessa (e currículo ele tem: além de "Julie & Julia", ele fez parte da última temporada da inesquecível "A sete palmos" e trabalhou com Woody Allen em "Vicky Cristina Barcelona", além de ter entrado também no elenco do premiado "Argo" e do elogiado "Cake", ao lado de Jennifer Aniston.

Tendo sua despretensão e seriedade como principais armas contra a mesmice do suspense, preso em filmes que subestimam a inteligência do público com sustos baratos e tramas ocas, "Demônio" cumpre o que promete e vai mais além, oferecendo à plateia bons momentos de tensão e uma história suficientemente interessante e coerente até seus minutos finais - uma solução inspirada em Agatha Christie e que é capaz de deixar qualquer fã do gênero com um suspiro de alívio em relação a seu futuro. Agora resta esperar que Shyamalan cumpra a promessa e entregue os demais capítulos de sua trilogia.

quinta-feira

VICKY CRISTINA BARCELONA

VICKY CRISTINA BARCELONA (Vicky Cristina Barcelona, 2008, Weinstein Company, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sol Caramilloni, Sylvia Steinbrecht. Produção executiva: Jaume Rores. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley. Elenco: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz, Patricia Clarkson, Chris Messina. Estreia: 17/5/08 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz)

O mais nova-iorquino dos cineastas americanos, Woody Allen acabou descobrindo, através de financiamento de outros países, que seu talento independe de localização. Na Inglaterra, dirigiu um dos melhores filmes de sua carreira, o impactante "Match Point, ponto final" - além de "Scoop, o grande furo" e "O sonho de Cassandra". E, seguindo suas viagens pelo mundo - que ainda dariam ao público o sensacional "Meia-noite em Paris" - ele chegou à Espanha com o divertido "Vicky Cristina Barcelona", o mais sexy de sua carreira e o terceiro estrelado por Scarlett Johansson. Brincando com a fama de sangue quente do povo latino, o cineasta criou uma trama que mistura artes plásticas, sexo e a busca pela liberdade emoldurada por paisagens deslumbrantes e um elenco afiadíssimo - no qual se destaca Penélope Cruz, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho como Maria Elena, a desequilibrada primeira mulher de Juan Antonio (Javier Bardem em papel escrito especialmente para ele).

Cruz - bela e desenvolta em uma personagem com nítidos ecos de sua parceria com Pedro Almodovar - só aparece depois de quase uma hora de projeção, mas rouba descaradamente a cena, apagando as duas protagonistas, as americanas Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que chegam à Barcelona para passar as férias, às vésperas do casamento da primeira com o certinho e apaixonado Doug (Chris Messina). Inebriadas com a atmosfera sensual da Espanha, elas acabam conhecendo Juan Antonio, um renomado e sedutor artista plástico que imediatamente as convida para um fim-de-semana a seu lado. Enquanto Vicky não tem a menor intenção de envolver-se sexualmente com outro homem, Cristina não nega sua atração pelo pintor e as duas aceitam o convite. As coisas, porém, saem do controle quando a tensão sexual entre os três é apimentada pela chegada de Maria Elena - a ex-mulher de Juan, que, a despeito de sua tranquila aceitação da nova realidade, irrompe em ataques de violência sempre que é contrariada.


Livre das amarras de seus tradicionais roteiros passados em Nova York, Woody Allen apresenta, em "Vicky Cristina Barcelona" uma leveza narrativa das mais inspiradas. O verão espanhol fotografado com maestria por Javier Aguirresarobe (que também já colaborou com Almodovar) nunca pareceu tão excitante quanto diante das aventuras amorosas das personagens típicas do cineasta - um tanto neuróticas, mas cultas, inteligentes e sofisticadas mesmo quando não tem condições financeiras para tal. O problema maior do filme, porém, reside no fato de que os personagens coadjuvantes acabam sendo muito mais interessantes do que as protagonistas. Enquanto Johansson não faz mais do que exibir sua sensualidade tradicional - coisa que faz em todos os seus filmes - e Rebecca Hall tem o ônus de segurar uma personagem bastante chata, Javier Bardem e Penélope Cruz (que se casaram dois anos depois das filmagens) brilham com atuações que fogem bastante de seus papéis anteriores. Até mesmo Patricia Clarkson - uma ótima atriz ainda não devidamente reconhecida - consegue se sobressair às protagonistas, na pele da liberada Judy, anfitriã das jovens visitantes.

Engraçado, sensual e sofisticado na medida certa, "Vicky Cristina Barcelona" é mais uma prova de que Woody Allen não é um diretor/roteirista limitado. Ao sair de sua zona de conforto, ele mostra, mais uma vez, que sua inteligência ainda estão longe de esgotar-se.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...