quinta-feira

SEGUNDA CHANCE


SEGUNDA CHANCE (En chance til, 2014, Zentropa Entertainments, 102min) Direção: Susanne Bier. Roteiro: Susanne Bier, Anders Thomas Hansen. Fotografia: Michael Snyman. Montagem: Pernille Bech Christensen. Música: Johann Soderqvist. Figurino: Signe Sejlund. Direção de arte/cenários: Giles Balabaud, Louise Lonborg, Jacob Stig Olsson. Produção: Sisse Graum Jorgensen. Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Nikolaj Lie Kaas, Ulrich Thomsen, Thomas Bo Larsen, Roland Moller, Maria Bonnevie, Peter Haber, Ewa Froling. Estreia: 09/9/2014 (Festival de Toronto)

Comparada com as misérias com que tem contato em sua rotina como policial, o correto Andreas (Nikolaj Coster-Waldau) leva uma vida invejável: casado e pai de um recém-nascido, ele ainda encontra tempo para impedir seu parceiro de trabalho, Simon (Ulrich Thomsen), de seguir de vez o caminho da autodestruição, o qual vem seguindo desde o divórcio. A existência relativamente pacata de Andreas sofre um baque quando duas situações aparentemente distintas surgem à sua frente. Primeiro, ele e Simon encontram, durante uma batida policial no apartamento de um jovem casal viciado em drogas, um bebê em péssimas condições de higiene e correndo o risco iminente de ser esquecido pelos pais. Depois, ele  começa a perceber em sua esposa, Anna (Maria Bonnevie), sintomas de uma grave depressão pós-parto que o obriga a assumir com mais constância seu papel de pai. Os dois bebês, se tornarão, então, os catalisadores de uma tragédia inevitável.

Fosse fruto de um estúdio hollywoodiano, a trama descrita acima certamente apostaria no melodrama mais explícito, buscando as lágrimas do espectador e evitando qualquer tipo de discussão mais profunda. Felizmente não é o caso: "Segunda chance" é uma produção dinamarquesa, e assinada por Susanne Bier - vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro por "Em um mundo melhor", de 2010 - evita o sentimentalismo barato ao imprimir, em cada cena e em cada interpretação de seu elenco, um tom de urgência e angústia que mergulha a plateia em uma ciranda de dor e choque que apenas os grandes filmes conseguem apresentar com sobriedade. Dotado de um ritmo que reflete o turbilhão emocional de seus personagens, "Segunda chance" ainda tem a vantagem de contar com um elenco brilhante, no qual se destacam Nikolaj Coster-Waldau (da aclamada "Game of thrones") e Maria Bonnevie: como um casal que vê sua estabilidade emocional ruir de uma hora para outra, os dois atores entregam performances fortes, que colaboram com a sensação quase incômoda da produção. É preciso também louvar também o desempenho da jovem May Anderson, modelo sem experiência como atriz que, nas mãos hábeis de Bier, se transforma em uma intérprete poderosa, que em nada fica devendo a seus colegas com mais tempo de carreira.

 

 

Sem medo de soar pessimista, Susanne Bier (que também escreveu o roteiro, em quatro mãos com Anders Thomas Hansen) aponta sua câmera para um lado sórdido da Dinamarca, com seus problemas sociais invadindo sem cerimônia o mundo aparentemente mais seguro das classes menos vulneráveis. Sua trama empurra o público para uma discussão sobre ética e sobre como as noções de certo e errado podem estar sujeitas a interpretações pessoais e/ou por conveniência. O roteiro não poupa seus personagens e os mostra sob uma ótica complexa o suficiente para impedir qualquer tipo de maniqueísmo - algo que a cineasta sabe fazer com maestria, haja visto seu filme premiado com o Oscar. Apesar de contar sua história sob o ponto de vista de um homem, é inegável que há um toque feminino em sua condução: as mulheres, em seu filme, podem até parecer frágeis, mas são elas, de uma forma ou outra, que servem como catalisadoras do turbilhão que as envolve - e a seus maridos. Andreas pode ser o protagonista absoluto do filme, mas ele, assim como todos a seu redor, está preso em uma armadilha cujas consequências poderão ser avassaladoras. A balança moral proposta pelo filme chega ao máximo da ironia quando o policial toma atitudes que se poderiam esperar dos marginais que prende, mas não de um homem da lei: ao nivelar-se àqueles com quem batia de frente, Andreas descobre, da pior maneira possível, que nem sempre o discurso corresponde à realidade.

"Segunda chance" não é um filme para quem se contenta com dramas inócuos e sentimentaloides. É uma obra dura, seca e que atinge o espectador em suas crenças mais profundas, e deixa, ao final da sessão, uma sensação de desconforto e tristeza. Mas justamente por ousar fugir do lugar-comum, se apresenta como uma produção obrigatória, daquelas que permanecem na memória do público muito tempo depois de seu término. É (mais) uma pequena obra-prima de Susanne Bier.

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