segunda-feira

ASSASSINATO NUM DIA DE SOL


ASSASSINATO NUM DIA DE SOL (Evil under the sun, 1982, Universal Pictures, 117min) Direão: Guy Hamilton. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Richard Marden. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, Colin Blakely, Jane Birkin, Nicholas Clay, Maggie Smith, Roddy McDowall, James Mason, Sylvia Miles, Diana Rigg, Denis Quilley, Emily Hone. Estreia: 25/01/82 (Festival de Manilla)

Encorajados pelo sucesso de "Assassinato no Expresso Oriente" (1974) - que deu o Oscar de atriz coadjuvante a Ingrid Bergman e ainda concorreu a outras cinco estatuetas da Academia -, os produtores John Brabourne e Richard Goodwin descobriram um filão dos mais rentáveis: adaptações caprichadas de obras de Agatha Christie, a rainha do romance policial. Foi assim que surgiram "Morte sobre o Nilo" (1978), "A maldição do espelho" (1980) e "Assassinato num dia de sol", lançado em 1982. Ao contrário de seus antecessores, porém, a segunda personificação de Peter Ustinov como o célebre detetive Hercule Poirot (de um total de seis) não atingiu as expectativas: não apenas fracassou em termos comerciais, com uma bilheteria bem aquém do esperado, como não repercutiu como o esperado junto à crítica e às cerimônias de premiação. Talvez por ser a transposição de um livro não tão famoso da autora, talvez por ser a menos ambiciosa das adaptações da série - sem nenhum nome estelar no elenco -, o filme sofre também de um ritmo pouco envolvente e personagens pouco carismáticos, mas ainda assim tem o charme inegável das tramas da escritora inglesa.

Com algumas pequenas alterações que não chegam a desfigurar a obra original - como a mudança de cenário (da Inglaterra para uma ilha banhada pelo Mar Adriático), a fusão de dois personagens em um e a mudança de gênero de outro - e a direção elegante de Guy Hamilton (também responsável por "A maldição do espelho"), "Assassinato num dia de sol" apresenta, em sua concepção, todos as marcantes características de Agatha Christie, que vão desde locações exóticas e personagens pouco confiáveis até uma resolução surpreendente - ainda que rocambolesca em excesso. A figura de Hercule Poirot, sua criação mais notável e popularmente conhecida, encontrou em Peter Ustinov a encarnação perfeita - mais até do que aquela forjada por Albert Finney em "Assassinato no Expresso Oriente" e anos-luz à frente da caricatura engendrada por Kenneth Branagh em suas duas (até agora) incursões no universo do detetive - e os suspeitos do crime imaginado pela romancista formam uma deliciosa seleção de milionários fúteis, serviçais abelhudos e uma vítima fácil de detestar: elementos que constroem uma estrutura sólida, amplamente celebrada pelos fãs do gênero e fielmente reconstituída por Hamilton e sua equipe.


 

A trama urdida por Christie e adaptada por Anthony Shaffer - também autor do roteiro de "Morte sobre o Nilo" - começa quando o veterano detetive Hercule Poirot é contratado, por uma seguradora, para investigar o caso de um diamante falsificado que ele descobre estar nas mãos do milionário Horace Blatt (Colin Blakely). Blatt está em lua-de-mel com Arlena Marshall (Diana Rigg), uma atriz aposentada, em uma idílica ilha no litoral do Mar Adriático, e é para lá que Poirot embarca, às custas de seus empregadores. O hotel onde Blatt e Marshall estão é de propriedade de Daphne Castle (Maggie Smith), que no passado abandonou a carreira artística e ainda tenta superar a rivalidade com a nova hóspede - que tampouco é benquista pelos demais visitantes do local. Quando Marshall é encontrada morta na praia, a Poirot caberá elucidar o crime: além do viúvo e da própria Daphne, também são suspeitos um casal de empresários do meio teatral - Odel e Myra Gardener (James Mason e Sylvia Miles) -, o autor de uma biografia não autorizada sobre a vítima - Rex Brewster (Roddy McDowall) - e um jovem casal em crise devido ao romance extraconjugal do marido - Patrick e Christine Redfern (Nicholas Clay e Jane Birkin).

"Assassinato num dia de sol" sofre principalmente de um ritmo claudicante, que, ao contrário das adaptações anteriores da dupla de produtores, falha ao criar a atmosfera de suspense necessária a um gênero que depende basicamente dela. Não ajuda também que as pistas que levam à resolução do crime sejam jogadas de forma tão morna - da mesma forma que o clímax, que nem de longe reflete os melhores momentos da autora do romance original. A própria solução do assassinato soa um tanto difícil de engolir, tamanho o excesso de reviravoltas e detalhes, e o elenco, apesar de talentoso, é mal aproveitado por Hamilton, que parece mais interessado em explorar as belas paisagens do que desenvolver os personagens - e, por consequência, torná-los importantes para o espectador. Peter Ustinov brilha como Hercule Poirot, assim como Maggie Smith como a dona do hotel (personagem que é uma amálgama de dois personagens do livro) e Jane Birkin como a sofrida e frágil Christine Redfern, uma mulher vitimizada pelos maus-tratos do marido adúltero. Porém, falta mais consistência à trama (ou à maneira com que foi traduzida para as telas) e nem tudo sai com a excelência esperada em uma produção de Bradbourne e Goodwin. Mesmo assim, é um entretenimento luxuoso, muito bem embalado e muito mais eficiente do que as modernizações vergonhosas realizadas por Kenneth Branagh e seu egocentrismo.

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