quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

POSSESSÃO

POSSESSÃO (Possession, 2002, USA Films/Warner Bros, 102min) Direção: Neil Labute. Roteiro: David Henry Hwang, Laura Jones, Neil LaBute, romance de A.S. Byatt. Fotografia: Jean-Yves Scoffier. Montagem: Claire Simpson. Música: Gabriel Yared. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Len Amato, David Barron. Produção: Barry Levinson, Paula Weinstein. Elenco: Gwyneth Paltrow, Aaron Eckhart, Jeremy Northam, Jennifer Ehle, Lena Headey. Estreia: 16/8/02

Quem diria? Neil LaBute, o responsável pela misoginia em estado puro de "Na companhia de homens", também tem um coração e sabe falar de amor... Diferente de todos os seus trabalhos anteriores - e a lista inclui o chato "Seus vizinhos, seus amigos" e a brilhante comédia "A enfermeira Betty" - o drama romântico "Possessão", baseado em um livro de A.S. Byatt, não apenas costura duas histórias de amor separadas por gerações mas também dá ao ator-fetiche de LaBute, o competente Aaron Eckhart, a chance de mostrar seu lado galante e sedutor sem ter que utilizar de seu charme cafajeste. Fracasso de bilheteria nos EUA (onde arrecadou menos da metade de seu orçamento relativamente pequeno de 25 milhões de dólares), é um filme com personagens reprimidas e aprisionadas a suas próprias regras de conduta. Não é exatamente o tipo de romance que os fãs de Meg Ryan consideram popular.


A despeito do título - idêntico ao do elogiado francês estrelado por Isabelle Adjani em 1981 - "Possessão" não é um filme de terror e nem ao mesmo flerta com qualquer ideia de reencarnação ou ideias afins. O roteiro apresenta ao público duas relações amorosas aparentemente sem maiores ligações que convergem para um final que equilibra o feliz com o melancólico. Eckhart está à vontade como Roland Michell, um americano com ambições de tornar-se um nome respeitado junto aos acadêmicos de literatura britânicos. Em uma pesquisa quase banal, ele dá de cara com um conjunto de cartas de amor escritas pelo poeta Randolph Ash (Jeremy Northam) na era vitoriana. O conteúdo das cartas leva Roland a suspeitar que a destinatária de tal dedicação não era a esposa de Ash mas sim outra poeta de renome, Christabell LaMotte (Jennifer Ehle). Para provar sua teoria, ele procura uma especialista na escritora, a inglesa Maude Bailey (Gwyneth Paltrow), que a princípio desacredita no romance por saber que Christabella tinha uma relação com outra mulher, a possessiva Blanche Glover (Lena Headey). Quando as investigações avançam e o relacionamento entre os dois poetas se transforma de uma possibilidade em uma certeza, os dois estudiosos acabam por perceber que também estão se apaixonando.



Neil LaBute consegue, em "Possessão", unir duas maneiras aparentemente conflitantes de narrativa sem tornar-se confuso ou incoerente. Enquanto investiga a trágica e romanesca relação entre Ash e Christabella ele se serve de todo a tonalidade dramática que a trama exige, usando e abusando da trilha sonora claustrofóbica de Gabriel Yared para sublinhar a sensação de sufocamento que o amor impossível entre os dois causa a eles e àqueles a seu redor. Quando concentra sua atenção no titubeante romance entre Roland e Maude, porém, ele dá à fotografia e à direção de arte tons menos quentes e mais sóbrios, com o objetivo de reiterar a distância imposta pela britânica em relação ao americano, a quem ela considera alguém inferior culturalmente (suposição que se torna cada vez mais forte conforme ele vai mostrando suas atitudes pouco éticas mas muito passionais em relação ao objetivo de sua busca). Talvez essa frieza seja um tanto excessiva (mas muito bem representada por Paltrow, com um belo sotaque em cena) a ponto de fazer com que a química entre a atriz e Aaron Eckhart não seja tão poderosa quanto deveria, mas de certa forma serve de contraponto ao vulcão prestes a explodir entre os dois poetas vitorianos. É quase como se o roteiro quisesse dizer que os dois modernos, jovens e atraentes pesquisadores do século XXI não sabem aproveitar a sorte que tem de poder viver sua história sem devastar as vidas de outras pessoas.

O fracasso de "Possessão" não foi justo. É um romance elegante, sofisticado e adulto que merecia mais sorte e menos críticas negativas. Tem defeitos, sim (e eles são nítidos, em especial quando se percebe a quase falta de jeito de seu diretor em abraçar a tragédia), mas levando-se em consideração a péssima qualidade da maioria dos filmes que tentam conquistar o público através de amores proibidos (quase sempre apelando para os mais vergonhosos clichês), eles são ínfimos. É difícil não se emocionar com o belo final (que proporciona à audiência uma pequena surpresa) e é sempre um prazer ver Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart em cena.

2 comentários:

renatocinema disse...

Alguns amigos que assistiram ao filme concordam com a sua ideia de que o fracasso do filme não foi justo.

Vou assistir para concordar.....ou não.

Abraços

meroSmero disse...

Adorei seu blog e o filme, obrigada!