quarta-feira

NEBRASKA

NEBRASKA (Nebraska, 2013, Paramount Vantage, 115min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Bob Nelson. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Kevin Tent. Música: Mark Orton. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Fontaine Beauchamp. Produção executiva: Doug Mankoff, George Parra, Neil Tabatznik, Julie M. Thompson. Produção: Albert Berger, Ron Yerxa. Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach. Estreia: 23/5/13 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alexander Payne), Ator (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (June Squibb), Roteiro Original, Fotografia
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Ator (Bruce Dern) 

Alexander Payne é um cineasta que nutre um carinho todo especial por aquilo que a sociedade americana – tão cega em sua busca da perfeição – convencionou chamar de “perdedor”. Em maior ou menor grau, a grávida drogada de “Ruth em questão” (96), a estudante obsessiva de “Eleição” (99), o viúvo ranzinza de “As confissões e Schmidt” (02), os amigos em uma última viagem de solteiros de “Sideways, entre umas e outras” (05) e o pai de família que se descobre traído pela esposa em “Os descendentes” (11) são todos personagens deslocados de alguma forma em um mundo aparentemente hostil a qualquer tipo de fraqueza. “Nebraska”, filme com o qual Payne voltou à disputa do Oscar na cerimônia de 2014, volta a retratar tipos semelhantes. Pela primeira vez trabalhando com um roteiro alheio – Bob Nelson perdeu a estatueta dourada para Spike Jonze e seu genial “Ela” – o diretor, cuja marca registrada é o preciso equilíbrio entre o humor e a melancolia, consegue atingir o máximo de harmonia entre esses dois elementos em um filme brilhante, que além de emocionar e fazer rir, deu a Bruce Dern um dos melhores papéis de sua carreira – presente que o veterano ator retribuiu com uma interpretação avassaladora.
Injustamente derrotado no Oscar por Matthew McConaughey – por seu desempenho físico e pouco emocional em “Clube de Compras Dallas” – Dern dá um show na pele de Woodrow T. Grant, ou simplesmente Woody, um octogenário um tanto mau-humorado que leva uma vida pacata e sem sobressaltos na pequena cidade de Billings, no estado de Montana, ao lado da esposa, a atrevida Kate (June Squibb). Desorientado psicologicamente, ele recebe pelo correio uma carta que lhe avisa do prêmio de um milhão de dólares que ele precisa buscar em Lincoln, localizada em Nebraska. Sem dar ouvidos à família de que tudo não passa de uma propaganda sem nenhum valor real, Woody finca pé na ideia de viajar para resgatar sua bolada. Para não deixar o pai sozinho, seu filho caçula, David (Will Forte) – que passa por uma crise matrimonial e existencial – resolve acompanhá-lo, e os dois iniciam uma longa jornada estrada afora. Antes do final do caminho, porém, eles param na casa do irmão de Woody – pai de três filhos mal-encarados e pouco inteligentes – e David começa a conhecer um outro lado da personalidade do pai.
Caminhando pelas ruas enfadonhas da cidade, David não apenas percebe a mudança na forma como todos passam a tratar Woody depois que sabem que ele “ficou milionário” como descobre fatos desconhecidos não apenas por ele, mas também por seu irmão mais velho, Ross (Bob Odenkirk) – coisas como o seu relacionamento com outra mulher, o desejo de não ter tido o segundo filho e até uma certa generosidade com os amigos que não condiz com o tipo de pessoa que tornou-se. No centro de tudo está Ed Pegram (Stacy Keach), que insiste em cobrar uma dívida antiga – sendo que, segundo o velho e quase senil Woody, ele é quem lhe deve uma máquina compressora de ar, emprestada há décadas. O confronto entre esses dois seres totalmente díspares – o jovem Woody e quem ele é diante dos filhos – é o cerne de “Nebraska”, e Payne o trata com extrema delicadeza e altas doses de humor negro.




Sem deixar-se levar pelo patético da premissa inicial, que poderia resultar tanto em um dramalhão choroso sobre as limitações da terceira idade quanto em uma comédia pastelão a respeito da vida medíocre das cidades do interior, o roteiro de Bob Nelson é um primor de inteligência, sarcasmo, sensibilidade e clareza, que proporciona a seus atores a chance de um brilho sutil mas incandescente. Will Forte, um ator conhecido apenas por comédias televisivas, sustenta com firmeza um personagem que, em mãos menos capazes, poderia servir apenas como escada para o espetacular Bruce Dern – seu olhar cansado e desanimado reflete com exatidão uma multidão de homens que não se encaixam no mundo de bem-sucedidos super-heróis promovido pela sociedade norte-americana e sua tentativa de reatar os vínculos emocionais com o pai acabam por cativar o público sem que seja necessário apelar para as cenas de catarse tão comuns no cinema comercial hollywoodiano. June Squibb ameaça roubar a cena sempre que aparece, vivendo com perceptível gosto todas as nuances de sua Kate, uma aparentemente doce e compassiva dona-de-casa que mostra sua força em uma cena sensacional, onde desafia toda a família do marido, de olho em sua pretensa fortuna: sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante foi justíssima e, não fosse o forte desempenho da vencedora Lupita Nyong’O em “12 anos de escravidão”, sua vitória teria sido totalmente merecedora. Mas, apesar dos coadjuvantes impecáveis, é impossível não reconhecer que “Nebraska” é, sem dúvida, um show de Bruce Dern.
No inverno de sua carreira, Dern tornou-se o mais velho indicado ao Oscar de melhor ator da história, e fez jus à indicação. Mesmo na pele de um personagem não exatamente simpático ou meramente agradável, o veterano ator, pai da atriz Laura Dern, entrega um desempenho nunca aquém de extraordinário. Recitando os diálogos ácidos do roteiro de Nelson ou demonstrando com sutileza os efeitos do tempo sobre a razão de seu Woody, Bruce ganha a plateia não por ser um velhinho digno de compaixão, mas por fazer dele um homem comum, real, dotado mais de defeitos do que qualidades mas que, mesmo assim, merece uma nova chance de realizar seus sonhos – mesmo que, para isso, precise envolver toda a família em sua odisseia. Emoldurada pela deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Phedon Papamichael que enfatiza o tom de aridez do interior dos EUA, a narrativa de Alexander Payne se equilibra magicamente no fio da navalha entre o riso e a lágrima, sem nunca, porém, buscar a gargalhada fácil: seu humor discreto e seco é o reflexo perfeito de sua emoção elegante e surpreendente. Quando os dois elementos se encontram na mesma cena é que fica evidente, até mesmo ao mais distraído espectador, o talento do cineasta em costurar, de forma quase invisível, uma coesão entre roteiro, elenco e diretor. Mesmo àqueles avessos a dramas familiares “Nebraska” é imperdível.
 Simples, delicado, muito engraçado e por vezes comovente, “Nebraska” é uma pequena obra-prima, realizada por um cineasta que entende de gente e de emoções, coisa cada vez mais rara em uma indústria muito mais inclinada a efeitos visuais e tiroteios do que a histórias sobre gente como a gente.

terça-feira

AZUL É A COR MAIS QUENTE

AZUL É A COR MAIS QUENTE (La vie d'Adèle, 2013, Wild Bunch/France 2 Cinéma/Quat'sous Films, 179min) Direção: Abdellatif Kechiche. Roteiro: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix, comic book "Le bleu est une couleur chaude", de Julie Maroh. Fotografia: Sofian El Fani. Montagem: Sophie Brunet, Ghalia Lacroix, Albertine Lastera, Jean-Marie Lengelle, Camille Toubkis. Figurino: Paloma Garcia Martens. Direção de arte/cenários: Julia Lemaire. Produção: Brahim Chioua, Abdellatif Kechiche, Vincent Maraval. Elenco: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechichoue, Aurélien Recoing, Catherine Salée. Estreia: 23/5/13 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro/Festival de Cannes 2013

Nada como uma boa polêmica (ou mais de uma) para que um filme como "Azul é a cor mais quente" - que de outra forma teria sua audiência restrita a fãs de festivais de cinema e ao público alternativo de cinema de temática gay - consiga atingir o espectador médio. Vencedora da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 2013 - que pela primeira vez premiou, além do diretor, suas duas atrizes centrais - a obra de Abdellatif Kechiche provocou controvérsias que, de certa forma, eclipsaram suas inúmeras qualidades. Desde a forma como Kechiche tratou suas estrelas - de forma cruel e exaustiva, segundo as próprias - até as longas sequências de sexo - bastante gráficas e muito mais ousadas do que o que normalmente se vê no cinema mainstream, mas muito longe de ser pornográficas - tudo serviu para que até o mais desinformado frequentador das salas de exibição tivesse a curiosidade aguçada. Com esse marketing involuntário, o filme corria o sério risco de ser mais lembrado por suas cenas eróticas do que por sua história, forte e realista. É preciso, então, passada a tempestade de seu lançamento, separar o joio do trigo.

Logicamente muito do público que correu aos cinemas o fez principalmente para conferir o embate carnal entre as duas atrizes, Léa Seydoux e Adéle Exarchpoulos - cuja personagem tem seu mesmo nome para conferir mais realismo às cenas, muitas delas registradas quando a atriz não estava agindo como a personagem, nos bastidores das filmagens. Quantas pessoas desse público, porém, terão a sensibilidade suficiente para, por trás disso, enxergar o que realmente importa no roteiro, baseado no romance gráfico de Julie Maroh, que tem diferenças substanciais do filme? "Azul é a cor mais quente" é muito mais do que a história de uma adolescente descobrindo o amor através de um romance homossexual. É a história de uma mulher despertando para a vida, desesperadamente buscando um ponto de apoio sentimental e o lugar adequado para colocar o desejo. Ao contrário do apregoado pelos detratores, as cenas de sexo não são gratuitas e apelativas: elas servem perfeitamente à trama, estabelecendo desde o princípio a base carnal, passional e telúrica do relacionamento entre as duas jovens. São longas? Sim, mais do que o normalmente exibido no cinema comercial. São desconfortáveis? Depende do grau de puritanismo do espectador.


O título original do filme - "A vida de Adèle, capítulos 1 e 2" - deixa clara a intenção do diretor em contar, de forma simples e direta, episódios específicos da vida de sua protagonista, como se fosse parte de um diário. É compreensível, então, sua opção em realizar quase dois filmes em um: a primeira metade acompanha as descobertas da adolescente Adèle, que, encantada pela inteligência e charme de Emma (Léa Seydoux, que já havia trabalhado até com Quentin Tarantino, em "Bastardos inglórios" e Woody Allen, em "Meia-noite em Paris") - uma estudante de Belas Artes dona de um estiloso cabelo azul - se envolve em um relacionamento que lhe proporciona calor e prazer, ao mesmo tempo em que a insere em um mundo muito distante do seu. O romance entre as duas dá um salto na segunda metade, quando, morando juntas, elas enfrentam os problemas da rotina e a decadência do desejo. Trabalhando como professora primária, Adèle sente-se deslocada entre os amigos artistas de Emma, o que acaba resultando em uma crise quase incontornável - e o fato de ambas serem mulheres não as impede de passar pelos mesmos problemas de um casal heterossexual (surpresa! elas são seres humanos normais e dotados de sentimentos iguais aos de qualquer um na plateia!).

Mesclando suas cenas românticas com longos discursos sobre arte e filosofia - nunca forçados ou exageradamente eruditos - Kechiche conta sua história sem pressa, concentrando-se na fisionomia de Adèle Exarchpoulos para transmitir todas as sensações que pretende. A jovem atriz, por sua vez, não deixa a desejar, entregando um desempenho corajoso e cru que justifica seu prêmio em Cannes - assim como Léa Seydoux, que transmuta sua doce e sedutora Emma da primeira fase em uma mulher pragmática e madura na segunda sem precisar utilizar mais do que seu talento. A opção do diretor em ignorar momentos que poderiam ser cruciais - a saída do armário de Adèle ou a maneira com que ela revida à indiferença da parceira - fazem do filme algo ainda mais especial, por respeitar a inteligência da plateia, fugindo do lugar-comum que faria de sua obra apenas mais um produto a explorar a temática homossexual. A crueza de sua filmagem - em contraponto à delicadeza dos sentimentos expostos pelas personagens - é provavelmente o ponto alto de um filme que, mais do que controverso, é dolorosamente real. A despeito dos métodos pouco ortodoxos do cineasta, ele conseguiu um feito e tanto - e até mesmo o conservador Steven Spielberg parece concordar com isso, já que era o Presidente do Júri que deu ao filme a Palma de Ouro.

"Azul é a cor mais quente" se presta a diversas discussões - a respeito de sua estrutura, sobre os atos das personagens (que agem como pessoas normais e não arquétipos baratos), sobre a ousadia de suas cenas de sexo, sobre o retrato sem retoques do mundo gay. Mas, acima de tudo, é cinema vivo. Chacoalha, emociona e quase incomoda. Há quanto tempo um filme não fazia isso?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...