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quinta-feira

A FERA DO ROCK

A FERA DO ROCK (Great balls of fire!, 1989, Orion Pictures, 108min) Direção: Jim McBride. Roteiro: Jack Baran, Jim McBride, livro de Myra Lewis, Murray Silver Jr.. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Lisa Day, Pembroke Herring, Bert Lovitt. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: Michael Grais, Mark Victor. Produção: Adam Fields. Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Alec Baldwin, Stephen Tobolowski, John Doe, Trey Wilson, Lisa Blount. Estreia: 30/6/89


Uma das afirmações mais corretas que se pode fazer a respeito de “A fera do rock” é que, ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música que chegam às telas com assustadora frequência, ele é um filme que foge radicalmente de academicismos e da tentação de mitificar seu protagonista. Figura principal de um escândalo que abalou sua carreira e o impediu de alcançar seu objetivo de ser “o novo Elvis Presley”, o roqueiro Jerry Lee Lewis encontrou no cineasta Jim McBride um cronista que, se combinou perfeitamente com sua personalidade anárquica e iconoclasta, ao mesmo tempo incomodou a todos: fãs, familiares, biógrafos e o próprio Lee Lewis. De nada adiantou McBride defender sua obra dizendo que nunca teve a intenção de criar um documento histórico – a gritaria foi grande e o resultado nem valeu tanto a pena assim. Nitidamente avesso a narrativas convencionais, “A fera do rock” fracassou nas bilheterias – e, a não ser que seja assistido como a grande brincadeira que no fundo ele é, é um filme bastante insatisfatório – e até um pouco bobo demais.

Talvez contaminado pelo tom quase folclórico de seu personagem principal, Jim McBride exagerou na alegoria e, rejeitando o naturalismo de sua filmografia até então – que incluía até mesmo um remake do clássico francês “Acossado” (rebatizado de “A força do amor” e merecidamente ignorado) -, construiu um filme que é uma celebração do kitsch. Das cores fortes que remetem ao Technicolor da época em que se passa sua ação até os cenários e os figurinos, tudo em “A fera do rock” transpira excessos. McBride brinca até mesmo quando acrescenta coreografias inesperadas a cenas aparentemente comuns, e jamais ultrapassa a superficialidade na construção de seus personagens. Assim como a casa de Lee Lewis e sua nova (e adolescente) esposa, tudo que o cerca parece ser de plástico, obviamente partes de um cenário construído de forma a renegar o realismo e acentuar o clima de eterna festa da vida do cantor (ao menos da vida como contada pelo roteiro – levemente inspirado na biografia escrita por Murray Silver Jr. com base nas memórias de Myra, a primeira (e mais polêmica) mulher do roqueiro. Se os próprios Silver e Myra repudiaram o resultado final é difícil saber até onde vão as liberdades tomadas pelo diretor – mas quem não procurar acuidade histórica e quiser apenas saber (ainda que pouco) da vida de Lee Lewis, o filme pode até ser um entretenimento razoável.



Para quem não sabe, Jerry Lee Lewis esteve a ponto de substituir Elvis Presley no coração das fãs – especialmente quando o rei do rock foi convocado para servir ao exército americano. Dono de uma personalidade expansiva (até demais) e de uma criatividade que muitas vezes assustava aos desavisados, Lee Lewis seguiu um caminho bastante diverso daquele trilhado por seu primo Jimmy Swaggart – que tornou-se um dos pastores católicos mais conhecidos dos EUA e que frequentemente batia de frente com as atitudes do roqueiro. Irresponsável e dono de um talento raro para transformar um simples piano em um instrumento capaz de levantar a plateia jovem, Lee Lewis praticamente jogou a carreira fora quando apaixonou-se e casou-se com sua prima de apenas 13 anos de idade, Myra (vivida por uma juvenil e encantadora Winona Ryder): com o escândalo descoberto, primeiro o público europeu e depois o resto do mundo, lhe virou as costas, em uma demonstração de conservadorismo radical. Não foi à toa: não apenas Myra era praticamente uma criança (como demonstra seu desespero ao perceber que não é capaz de cuidar da própria casa) como era filha do primo e colega do cantor – que havia lhe dado um lugar para morar quando ele estava começando a carreira. Mesmo a mentalidade mais aberta e liberal teria dúvidas a respeito do caso – dá para imaginar, então, na sociedade norte-americana dos anos 50...

Incorporando totalmente o espírito festivo da visão de Jim McBride, o ator Dennis Quaid faz de seu Jerry Lee Lewis um fauno libertino e hedonista – muitas vezes pesando a mão na caracterização e chegando perto do overacting. É difícil imaginar, por exemplo, como seria se outros projetos envolvendo o roqueiro tivessem ido adiante: Martin Scorsese, por exemplo, imaginava Robert De Niro no papel (e é impossível visualizar De Niro fazendo as macaquices de Quaid ou Scorsese abdicando de seu impecável bom gosto visual para abraçar o colorido cafona de McBride). E Michael Cimino também pensou em dar a sua versão da história, com Mickey Rourke (!!) no papel principal, o que seria no mínimo curioso. O fato é que McBride foi quem passou do plano à ação e, embora não tenha sido completamente feliz, pode-se destacar algumas boas ideias, como um jovem Alec Baldwin na pele Jimmy Swaggart e Winona Ryder (com um papel que quase foi de Drew Barrymore) como a inocente Myra – que sofre com o machismo do marido já na noite de núpcias, quando é acusada de “não comportar-se como uma virgem”. Ryder – que preferiu Myra a participar do elenco feminino de peso de “Flores de aço” e deu chance à Julia Roberts concorrer ao primeiro Oscar – está em um belo momento da carreira, dosando bem a candura e a paixão de sua personagem, que serve como um ponto de equilíbrio à bagunçada vida do protagonista. Ryder e Baldwin, que juntos também fariam “Os fantasmas se divertem” (88), são as melhores coisas do filme – a não ser que se conte, é claro, com a trilha sonora, regravada pelo próprio Jerry Lee Lewis e bem dublada por Dennis Quaid. Para quem gosta do bom e velho rock’n’roll é imperdível! Para os curiosos é apenas ok.

segunda-feira

CAINDO NA REAL

CAINDO NA REAL (Reality bites, 1994, Universal Pictures, 99min) Direção: Ben Stiller. Roteiro: Helen Childress. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Lisa Churgin, John Spence. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Wm. Barclay Malcolm, Stacey Sher. Produção: Danny De Vito, Michael Shamberg. Elenco: Winona Ryder, Ethan Hawke, Ben Stiller, Steve Zahn, Janeane Garofalo, Swoosie Kurtz. Estreia: 18/02/94

Convencionou-se chamar de "Geração X" aquela formada pelos nascidos entre meados da década de 60 e final dos anos 70 - posteriores, portanto, ao Baby Boom ocorrido logo após a II Guerra Mundial. Mesmo cunhada pelo fotógrafo Robert Capa em 1950, ela serviu para definir um grupo específico de jovens que, vindos ao mundo no período pós-1960, enfrentavam um futuro ainda incerto e sem tanto otimismo. Em 1964, a jornalista Jane Deverson voltou a utilizar o termo em um ensaio para uma revista britânica - dessa vez descrevendo os integrantes do grupo como jovens que não respeitavam os padrões pré-estabelecidos e conservadores da geração anterior. Foi somente com o lançamento do livro "Geração X: contos para uma cultura acelerada" (91), de Douglas Coupland, no entanto, que o apelido pegou de vez - e tornou-se o carimbo de uma juventude cujo niilismo e desilusão eram marcas registradas. Hollywood não demorou em perceber que tinha em mãos um possível nicho e logo tratou de conceber a sua própria visão do fenômeno. "Vida de solteiro" (92), de Cameron Crowe, inaugurou o filão com largas doses de rock e humor, mas não agradou nas bilheterias e imediatamente pôs em dúvida o potencial comercial de filmes relacionados ao tema. Essa falta de interesse repentina - e até justificável - acabou sendo a maior dificuldade, então, no caminho de "Caindo na real", uma comédia dramática/romântica que tratava justamente dos conflitos e dúvidas de um grupo de amigos de vinte e poucos anos que, recém-saídos da universidade, precisam lidar com a nova realidade.

Escrito por uma jovem de apenas 19 anos, "Caindo na real" foi recusado por todos os estúdios de Hollywood - ressabiados com o fracasso de bilheteria de "Vida de solteiro" e temerosos a respeito de um filme sem grandes nomes que garantissem o retorno do investimento. Foi somente depois que a TriStar Pictures desistiu de vez do projeto, porém, que a Universal Pictures entrou na jogada - cobriu o orçamento de 11 milhões de dólares e atraiu Winona Ryder para o papel principal feminino, escrito por Helen Childress exatamente com a atriz em mente. Cansada de várias produções de época, Ryder imediatamente aceitou participar do filme e exigiu, como cláusula contratual, que Ethan Hawke fosse escalado para viver o protagonista masculino. Foi o relativo poder de Winona na época - uma das atrizes jovens mais populares e prestigiadas de sua geração - que também garantiu a presença de Janeane Garofalo, em um papel disputado por nomes em ascensão, como Gwyneth Paltrow, Anne Heche e Parker Posey: mesmo demonstrando problemas de comportamento durante as filmagens (o que ocasionou inclusive uma demissão, mais tarde revogada), Garofalo foi defendida por unhas e dentes por Winona, que a recomendou fervorosamente ao diretor do filme, o estreante Ben Stiller.


Conhecido da televisão americana, Stiller chegou a "Caindo na real" através dos produtores, que viram nele o diretor ideal para contar uma história sobre a juventude americana do começo da década de 90. Foi Stiller quem ajudou a roteirista a chegar a um roteiro final, alterando o foco central da trama: ao invés de simplesmente contar o dia-a-dia de quatro amigos recém-formados, ele preferiu voltar sua atenção para um triângulo amoroso que, como uma metáfora romântica, simbolizava as dúvidas que torturavam as mentes juvenis do momento: o amor rebelde e idealista ou o conforto de uma vida estável e profissionalmente enquadrada nos padrões da sociedade? Surgia assim o ponto crucial da questão, que renegava a ideia inicial (retratar a tal "geração X") para aproximar o filme de uma plateia mais ampla. Em parte deu certo: se não foi um assombroso sucesso, ao menos não comprometeu as carreiras dos envolvidos - e recebeu carinhosos elogios da crítica.

O centro da trama é Lelaina Pierce (Winona Ryder), uma jovem que, enquanto trabalha como assistente de um programa de televisão apresentado pelo arrogante Grant Gubler (John Mahoney), sonha em lançar um documentário sobre ela e seus melhores amigos, todos em momentos decisivos de suas vidas. Troy Dyer (Ethan Hawke) é um músico em constante busca por reconhecimento e um lugar ao sol; Vickie Miner (Janeane Garofalo) trabalha em uma loja de roupas e se preocupa com a possibilidade de ter contraído AIDS; e Sammy Gray (Steve Zahn) tenta lidar com as dúvidas a respeito de sua sexualidade. Unidos, os quatro atravessam um período de mudanças em suas trajetórias, mas é Lelaine quem irá precisar tomar a mais difícil decisão: encarar sua paixão por Troy e embarcar em uma vida mais próxima do que sonha ou ficar ao lado de Michael Grates (Ben Stiller), o executivo de uma emissora de TV que pode lhe proporcionar uma estabilidade profissional e financeira? Winona Ryder nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Lelaina - linda e carismática, ela é a escolha ideal para liderar o elenco. Ben Stiller faz uma estreia promissora, dotando seu filme de ritmo e leveza apropriados, ilustrados com uma trilha sonora das mais adequadas e uma simpatia natural, que dá a seus personagens complexidades surpreendentes em uma produção voltada para um público mais afeito a efeitos visuais do que sutilezas dramáticas. Só por essa coragem, "Caindo na real" já merece aplausos.

sábado

EXPERIMENTOS

EXPERIMENTOS (Experimenter, 2015, BB Films Production, 98min) Direção e roteiro: Michael Almereyda. Fotografia: Ryan Samul. Montagem: Kathryn J. Schubert. Música: Bryan Senti. Figurino: Kama K. Royz. Direção de arte/cenários: Deana Sidney/Nadya Gurevich. Produção executiva: Lee Broda, Christa Campbell, Trevor Crafts, Rogerio Ferezin, Lati Grobman, Mark Myers, Jeff Rice, Cláudio Szajman. Produção: Danny A. Abeckaser, Michael Almereyda, Fabio Golombek, Isen Robbins, Aimee Schoof, Uri Singer. Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, John Leguizamo, Anton Yelchin, Lori Singer, Dennis Haysbert, Jim Gaffigan, John Palladino. Estreia: 25/01/15 (Festival de Sundance)

O nome do psicólogo Stanley Milgram pode não dizer muito à maioria das pessoas, mas em 1961, mesmo propenso a sofrer todo tipo de crítica de colegas e da população em geral, ele conduziu uma série de experiências a respeito do conformismo e do respeito incondicional dos seres humanos em relação a vozes de autoridade - como forma de entender, ainda que vagamente, o que levou gente aparentemente pacífica a condescender com o holocausto alemão na II Guerra Mundial. Sua série de testes - que foi expandida para outros tipos de questionamento conforme o tempo passava - é a base do roteiro de "Experimentos", filme escrito e dirigido por Michael Almereyda e que estreou no Festival de Sundance de 2015 - para depois fazer o circuito de festivais de cinema e só chegar a um lançamento oficial em outubro do mesmo ano. Estrelado pelo sempre competente Peter Sarsgaard e pela sumida Winona Ryder, "Experimentos" é uma produção inteligente e criativa, mas que peca por não aprofundar a personalidade de seu protagonista e focar-se muito mais em seus polêmicos trabalhos.

Sarsgaard, que já havia interpretado um pesquisador no ótimo "Kinsey: vamos falar de sexo?" (2004), nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Milgram, que, tentando encontrar uma relação de paz com sua origem judaica, se torna um dos psicólogos mais controversos de sua época. Logo de cara o público já descobre os motivos de tanta discussão: escondido em um anexo à uma sala comercial, Milgram analisa suas cobaias humanas, que nem de longe desconfiam estar sendo observados. Homens e mulheres, de idades e classes sociais diferentes, aceitam dar choques elétricos em uma pessoa desconhecida toda vez que ela errar a resposta para um teste simples de múltipla escolha - mesmo que, atrás da parede, a vítima peça para que a tortura pare. Na verdade, não existem choques, mas o interesse do psicólogo é confirmar como a maioria esmagadora da população não consegue rebelar-se contra ordens superiores ainda que isso cause dor e sofrimento aos outros. Taxado de sádico e desprezado por seus colegas, ele insiste em tentar provar seus pontos de vista com outras experiências - algumas bem menos radicais, mas igualmente provocativas e surpreendentes.


Com uma narrativa que foge do convencional quando quebra a barreira da quarta parede e faz com que Milgram converse com o espectador, explicando suas teorias e contando sua história de amor com a esposa, Sasha (Winona Ryder, pouco explorada), "Experimentos" é um filme de fácil diálogo com a plateia, mas que não deixa de causar certo estranhamento justamente por sua criatividade estilística. Por mesclar o discurso em primeira pessoa do protagonista com momentos narrativos tradicionais, o roteiro de Almereyda parece perder o foco em determinadas situações - o que acarreta problemas de ritmo que somente o talento do elenco consegue disfarçar. Além de Sarsgaard e Winona, rostos conhecidos do público fazem participações especiais - caso de John Leguizamo, Anthony Edwards, Anton Yelchin e Dennis Haysbert (na pele do ator Ossie Davis, que estrelou, ao lado de William Shatner, um filme baseado no livro mais famoso de Milgram) - e, apesar do interesse pela trama sofrer um baque no terço final (quando Sarsgaard apela para uma barba pouco convincente e seus experimentos deixam de ter o mesmo impacto), o filme é um passatempo bastante inteligente e sensível.

Premiado no Festival de Cinema de Los Angeles, "Experimentos" é uma produção que foge radicalmente dos orçamentos gigantescos para contar uma história importante e que vale a pena ser conhecida. Peter Sarsgaard está extremamente à vontade em cena, e sua parceria com Winona Ryder - já uma atriz madura, discreta e minimalista - é um acerto, ainda que pouco seja explorada. Conhecido por "Nadja" (94), um filme de vampiros que tornou-se cult na década de 90, Michael Almereyda assina um filme despretensioso, barato e eficaz. Não é marcante ou impactante como poderia, mas é um trabalho honesto e mais uma grande atuação de Sarsgaard - um ator subestimado e ainda pouco aproveitado em Hollywood.

sexta-feira

O HOMEM DE GELO

O HOMEM DE GELO (The iceman, 2012, Millenium Films, 106min) Direção: Ariel Vromen. Roteiro: Ariel Vromen, Morgan Land, livro de Anthony Bruno, documentário "The Iceman Tapes: Conversations with a killer", de Jim Thebaut. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Danny Rafic. Música: Haim Mazar. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Teresa Visinaire. Produção executiva: Rene Besson, Anthony Bruno, Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Lati Grobman, Laura Rister, Trevor Short, Jim Thebaut, John Thompson. Produção: Ehud Bleiberg, Avi Lerner, Ariel Vromen. Elenco: Michael Shannon, Winona Ryder, Ray Liotta, Chris Evans, David Schwimmer, James Franco, Stephen Dorff. Estreia: 30/8/12 (Festival de Veneza)

Michael Shannon é um monstro de ator (no bom sentido): intenso, dedicado e frequentemente requisitado para papéis que exigem imponência ou certo grau de ameaça - graças a seu olhar penetrante e sua vaga semelhança física com Christopher Walken, por muito tempo o malucão preferido de Hollywood -, Shannon não poderia ter sido a melhor escolha para interpretar Richard Kuklinski, um dos assassinos mais conhecidos da história dos EUA, que por trás da fachada de homem de família respeitável, foi responsável por cerca de 200 mortes, a maioria delas encomendadas pelas cinco famílias mafiosas de Nova York. Dono do apelido de Homem de Gelo, por seu costume de congelar as vítimas por um tempo antes de desovar o corpo (dificultando assim a definição exata da data de suas mortes), Kuklinski foi tema de um documentário da HBO chamado "America undercover: The iceman tapes - conversations with a killer" e um livro escrito por Anthony Bruno. As duas obras acabaram por ser a base de "O homem de gelo", longa-metragem dirigido por Ariel Vromen que, contando com a atuação gigantesca de Shannon, acompanha a trajetória do protagonista desde seu início na vida do crime até sua prisão, em 1986. Narrado de forma convencional e com um roteiro que não explora a contento todas as possibilidades oferecidas pela história, o filme se vale do talento de seu ator principal e do elenco coadjuvante para manter a atenção do público até o final - ainda que nem mesmo seu clímax chegue a ser empolgante como poderia.

Sem explorar o passado traumático e cercado de violência de seu personagem central, o que certamente explicaria boa parte de sua personalidade calculista e quase apática em relação aos crimes que comete, "O homem de gelo" concentra-se basicamente na transformação de um homem comum em um dos maiores assassinos dos EUA. De dublador de filmes pornográficos a matador de aluguel, Kuklinski praticamente tinha uma vida dupla: de dia, era um respeitável pai de família, casado com a doce Deborah (Winona Ryder substituindo Maggie Gyllenhaal, que saiu do filme devido à gravidez) e pai de duas meninas; em horário comercial, um criminoso frio e implacável que trabalha para o perigoso Roy Demeo (Ray Liotta em papel oferecido a Benicio Del Toro). Sem importar-se muito em detalhar as mortes cometidas por Kuklinski, o roteiro vai contando sua história sem pressa, até chegar o momento em que o protagonista entra em rota de colisão com Demeo: trabalhando por conta própria ao lado do excêntrico Robert Pronge (Chris Evans, ótimo), ele vê a si e a família ameaçados, o que o obriga a entrar em um período de tensão e paranoia crescentes - especialmente porque ninguém de suas relações pessoais sabe a respeito de sua verdadeira profissão.


Dotado de uma estrutura narrativa simples e sem apelar para a violência excessiva - apesar do tema e do personagem central de certa forma exigirem tal opção -, "O homem de gelo" parece mais um telefilme do que uma produção para o cinema. Apesar do elenco talentoso, sua falta de ousadia em contar uma história tão repleta de possibilidades incomoda a um público já acostumado com o gênero e que busca algo mais do que um roteiro quadradinho e que deixa de lado questões importantes - como o fato de Kuklinski ser também violento em casa, frequentemente espancando a esposa. Até mesmo a razão de seu apelido (o congelamento de suas vítimas) é mencionado apenas brevemente, quase como se fosse algo sem importância. A direção de Ariel Vromen - responsável por produções da Netflix, Warner e Lionsgate, entre outros - não empolga em nenhum momento, nem mesmo no terço final, quando finalmente Kuklinski se vê encurralado pelas consequências de seus atos e precisa lidar com a pressão de estar no papel de possível vítima. Michael Shannon brilha em cada cena, mas não consegue escapar das armadilhas de um roteiro pouco inspirado.

No final das contas, "O homem de gelo" é um filme apenas correto, com poucos momentos memoráveis e que deixa a sensação de que poderia ter sido um grande trabalho caso não tivesse optado pelo convencionalismo excessivo. Uma pena que uma história tão rica de possibilidades tenha ficado no meio-termo adotado por seu diretor. Está longe de ser um filme ruim, mas tampouco é um filme que mereça destaque - exceto talvez pelo belo desempenho de Michael Shannon, que consegue ser melhor que o filme em si. Segura bem uma tarde chuvosa, mas não marca a vida de ninguém da plateia - quase uma decepção em se tratando do tema e do elenco.

quinta-feira

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

ADORÁVEIS MULHERES

ADORÁVEIS MULHERES (Little women, 1994, Columbia Pictures Corporation, 115min) Direção: Gillian Armstrong. Roteiro: Robin Swicord, romance de Louisa May Alcott. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Nicholas Beauman. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Susan Sarandon, Gabriel Byrne, Trini Alvarado, Kirsten Dunst, Claire Danes, Samantha Mathis, Christian Bale, Eric Stoltz, John Neville, Donal Logue. Estreia: 21/12/94

3 indicações ao Oscar: Atriz (Winona Ryder), Trilha Sonora Original, Figurino

Só mesmo a safra fraquíssima de 1994 e a vontade sempre premente de Hollywood em fabricar novas estrelas justificam a indicação de Winona Ryder ao Oscar de melhor atriz por "Adoráveis mulheres", nova versão do clássico da literatura norte-americana, dessa vez sob o comando da australiana Gillian Armstrong: seu desempenho como Josephine, uma jovem pré-feminista que desafia as convenções de sua sociedade com o objetivo de vencer como escritora em um país saindo da Guerra de Secessão nunca ultrapassa o convencional e é frequentemente eclipsada por atuações bastante superiores do elenco coadjuvante - que inclui as novatas Claire Danes e Kirsten Dunst. Sem jamais imprimir a força necessária ao papel - que foi de Katharine Hepburn em uma versão realizada em 1933 por George Cukor - Ryder é, perigosamente, o elo mais fraco da produção, que também conquistou indicações ao Oscar pela bela trilha sonora de Thomas Newman e pelo caprichado figurino de Colleen Atwood.

Publicado pela primeira vez em 1868, o romance "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott é um dos livros mais populares da literatura norte-americana, tendo recebido diversas adaptações para a tv e o cinema desde 1917, quando uma primeira versão chegou às telas, ainda na fase do cinema mudo. De sua publicação até o lançamento do filme de Armstrong se passou mais de um século, e era esperado que a cineasta australiana tirasse proveito dessa distância temporal - presumivelmente um benefício para análises mais isentas do papel da mulher na sociedade ianque - para realizar uma obra que destacasse a forte personalidade de sua protagonista em meio a um mundo dominado por homens. Não foi o que aconteceu. O roteiro de Robin Swicord, apesar do ritmo agradável, detém-se basicamente no melodrama familiar e romântico do livro, negando à personagem principal a potência que tem no romance. Somada à atuação mecânica de Ryder - fã confessa do livro - essa opção enfraquece o resultado final, deixando "Adoráveis mulheres" muito aquém de suas possibilidades.


As adoráveis mulheres do título são as integrantes femininas da família March, que, durante a Guerra de Secessão, fazem o possível para manter-se unidas e saudáveis, mesmo desfalcadas da presença paterna - que está no front - e das posses que tinham antes do início do conflito: a matriarca, (Susan Sarandon, pouco aproveitada e que foi rival de Winona na disputa pelo Oscar, por seu trabalho em "O cliente", de Joel Schumacher), e as quatro filhas, que além de tudo, tem também que adequar-se às regras sociais da época como forma de arrumar um bom casamento. A mais velha, Meg (Trini Alvarado) se interessa por John Brooke (Eric Stoltz), preceptor de seu vizinho, um homem bom mas não necessariamente rico. A segunda, Jo (Ryder), sonha em tornar-se escritora, tem ideais feministas - antes do advento do feminismo - e vive uma relação dúbia com o jovem Laurie (Christian Bale), que vive na casa ao lado, com o avô (John Neville). A terceira, Beth (Claire Danes) tem preocupações sociais e se dedica a cuidar daqueles que tem menos do que elas, até contrair escarlatina e ver sua saúde ficar seriamente ameaçada. E a caçula, Amy (Kirsten Dunst e Samantha Mathis em dois períodos distintos da trama), vive de sonhar acordada, esperando um bom marido para sair da pobreza.

Quando a segunda fase da história começa, Jo muda-se para a Inglaterra, onde pretende dar vazão a suas ideias modernas e sua veia de escritora. Justamente a partir daí, quando ela assume o posto de protagonista absoluta da trama é que o filme fica menos interessante. A luta de Jo pelos direitos femininos só é mostrada em uma única e rápida cena, onde ela mal consegue expor seu raciocínio: o roteiro opta por focar em sua relação com o professor alemão Friedrich Bhaer (Gabriel Byrne), uma história de amor prejudicada fatalmente pela falta de química entre os dois atores. A essa altura, o público já percebeu que o que interessa à Armstrong não é mostrar o crescimento pessoal de Jo, e sim os dramas de suas irmãs - e, justiça seja feita, nesse ponto ela não brinca em serviço. Com sutileza e cuidado, a cineasta até consegue emocionar a plateia, mas oferece a ela apenas um novelão romântico que nada acrescenta às versões anteriores do livro nas telas. Uma pena.

sexta-feira

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice, 1988, Geffen Company, 92min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Michael McDowell, Warren Skaaren, estória de Michael McDowell, Larry Wilson. Fotografia: Thomas Ackerman. Montagem: Jane Kurson. Música: Danny Elfman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Catherine Mann. Produção: Michael Bender, Richard Hashimoto, Larry Wilson. Elenco: Alec Baldwin, Geena Davis, Winona Ryder, Michael Keaton, Catherine O'Hara, Jeffrey Jones, Glenn Shadix. Estreia: 29/3/88

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".

Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".


Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.

Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".

"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.

quinta-feira

CISNE NEGRO

CISNE NEGRO (Black Swan, 2010, Fox Searchlight Pictures, 108min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz, John McLaughlin, estória de Andrés Heinz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Tora Peterson. Produção executiva: Jon Avnet, Bradley J. Fischer, Peter Fructhman, Ari Handel, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites. Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Brian Oliver. Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassell, Barbara Hershey, Mila Kunis, Winona Ryder. Estreia: 01/9/10 (Festival de Veneza)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Darren Aronofsky), Atriz (Natalie Portman), Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Natalie Portman)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Natalie Portman) 

A referência óbvia é o balé “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, que serve de pano de fundo para a trama central e seus desdobramentos dramáticos. Porém, o cineasta Darren Aronofsky não é exatamente um artista partidário do óbvio e, misturando elementos de literatura – “O duplo”, de Dostoievsky – e do próprio cinema – mais exatamente o claustrofóbico “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski e o clássico “Sapatinhos vermelhos”, de Preston Sturgess – ele construiu um dos mais sufocantes e angustiantes filmes de terror da história... e que nem mesmo é um filme de terror. Disfarçado de drama psicológico e envernizado com a aura de sofisticação inerente a filmes sobre uma arte tão nobre quanto a dança, “Cisne negro” surpreende o público com um estudo impiedoso sobre a busca pela perfeição, a repressão sexual e a entrega incondicional à arte sobrepondo-se à vida. Contando com uma atuação avassaladora de Natalie Portman – merecidamente premiada com o Oscar de melhor atriz – e um clima opressivo que vai se tornando mais e mais desconfortável conforme a trama avança, “Cisne negro” já nasceu com o status de clássico moderno.
            
Diametralmente oposto ao cartesianismo de seu filme anterior – o drama “O lutador”, que deu a Mickey Rourke e Marisa Tomei indicações ao Oscar – Aronofsky não hesita em fazer de “Cisne negro” uma obra recheada de símbolos e imagens que brincam com o surrealismo, sugerindo em cada sequência uma série de ideias que dialogam com precisão com seu principal tema: a dualidade da alma humana. Como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – personagens do famoso livro de Robert Louis Stevenson – a protagonista do filme vê travar-se, dentro de sua mente, uma batalha impiedosa por sua sanidade psicológica, uma luta inclemente que não poupa vítimas e se desvia frequentemente para os recônditos mais obscuros do inconsciente. Mas, como cineasta formado em Hollywood, Aronofsky – que também deixou crítica e público de queixo caído com a falta de piedade que demonstrou com seus personagens no inesquecível “Réquiem para um sonho” – não criou um tratado psiquiátrico ou uma obra hermética e/ou pedante. Antes de mais nada – antes até mesmo das várias leituras psicológicas que a narrativa permite ao espectador – “Cisne negro” é um filme. Um grande filme. Contado com maestria e com a energia de um cineasta ainda jovem e munido de um arsenal de ideias que faz de cada cena um espetáculo à parte para os fãs de cinema.


A trama, a princípio, é simples e quase dèja vu. O diretor de uma companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel, excelente) resolve aposentar a estrela do grupo, Beth (a sumida Winona Ryder) e escalar uma nova bailarina para protagonizar sua versão moderna do aclamado “O lago dos cisnes”. A jovem e dedicada Nina Sayer (Natalie Portman em papel que herdou de Rachel Weisz e Jennifer Connelly) vê, com isso, a melhor chance de sua carreira. Sua obsessão com a perfeição, porém, não é o bastante para Thomas, que diz a ela, sem rodeios, que lhe falta a ousadia necessária para que possa interpretar o lado obscuro da protagonista da história, o tal Cisne Negro que, no enredo do balé, rouba o príncipe pelo qual sua irmã gêmea e romântica é apaixonada. Desafiada pelo diretor a buscar dentro de si esse lado desconhecido de sua personalidade, Nina – que dorme em um quarto cor-de-rosa decorado com ursinhos de pelúcia e que deixa que sua mãe, a bailarina aposentada (Barbara Hershey) cuide dela como se fosse uma criança – passa a espelhar-se no comportamento livre e descontraído de uma colega, a bela Lily (Mila Kunis). Não demora para que inicie uma jornada perigosa e sem retorno para os desvãos de seus desejos mais recalcados.
           
 Decorando todos os cenários com espelhos que refletem a dualidade de seu jogo de aparências, o cineasta conta com a ajuda da fotografia quase expressionista de Matthew Libatique, que acompanha cada detalhe da jornada de Nina rumo à loucura como uma testemunha onipresente e onisciente, embaralhando diante do espectador as cartas de um roteiro que não tem medo de explorar todas as nuances de sua história, seja no nível físico quanto mental. As metáforas visuais criadas por Aronofsky – conforme Nina vai perdendo seus pudores e deixando de lado as convenções que lhe aprisionavam o público vai percebendo uma transformação física que chega ao ápice no arrepiante clímax do filme – são cortesia de efeitos visuais discretos mas extremamente eficientes, que substituem a grandiosidade pelo minimalismo e que não chamam a atenção mais do que a história em si. E é difícil não deixar-se envolver com o clima de crescente tensão que antecede o desfecho embalado pela consagrada música de Tchaikovsky utilizada durante toda a narrativa – uma cena tão brilhante que deixam mais do que óbvias as razões pelas quais Portman levou seu Oscar.
            
Transformando-se radicalmente da moça tímida e quase infantil das primeiras cenas em um furacão de sensualidade e fúria nos momentos finais, Portman – que estreou no cinema já causando furor com a vingativa ninfeta que interpretou em “O profissional”, de 1994 – transforma o pesadelo em forma de filme criado por Aronofsky em uma experiência única. Sem medo de entregar-se de corpo e alma a uma personagem de extrema complexidade física e psicológica, ela deita e rola na brincadeira quase metalinguística do diretor (afinal a trama do balé de certa forma reflete-se na trajetória da bailarina), dando uma dimensão trágica e poética a uma obra que, em mãos menos habilidosas, poderia virar facilmente mais um filme de terror com pretensões intelectuais jamais atingidas. Equilibrando-se com sensibilidade entre um paralisante drama psicológico e um brilhante filme de suspense, “Cisne negro” é uma obra-prima indiscutível. E pensar que perdeu o Oscar para aquele soporífero brega e previsível chamado “O discurso do rei”...

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...