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segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

quarta-feira

PREMONIÇÕES


PREMONIÇÕES (Premonition, 2007, TriStar Pictures/MGM, 96min) Direção: Mennan Yapo. Roteiro: Bill Kelly. Fotografia: Torsten Lippstock. Montagem: Neil Travis. Música: Klaus Badelt. Figurino: Jill Ohanneson. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Raymond Pulmilia. Produção executiva: Nick Hamson, Andrew Sugerman, Lars Sylvest. Produção: Ashok Amritraj, Jennifer Gibgot, Jon Jashni, Sunil Perkash, Adam Shankman. Elenco: Sandra Bullock, Julian McMahon, Nia Long, Kate Nelligan, Peter Stormare, Shyann McClure, Courtney Taylor Burness. Estreia: 12/3/2007

Quando "Premonições" estreou, no começo de 2007, a carreira de Sandra Bullock estava em uma encruzilhada. Seus dias como "a nova Julia Roberts" já estavam encerrados - sua última comédia a levar multidões às salas de exibição, "Miss Simpatia" já tinha sete anos de idade - e ela ainda não havia se reinventado como a atriz séria que levaria um Oscar por "Um sonho possível" (2009). Nesse meio do caminho entre a popularidade e o prestígio, alguns filmes buscavam um novo sucesso com artifícios variados, como continuações ("Miss Simpatia 2: armada e poderosa", de 2005) e o reencontro com Keanu Reeves ("A casa do lago", de 2006). Dirigida pelo alemão Mennan Yapo - conhecido pelo sucesso "Adeus, Lênin" (2000) -, a trama de suspense com lances místicos não chegou a ser um estouro de bilheteria, mas rendeu quatro vezes seu orçamento de 20 milhões de dólares e, se não agradou completamente à crítica, se mostrou acima da média dentro de um gênero perigosamente à beira do esgotamento.

Usando e abusando das caras e bocas que lhe renderam fama e dinheiro, Bullock interpreta Linda Hanson, a feliz esposa do executivo Jim (Julian McMahon) e mãe de duas pré-adolescentes no auge da energia. Sua rotina em uma bela casa no subúrbio é radicalmente alterada quando ela recebe a trágica notícia de que seu marido morreu em um acidente de carro. Devastada e inconsolável, Linda está prestes a entrar em uma severa depressão quando, para sua surpresa, acorda no dia seguinte ao funeral de Jim e descobre que ele está vivo. Sua confusão aumenta ainda mais nos dias seguintes, que parecem alternar-se em duas realidades alternativas: em uma delas, é preciso lidar com a dor da perda e descobertas a respeito das mentiras que sustentavam seu casamento; em outra, a vida como ela conhece permanece a mesma, sem o fantasma do acidente pairando sobre suas cabeças. O que na verdade está acontecendo - e Linda chega a essa conclusão mesmo sendo considerada desequilibrada pelos amigos e familiares - é que, por alguma razão, os dias estão fora de ordem cronológica, e ela precisa encontrar uma maneira de reverter o triste destino de sua história de amor.


 

Feliz em estabelecer sua intrigante premissa, o roteiro de Bill Kelly - autor da comédia "De volta para o presente", estrelado por Brendan Fraser e Alicia Silverstone em 1999 - falha, no entanto, em oferecer uma explicação plenamente satisfatória a ela. Apelando para um misticismo que pode não agradar a todos, deixa no ar uma sensação de potencial não completamente desenvolvido, apesar do terço final relativamente tenso e com um clímax surpreendente. Sandra Bullock exagera em boa parte dos 96 minutos de sessão, intercalando expressões de tristeza e assombro sem maiores nuances ou sutileza, mas é inegável que seu status de estrela segura bastante o interesse pela trama, assim como a presença de Julian McMahon, então astro da série "Nip/Tuck", que pouco tem a fazer em cena além de desfilar charme. Com personagens pouco aprofundados, tanto ele quando Bullock fazem o possível para dar-lhes uma consistência e uma coerência que muito faz falta no resultado final.

Para quem é fã de Sandra Bullock ou de produções de suspense com tons místicos e/ou sobrenaturais, "Premonições" é um prato cheio. Conduzido com segurança por Yapo - que resiste à tentação do caminho mais fácil e dribla com destreza os clichês do roteiro (mesmo que por momentos os utilize de forma sutil) - e recusando o tom de ironia que muitas vezes enfraquece as produções do gênero, o filme instiga o espectador desde os minutos iniciais com uma história que fala sobre amor, perdão e segundas chances. Não chega a ser brilhante, mas cumpre boa parte do que promete e deu a Sandra Bullock a oportunidade de mostrar-se competente o suficiente para uma nova (e mais séria) fase na carreira.

 

sábado

O CAÇADOR DE PIPAS


O CAÇADOR DE PIPAS (The kite runner, 2007, DreamWorks Pictures, 128min) Direção: Marc Forster. Roteiro: David Benioff, romance de Khaled Hosseini. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Chessé. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Carlos Conti/Maria Nay, Caroline Smith. Produção executiva: Sidney Kimmel, Laurie MacDonald, Sam Mendes, Jeff Skoll. Produção: William Horberg, Walter Parkes, E. Bennett Walsh, Rebecca Yeldham. Elenco: Khalid Abdalla, Zekeria Ebrahimini, Ahmad Khan Mahmoodzada, Homayoun Ershadi, Atossa Leoni, Elham Ehsas, Shaun Toub, Nabi Tanha. Estreia: 05/10/07

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Quatro anos e oito milhões de exemplares vendidos separam o lançamento do livro "O caçador de pipas", de Khaled Hosseini, e sua adaptação para o cinema, dirigida pelo alemão Marc Forster. Neste meio-tempo, a história de amizade e reparação entre dois afegãos - da infância aparentemente inocente às trágicas consequências impostas pelo regime talibã no país - ganhou o mundo e emocionou milhares de leitores, comovidos com sua estrutura de melodrama e personagens bem construídos e complexos. Seu êxito incontestável, porém, mostrou-se uma faca de dois gumes quando seus direitos foram comprados pela DreamWorks: assim como a versão cinematográfica já teria um amplo público-alvo embutido, havia a (enorme) possibilidade de que as mudanças necessárias à transição entre mídias desagradasse justamente a quem poderia fazer do filme um sucesso comercial. Além disso, havia o problema do idioma: até que ponto uma produção hollywoodiana poderia se arriscar e rodar um filme em língua não-inglesa em um mercado tão hermético (para não dizer preguiçoso) a legendas? E quais as probabilidades de um filme com tema tão pesado alcançar um público propenso a blockbusters escapistas? Tais questões - somados a dificuldades logísticas como encontrar locações que fizessem as vezes do Afeganistão, uma vez que, por motivos óbvios, a produção teria problemas em filmar in loco - deixaram as expectativas em torno do resultado final nas alturas. Quando enfim aconteceu a estreia - em outubro de 2017, em festivais de cinema antes do lançamento em larga escala - muitos respiraram aliviados: por mais que a adaptação tenha feito suas previsíveis alterações ao material original, a essência do romance estava intacta nas telas (em especial em seu primeiro e mais controverso ato), a escolha do elenco havia sido certeira e, mais importante ainda, a opção em evitar um filme falado em inglês não parecia afastar a plateia. Com uma renda mundial de aproximadamente 75 milhões de dólares (um sucesso, levando-se em conta sua falta de astros internacionais e sua temática), "O caçador de pipas" repetiu no cinema o sucesso das livrarias.

Talvez o maior acerto de Marc Forster, um cineasta eficiente que consegue transitar entre gêneros e extrair de seus elencos atuações superlativas - foi por suas mãos que Halle Berry levou um Oscar por "A última ceia", de 2001, e Johnny Depp concorreu à estatueta por "Em busca da Terra do Nunca", de 2004 -, foi a escolha dos atores juvenis de sua produção. Elementos cruciais para envolver emocionalmente o espectador, os meninos afegãos selecionados por Forster (sem experiência alguma em cinema) não precisam mais do que alguns minutos em cena para transportar a plateia para o Afeganistão do final dos anos 1970: é lá que moram as memórias mais profundas da vida do escritor Amin (Khalid Abdalla), que, no momento do lançamento de seu primeiro livro nos EUA, se vê obrigado a resgatar lembranças pouco agradáveis de sua infância. Um telefonema o remete imediatamente à época em que, ainda criança (e na pele do sutil Zekeria Ebrahimi) e dando os primeiros passos em sua paixão pelas letras, ele passeava pelas ruas de Cabul sem maiores preocupações na vida a não ser estudar e brincar com o melhor amigo, Hassan (o expressivo Ahmad Khan Mahmoodzada). Filho de um empregado de seu pai e de uma etnia considerada inferior na sociedade afegã, Hassan não é apenas amigo de Amir, mas sim um companheiro de fidelidade que chega às raias da submissão. Depois de um trágico incidente envolvendo Hassan - e que poderia ter sido evitado por Amir, paralisado pela covardia -, a dinâmica de sua relação se transforma, e não demora para que outras situações acabem os separando definitivamente. Em 1979, a URSS invade o Afeganistão, e o pai de Amir (Homayoun Ershadi) - um crítico feroz do comunismo - se vê obrigado a emigrar para os EUA junto com o filho e tentar uma nova vida.

 

Em outro país, Amir insiste em tentar uma carreira de escritor, contando com o apoio do pai (sua única família desde a morte da mãe, em seu nascimento). Casado com Soraya (Atossa Leoni), filha de um general também exilado, Amir parece ter deixado para trás sua vida antiga - ao menos até o telefonema que lhe permite resgatar os erros de seu passado. De volta à sua terra natal - irreconhecível depois de tantos anos e tantas guerras -, o escritor toma conhecimento dos horrores que levaram a família de Hassan a mais uma tragédia - mas dessa vez, dotado de uma coragem surpreendente, ele parte em busca de reparar as atitudes que o empurraram para longe de seu fiel amigo de infância (que ele descobre ser mais do que apenas um amigo). Enfrentando perigos inimagináveis em sua vida ocidental, Amir não apenas busca limpar a consciência, mas também se vê diante de uma nação sufocada por um regime autoritário e triste que não poupa nem mesmo suas crianças.

Criticado por alguns como uma espécie de exaltação da intervenção norte-americana no Oriente Médio, "O caçador de pipas" deve ser visto apenas como um (bom) filme, contado de forma correta e adequadamente comovente. Dirigida com sobriedade por Forster - que também tem no currículo a comédia "Mais estranho que a ficção" (2007), "Guerra Mundial Z" (2013) e "007: Quantum of solace" (2008) - e adaptada com respeito pelo escritor David Benioff, a produção sofre com algumas pequenas quedas de ritmo (em especial na transição entre o segundo e o terceiro atos), mas desafia os perigos de tornar-se sentimental em excesso e desvia com elegância de sequências controversas (que levaram os produtores a transferir os atores mirins para fora do Afeganistão). É um filme que comove por tratar de questões humanas em sua essência, como lealdade, amor, amizade, perdão e remorso. É um filme que envolve por contar com precisão uma história com personagens que são gente de carne e osso, com falhas flagrantes e qualidades redentoras. E é um filme que permanece na memória por jamais subestimar a inteligência e a sensibilidade de seu público. Em comparação com tantas adaptações literárias anêmicas e desrespeitosas, "O caçador de pipas" é uma pérola.

quarta-feira

ESCRITORES DA LIBERDADE

ESCRITORES DA LIBERDADE (Freedom writers, 2007, Paramount Pictures, 123min) Direção: Richard LaGravanese. Roteiro: Richard LaGravenese, livro de Erin Grunwell e Escritores da Liberdade. Fotografia: Jim Denault. Montagem: David Moritz. Música: Mark Isham, Will.i.am. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Lee Sutton. Produção executiva: Tracey Durning, Dan Levine, Nan Morales, Hilary Swank. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April Lee Hernandez, Jaclyn Ngan, Deance Wyatt. Estreia: 05/01/2007

Mais conhecido como roteirista - de alguns filmes de sucesso, como "As pontes de Madison" (1995) e "O pescador de ilusões" (1991), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar -, Richard LaGravenese ocasionalmente se aventura na cadeira de diretor. Sendo um homem das letras, então, não é difícil compreender por que ele escolheu o projeto de "Escritores da liberdade", seu segundo longa-metragem: baseado em uma história real, o filme fala sobre o poder da escrita mesmo em situações adversas e enfatiza a luta incansável de uma professora para abrir os horizontes de um grupo de alunos que conhecem mais a violência do que a literatura. Mesmo escorado em alguns clichês - e com uma semelhança bastante perceptível com "Mentes perigosas", estrelado por Michelle Pfeiffer em 1996 -, seu filme conquista justamente por abraçar suas referências e explorá-las de maneira eficaz, sem ousadias narrativas mas com respeito a seus personagens e sua história. "Escritores da liberdade" não é um grande filme - por vezes soa como um filme para a televisão - e tampouco causou barulho nas bilheterias e nas cerimônias de premiação da temporada, mas está bem acima de outras produções estreladas por Hilary Swank depois de seu segundo Oscar, como "Dália negra" (dirigida pelo veterano Brian DePalma) e "Colheita maldita", lançado poucos meses depois.

Também produtora executiva do filme e com um salário reduzido para caber no orçamento, Swank interpreta Erin Grunwell, uma professa idealista e inexperiente que escolhe, para o início de sua carreira, uma escola de Long Beach longe de seus dias de glória e atormentada por alunos cujo principal interesse é chegarem vivos ao fim do dia ou escapar da polícia e dos tiroteios frequentes em seus bairros. Logo de cara Erin encontra dificuldades com a diretora da escola, Margaret Campbell (Imelda Staunton), que nã vê com bons olhos o programa que permitiu o ingresso de tais estudantes. Arriscado seu casamento com Scott (Patrick Dempsey) e comprando briga até mesmo com alguns colegas - já acostumados com o ambiente tenso do local -, a nova professora é também rechaçada pelos próprios alunos, que não entendem como os livros do currículo podem ajudar em seu cotidiano presente e futuro. Com tenacidade e coragem, Erin começa a conquistar a turma quando percebe que precisa aproximar suas teoria do cotidiano. A chave é "O diário de Anne Frank", que abre as mentes dos jovens, incentivando-os a começar um diário onde podem escrever seus pensamentos e seus conflitos.


A trama de "Escritores da liberdade" está longe de ser inovadora, e LaGravenese assume sem pudor, desde as primeiras cenas, que não pretende revolucionar o gênero. Estabelece sua heroína, apresenta os percalços com os quais ela fatalmente irá esbarrar, mostra alguns vislumbres de sua vida pessoal e, como era de se esperar, enfatiza a relação problemática com os estudantes - essa sim o foco principal do filme. A princípio hostilizada pelos alunos, Erin encontra o caminho para sua confiança ao tentar colocar-se no lugar deles: a partir daí, em uma série de cenas curtas mas interessantes, ela os apresenta ao mundo dos livros e abre seus horizontes ao aproximá-los da história de Anne Frank - primeiro com a leitura de seu diário, em seguida com uma visita ao Museu do Holocausto, e por fim com um encontro com uma sobrevivente dos campos de concentração nazistas. Este paralelo funciona muito bem no filme, e serve também para orientá-lo ao desfecho do filme, talvez um pouco anti-climático mas de certa forma coerente e verossímil.

Hilary Swank não está brilhante como em seus desempenhos premiados com o Oscar, mas ainda assim consegue dar credibilidade a uma personagem que, a despeito de ter sido escrita por um roteirista consagrado, soa um tanto superficial. A transformação de Erin em uma mulher cuja paixão por ensinar é mostrada sem muita profundidade, assim como seu relacionamento com os alunos dá a impressão de ocorrer muito facilmente. Porém, os atores jovens servem como grande parceiro de cena: apesar de ser o principal nome do elenco coadjuvante, a sempre ótima Imelda Staunton (que perdeu o Oscar 2005 justamente para Swank) divide a atenção com nomes desconhecidos que seguram com garra e emoção seu lugares na produção. Como prova dessa homogeneidade, nenhum deles se destaca mais que os outros, como se todos fossem (e de certa forma o são) os retalhos de tecido que, juntos, constroem uma colcha. "Escritores da liberdade" pode não ser o filme mais original e comovente de todos os tempos, mas é um entretenimento suficientemente agradável e bem-intencionado. Ou seja, é como uma boa aula de literatura!

terça-feira

SATURNO EM OPOSIÇÃO

SATURNO EM OPOSIÇÃO (Saturno contro, 2007, Medusa Film, 110min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Gian Fillippo Corticelli. Montagem: Patrizio Marone. Música: Giovanni Pellino "Neffa". Figurino: Alessandro Lai. Direção de arte/cenários: Massimiliano Nocente. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Stefano Accorsi, Margherita Buy, Piefrancesco Favino, Serra Yilmaz, Ennio Fantastichini, Ambra Angiolini, Luca Argentero, Michelangelo Tommaso, Milena Vukotic, Luigi Diberti, Lunetta Savino, Isabella Ferrari. Estreia: 23/02/07

Por nome talvez os espectadores não saibam logo de saída quem é Ferzan Ozpetek. Basta, porém, citar alguns de seus filmes para que os cinéfilos mais antenados com a produção italiana do começo do século XXI percebam de quem se está falando. Diretor de "Um amor quase perfeito" (2001), "A janela da frente" (2003) e "O primeiro que disse" (2010), entre outros menos conhecidos, o turco radicado na Itália é um dos nomes mais relevantes do novo cinema europeu - mesmo que nunca tenha tido a sorte de, por exemplo, chegar a ser indicado a um Oscar. Premiado em diversos festivais de cinema mundo afora, Ozpetek é um cineasta com características marcantes (personagens complexos, histórias que valorizam a amizade como uma forma de família, a simpatia pela comunidade LGBT) e elas ficam bastante claras em "Saturno em oposição", seu sexto longa-metragem, lançado em 2007 e que reúne o trio de atores de seu "Um amor quase perfeito" (Stefano Accorsi, Margherita Buy e Serra Yilmaz). Uma bela história sobre laços afetivos e luto, seu filme arrebatou sete indicações ao David di Donatello (o Oscar italiano) e, apesar da pouca repercussão no Brasil, é mais um pequeno grande filme do diretor.

Sua trama, como de costume, é simples e direta - o que não significa, de modo algum, que é simplória ou superficial: sem um protagonista específico, ela gira em torno de um grupo de amigos que, confrontados com a efemeridade da vida, são obrigados a rever seus conceitos e prioridades - assim como seus próprios relacionamentos interpessoais. Se algum dos personagens pode ser considerado o principal, este é Lorenzo (Luca Argentero), um jovem bonito e saudável que vive feliz com o namorado, o escritor Davide (Pierfrancesco Favino), e está em franca ascensão profissional. De repente, em meio a um jantar oferecido ao tradicional grupo de amigos, ele sofre um derrame cerebral e se torna o centro das atenções de todos - que deixam seus problemas de lado para se revezarem no hospital, enquanto lidam com suas próprias questões. Antonio (Stefano Accorsi) e Angelica (Margherita Buy), um casal aparentemente feliz, se descobre em meio a um tumultuado caso de adultério; a tradutora Nerval (Serra Yilmaz) tenta manter a união de todos e a paz de seu casamento com o policial Roberto (Fillipo Timi); o ex-namorado de Davide, Sergio (Ennio Fantastachini), mantém a amizade com o novo casal; os mais jovens, Paolo (Michelangelo Tommaso) - um aspirante a escritor - e Roberta (Ambra Angiolini), envolvida com drogas, testemunham os embates dos mais velhos; e Davide enfrenta o conservador pai de Lorenzo, Vittorio (Luigi Diberti), que não aceita totalmente a orientação sexual do filho único.


Dividindo sua atenção entre todos os seus personagens - com um pouco mais de ênfase no casal Antonio e Angelica, que se sobressaem também pelo carisma de seus intérpretes -, Ferzan Ozpetek brinda o espectador com cenas de uma delicadeza ímpar, nunca apelando para o sentimentalismo exagerado ou o caminho mais fácil. Ao dotar suas criações com uma série de nuances que os afastam do maniqueísmo, o diretor e roteirista permite aos atores que explorem com menos pressa e avidez o âmago de cada um deles. Ozpetek é mestre em trabalhar com sutilezas, como um olhar triste, um sorriso esperançoso, um abraço redentor, e faz isso com abundância, recheando de calor humano uma história que apresenta, em sua origem, poucas novidades. "Saturno em oposição" é, mais do que um filme de trama forte, uma obra de personagens interessantes e situações verossímeis, que encontram eco no público justamente por sua simplicidade aparente. Com o uso adequado da trilha sonora - comovente e eficaz em sua função de ilustrar passagens que exigem uma emoção mais forte - e um respeito absoluto pela humanidade de cada um (na tela e na plateia), o filme de Ozpetek faz parte de um tipo cada vez mais raro de cinema: aquele que retrata e embeleza o cotidiano.

Todos os problemas dos personagens de "Saturno em oposição" são graves - em níveis distintos e em graus maiores ou menores, mas definitivamente graves. Doença, morte, adultério, uso de drogas, problemas financeiros e o medo do fracasso atormentam sem descanso o grupo de amigos. Mas o roteiro faz questão de nem dourar a pílula e fazê-los de resolução milagrosa nem tampouco torná-los impossíveis de contornar. Oferecendo uma boa dose de generosidade a todos, Ferzan Ozpetek parece acenar com um gesto de esperança para cada um deles - e consequentemente também para o espectador. Em alguns momentos pode ser difícil segurar as lágrimas, mas no final das contas, o filme deixa claro que a amizade, a união e o respeito podem fazer grande diferença - não milagres, mas a quantidade necessária de conforto e carinho para que se possa manter a espinha ereta e o coração tranquilo. Mais uma vez acertando em cheio na emoção e na sensibilidade, Ozpetek se torna, com "Saturno em oposição", um diretor indispensável.

domingo

UM CRIME AMERICANO

UM CRIME AMERICANO (An american crime, 2007, First Look Entertainment/Killer Films, 98min) Direção: Tommy O'Haver. Roteiro: Tommy O'Haver, Irene Turner. Fotografia: Byron Shah. Montagem: Melissa Kent. Música: Alan Lazar. Figurino: Alix Hester. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Lisa Alkofer. Produção executiva: Pamela Koffler, Richard Shore, Ruth Vitale, John Wells. Produção: Katie Roumel, Kevin Turen, Christine Vachon, Henry Winterstern. Elenco: Ellen Page, Catherine Keener, James Franco, Bradley Whitford, Hayley McFarland, Nick Searcy, Ari Graynor, Evan Peters. Estreia: 19/01/07 (Festival de Sundance)

No começo dos anos 80 já havia uma movimentação entre os produtores de Hollywood para levar às telas a trágica e inacreditável história da jovem Sylvia Likens - um projeto abortado pela recusa de sua irmã, Jennie, em reviver tal pesadelo. A morte de Jennie em 2004, no entanto, reacendeu o desejo de Hollywood na ideia de transformar em arte um dos mais repugnantes crimes acontecidos nos EUA e, segundo o procurador público do caso, o mais terrível cometido no estado de Indiana. Conduzido com extrema seriedade e o máximo de fidelidade possível por Tommy O'Haver, experiente em tramas mais leves, como a comédia gay "O beijo hollywoodiano de Billy" (98) e o fantasioso "Uma garota encantada", estrelado por Anne Hathaway, mas novato em explorar o lado mais sombrio do ser humano, "Um crime americano" é um filme que choca, causa revolta e indignação e não é facilmente digerível. Mas é, também, um cruel retrato da maldade humana e de até onde pode chegar a falta de compaixão. Tocando ainda em outros temais polêmicos, como alienação parental e hipocrisia religiosa, o roteiro do diretor e de Irene Turner facilmente ultrapassa a definição de drama para adentrar sem hesitação no terreno do suspense psicológico mais perturbador - contando, para isso, com atuações assombrosas de Ellen Page e Catherine Keener.

A trama começa em 1965, quando duas adolescentes, Sylvia (Ellen Page) e Jennie Likens (Hayley McFarland) são deixadas por seus pais, artistas de circo, na casa da praticamente desconhecida Gertrude Baniszewski (Catherine Keener) - mãe de seis filhos que se oferece para cuidar das meninas por um tempo mediante o pagamento de vinte dólares por semana. Aceitando a generosa oferta como forma de viajarem e tentarem consertar um casamento em crise, Lester (Nick Searcy) e Betty (Romy Rosemont) partem, confiando nos talentos de Gertrude como mãe e dona-de-casa. O que eles não sabem, porém, é que ela não é tão perfeita como parece: doente crônica e com uma vida amorosa no mínimo complicada - com romances com homens mais jovens que a exploram financeiramente - a extremosa mãe na verdade é uma mulher à beira de um ataque de nervos - o que fica evidente quando o primeiro pagamento dos Likens chega atrasado e ela surra violentamente as duas hóspedes. A situação vai se complicando quando sua filha mais velha, Paula (Ari Grainor), se descobre grávida do namorado casado e, para desviar a atenção, acusa Sylvia de inventar rumores a seu respeito. Dotada de uma fúria incontrolável, Gertrude inicia uma série de cruéis sessões de tortura com a menina, envolvendo nisso não apenas todos os seus filhos mas também alguns jovens da vizinhança - que passam a visitar Sylvia como se fosse um animal do zoológico e participar dos atos de violência, que incluem abuso sexual, agressões físicas e até uma tatuagem feita com ferro quente.


Não é uma história fácil de contar e muito menos agradável, mas é louvável como o cineasta consegue fugir da morbidez excessiva e dos exageros de uma narrativa gráfica demais. Mesmo sem amenizar o sofrimento de Sylvia - que, segundo consta nos autos do processo, que inspiraram o roteiro, foi ainda mais profundo - O'Haver poupa a plateia o máximo possível, preferindo construir um clima de claustrofobia e injustiça acima da necessidade de explicitar com imagens o tamanho das barbaridades impostas à jovem protagonista. Sugerindo mais do que mostrando, o diretor atinge um nível ainda maior de tensão e desespero, convidando cada um dos espectadores a mergulhar em um mundo repleto de crueldade que só não é completamente inacreditável porque realmente aconteceu. Sem tentar dourar a pílula ou justificar os atos de Gertrude ao culpar seus problemas emocionais e financeiros como principal responsável pela tragédia, o roteiro consegue ainda assim dar um certo ar humano à odiosa personagem, principalmente por contar com a presença de Catherine Keener no papel: evitando a compaixão fácil ou a monstruosidade gratuita, a atriz duas vezes indicada ao Oscar de coadjuvante - por "Quero ser John Malkovich" (99) e "Capote" (2005) - apavora só de aparecer na tela, com seu olhar frio e jeito calmo de falar, que contrastam com o turbilhão de sua mente. Ellen Page não fica atrás: sua Sylvia é de uma fragilidade de porcelana, o que torna tudo ainda mais imperdoável e inexplicável - a não ser quando se leva em conta que a jovem talvez tenha sido vítima justamente por ser jovem, bonita e livre, coisas que sua mãe postiça não mais era capaz de ser.

Contando em um acertado tom de drama familiar que vai se transformando aos poucos em um pesadelo de tons acentuadamente mais fortes a cada cena, "Um crime americano" peca apenas por sua falta de ousadia visual: com uma fotografia discreta quase ao ponto da invisibilidade e uma reconstituição de época cuidadosa mas igualmente simples, o filme de O'Haver parece concentrar seu foco exclusivamente em sua trama, sem preocupar-se muito com a forma. Por vezes, seu filme parece mais uma obra realizada para a televisão do que para o cinema - culpa também da estrutura narrativa, que se utiliza do julgamento de Gertrude como ponto de apoio para uma série de flashbacks que vai, então, elucidando de forma didática os acontecimentos brutais que chocaram o país na década de 60. Amparado no trabalho iluminado de suas atrizes e de seu elenco coadjuvante - em que aparecem também James Franco como um dos namorados exploradores da mãe solteira e Evan Peters (da série "American Horror Story") como um vizinho gorducho e romanticamente interessado em Sylvia até o ponto em que o interesse se transforma em revolta - "Um crime americano" é pesado e denso, mas revela um lado obscuro do ser humano que incomoda e perturba a qualquer espectador. Um belo trabalho!

sábado

O VISITANTE

O VISITANTE (The visitor, 2007, Groundswell Productions/Next Wednesday Productions, 104min) Direção e roteiro: Tom McCarthy. Fotografia: Oliver Bokelberg. Montagem: Tom McArdle. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: John Paino/Kim L. Chapman. Produção executiva: Omar Amanat, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Michael London, Mary Jane Skalski, John Woldenberg. Estreia: 07/09/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Jenkins)

De vez em quando a Academia de Hollywood faz um favor aos fãs de cinema, ao destacar, em meio a produções milionárias que parecem sufocar toda e qualquer produção menos ambiciosa, filmes que, não fosse seu aval, passariam despercebidos e acabariam melancolicamente relegados a exibições em canais por assinatura ou restritas salas alternativas. Um dos melhores e mais simpáticos filmes a merecer tal distinção foi "O visitante", um encantador drama de personagens que arrebatou a indicação ao Oscar de melhor ator (Richard Jenkins, premiado no Festival de Moscou e pelo National Board of Review por seu desempenho). Tendo estreado no Festival de Toronto de 2007, o filme só chegou comercialmente aos cinemas em maio do ano seguinte, o que lhe empurrou para disputar a estatueta dourada no ano em que os muito mais ambiciosos "O curioso caso de Benjamin Button" e "Quem quer ser um milionário?" eclipsaram todos os demais candidatos - com a possível exceção de "Milk, a voz da igualdade" e "Batman, o cavaleiro das trevas".  Discreto, simples e baseado em emoções sutis, o filme do também ator Tom McCarthy é daqueles feitos para aquecer o coração sem apelar para exageros sentimentais.

Jenkins - um ator sensacional mas eternamente relegado a papéis coadjuvantes - está em seus melhores dias na pele de Walter Vale, um professor universitário aborrecido com a vida solitária e sem emoções que vive desde a morte da esposa. Suas tentativas de aprender piano - instrumento que ela tocava - são infrutíferas e sua carreira chegou a um ponto em que não há mais desafios ou alegrias. Quando ele sai de Connecticut para participar de uma conferência em Nova York, porém, sua vida se transforma radicalmente: em seu apartamento, ele encontra um casal de imigrantes ilegais, o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e a senegalesa Zainab (Danai Gurira), que foram enganados na hora de assinar o contrato de locação. Para não deixá-los na rua e à mercê das autoridades, Vale acaba por permitir que eles fiquem com ele em sua casa. Aos poucos eles vão trocando experiências e o sisudo professor volta a sentir-se com um sentido na vida - principalmente quando Tarek é preso injustamente e, ameaçado de deportação, une, sem querer, seu novo amigo e sua mãe, Mouna (Hiam Abbass).



Construindo sua narrativa de forma delicada e suave, McCarthy - cujo filme anterior, "O agente da estação", foi muito elogiado em festivais de cinema internacionais - cativa a plateia aos poucos, desenhando com cuidado a mudança de personalidade de seu protagonista, que se transforma de um homem arredio e tenso em uma pessoa solidária e leve sem aquela pressa comum a produções menos afeitas a sutilezas. O expressivo Jenkins - cujo papel de maior destaque até então havia sido o do patriarca morto da elogiada série "A sete palmos" - empresta a Walter Vale uma elegância fria que, conforme a trama se desenvolve, vai se transmutando em uma generosidade inesperada e fraternal, fortalecida pelo amor à música - é aprendendo a tocar o instrumento que Tarek usa em suas apresentações em bares da cidade que Vale começa sua redenção e seu autodescobrimento, que culminam em uma surpreendente paixão por Mouna, um amor impossível e destinado ao rol das experiências inesquecíveis na vida de ambos.

Com uma interpretação silenciosa e minimalista, Richard Jenkins é o corpo e a alma de "O visitante", mas deve boa parte do sucesso de seu trabalho ao diretor e roteirista Tom McCarthy, que evita o piegas mesmo quando tudo se encaminha para tal. Em alguns momentos o roteiro chega perto do sentimentalismo, mas McCarthy é hábil o suficiente para fugir do banal, preferindo, ao invés disso, dirigir sua atenção para os detalhes de sua história - um par de óculos novo que deixa explícito um inesperado carinho, por exemplo - e para o desenvolvimento de seus personagens. Também é mérito dele a escalação certeira do elenco: além de Jenkins, se destacam também o ótimo Haaz Sleinman e a carismática Hiam Abbass, perfeitamente apropriados aos papéis de pessoas devastadas pelo destino e ainda assim dispostas a lutar pela felicidade. Com eles em cena é fácil compreender os motivos que fazem com que Vale reencontre sua alma - e é difícil não se deixar conquistar pela delicadeza como tudo é narrado. "O visitante" é um filme mágico e arrebatador, feito para quem acredita em nobres sentimentos e no poder da amizade e do amor.

sexta-feira

VIOLÊNCIA GRATUITA

VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny games, 2007, Warner Independent Pictures, 111min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Monika Willi. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Rebecca Meis DeMarco. Produção executiva: Philippe Aigle, Carole Siller. Produção: Christian Baute, Chris Coen, Hamish McAlpine, Hengameh Panahi, Andro Steinborn. Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbett, Devon Gearhart. Estreia: 20/10/07 (London Film Festival)

Em 1997, o cineasta austríaco Michael Haneke chocou o público ao narrar, em detalhes quase mórbidos, o ataque sem sentido e frio de uma dupla de adolescentes a uma família em sua casa no lago. Elogiado pelos quatro cantos do mundo, o filme acabou por chamar a atenção dos estúdios de Hollywood e, como é comum nesses casos, fez a transição para o cinema comercial norte-americano. Porém, um pequeno detalhe nas negociações fez toda a diferença no resultado final: Haneke manteve-se no comando do filme e, assim como Gus Van Sant fez com "Psicose", de Hitchcock, reconstruiu sua obra quadro a quadro, em uma literal refilmagem. No entanto, se Van Sant deu com os burros n'água com um filme sofrível, Haneke mostrou-se mais feliz em sua missão: a versão ianque de "Violência gratuita" consegue manter o tom de constante tensão do original, ao diferenciá-los basicamente pelo idioma.

A trama começa ensolarada e bucólica, com a chegada de uma família à sua casa de verão, onde pretendem passar as próximas semanas. Estáveis e felizes, George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e seu filho pequeno (Devon Gearhart) mal conseguem se instalar em sua confortável casa de dois andares e repleta de conforto quando recebem a visita de dois jovens que se apresentam como amigos de seus vizinhos. Polidos e em tom suave, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbett) chegam à propriedade para pedir alguns ovos emprestados, mas não demora para demonstrarem suas reais intenções: manter a família de refém, torturando-a aos poucos até exterminá-la por completo - não sem antes experimentar uma série aparentemente interminável de jogos de nervos enfatizado pela enorme distância que os separa dos demais moradores da região, únicas pessoas que poderiam interromper a tragédia anunciada.


Sem dar sossego ao público nem aos personagens, Haneke constroi um suspense psicológico aterrador, capaz de aterrorizar ao mais indiferente espectador justamente por não apelar para monstros ou assassinos mascarados como vilões. Ao eleger como ameaça dois jovens bem-apessoados, educados e aparentemente de boa instrução, o cineasta parece gritar que a civilização está a um passo da barbárie e que nem mesmo o sacrossanto recesso do lar é um lugar a salvo da delinquência juvenil - e que ela não está necessariamente ligada a diferenças sociais ou motivos menos banais do que um distorcido conceito de "diversão". Aliás, ao fazer do espectador voyeur do sofrimento alheio, ele também critica, de certa forma, a crescente onda de espetacularização da violência, que tornou-se ainda mais severa e brutal com a virada do século e a popularização da Internet e seus vídeos de gosto duvidoso. Para sublinhar essa sua teoria, ele não hesita em intercalar à seriedade do roteiro alguns momentos em que os psicóticos conversam com a câmera (ou seja, com os espectadores) e, em uma cena antológica, faz com que um deles utilize o controle remoto para reverter uma situação negativa - um rewind macabro e, ironicamente, bem-humorado.

Com a ingrata missão de substituir os atores do filme original, o elenco escalado por Haneke para sua refilmagem consegue manter o mesmo grau de consistência da versão austríaca, especialmente Naomi Watts e Tim Roth, que transmitem todo o desespero da situação de seus personagens com a competência de quem já tem indicações ao Oscar no currículo. Michael Pitt e Brady Corbett, por sua vez, não fazem feio, explorando o visual imaculado de seus personagens - roupas brancas e luvas - para oferecer ao público uma sensação de claustrofobia e angústia crescentes. É especialmente brilhante também o fato de Haneke manter fora das câmeras as cenas de maior violência física - um assassinato só é percebido pelo barulho distante que se ouve quando um dos criminosos está na cozinha fazendo um lanche e pelo sangue no aparelho de televisão - e, com isso, obrigar a plateia a completar as informações com sua própria imaginação (que, todos sabem, é sempre muito mais chocante do que a realidade).

Uma refilmagem não apenas decente, mas do mesmo nível do original, "Violência gratuita" é um dos filmes de suspense mais inteligentes, aterradores e originais de seu tempo. Uma pequena obra-prima que já dava mostras do quão longe Michael Haneke conseguiria chegar poucos anos depois. Imperdível!

quinta-feira

SWEENEY TODD, O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: the demon barber of Flet Street, 2007, Warner Bros/DreamWorks SKG, 116min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John Logan, musical de Hugh Wheeler, adaptação musical de Christopher Bond. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Chris Lebenzon. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Patrick McCormick. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen. Estreia: 03/12/07

3 indicações ao Oscar: Ator (Johnny Depp), Figurino, Direção de Arte & Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Johnny Depp) 

Depois que "Moulin Rouge, o amor em vermelho" recolocou os filmes musicais em alta no mercado hollywoodiano - e "Chicago" abocanhou seis cobiçadas estatuetas da Academia, incluindo melhor filme - o gênero voltou a frequentar as telas de cinema com assiduidade, para alegria dos fãs e desgosto dos detratores. Logicamente, a Broadway tornou-se a fonte mais rica de inspiração para os estúdios, que não viam como uma produção bem-sucedida nos palcos não poderia repetir o êxito nas telas - e nem o fracasso de crítica do pretensamente infalível "O fantasma da ópera" (que Joel Schumacher transformou em uma tortura musical em 2004 a despeito das belas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber) alterou essa percepção. Não foi surpresa de ninguém, no entanto, quando a Warner e a Dream Works se uniram para lançar "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet", adaptação da peça de Hugh Wheeler e Stephen Sondheim que desde 1979 levava multidões aos teatros. Cobiçado pelos estúdios desde sua estreia, o musical quase chegou às telas por diversas vezes, e a lista de atores que quase interpretaram o papel-título incluía nomes tão diversos quanto William Hurt, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro, Steve Martin e até Gene Hackman. Quando finalmente o projeto recebeu o sinal verde do próprio Sondheim, o cineasta Sam Mendes pulou para a cadeira de diretor, com Russell Crowe no papel central. Felizmente, as coisas deram mais uma vez para trás (felizmente não por causa de Mendes, um grande diretor, mas por causa de Crowe, cujos dotes vocais mostrados posteriormente em "Os miseráveis" não deixam dúvidas de que sua escolha teria sido a sentença de morte para o filme).

Sem Mendes e Crowe na liderança da produção, chegou a vez daquele que provavelmente era o nome certo para comandar o barco: Tim Burton, com sua visão criativa e seu reconhecido gosto pelo bizarro e pelo lado sombrio da humanidade, agarrou com unhas e dentes a chance de realizar seu primeiro musical e, com ele, como era esperado, entraram em cena Johnny Depp (parceiro artístico em cinco outros projetos anteriores) e Helena Bonham Carter (sua esposa e, conforme descoberto em meio às filmagens, grávida de seu segundo filho). Mas, comprovando que suas escolhas não tinham nada a ver com nepotismo (mesmo porque o papel de Carter era disputado por gente como Kate Winslet, Nicole Kidman, Annette Bening e Toni Collette), Burton buscou a aprovação de Sondheim em pessoa antes mesmo de rodar a primeira cena. O resultado final chegou ao público no final de 2007 e toda e qualquer dúvida a respeito das opções de Burton dissiparam-se imediatamente. Mesmo que não tenha se tornado um sucesso arrasador de bilheteria, "Sweeney Todd" encantou a crítica e deu a Depp sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator em cinco anos - além de ter conquistado o Golden Globe de melhor comédia/musical do ano. E, mesmo aqueles que não tem muito entusiasmo por musicais tem de reconhecer que, a despeito das características inerentes ao gênero, há muito mais a apreciar do que reclamar no filme de Burton.


Aqueles que se chateiam com a cantoria interminável dos filmes musicais - e "Sweeney Todd" é daqueles praticamente todo narrado através de canções - podem deliciar-se com a fotografia irrepreensível de Dariusz Wolski, que capta o tom soturno de uma Londres pouco afável e bastante sufocante (e, por contraste, ilumina com cores brilhantes o período áureo do protagonista e os sonhos dourados de sua parceira de negócios/crimes). Podem ficar encantados com a reconstituição de época impecável de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo - colaboradores frequentes de Scorsese e que ganharam o Oscar por seu trabalho. Podem surpreender-se com o tom de violência explícita das imagens imaginadas pelo cineasta, que fez questão de manter o sangue aos borbotões propostos na história como forma de enfatizar a catarse emocional que cada morte tem para seu personagem-título. E podem, principalmente, reconhecer o excelente trabalho dramático de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, provavelmente em algumas de suas melhores interpretações: Depp deixa de lado sua tendência a suavizar o personagem com tiques cômicos e sai-se muito bem cantando, e Carter consegue demonstrar toda a gama de emoções de sua personagem com uma sutileza raras vezes vista em sua carreira. Não bastasse tudo isso, o final trágico e inesperado fecha com inteligência uma trama sangrenta e sufocante que destoa dos normalmente sadios e alegres ambientes do gênero.

Baseado em uma lenda inglesa e na peça teatral de Christopher Bond - de onde saíram os detalhes sobre a origem do personagem - o musical de Wheeler e Sondheim conta a história de Benjamin Barker (Depp), um jovem barbeiro londrino que, por armações do invejoso Juiz Turpin (Alan Rickman), se vê condenado a quinze anos de prisão na Austrália, longe da esposa e da filha recém-nascida. Quando retorna à sua cidade natal, emocionalmente abalado e repleto de ódio, ele descobre que sua amada mulher, depois de ter sido violentada pelo juiz, tomou veneno e teve sua filha arrancada de seu convívio. Com o objetivo de vingar-se de Turpin, Barker assume o nome de Sweeney Todd, torna-se o mais conhecido barbeiro da cidade e, com o conluio de sua senhoria, Sra. Lovett (Bonham Carter), passa a matar seus clientes para transformá-los em matéria-prima para as tortas servidas por ela em seu restaurante. Enquanto isso, sua filha, Johanna (Jayne Weisener) faz de tudo para fugir das garras de seu "tutor", especialmente quando se apaixona pelo jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower).

Visualmente deslumbrante e tratado com a seriedade apropriada, "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet" é um musical sério, intenso e realizado com uma perfeição técnica admirável. Pode não agradar a todos por causa do gênero, mas merece ser aplaudido por suas inúmeras qualidades, que o elevam a grande cinema.

quarta-feira

SANGUE NEGRO

SANGUE NEGRO (There will be blood, 2007, Paramount Vintage/Miramax, 158min) Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson, romance "Oil", de Sinclair Lewis. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Scott Rudin, Eric Schlosser, David Williams. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciarán Hinds, Dillon Freasier. Estreia: 27/9/07

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Thomas Anderson), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day-Lewis), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Daniel Day-Lewis) 

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais despretensiosos. Desde que seu segundo longa-metragem, "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997, chegou às telas - o primeiro, "Jogada de risco", é um cult pouco conhecido pelo grande público - seu estilo sofisticado de contar histórias aparentemente simples tornou-se xodó da crítica e passou a desconcertar a plateia, confundida com tramas tão díspares quanto "Magnólia" e "Embriagado de amor", que tinham em comum, em uma primeira análise, apenas sua localização geográfica (a Califórnia) e o cuidado extremo com a direção de atores - vale lembrar que Tom Cruise concorreu ao Oscar pelo primeiro e até Adam Sandler convenceu como protagonista dramático no segundo. Porém, nem mesmo o mais ardoroso fã de Anderson e seu estilo próprio de cinema poderia imaginar o que ele faria em seu quinto filme: pela primeira vez trabalhando com material alheio (o roteiro é baseado no romance "Oil", de Sinclair Lewis), o cineasta fez de "Sangue negro" um dos filmes fundamentais de sua época, um minucioso trabalho de direção, interpretação e técnica capaz de encantar a qualquer espectador disposto a se deixar levar pela magia da sétima arte em seu conceito mais puro. Amparado por uma devastadora atuação de Daniel Day-Lewis - que levou o segundo e merecido Oscar da carreira por seu desempenho - "Sangue negro" é uma obra-prima que, além de todas as suas qualidades, nada corajosamente contra a corrente do cinema comercial inócuo e derivativo feito em Hollywood.

Sem fazer concessões ao mainstream, Paul Thomas Anderson já começa sua lista de ousadias ao eleger como protagonista de seu filme um personagem frio, ambicioso e totalmente desprovido de qualquer traço que possa despertar a simpatia da audiência: Daniel Plainview é francamente desagradável, um misantropo ganancioso capaz dos atos mais desprezíveis para atingir seu objetivo de acumular mais e mais poços de petróleo nos primeiros anos do século XX. Cego de ambição, ele não hesita nem mesmo em adotar o filho bebê de um funcionário morto em trabalho como forma de comover as famílias de quem pretende adquirir terras e prometer dinheiro para a construção do templo da Igreja da Terceira Revelação, comandada pelo jovem e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano) - que acabará se tornando seu maior rival e a única pessoa com coragem suficiente para desafiá-lo através dos anos, em uma batalha muitas vezes violenta onde eles medirão forças junto à comunidade.


Uma crítica feroz ao capitalismo e à Igreja disfarçada de épico dramático, "Sangue negro" é um triunfo também em termos técnicos. A fotografia oscarizada de Robert Elswit traduz em imagens de impressionante textura todas as nuances da narrativa de Anderson, com tomadas deslumbrantes e secas que refletem o estado de espírito vazio do protagonista e ilustram a aridez da paisagem e de sua personalidade. A edição do parceiro constante de Anderson, Dylan Tichenor, é precisa, fugindo do óbvio e da pressa, ditando um ritmo próprio à história e permitindo à Day-Lewis a possibilidade de um show à parte: construindo um Daniel Plainview repugnante mas ainda assim dono de um magnetismo quase irresistível, o ator preenche a tela com uma das interpretações mais sensacionais que o cinema americano já proporcionou em sua história. Cada olhar, cada entonação vocal, cada gesto e cada silêncio de Day-Lewis são repletos de significados, que engrandecem ainda mais o conjunto formado por Anderson, um diretor incapaz de filmar uma única cena que não seja milimetricamente calculada para atingir o máximo de impacto. Tal cuidado é o responsável por algumas sequências já clássicas, como os embates entre Plainview e seu nêmesis, Eli Sunday: pelo menos em três momentos (quando o jovem pastor se vê literalmente com o rosto esfregado na lama, quando o empresário aceita converter-se como forma de adquirir mais poços de petróleo e seu último encontro em uma quadra de boliche dentro de sua propriedade milionária) o duelo entre o veterano ator e o ótimo Paul Dano (mais conhecido até então como o irmão mais velho em "Pequena Miss Sunshine) são absolutamente impressionantes pela entrega dos atores, pela direção impecável e pela crueza das situações. E de quantos filmes o mesmo pode ser dito?

Ousado desde seus primeiros momentos - a primeira fala surge somente após cinco minutos de silêncio e demora ainda mais para que surja em cena um diálogo inteiro - "Sangue negro" é um filme feito para quem procura cinema de qualidade, corajoso e relevante, capaz de permanecer na memória do espectador muito tempo depois de seu final. Visualmente exuberante, dramaticamente consistente e intenso como poucos filmes realizados para o público adulto e inteligente, é também a prova da maturidade de um cineasta ainda jovem mas já capaz de deixar sua marca dentro de uma indústria frequentemente óbvia e autocondescendente. Bravíssimo!

terça-feira

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

segunda-feira

JUNO

JUNO (Juno, 2007, Fox Searchlight Pictures/Mandate Pictures, 96min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Mateo Messina. Figurino: Monique Prudhomme. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Shane Vieau. Produção executiva: Joe Drake, Daniel Dubiecki, Nathan Kahane. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Mason Novick, Russell Smith. Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jason Bateman, Jennifer Garner, Allison Janney, J.K. Simmons, Olivia Thirlby, Rainn Wilson. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jason Reitman), Atriz (Ellen Page), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original 

Na cerimônia do Oscar 2008, uma adolescente de 16 anos, articulada e irônica, grávida por acidente e decidida a ceder seu bebê a um casal sem filhos, atropelou, na concorrência à estatueta de roteiro original, um drama cerebral sobre um faz-tudo de uma firma de advogados, a história de um casal de irmãos disfuncionais lidando com a morte do pai, o romance entre um rapaz tímido e sua boneca de silicone e as aventuras de um ratinho que sonhava ser chef de cozinha. "Juno", escrito pela ex-stripper Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman - do ácido "Obrigado por fumar" - acabou por tornar-se, desde sua estreia em setembro de 2007, o filme de maior bilheteria até então da independente Fox Searchlight Pictures, com uma renda acima de 100 milhões de dólares. Sarcástica e inteligente, a produção de Reitman conquistou público, crítica e a Academia de Hollywood, que, além do prêmio de roteiro, indicou-o também nas categorias de filme, direção e atriz - a encantadora Ellen Page, que já havia demonstrado do que era capaz com o embate com Patrick Wilson em "Menina má.com".

Juno McGuff, a protagonista interpretada por Page, é uma adolescente atípica - apesar das críticas da época louvarem o seu jeito "moderno" de comunicar-se: esperta, quase independente e senhora de si, ela se surpreende com a notícia de estar esperando um filho de um namorado hesitante, seu colega de banda e atleta amador Paulie Bleeker (Michael Cera), mas, ao invés de experimentar a sensação de drama e desamparo esperados, mostra-se de um extremo pragmatismo. Com o apoio de Leah (Olivia Thirlby), sua melhor amiga, ela comunica o fato ao pai e à madrasta - J.K. Simmons e Allison Janney - já com a solução do problema em mãos: não apenas já fez a cabeça quanto à doar o bebê assim que ele nascer como sabe até mesmo quais serão os felizardos receptores da mercadoria. O problema é que, por mais ansiosa que esteja em tornar-se mãe, a dona-de-casa Vanessa Loring (Jennifer Garner) não gosta nem um pouco da aproximação entre a jovem gestante e seu marido, o compositor de jingles comerciais Mark (Jason Bateman) - que sufoca, com o casamento, o sonho de ter uma carreira de roqueiro.


Rejeitando violentamente o sentimentalismo e o piegas, o roteiro de "Juno" tem, dentre seus méritos, o dom de tornar leve e desprovido de tensão todos os possíveis dramas inerentes a uma trama que, sob um ponto de vista mais sério, poderia descambar para o dramalhão didático e moralista. Dona de um talento especial para diálogos cortantes e que soam extremamente naturais mesmo quando ultrapassa os limites do convencional - a protagonista frequentemente parece muito mais madura e adulta do que seus parceiros de mais idade - Diablo Cody faz uso de uma situação banal para construir uma história que abrange os mais diversos tipos de amor, sem que para isso precise apelar para o exagero de açúcar. Ao eleger como personagem central uma adolescente não exatamente dada a gestos expansivos de carinho, Cody sinaliza com clareza seu ponto de vista a respeito das relações humanas, mas não deixa, por isso, de mostrar-se sensível e terna quando mostra a forma com que Juno se relaciona com seu pai, sua madrasta, a melhor amiga e até o suposto namorado (que trata com delicadeza e um tipo de amor ainda desconhecido por ambos). Até mesmo a forma casual com que a gravidez de Juno é tratada pela família - quase com descaso - destaca o filme do previsível e do corriqueiro. Pode não parecer muito real, mas é refrescante.

Um tanto superestimado à época de seu lançamento - quando foi tratado como uma espécie de salvador da comédia americana - "Juno" é um filme delicioso e agradável, mas jamais uma obra-prima incontestável e revolucionária como muitos quiseram fazer crer. Ellen Page realmente está fantástica no papel-título, emprestando a ele uma juventude e uma personalidade que tornam a doce rebelde Juno inesquecível - sua indicação ao Oscar foi justa, uma vez que é ela a sustentação do filme em si - mas o elenco coadjuvante também tem sua parcela de responsabilidade em dar consistência a uma trama tão simples que, não fosse o roteiro ágil, a direção segura e os atores competentes, poderia transformar-se rapidamente em mais um daqueles fenômenos sazonais que volta e meia surgem no cinema para desaparecerem no ar tão logo surja uma nova temporada. "Juno" ficou, e isso diz muito sobre sua qualidade.

domingo

A GAROTA IDEAL

A GAROTA IDEAL (Lars and the real girl, 2007, MGM Pictures/Sidney Kimmel Entertainment, 106min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Nancy Oliver. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: David Torn. Figurino: Kriston Leigh Mann. Direção de arte/cenários: Arv Grewal/Steve Shewchuck. Produção executiva: Peter Berg, Whitney Brown, William Hornberg, Bruce Toll. Produção: Sarah Aubrey, John Cameron, Sidney Kimmel. Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Patricia Clarkson, Kelli Garner, Nancy Beatty. Estreia: 16/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Bianca é linda, sexy e tímida. Adorável, leal e cativante. Meio brasileira e meio dinamarquesa, é órfã e conquista a todos com sua simpatia e caráter. Bianca é a mulher que todo homem pediu a Deus. Exceto seu namorado, Lars, que a pediu por outros meios: sim, Bianca é perfeita, mas não é humana. É uma boneca feita de silicone e encomendada através da Internet, o que não a impediu de deixar seu novo namorado absoluta e totalmente apaixonado - a ponto de levá-la para morar na casa de seu irmão e sua cunhada para não despertar o falatório da pequena cidade onde mora. Tímido, desajeitado e quase antissocial - a ponto de não conseguir tocar em outras pessoas sem sentir-se queimado fisicamente - Lars encontra em Bianca a companhia perfeita. E parece ser o único a perceber que a mulher de sua vida não se encaixa nos padrões normais da sociedade - fato que, afinal, acaba se tornando parte da rotina do local, quando os moradores, que viram o rapaz crescer e tem por ele um amor incondicional, entram no jogo para não magoá-lo e passam a tratar Bianca como parte integrante da comunidade.

Esse é o ponto de partida - fascinante, um tanto quanto bizarro, mas muito criativo - de "A garota ideal", comédia dramática do estreante Craig Gillespie e que concorreu merecidamente ao Oscar 2008 de melhor roteiro original. Ao sobrepor a uma trama quase inacreditável um senso notável de realismo e contar com uma atuação irrepreensível de Ryan Gosling no papel do introvertido Lars Lindstrom, Gillespie constroi um filme de delicadeza ímpar, que seduz a plateia graças à empatia dos personagens e à maneira com que a trama se desenvolve - sem sobressaltos, com a placidez típica das cidades pequenas e com um equilíbrio perfeito entre humor e emoção, que evita tanto a gargalhada histérica quanto as lágrimas fáceis. Pode não ser um filme para todo mundo - é preciso uma certa "suspensão de realidade" para embarcar sem reservas na história - mas é, sem sombra de dúvida, uma pérola a ser resgatada dentre as dezenas de comédias dramáticas insossas que Hollywood despeja frente aos espectadores a cada temporada.


A grande ideia de "A garota ideal" nem é optar por uma boneca de silicone como protagonista feminina de uma história de amor - e não sexo puro e simples, ao estilo "American pie", onde ela se encaixaria com mais facilidade: seu maior trunfo é a forma como o roteiro se utiliza dessa premissa inicial para mergulhar fundo na psicologia de Lars, um jovem traumatizado por uma infância solitária e emocionalmente carente que encontra em seu relacionamento com uma mulher idealizada a maneira menos dolorida de lidar com seus fantasmas. Suas conversas com Dagmar (Patricia Clarkson), a médica que ele procura para lidar com a "anemia" de Bianca acabam por fazê-lo encarar suas limitações em relação à família - Gus (Paul Schneider), que sente-se culpado pela condição extrema do irmão, e Karin (Emily Mortimer), a cunhada grávida e esforçada em adequá-lo à uma vida normal - e os colegas de trabalho, entre as quais a igualmente tímida Margo (Kelli Garner), que sente uma indisfarçável atração por ele.

Vindo de uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Half Nelson" - inédito nos cinemas brasileiros - e começando a construir uma carreira repleta de personagens fortes e interessantes, Ryan Gosling está excepcional como Lars, em uma interpretação rica em termos físicos e emocionais. Transmitindo sem muito esforço uma vasta gama de sentimentos - de inadequação, de paixão, de medo, de tristeza, de raiva - Gosling mostra porque tornou-se um dos atores jovens mais requisitados de sua geração nos anos seguintes. É principalmente devido à veracidade de seu desempenho que a trama, por mais surreal que pareça, soa natural e verossímil diante dos olhos do espectador, encantado diante de um filme simples e sensível, que aposta no inusitado para atingir o coração do público.A

sábado

NO VALE DAS SOMBRAS

NO VALE DAS SOMBRAS (In the valley of Elah, 2007, Warner Independent Pictures/Summit Entertainment, 121min) Direção: Paul Haggis. Roteiro: Paul Haggis, estória de Paul Haggis e Mark Boal. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Jo Francis. Música: Mark Isham. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Emilio Diez Barroso, Erik Feig, David Garrett, Bob Hayward, James Holt, Stan Wlodowski. Produção: Laurence Becsey, Paul Haggis, Steven Samuels, Patrick Wachsberger. Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Jonathan Tucker, Josh Brolin, Frances Fisher, Zoe Kasdan. Estreia: 01/9/07 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Tommy Lee Jones)

Na metade da primeira década dos anos 2000 poucos nomes eram tão quentes em Hollywood quanto o de Paul Haggis. Roteirista de dois filmes vencedores do Oscar em anos consecutivos - "Menina de ouro" em 2005 e "Crash, no limite", que ele também dirigiu, em 2006 - ele assinou também o script de "Cartas de Iwo Jima", que concorreu à estatueta no ano seguinte e parecia que tinha tudo para marcar presença também na cerimônia de 2008 com "No vale das sombras", que tinha na receita alguns ingredientes aparentemente infalíveis para cair no gosto da Academia: relação entre pai e filho, guerra no Iraque e atores já devidamente consagrados - Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon. Porém, para surpresa de muitos, quando a lista de indicados foi divulgada, o filme mostrou-se praticamente ignorado: apenas Lee Jones foi lembrado, com uma indicação que parecia mais um prêmio de consolação do que merecimento. Nada mais justo: apesar de algumas qualidades óbvias, "No vale das sombras" é mais do mesmo, um misto entre drama, guerra e policial que não consegue empolgar em nenhum dos gêneros. É correto, nunca brilhante.

Tommy Lee Jones - em papel recusado por Clint Eastwood, que o recomendou a Haggis - interpreta, com o mesmo tom de enfado e falta de entusiasmo de sempre, o sargento aposentado Hank Deerfield, que sai de sua pequena cidade do interior do Tennessee para investigar o desaparecimento de seu filho caçula, Mike (Jonathan Tucker), recém-chegado ao Novo México depois de uma missão de 18 meses no Iraque. Lutando contra a burocracia da polícia e dos militares locais, ele tenta descobrir por conta própria o que aconteceu com o rapaz, até que sua investigação muda tragicamente de rumo quando os restos mortais do jovem são localizados, queimados e abandonados em um matagal. Com a ajuda da detetive Emily Sanders (Charlize Theron, sempre competente) - uma mãe solteira que luta contra o machismo e a misoginia dos colegas - Deerfield precisa usar de sua experiência e de sua determinação para romper o bloqueio de mentiras e meias-verdades do quartel e dos colegas do filho e chegar à verdade. Enquanto isso, em casa, sua esposa, Joan (Susan Sarandon, a ponto de roubar a cena em cada momento), lida com a perda do segundo filho - o primeiro morreu em um acidente aéreo quando estava em serviço, também militar.


O maior problema de "No vale das sombras" é sua indecisão: ao optar por uma miscelânea de gêneros, Paul Haggis tenta abarcar todos com a mesma desenvoltura, quando fica óbvio até ao menos atento espectador que tal ambição fica seriamente comprometida quando a trama não tem força suficiente para amparar tanto. O desenrolar da investigação de Deerfield é interessante e seus métodos são igualmente empolgantes, mas o desfecho criado pelo roteiro é anti-climático e seu relacionamento com Emily e seu filho pequeno nunca ultrapassa o superficial e o clichê - a ponto de ele usar uma história para dormir como metáfora para o tema do filme, a luta de Davi contra Golias. O excesso de lugares-comuns do roteiro também é perceptível a qualquer um, especialmente quando chega aquele momento fatídico em que a detetive se rebela contra a mesquinharia de seus colegas e resolve unir-se ao abnegado pai em busca da verdade sobre o filho. Em mãos menos capazes e talentosas, perigava ser intragável. Felizmente Theron é sensacional e Lee Jones, apesar de repetir ad nauseum todos os trejeitos de sempre, consegue convencer como um homem turrão e decidido. Eles salvam o filme da vala comum dos telefilmes semanais e dão um verniz de inteligência até mesmo quando a trama dá sinais de que não tem muito a oferecer.

Longe de ser um filme ruim, "No vale das sombras" acaba se ressentindo das expectativas que criou com a assinatura de Haggis, o elenco de astros e o tema momentoso. Se tivesse escolhido um gênero e se mantido nele, com personagens menos superficiais e uma trama menos previsível, poderia ter se transformado no grande filme que pretendia ser. Como está, é apenas uma produção ok, que entretém, mantém a atenção, mas desaparece da memória do público assim que termina a sessão. Convenhamos, é muito pouco.

quinta-feira

CONDUTA DE RISCO

CONDUTA DE RISCO (Michael Clayton, 2007, Castle Rock Entertainment, 119min) Direção e roteiro: Tony Gilroy. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Sarah Edwards. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Paul Cheponis, George De Titta Jr., Christine Mayer, Charles M. Potter. Produção executiva: George Clooney, James Holt, Anthony Minghella, Steven Soderbergh. Produção: Jennifer Fox, Kerry Orent, Sydney Pollack, Steven Samuels. Elenco: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sydney Pollack, Michael O'Keefe, Denis O'Hare. Estreia: 31/8/07 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tony Gilroy), Ator (George Clooney), Ator Coadjuvante (Tom Wilkinson), Atriz Coadjuvante (Tilda Swinton), Roteiro Original, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Tilda Swinton) 

A carreira de George Clooney se divide, com extremo sucesso, entre produções puramente comerciais - caso de "Um drink no inferno" e a série de filmes "Onze homens e um segredo" - e filmes de ressonância social e política - como os impactantes "Boa noite, e boa sorte" e "Syriana", que lhe rendeu um Oscar de ator coadjuvante. "Conduta de risco", filme de estreia de Tony Gilroy como cineasta, faz parte da segunda categoria. Roteirista da trilogia Bourne, entre outros filmes de sucesso, Gilroy dá uma guinada de noventa graus na carreira ao privilegiar, ao invés da ação, um filme cerebral, lento e que dialoga muito mais com os sombrios filmes conspiratórios dos anos 70 pós-Watergate do que com os dinossauros anabolizados dos Stallone e Schwarzenegger que povoaram as telas a partir da década de 90. Se tal escolha não chegou a abalar as bilheterias - apesar de respeitáveis 50 milhões arrecadados nos cinemas americanos - ao menos agradou em cheio à crítica e à Academia, que lhe homenageou com 7 indicações importantes ao Oscar, inclusive em três categorias de interpretação (Tilda Swinton, impecável, acabou levando a estatueta) e nas três mais cobiçadas: filme, direção e roteiro.

Quem procurar no filme a ação característica dos filmes mais famosos que levam a assinatura de Gilroy irá decepcionar-se com "Conduta de risco", que tem um ritmo bem mais ameno e contido. Isso não quer dizer, no entanto, que seja menos explosivo - e sim, há uma explosão de carro logo nos primeiros minutos, que deflagra o longo flashback que explica a tensa condição em que se encontra seu protagonista, Michael Clayton (uma interpretação irretocável de Clooney). Empregado de uma firma de advogados - para quem conserta situações extremas que vão do mais banal ao mais complicado - ele está passando por uma crise pessoal de extrema urgência, que o faz dever 75 mil dólares a credores pouco dados a perdões. Pressionado e questionando sua própria ética ao perceber o quão desimportante ele na verdade é sob o ponto de vista de seu chefe, Marty Bach (Sydney Pollack), Clayton também chega a um impasse na carreira quando um dos advogados da firma, o respeitado Arthur Edens (Tom Wilkinson), também seu amigo pessoal, torna-se sua principal incumbência: responsável por um caso que põe uma milionária fábrica de pesticidas contra uma família de fazendeiros, Edens entra em crise psicótica e, disposto a revelar a verdade sobre a empresa nos tribunais, passa de aliado a inimigo. Tentando consertar o estrago, Clayton entra em rota de colisão contra a poderosa empresa - na figura da fria e ambiciosa Karen Crowder (Tila Swinton).


Aqueles que reclamarem que "Conduta de risco" demora a começar e que exige do público uma paciência e uma atenção aos quais ele está desacostumado estão certos. Realmente o roteiro de Gilroy não tem pressa em apresentar seus personagens e estabelecer a real história a ser contada, aproveitando sua primeira parte para definir claramente que, apesar da demarcação entre o bem e o mal, não há maniqueísmo em sua trama. Ok, a redenção do protagonista existe, assim como sua constatação de que há limites éticos até mesmo dentro de um universo onde tentativas de homicídio e chantagens são moeda corrente, mas o roteiro - que perdeu o Oscar para o frescor juvenil de "Juno" - não consegue deixar de soar incomodamente realista, a ponto de nem seu final agridoce aliviar a sensação de desesperança. Os inúmeros diálogos que questionam essa fronteira tênue e abstrata entre o legal e o criminoso, o certo e o errado, o ético e o maldoso representam um dos maiores méritos do filme, que aposta no que é dito - e muitas vezes no que não é dito - como principal elemento narrativo, enfatizado pela fotografia sóbria e pela trilha sonora minimalista de James Newton Howard, que sublinha os silêncios de Michael Clayton e seu desespero interior com delicadeza extrema.

Um filme para adultos cansados de perseguições de carros, seres imaginários e efeitos visuais mirabolantes, "Conduta de risco" é elegante e quase frio, buscando a cumplicidade da plateia através de uma história contada com seriedade e inteligência acima de tudo. Tal opção se reflete na direção de atores - concisa, objetiva, sutil - e em sua decisão acertadíssima de deixar para seu clímax o encontro dos dois titãs do elenco: quando George Clooney e Tilda Swinton finalmente ficam cara a cara, o filme de Tony Gilroy cresce, faz sentido e justifica o sucesso de crítica. Só por esse encontro - que se repetiria de forma mais divertida no subestimado "Queime depois de ler", dos irmãos Coen - "Conduta de risco" já vale uma sessão.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...