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segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

quarta-feira

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

segunda-feira

O INCRÍVEL HULK


O INCRÍVEL HULK (The Incredible Hulk, 2008, Universal Pictures/Marvel Enterprises, 112min) Direção: Louis Leterrier. Roteiro: Zak Penn, personagens criados por Stan Lee, Jack Kirby. Fotografia: Peter Menzies Jr.. Montagem: Rick Shaine, Vincent Tabaillon, John Wright. Música: Craig Armstrong. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petrucelli/Monica Delfino, Carolyn "Cal" Loucks, Monica Rochlin. Produção executiva: Stan Lee, David Maisel, Jim Van Wyck. Produção: Avi Arad, Kevin Feige, Gale Anne Hurd. Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, William Hurt, Tim Roth, Tim Blake Nelson, Ty Burrell. Estreia: 08/6/08

Em 2003 os fãs de quadrinhos foram surpreendidos com "Hulk", um olhar bastante peculiar sobre um dos personagens mais queridos e populares da Marvel: sob a direção do premiado Ang Lee (acostumado a assinar produções mais artísticas, como "Razão e sensibilidade", de 1995, e "O tigre e o dragão", de 2000, pelo qual levou seu primeiro Oscar), o super-herói verde tornou-se protagonista de um filme de ação com tendências existencialistas e, apesar da bilheteria mundial acima de 245 milhões de dólares, não chegou a entusiasmar o público e dividiu a crítica. As chances de uma sequência no mesmo tom cerebral, escrita por James Schamus - colaborador habitual de Lee - acabaram sendo abandonadas em 2005, no entanto, quando a Universal Pictures devolveu os direitos do personagem à Marvel. Já dedicada a criar seu Universo Cinematográfico, a Marvel aproveitou a oportunidade para dar uma nova chance ao cientista Bruce Banner e seu monstruoso alterego - com um viés mais próximo de suas pretensões comerciais e possibilidades mais concretas de fazer dele parte de um projeto maior. Para isso, não apenas Ang Lee foi dispensado da função de diretor - em uma estratégia corajosa, o estúdio aproveitou a recusa de Eric Bana em retornar ao papel-título para, ao invés de recomeçar do zero, fazer de "O incrível Hulk" uma mistura entre um reboot e uma continuação. Pode não ter repetido o êxito de "Homem de ferro" (2008) - primeiro filme do ambicioso plano da Marvel e sucesso imenso de bilheteria -, mas marcou presença de forma nada desprezível.

A saída de Bana do projeto abriu a porta para perspectivas interessantes - e nomes como Matthew McConaughey, David Duchovny (da série "Arquivo X") e Dominic Purcell (astro de "Prision break") foram cogitados para assumir a liderança do elenco. Em uma espécie de clarividência, o novo diretor, o cineasta francês Louis Leterrier, chegou a propor, sem sucesso, o nome de Mark Ruffalo para o papel principal, mas foi voto vencido junto aos executivos da Marvel: poucos anos depois Ruffalo tornou-se o mais celebrado intérprete do personagem mesmo sem ter um filme-solo. A recusa da Marvel em aceitar Ruffalo em "O incrível Hulk" tinha uma razão, no entanto, e bem forte: sua preferência por Edward Norton, fã dos quadrinhos e um ator de prestígio o suficiente para garantir a boa vontade da crítica e de parte do público avesso a filmes-evento. Apesar de conhecido por seu gênio forte - e por sua interferência nas decisões criativas dos filmes dos quais participava -, Norton já tinha duas indicações ao Oscar no currículo e não era um ator que se prestava facilmente a produções comerciais: sua presença seria um belo chamariz e deixaria bastante claro a todos a intenção da Marvel em ser levada muito a sério.

 

Como era de se esperar, Norton não apenas fez sua parte como ator - reescreveu várias cenas do roteiro de Zak Penn e dirigiu algumas sequências para ajudar a manter o cronograma de filmagens. Com locações no Rio de Janeiro e Toronto fazendo o papel de Manahattan (por questões de concessões comerciais oferecidas pelo prefeito local, David Miller, fã do personagem), "O incrível Hulk" sofreu várias alterações em relação a seu primeiro filme. Não apenas no visual escolhido pelo novo diretor (um verde mais escuro e um tamanho fixo para a criatura, por exemplo), mas também em sua tentativa de fazer dele um herói trágico sem abandonar seu propósito de entreter a plateia, ávida pelos melhores efeitos visuais que um orçamento de 150 milhões de dólares podem comprar. Para isso, a trama não perde tempo em estabelecer as origens do personagem - e conta com um vilão bastante interessante, interpretado pelo sempre ótimo (e frequentemente subestimado) Tim Roth. Da mesma forma, a relação entre Banner e Betty Ross (Liv Tyler substituindo Jennifer Connelly com competência e elegância) não precisa ser estabelecida desde o princípio - seu reencontro se dá em uma cena que resume perfeitamente o equilíbrio entre drama e ação que faltou ao primeiro filme. E é claro que ter William Hurt na pele do general Ross não atrapalha em nada: fã de Hulk, assim como seu filho e Edward Norton, Hurt é mais um elemento a emprestar prestígio à produção.

"O incrível Hulk" começa nas favelas do Rio de Janeiro, onde Bruce Banner está escondido depois dos catastróficos eventos do primeiro capítulo. Buscando incessantemente uma cura para sua condição, o cientista ainda precisa lidar com o fato de que forças militares lideradas pelo General Ross estão à sua procura, já que não pretendem abandonar o resultado de anos em estudos para a criação de um super soldado. Quando Banner retorna aos EUA, conta com o apoio da namorada, Betty (que, por caprichos do destino e dos roteiristas, é filha do general), para aproximar-se de um antídoto - uma questão que o colocará em rota de colisão com um monstro de poderes similares, criado justamente para enfrentá-lo e impedir sua deserção. O embate ente os dois é o centro do filme de Leterrier - que herdou a direção do filme depois que o comando de "Homem de ferro" foi parar nas mãos de Jon Favreau - e é bastante superior, em termos técnicos e emotivos, ao trabalho de Ang Lee, além de, é claro, deixar um espaço em aberto para as inevitáveis continuações ao lado de seus colegas vingadores. "O incrível Hulk" pode não ser um filme perfeito - mas funciona às mil maravilhas como entretenimento de qualidade.

sábado

BELEZA OCULTA

BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16

Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.

Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.


O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.

Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.

domingo

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro

Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor.  Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.

Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.


"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.

Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.

sexta-feira

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

terça-feira

MOONRISE KINGDOM

MOONRISE KINGDOM (Moonrise kingdom, 2012, Indian Paintbrush/American Empirical Pictures, 94min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Kris Moran. Produção executiva: Sam Hoffman, Mark Roybal. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban, Jason Schwartzman. Estreia: 16/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.

Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.


Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).

Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.

A ÚLTIMA NOITE

A ÚLTIMA NOITE (The 25th hour, 2002, Touchstone Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: David Benioff, romance de sua autoria. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Sandra Hernandez. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Ondine Karady. Produção executiva: Nick Weschler. Produção: Julia Chasman, Jon Kilik, Spike Lee, Tobey Maguire. Elenco: Edward Norton, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Brian Cox, Rosario Dawson, Anna Paquin. Estreia: 19/12/02

Desde que surgiu no cenário hollywoodiano, com seu genial trabalho em "As duas faces de um crime", que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Edward Norton teve uma trajetória exemplar. Trabalhou com cineastas acima de qualquer suspeita, como Woody Allen, Milos Forman e David Fincher, assumiu a cadeira de diretor com o simpático "Tenha fé" e entregou no mínimo uma atuação inesquecível, como o skinhead arrependido de "A outra história americana", de 1998. Depois de alguns filmes que não exploraram todo o potencial de seu talento - entre eles "Dragão vermelho", terceiro filme estrelado por Hannibal Lecter - ele voltou a encantar seu público com "A última noite", um potente e polêmico drama dirigido pelo não menos controverso Spike Lee.

Realizado sob a tensão pós-11 de setembro, "A última noite" é baseado em um romance de David Benioff, também autor do belo roteiro, que discute preconceito, lealdade, diferenças sociais e a força da amizade sem soar piegas ou condescendente. Contando com um protagonista falível e um time de coadjuvantes interessantes por si mesmos, é um filme que foge do panfletarismo barato que caracteriza a obra de seu diretor, atingindo seu público justamente por ser honesto em suas discussões e seu amor incondicional por Nova York e suas idiossincrasias culturais e sociais.

Quando o filme começa, o protagonista Monty Brogan (Edward Norton, ótimo) está às vésperas de ir para a cadeia, condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Sua última noite de liberdade será passada ao lado da namorada, Naturelle (Rosario Dawson) e dos melhores amigos, o yuppie Frank (Barry Pepper, excelente) e o professor de Literatura Jacob (Philip Seymour Hoffman). Enquanto se sente angustiado com a possibilidade de ter sido denunciado pela mulher que ama, Monty encara suas últimas horas de liberdade como uma espécie de despedida de uma vida com certo conforto e tranquilidade e questiona o estado em que está a cidade que ama após os atentados cometidos por Osama Bin Laden. Nesse meio-tempo, Frank tenta convencê-lo de que o ajudará após a temporada na prisão e Jacob foge da tentação sexual representada por uma aluna adolescente, Mary (Anna Paquin).



Apesar de sua trama ter elementos policiais - tráfico de drogas, traição - "A última noite" é, acima de tudo, um drama familiar (sendo o núcleo familiar tradicional subsituído pelos amigos) que retrata com acuracidade diferentes estilos de vida americanos. Frank é o arrogante executivo das finanças que se acha mais importante que os amigos porque tem um salário muito maior que o deles; Jacob é o professor solitário e idealista que se deixa seduzir por uma aluna que precisa de boas notas; e Monty representa o tipo de gente que se deixa levar pelo caminho mais fácil de atingir o sucesso, vendendo drogas a estudantes e tornando-se um traficante conhecido e bem-sucedido. Apesar de suas diferenças, eles tem uma convivência pacífica e quase terna, só abalada pela presença de Naturelle, uma presença dúbia e sexy que tanto pode ser a mulher confiável em que Monty acredita plenamente ou a traidora que seus amigos pintam.

Dirigido com fúria contida por um Spike Lee discreto mas eficaz em sua maneira pungente de fazer cinema, "A última noite" se beneficia amplamente de seu elenco, composto por atores em seus melhores dias. Se Norton e Seymour Hoffman não precisam provar nada a ninguém, a surpresa maior fica por conta de Barry Pepper, que por pouco não rouba as cenas em que aparece, em uma interpretação inspirada e sutil que vai se avolumando até estourar nas suas últimas cenas, em que precisa espancar o melhor amigo para ajudá-lo a sobreviver na prisão. E na pele de James, o calejado pai de Monty, o onipresente Brian Cox brinda o público com um trabalho delicado e emocionante.

Um dos filmes mais subestimados da temporada 2002, "A última noite" é fascinante, forte, impactante e comovente na medida certa. Um belíssimo filme, feito para adultos que gostam de cinema com consistência.

segunda-feira

DRAGÃO VERMELHO

DRAGÃO VERMELHO (Red dragon, 2002, Universal Pictures, 124min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Helfrich. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Andrew Z. Davis. Produção: Dino de Laurentiis, Martha de Laurentiis. Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Emily Watson, Mary-Louise Parker, Anthony Heald, Bill Duke. Estreia: 30/9/02

Em 1991 o cineasta Jonathan Demme - mais conhecido pela comédia de humor negro "Totalmente selvagem" - pegou todo mundo de surpresa com o aterrador "O silêncio dos inocentes", suspense de primeira linha adaptado do romance de Thomas Harris que não só fez enorme sucesso de bilheteria e papou as cinco principais estatuetas do Oscar - deixando filmes mais "acadêmicos" como "Bugsy" comendo poeira - como também ressuscitou a carreira do ator galês Anthony Hopkins, que entrou instantaneamente para o panteão dos grandes vilões da história do cinema. Como em Hollywood a ganância fala muito mais alto do que a integridade artística, em 2001 foi lançado "Hannibal", uma tenebrosa continuação dirigida por Ridley Scott, que substituía Jodie Foster por Julianne Moore e a sutileza pelo horror explícito. A galinha dos ovos de ouro ainda dava grana (mais de 160 milhões arrecadados nos EUA pela segunda parte) e ninguém se surpreendeu quando "Dragão vermelho" estreou, ainda com Hopkins no papel do canibal Hannibal Lecter. Dirigido pelo eficiente porém jamais brilhante Brett Ratner, o filme chegou a um meio-termo interessante: não é genial como o primeiro e tampouco sofrível como o segundo.

O fato de "Dragão vermelho" já ter sido adaptado para as telas antes - mais precisamente em 1986, com o título de "Manhunter", dirigido por um Michael Mann na fase "Miami Vice" e estrelado por Brian Cox e William Petersen - não foi problema para os produtores dessa nova versão, que presumiram (com certa razão) que o público não tinha  isso registrado na memória. Sendo assim, com um novo título (o original do romance publicado em 1981), o filme chegou às telas cercado de razoável expectativa, em parte devido à personagem Lecter e em parte por causa do elenco excepcional reunido por Ratner: além de Hopkins desfilam pela tela Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman e Harvey Keitel, todos velhos conhecidos do Oscar (com exceção de Hoffman, que levaria sua estatueta três anos depois). Juntos, eles dão consistência a uma história interessante o bastante para apagar a má impressão causada pelo trabalho de Ridley Scott.



"Dragão vermelho" se passa antes dos acontecimentos de "O silêncio dos inocentes" e começa quando o jovem agente do FBI Will Graham (um Edward Norton jovial que aproveitou o cachê do filme para financiar o ótimo "A última noite") é procurado por seu antigo chefe Jack Crawford (Harvey Keitel) para colaborar na elaboração do perfil psicológico de um serial killer apelidado de "Fada do Dente". Aposentado desde que foi seriamente ferido pelo psiquiatra Hannibal Lecter (a quem capturou), Graham se recusa a participar de mais uma caçada, mas é convencido a voltar atrás e contar com a ajuda do canibal para chegar até o novo assassino. Assim como em "O silêncio dos inocentes", o roteiro não se preocupa em esconder a identidade do criminoso. Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes em papel que interessava a Michael Jackson (!!)) trabalha em um laboratório de revelação de filmes fotográficos e, com um passado traumático, é um assassino frio e meticuloso que se envolve romanticamente com uma colega de trabalho cega (Emily Watson) que não vê os defeitos físicos que ele julga ter. Enquanto chega cada vez mais perto do assassino, o detetive tem que preocupar-se também com o fato de sua família estar desprotegida na ilha onde isolou-se depois da aposentadoria.

Como dito anteriormente, Brett Ratner não é um Jonathan Demme e isso fica claro na maneira quase quadradinha com que move sua história (novamente adaptada pelo oscarizado Ted Tally). O tom sufocante e opressivo de "O silêncio dos inocentes" foi substituído por um clima menos sombrio, mais comercial, sem maiores ouadias. Até mesmo Anthony Hopkins parece estar no piloto automático, não acrescentando à sua brilhante personagem nenhuma nuance a mais (o que não significa que não esteja ótimo como sempre, mas apenas acomodado). O mesmo acontece com Edward Norton, que não precisa muito para convencer em seu papel, ainda que pareça jovem demais para viver um agente aposentado. Sobressai-se então, mais uma vez, o excelente Ralph Fiennes, vivendo um Francis Dolarhyde bem mais complexo e digno de compaixão do que o Buffalo Bill interpretado por Ted Levine no filme de Demme. Suas cenas com Emily Watson são as mais interessantes da obra, em uma dinâmica dramática que envolve muito mais do que a trama policial (cujo clímax não deixa de ser quase requentado).

Porém, como filme de suspense "Dragão vermelho" não apenas convence como é bastante superior à média. Compará-lo com "O silêncio dos inocentes" chega a ser covardia. Mas que deixa "Hannibal" bem pra trás em matéria de qualidade não há como negar. Não ousa, mas não estraga. O que já é muito bom.

CLUBE DA LUTA

CLUBE DA LUTA (Fight club, 1999, Fox 2000 Pictures, 139min) Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls, romance de Chuck Palahniuk. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: James Haygood. Música: The Dust Brothers. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Jay R. Hart. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin, Art Linson. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf. Estreia: 15/10/99

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

Poucas vezes um filme consegue ser tão fiel à sua origem literária quanto “Clube da luta”, um petardo estilístico dirigido pelo genial David Fincher baseado no livro do ex-mecânico Chuck Palahniuk que deixou meio mundo de queixo caído com suas idéias radicais contra a propriedade, a sociedade e o governo e por essa mesma razão fracassou vergonhosamente nas bilheterias americanas, apesar do apelo do nome Brad Pitt nos cartazes. A vergonha, no caso, não é de Fincher, que forjou uma pequena obra-prima do inconformismo. A vergonha é do público, que mostrou-se medíocre a ponto de deixar passar um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, tanto em conteúdo quanto em visual. O filme só não passou totalmente em branco porque acabou sendo acusado de incitar a violência – o que também foi dito de “Laranja mecânica”, no início dos anos 70, diga-se de passagem -, no que não foi ajudado com o fato de que várias pessoas foram assassinadas em um cinema que apresentava o filme. Coincidência ou não, a trágica notícia eclipsou as inúmeras qualidades da obra, de longe um dos melhores trabalhos tanto de Fincher quanto de Brad Pitt.

Na verdade a história é sobre um jovem executivo (vivido com a habitual competência por Edward Norton) que, em crises cada vez mais assustadoras de insônia encontra a solução frequentando sessões de ajuda para doentes (câncer, enfisema e afins). Na mesma época em que conhece outra fraude nas sessões a intrigante Marla Singer (dando um adeus vitorioso aos filmes de época pelos quais ficou conhecida) ele perde seu apartamento, repleto de objetos caros e vai morar com Tyler Durden (um Brad Pitt hilário, sexy e notadamente divertindo-se a cada cena), um misterioso vendedor de sabonetes caseiros que o ensina a não dar valor a coisas materiais. Sua amizade com Durden evolui a ponto de eles juntos criarem o “Clube da Luta”, onde um grupo de homens se reune para brigar entre si. No momento em que o clube toma proporções gigantescas, o rapaz começa a perceber que os planos de Tyler Durden não resumem-se à auto-destruição e podem levar a uma catástrofe econômica e social.



Nada é o que parece em “Clube da luta”. Não é apenas sobre um grupo de homens se espancando mutuamente – pelo menos não é somente sobre isso. Não é a respeito de um homem buscando sua própria identidade – isso é apenas o começo da história. E não fala do amor entre dois seres desajustados, ainda que seja o amor por Marla que balança as estruturas do protagonista. “Clube da luta” é um happening cinematográfico. É um ataque verbal, visual e estilístico contra o establishment – seja ele econômico, cultural ou social. O roteiro de Jim Ulhs, que traduz com precisão cirúrgica a prosa caótica de Palahniuk, não deixa pedra sobre pedra em seu discurso contra a mídia, o governo e Deus. A anarquia controlada de Fincher, que encontra estofo na fotografia de Jeff Cronenweth e na edição espirituosa e criativa de James Haygood, conta ainda com o trabalho mais inspirado da carreira de Brad Pitt, que constrói um Tyler Durden impecável em sua canalhice e falta de respeito com toda e qualquer instituição. Seus diálogos são tão cáusticos, cruéis e por isso mesmo realistas que fica difícil não acreditar neles.

Pode-se dizer, sim, que "Clube da luta" é um filme perigoso. É um filme que faz pensar, que questiona, que choca com sua violência verdadeira. Conectá-lo à crueldade humana é simplificá-lo de maneira burra. Mas um fato é inquestionável: quando as caixas de som começam a tocar Pixies, no final da exibição da história contada por Palanhiuk, Fincher & cia, o público não é o mesmo que era no início da sessão. Ele acaba de testemunhar o cinema em seu melhor.

sexta-feira

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (American History X, 1998, New Line Cinema, 119min) Direção: Tony Kaye. Roteiro: David McKenna. Fotografia: Tony Kaye. Montagem: Jerry Greenberg, Alan Heim. Música: Anne Dudley. Figurino: Doug Hall. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Bill Carraro, Keari Peak, Steve Tisch, Lawrence Turman. Produção: John Morrissey. Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Elliot Gould, Fairuza Balk, Avery Brooks, Ethan Suplee, Stacy Keach, Guy Torry. Estreia: 30/10/98

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Edward Norton)

Os verdadeiros fãs de cinema - aqueles que realmente gostam de bons filmes, histórias bem contadas e atuações poderosas - ainda devem ter a esperança de que um dia a Academia venha à público revelar que sua cerimônia de entrega do Oscar de 1999 não passou de uma grande brincadeira de mau-gosto. Afinal de contas, não é possível que no mesmo ano em que Gwyneth Paltrow tenha levado seu prêmio de melhor atriz (batendo as superiores Cate Blanchett, Fernanda Montenegro, Meryl Streep e Emily Watson) a estatueta de melhor ator tenha ficado com Roberto Benigni, a versão italiana de Renato Aragão. Não só Benigni é constrangedor (como comprovou sua exagerada e patética reação ao anúncio de seu nome) como sua vitória deixou de lado duas interpretações masculinas extraordinárias da disputa: Ian McKellen como o cineasta Frank Whaley de "Deuses e monstros" e Edward Norton por seu assombroso Derek Vinyard de "A outra história americana", um dos filmes mais chocantes e socialmente relevantes do ano.

Talvez tenha sido exatamente essa característica polêmica que tenha deixado "A outra história americana" no limbo onde se encontram os pequenos grandes filmes que são quase ignorados por um público que prefere passar os finais de semana lotando salas para assistir a coisas como "A múmia". Forte e impactante, o filme de Tony Kaye - que praticamente recusou-se a assinar o filme depois de uma rusga bastante grave com o ator central - é, acima de tudo, um entretenimento que faz pensar e levanta discussões que vão muito mais além do que o tradicional bate-papo em mesas de bares. É pouco provável que seus espectadores consigam esquecer facilmente tudo que o filme transmite, seja através de cenas de grande impacto visual, seja por diálogos que - surpreendentemente em se tratando de um trabalho de cunho tão social - tocam em feridas e pensamentos que muita gente prefere esconder atrás de piadas ou apatia.


Derek Vinyard, o protagonista, vivido impecavelmente por um Edward Norton repleto de nuances, é uma das personagens mais complexas que o cinema americano criou em muito tempo. Apesar de vituperar impropérios e destilar discriminação durante praticamente toda a projeção, Derek tem sua própria verdade, cultivada por anos de exposição às ideias racistas do pai e pelas tragédias da vida. Ainda que seja desagradável testemunhar alguns absurdos que ele comete, é inegável que, em sua mente distorcida, tudo faz sentido. E é preciso aplaudir de pé os diálogos brilhantes de David McKenna, que questiona os preconceitos mesmo de uma plateia politicamente correta - é exemplar a cena em que Derek desafia o namorado judeu de sua mãe em pleno jantar, utilizando o caso de Rodney King (um homem negro espancado pela polícia em um epísódio infame acontecido nos EUA) como base para suas teorias racistas. Mesmo que seja assustador, seu pensamento faz um sentido amedrontador.

A trama de "A outra história americana" é forte por si mesma. Depois de anos preso pelo assassinato de dois jovens negros que tentavam arrombar seu carro (em uma cena impressionante), o jovem Derek Vinyard é solto e volta para o lar de sua família. Seu retorno acontece justamente no momento em que seu irmão menor, Daniel (Edward Furlong, bastante eficiente) está seguindo seus passos, tornando-se parte de um grupo cada vez maior de skinheads, liderado por Cameron Alexander (Stacy Keach). Apavorado com a ideia de que o rapaz se transforme em um homem dominado por ódios irracionais, ele chega à conclusão que precisa revelar a ele tudo porque passou em seu tempo na prisão. A seu lado, está o inspetor de sua antiga escola, o professor Bob Sweeney (Avery Brooks) e sua mãe, Doris (Beverly D'Angelo, provando que consegue ir bem mais além do que em seu papel como a mulher de Chevy Chase na série "Férias frustradas").

Segundo fofocas de bastidores, o diretor Tony Kaye praticamente abandonou o filme em sua fase de edição, contrariado com as intervenções de Norton - descrito por ele como "babaca egocêntrico". Seja verdade ou não, é fato consumado que o ator é o destaque absoluto de "A outra história americana", entregando a ele uma interpretação poucas vezes vista no cinema. Norton consegue viver três Dereks diferentes - o adolescente ainda ingênuo em busca de influências, o skinhead raivoso e o ex-presidiário arrasado com sua experiência - com a desenvoltura dos grandes atores. É ele quem comanda o baile de dor e desespero que atinge o público como um soco no estômago. E é seu rosto transfigurado (de ódio e de pânico) que ficará na mente do espectador por um bom tempo.

quinta-feira

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

O POVO CONTRA LARRY FLYNT

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (The People vs. Larry Flynt, 1996, Columbia Pictures, 129min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Thomas Newman. Figurino: Arianne Philipps, Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria A. Nay, Amy Wells. Produção: Michael Hausman, Oliver Stone, Janet Yang. Elenco: Woody Harrelson, Edward Norton, James Cromwell, Courtney Love, Brett Harrelson, Crispin Glover. Estreia: 25/12/96


2 indicações ao Oscar: Diretor (Milos Forman), Ator (Woody Harrelson)
Vencedor de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Diretor (Milos Forman), Roteiro

Apesar de ter seu nome no título o verdadeiro protagonista de "O povo contra Larry Flynt" não é o editor da "Hustler", uma das revistas pornográficas mais populares dos EUA. Quem realmente é a personagem principal do filme do tcheco Milos Forman é uma entidade abstrata chamada "liberdade de expressão". É esse conceito, tão valorizado mas tão seriamente ameaçado até mesmo nas mais liberais democracias, o verdadeiro astro do filme que deu a Woody Harrelson sua primeira indicação ao Oscar. É o direito a essa tal liberdade, garantida na Constituição americana, o santo graal perseguido por Larry Flynt e seu advogado, o jovem Alan Isaacman. E é justamente por lutar por esse direito sagrado a todos que o filme do diretor de "Um estranho no ninho" conquista até mesmo a mais conservadora das plateias.

Até mesmo Oliver Stone, chegado que é em uma polêmica, declinou da ideia de dirigir "O povo contra Larry Flynt", preferindo manter-se no menos ostensivo papel de produtor. O explosivo material, escrito pela mesma dupla que deu a Tim Burton o belo roteiro de "Ed Wood", provocou controvérsia antes mesmo de estrear, tendo seu cartaz banido e severamente criticado: no criativo poster, o protagonista tinha o corpo em formato de Jesus crucificado, mas no corpo de uma mulher. Substituído por uma outra propaganda mais comportada, foi apenas o princípio de uma gritaria dos setores conservadores da pudica América do Norte, que não aceitavam de bom grado a ideia de ter um pornógrafo como herói de um filme. Escandalizados ou não, o fato é que os detratores de Larry Flynt não conseguiram ofuscar o brilho do resultado final. Dirigido com uma ironia deliciosa e interpretado por um excelente Woody Harrelson, "O povo contra Larry Flynt" é um dos melhores filmes de 1996 - e poderia muito bem ter ficado com uma vaga entre os indicados ao Oscar principal, já que tanto Harrelson quanto Milos Forman conseguiram ficar entre os finalistas em suas respectivas categorias.

"O povo contra Larry Flynt" começa mostrando a origem do império do protagonista, desde suas ambições infantis até a criação de um boletim (repleto de fotos de mulheres nuas) a ser distribuído aos frequentadores de seu bar de striptease chamado Hustler. Aos poucos, sentindo-se traído pela sutileza e pela delicadeza das fotos de sua rival "Playboy" transforma seu boletim em uma revista mensal, com um grande diferencial: nas páginas da "Hustler" os leitores não encontrariam matérias de interesse geral e sim uma boa e velha pornografia explícita. Chocando a ala conservadora dos EUA, Flynt torna-se figurinha fácil nos tribunais, acusado de incitar a pornografia e principalmente processado por difamação e danos morais pelo respeitável Reverendo Jerry Falwell (Richard Paul), vítima de uma de suas piadas de incrível mau-gosto. Quem o defende em seus julgamentos é seu jovem advogado, Alan Isaacman (Edward Norton), recém-formado e que, apesar de ter aversão às publicações do cliente, jamais deixa de estar ao seu lado.



O ritmo é uma das maiores qualidades em "O povo contra Larry Flynt". Mesmo quando o filme corre o risco de tornar-se repetitivo devido às idas e vindas do protagonista aos tribunais, o roteiro jamais cai na armadilha de deixar-se levar pelos fatos históricos puros e simples, além de presentear o público com um humor cruel extremamente engraçado. O Larry Flynt criado por Scott Alexander e Larry Karazsewski é um anti-herói absoluto, escória da sociedade, mas dotado de uma personalidade e um carisma inegáveis, além de um senso de humor irresistível. Nem mesmo depois de ficar paraplégico devido a um atentado contra sua vida - um evento nunca devidamente esclarecido - ele deixou-se levar pelo negativismo e a depressão, praticamente usando suas limitações como uma medalha de honra. Sua defesa ferrenha pela liberdade de expressão é também a defesa de um direito inalienável de qualquer cidadão. Como ele mesmo declara em determinado momento, "se a Primeira Emenda pode proteger a um lixo como eu, poderá proteger a todos vocês." É fascinante seu discurso quando compara a pornografia com a guerra e a violência e deixa na cabeça de todos a pergunta que jamais quer calar: o que é mais ofensivo, um corpo feminino ou uma criança morta???

Woody Harrelson tem, aqui, um dos ápices de sua carreira desigual. Elevando à máxima potência a promessa com que acenava desde seu Mickey Knox de "Assassinos por natureza", ele transcende sua personagem, transformando-se em Larry Flynt de forma arrebatadora. Ao acrescentar ao papel sua própria personalidade anárquica e controversa, Harrelson mereceu a indicação ao Oscar e não teria sido injusta sua vitória. Ele está tão bem que consegue ofuscar até mesmo ao ótimo Edward Norton, que não tem muito o que fazer como Isaacman a não ser pontuar com correção o show do colega de cena. Em compensação, não dá para acreditar em todos os prêmios arrebatados por Courtney Love. A roqueira - viúva de Kurt Cobain e então líder da banda Hole - recebeu elogios rasgados da crítica e chegou a vencer disputas importantes, como dos críticos de Nova York e Boston por sua atuação como Althea, a esposa e musa de Flynt, que morreu de AIDS depois de ter se viciado em morfina. Péssima e sem nenhum carisma, Love tem a seu favor apenas o visual bagaceiro que combina com a personagem, mas está longe de ser uma atriz de respeito. Não é exagero afirmar que seu trabalho é o único ponto fraco do filme...

As discussões suscitadas por "O povo contra Larry Flynt" são legítimas e relevantes, o que faz do filme de Milos Forman politicamente indispensável. Mas, acima de tudo, seu trabalho é cinema da mais alta qualidade. Forman está nitidamente à vontade contando a trajetória de Flynt, ecoando a busca de liberdade de seu mais famoso protagonista - o falso desequilibrado mental vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho". Fascinado por personagens que fogem do convencional, Forman mais uma vez brinda seu público com uma obra cuja importância ressonará por muito tempo. Cinema e política andando juntos sem panfletarismo barato! Genial!

sábado

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

segunda-feira

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...