quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PAVOR NOS BASTIDORES


PAVOR NOS BASTIDORES (Stage fright, 1950, Warner Bros, 110min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Whitfield Cook, baseado no romance de Selwyn Jepson. Fotografia: Wilkie Cooper. Montagem: E. B. Jarvis. Música: Leighton Lucas. Elenco: Jane Wyman, Richard Todd, Marlene Dietrich, Michael Wilding, Alistair Sim, Patricia Hitchcock. Estreia: 15/4/50

No definitivo livro de entrevistas "Hitchcock Truffaut" (obra-prima indispensável lançada pela Cia das Letras), o mestre do suspense declara que o filme "Pavor nos bastidores", lançado em 1950, não estava entre seus preferidos, e listava uma série de defeitos que via no resultado final - e nesse rol constava a ausência de um vilão memorável, a falta de entrega da estrela Jane Wyman à sua personagem e a utilização de um artifício que ele desprezava: um flashback mentiroso.

Assistindo-se ao filme - que nem é dos mais conhecidos do cineasta inglês - é impossível negar que ele sabia o que estava falando. Todas as suas críticas em relação à obra procedem. Richard Todd é um vilão absolutamente fraco, Jane Wyman não entusiasma (e isso que vinha de um Oscar de melhor atriz, por "Belinda") e se o flashback mentiroso não chega a incomodar tanto, pelo menos poderia ter sido um pouco menos intrincado. Mas o que Hitch não disse e que fica patente em determinados momentos é a força indescritível de uma coadjuvante que faz toda a diferença. É de ficar de queixo caído sempre que a inesquecível Marlene Dietrich entra em cena. Seu carisma, sua beleza gélida, sua voz grave e suas belas pernas são de fazer com que qualquer pecado do filme atinja o tamanho de um mísero grão de areia.



A história de "Pavor nos bastidores" segue uma linha Agatha Christie de narração. A estudante de teatro Eve Gill (Jane Wyman) é apaixonada pelo misterioso Jonathan Cooper (Richard Todd), que tem um relacionamento clandestino com a famosa atriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich). Quando Jonathan a procura, pedindo ajuda para fugir da polícia, uma vez que ele é o principal suspeito da morte do marido de Charlotte, Eve resolve provar a todos sua inocência. Suspeitando da própria viúva, ela assume a falsa identidade da camareira substituta da atriz para assim desmascará-la. O único problema de seu plano surge quando ela se apaixona pelo detetive do caso, o sensível Wilfred Smith (Michael Wilding).

Hitchcock diz ainda, na entrevista a François Truffaut, que dois motivos o levaram a dirigir "Pavor nos bastidores": a influência de vários críticos literários que haviam lido o romance que deu origem ao roteiro e insistiam que era um material que serviria perfeitamente a seu estilo e a vontade de dirigir um filme que se passasse nos bastidores do teatro. O primeiro motivo ele mesmo reconheceu ter sido um equívoco. O segundo também não é exatamente forte - mesmo porque, no mesmo ano, "A malvada", de Joseph L. Manckiewicz falaria do assunto com muito mais propriedade. Mas "Stage fright", ainda que não seja uma obra-prima como vários dos trabalhos do pai de "Psicose" e "Os pássaros" tem momentos de quase genialidade - um exemplo claro é a armadilha em que a personagem de Marlene cai, já no terço final de projeção.

É inegável que a primeira parte de "Pavor nos bastidores" é bastante superior à sua segunda metade: a definição da trama é interessante e o suspense genuíno, em contrapartida ao final anêmico e anticlimático. Dietrich - mesmo não sendo propriamente uma grande atriz dramática - segura muito bem a audiência, mas o mesmo não pode ser dito de uma indiferente Wyman, um nada simpático Richard Todd e um apático Michael Wilding (que, casado com Elizabeth Taylor à época, logo morreria em um trágico acidente de avião). Ainda assim, assistir a um Alfred Hitchcock "menor" ainda é uma experiência a ser degustada com grande prazer.

3 comentários:

Luis Fabiano disse...

Olá, Clenio... Que bacana contar com a sua atenção, a viagem foi ótima, mas já estou de volta e me interando do que anda rolando na bloguesfera. O Post sobre meu encontro emocionante com Dona Canô vou deixar mais pra frente, porque quero fazer algo especial, mas não devo demorar muito. Gostei bastante da forma como vc escreve, vai linkando as informações e isso deixa o texto rico e gostoso de ler. Parabéns. Bacana o Hitchcock ter reconhecido um erro, né? Geralmente os diretores tem uma postura mais rígida em relação à auto-crítica. Enfim, obrigadão mesmo pela visita! Abração!!! E o Oscar está chegando...

Rodrigo Mendes disse...

sabe qual outro filme do Hitchcock "menor" que adoro?

"FRENEZI"..é uma delícia, bizarro e engraçado.

Um gênio até para fazer filmetes!

Abs!

Cristiano Contreiras disse...

Muito bom o blog!
Nem me avisou, hein?