sexta-feira

MATADORES DE VELHINHA

 


MATADORES DE VELHINHA (The ladykillers, 2004, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, filme original de William Rose. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Ethan Coen, Joel Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Tom Jacobson, Barry Josephson, Barry Sonnenfeld. Elenco: Tom Hanks, Irma P. Hall, Marlon Wayans, J.K. Simmons, Tzi Ma, Ryan Hurst, George Wallace. Estreia: 26/3/2004

Poucos cineastas hollywoodianos - tão propensos à autocensura para melhor caberem nos ditames da indústria - são capazes de forjar seu estilo de forma tão marcante quanto Joel e Ethan Coen. Desde sua chegada ao mundo do cinema, com "Gosto de sangue" (1984), uma releitura original e criativa dos filmes noir, a dupla de irmãos transitou entre gêneros variados - comédia, policial, musical - sempre deixando em cada filme sua marca autoral, facilmente reconhecível por fãs e jornalistas. Como prova da força de seu estilo, em 2004 eles adentraram em uma nova seara - os remakes - sem abandonar nem por um minuto a personalidade de sua filmografia. Releitura da comédia britânica "Quinteto da morte", estrelado por Peter Sellers e Alec Guinness em 1955, "Matadores de velhinha" não chegou a ser uma unanimidade por parte da crítica mas tampouco decepcionou em termos de bilheteria mundial - rendeu mais que o premiado "Fargo" (1996), por exemplo. Contando com a presença de Tom Hanks (certamente um dos motivos de sua razoável receptividade) e abusando sem medo do humor sombrio que tanto lhes agrada, o filme não é um dos maiores destaques na carreira dos Coen, mas apresenta, em seus melhores momentos, tudo aquilo que faz deles os queridinhos de parte da plateia menos tradicional. 

O roteiro de "Matadores de velhinha" - escrito, como de costume, pelos próprios irmãos -, transfere a ação do filme original de Londres para uma pequena cidade do Mississipi, local de um cassino cuja renda é o objeto de desejo de uma gangue que planeja o crime perfeito. O líder do grupo é o excêntrico Goldthwaite H. Dorr (Tom Hanks), que bate à porta da devotada Marva Munson (Irma P. Hall) para pedir a ela que alugue seu amplo porão. Sob o pretexto de usar o lugar como espaço de ensaios para seu grupo musical, Dorr é aceito pela pouco paciente Sra. Munson, que nem de longe desconfia das reais intenções de seu inquilino e seus amigos. Sendo assim, a casa da velha senhora passa a ser frequentada por tipos no mínimo estranhos, cada um com sua missão dentro do plano criminoso: Lump (Ryan Hurst), um jovem e burro jogador de futebol americano; o General (Tzi Ma), experiente em túneis; Garth Pancake (J.K. Simmons), especialista em explosivos e Gawain (Marlon Wayans), que trabalha infiltrado no cassino para passar informações aos companheiros. Conforme a data do roubo vai se aproximando, porém, as coisas começam a dar errado - e eliminar a proprietária da casa passa a ser uma possibilidade real.

 

Trocando o fino humor inglês pela ironia quase absurda, o roteiro de "Matadores de velhinha" encontra na direção afiada dos Coen um de seus maiores trunfos. Apesar da demora em engrenar, a trama vai se tornando cada vez mais repleta de situações bizarras e inesperadas, um prato cheio para a criatividade dos cineastas. Se Tom Hanks soa um tanto exagerado - ainda que dentro da proposta do filme -, o elenco coadjuvante brilha sem muito esforço, em especial a ótima Irma P. Hall, que faz se sua Marva Munson uma personagem das mais surpreendentes. Explorando ao máximo a fotografia de seu colaborador habitual, Roger Deakins - que cria sequências ao mesmo tempo belas e extremamente eficientes em sua forma de contar a história -, os diretores parecem brincar com as expectativas do público ao mesmo tempo que demonstram pleno domínio de seu ofício ao conduzir a trama por caminhos cada vez mais inusitados. Nem tudo funciona - algumas (poucas) situações soam um tanto deslocadas -, mas é perceptível o cuidado com cada detalhe da produção, desde o visual impecável até a escalação do elenco, ao mesmo tempo coeso e heterogêneo. 

Dono de algumas sequências hilariantes e diálogos que exploram com inteligência as diferenças culturais e sociais entre seus personagens, "Matadores de velhinha" é um dos filmes menos celebrados de Ethan e Joel Coen, cujo trabalho seguinte, "Onde os fracos não tem vez" (2007), sairia da cerimônia do Oscar com quatro estatuetas - incluindo melhor filme, direção e roteiro. Ao imprimir sua assinatura mesmo na refilmagem de um clássico do humor britânico, os cineastas comprovaram, mais uma vez, uma personalidade rara dentro de uma indústria pouco afeita a novidades. Não é seu melhor filme, mas é muito acima da média do cinema comercial de Hollywood - e um dos menos celebrados desempenhos de Tom Hanks (corajosamente indo contra a sua imagem popular). E não envergonha, nem de longe, o legado da dupla.

quinta-feira

O ANJO MALVADO

 


O ANJO MALVADO (The good son, 1993, 20th Century Fox, 87min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ian McEwan. Fotografia: John Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Daniel Rogosin, Ezra Swerdlow. Elenco: Macaulay Culkin, Elijah Wood, David Morse, Wendy Crewson, Daniel Hugh Kelly, Jacqueline Brookes. Estreia: 15/9/93

Poucos astros de cinema eram tão poderosos, no começo dos anos 1990, do que Macaulay Culkin. Diminuto em tamanho mas gigante em termos comerciais desde que "Esqueceram de mim" rendeu inacreditáveis 476 milhões de dólares pelo mundo todo, o ator-mirim era um dos nomes mais quentes do mercado, capaz de tornar uma produção despretensiosa como "Meu primeiro amor" em um sucesso de bilheteria apenas por estar em seu elenco. Como nem tudo eram flores, no entanto, para contar com o garoto em seus filmes, os estúdios precisavam lidar com uma questão delicada (para dizer o mínimo) chamada Kit Culkin: pai do prodígio que encheu os cofres da 20th Century Fox (e do próprio clã) de dinheiro, Kit transformou-se, em poucos anos, em persona non grata dentro da indústria, devido a exigências descabidas, ganância e ataques de estrelismo. Para deixar que seu filho assinasse o contrato para uma sequência de "Esqueceram de mim", por exemplo, o pouco simpático pai de família exigiu que o estúdio desse a ele o papel principal de "O anjo malvado", suspense que seria dirigido por Michael Lehmann - de "Atração mortal" (1988) e "Feito cães e gatos" (1996). Ciosos de suas finanças, os executivos aceitaram a imposição, viram Lehmann abandonar o projeto por conflitos com Kit - e ser substituído por Joseph Ruben - e acabaram por não se queixar quando o filme fez uma razoável carreira nas salas de exibição graças à presença da criança mais popular da época. Na verdade, com sua estreia quase um ano depois de "Esqueceram de mim: perdido em Nova York", "O anjo malvado" tornou-se o último sucesso de Macaulay, que logo em seguida entrou em diversos projetos ambiciosos e fracassados - por obra e mérito de seu genitor, que viu sua galinha de ovos de ouro perder o brilho a cada nova polêmica. 

"O anjo malvado" é uma produção corriqueira e banal, que, não fosse a presença de Culkin no auge de sua popularidade, passaria em branco e se tornaria - como mais tarde aconteceu - um sucesso nas videolocadoras e nas sessões da madrugada nas emissoras de televisão. Apesar do final instigante, é um filme que não ousa nem em sua narrativa (simples e previsível) e tampouco vai fundo no que se propõe: talvez por medo de chocar o público cativo de Macaulay Culkin, a obra de Ruben jamais ultrapassa os limites mais básicos dos filmes do gênero, entregando apenas o que agrada ao espectador médio, que rejeita a violência extrema e se contenta com um susto ou outro sustentado pela trilha sonora - algo que o próprio Ruben já havia oferecido em outro êxito comercial eficiente mas esquecível, "Dormindo com o inimigo", estrelado por uma Julia Roberts em franca ascensão, em 1991. Ao fazer de seu vilão uma criança, o roteiro até tenta mudar um pouquinho as regras do jogo, mas esbarra justamente nas limitações éticas de tal escolha (não se pode esquecer de certa caretice do cinema de Hollywood, que jamais permitiria o aprofundamento do tema em uma produção claramente comercial) e, pasmem, é prejudicado por aquele que, em tese, seria seu maior trunfo: carismático e encantador em "Esqueceram de mim", Macaulay Culkin revela, em "O anjo malvado", que nem todo o carisma do mundo é capaz de disfarçar uma atuação apática. Perto de seu colega de cena, Elijah Wood, o arrimo da família Culkin demonstra, sem espaço para dúvidas, de que nem tudo que reluz é ouro.


O filme de Ruben começa com a precoce morte da mãe do pequeno Mark (Elijah Wood), que, logo em seguida, se vê sem a presença do pai, que viaja a negócios para o Japão. Hospedado na casa dos tios e ainda abalado com a inesperada perda, o garoto não demora a fazer amizade com o primo, Henry (Macaulay Culkin), com quem regula em idade. Aos poucos, porém, Henry começa a demonstrar um comportamento violento e dissimulado, capaz de atos que vão da maldade mais banal até a extrema periculosidade. Desconfiado de que o menino pode ter sido responsável até mesmo pela morte do irmão pequeno, afogado durante o banho, Mark tenta alertar todos à sua volta, mas seus avisos passam a ser considerados parte do trauma familiar - e, se utilizando de seu poder de manipulação infantil, Henry leva os pais a acreditarem que o primo tem um lado sombrio e perigoso. As coisas ficam ainda mais complicadas quando Mark chega à conclusão de que o ciúme doentio de Henry em relação à mãe podem levar a um desenlace trágico e irreversível.

Dirigido burocraticamente por Joseph Ruben - um cineasta sem nada de espetacular no currículo mas razoavelmente capaz de manter o interesse do público menos exigente -, "O anjo malvado" carece principalmente de profundidade. Por mais que o roteiro tente acrescentar camadas psicanalíticas à personalidade do psicopata mirim vivido por Macaulay Culkin, tudo soa pasteurizado e preso às limitações daquilo que é, na verdade, um produto com ambições mais comerciais do que artísticas. O elenco adulto - cujo nome mais reconhecível é o de David Morse - pouco tem a fazer com os diálogos recheados de clichês e personagens sem nenhum desenvolvimento além do básico. É chocante, diante disso, descobrir que por trás deles está Ian McEwan, brilhante escritor britânico que faria sucesso anos depois com o sublime "Reparação": uma prova inconteste de que, em muitos casos, Hollywood sufoca grandes talentos para que melhor caibam em seus objetivos medíocres.

quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

terça-feira

MELINDA E MELINDA


MELINDA E MELINDA (Melinda and Melina, 2004, Fox Searchlight Pictures, 99min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem,: Alisa Lepselter. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Radha Mitchell, Chloe Sevigny, Jonny Lee Miller, Will Ferrell, Amanda Peet, Wallace Shawn, Brooke Smith, Steve Carrell, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin. Estreia: 17/9/2004 (Festival de San Sebastian)

A carreira de Woody Allen é repleta de altos e baixos. Para cada "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Crimes e pecados", ele entrega produções pouco memoráveis como "Trapaceiros" e "Dirigindo no escuro" - que, por mais simpáticas que sejam, estão longe de seu auge criativo. "Melinda e Melinda", lançado em 2004, infelizmente faz parte do rol de seus trabalhos menos brilhantes. Com um roteiro pouco inspirado (escrito em um mês) e um elenco de bons atores subaproveitados, seu 33° longa falha tanto no drama quanto na comédia - e sim, sua estrutura é totalmente baseada nessa dicotomia que é, a rigor, o centro da obra do cineasta nova-iorquino. Prejudicado ainda pela falta de carisma de Radha Mitchell - que substituiu Winona Ryder em um momento complicado junto aos investidores -, o filme foi solenemente ignorado pelas cerimônias de premiação e, apesar do potencial de sua ideia central, é frustrante e apático (o que raramente pode ser dito de uma produção do diretor).

Como em quase todos os filmes de Allen, "Melinda e Melinda" usa e abusa de diálogos rápidos, com personagens que transitam no sofisticado mundo cultural e social de sua filmografia - mas que aqui soa um tanto pedante, sem a autocrítica de seus melhores trabalhos. O ponto de partida da trama é uma discussão aparentemente banal a respeito da superioridade do drama em relação à comédia - talvez uma cutucada do cineasta quanto à sempre relevante polêmica que relega produções mais leves ao limbo das premiações e do prestígio da indústria. Max (Larry Pine) é um dramaturgo especializado em tragédias e seu amigo, Sy (Wallace Shawn), é famoso por suas comédias. Durante um jantar ao lado de outros amigos, surge a questão sobre qual dos gêneros teatrais melhor sintetiza a natureza humana. Como uma espécie de exercício de imaginação, Al conta ao grupo a história de Melinda Robicheaux (Radha Mitchell), uma mulher problemática que surge inesperadamente à porta de um casal de amigos durante um importante jantar de negócios. Separada do homem por quem terminou um casamento e com um histórico de tentativas de suicídio, Melinda transforma, mesmo involuntariamente, a vida daqueles que entram em seu caminho, e não é diferente em sua nova fase. 

 

A chegada de Melinda ao lar de Laurel (Chloe Sevigny) e Lee (Jonny Lee Miller) acontece durante um jantar oferecido a um produtor teatral que pode escalar o jovem para uma de suas próximas peças. Passando a morar com o casal, Melinda tenta firmar-se na vida procurando emprego e um novo amor - que pode surgir na figura do músico Ellis Moonsong (Chiwetel Ejiofor), caso a própria Laurel não se descubra interessada no rapaz. Em outra versão da história, Melinda interrompe o jantar de seus vizinhos Hobie (Will Ferrell) e Susan (Amanda Peet) - uma cineasta que busca investidores para seu novo filme, no qual ela espera poder empregar o marido. Passando por uma crise no casamento, Hobie se vê atraído por Melinda - que, por sua vez, vê no bem-sucedido Greg Earlinger (Josh Brolin) a última chance de uma vida relativamente normal. Enquanto a primeira Melinda tem sua história contada por um viés dramático, a segunda é apresentada com um tom de humor - ainda que bastante sutil.

O principal problema de "Melinda e Melinda" é sua incapacidade de criar qualquer tipo de empatia por sua personagem central - uma questão que mina completamente sua ambição de emocionar ou fazer rir. Apesar de escolhida pelo próprio Woody Allen depois de seu trabalho em "Ten tiny love stories" (2002), Radha Mitchell não encontra o tom certo em seu desempenho, não oferecendo diferenças entre a Melinda dramática e a cômica - mesmo contando com atores como Will Ferrell e Steve Carell, seu timing de comédia fica muito aquém do esperado, o que torna sua personagem apenas desinteressante e cansativa. Conhecido também por conceber personagens coadjuvantes marcantes - e frequentemente premiados ou indicados ao Oscar -, dessa vez Allen falhou em criar papéis fortes o bastante para sustentar uma história frágil por si só. Para sua sorte (e dos fãs), seu projeto seguinte seria o extraordinário "Match point: ponto final", que lhe devolveria o prestígio e o sucesso de seus melhores filmes.

 

segunda-feira

MORRA, SMOOCHY, MORRA


MORRA, SMOOCHY, MORRA (Death to Smoochy, 2002, Warner Bros/FilmFour, 109min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Adam Resnick. Fotografia: Anastas N. Michos. Montagem: Jon Poll. Música: David Newman. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Enrico Campana. Produção: Andrew Lazar, Peter Macgregor Scott. Elenco: Robin Williams, Edward Norton, Catherine Keener, Danny DeVito, Jon Stewart, Pam Ferris, Harvey Weinstein. Estreia: 28/02/2002

A carreira de Danny DeVito como diretor trai, sem sombra de dúvida, um apreço pelo lado sombrio da vida. Foi assim em sua estreia, "Joga a mamãe do trem" (1987), no sucesso "A guerra dos Roses" (1989), e até mesmo no infantil "Matilda" (1996) - sem falar na cinebiografia "Hoffa: um homem, uma lenda" (1992), onde falou sério pela primeira vez em sua trajetória como diretor. Tendo em vista seu currículo e sua tendência ao humor mórbido, portanto, não chega a ser surpresa que ele tenha assinado "Morra, Smoochy, morra", o inusitado encontro entre Robin Williams e Edward Norton que fracassou nas bilheterias e desconcertou boa parte da crítica. Uma mistura nem sempre eficiente entre comédia e suspense, o filme ensaia uma crítica à indústria do entretenimento infantil e à obsessão pela fama, mas falha em seu principal objetivo: conquistar o espectador. Por vezes exagerado e desnecessariamente confuso - e quase indeciso em sua mescla de gêneros, o filme de DeVito parte de uma premissa interessante e parece não saber exatamente o que fazer com ela. Para sua sorte, conta com o talento mais do que comprovado de seus atores centrais (especialmente Norton, raramente visto em comédias).

Tudo começa quando Randolph Smiley (Robin Williams), popular apresentador de um programa de televisão direcionado ao público infantil, é demitido graças a seu recém descoberto costume de aceitar suborno para privilegiar algumas crianças em detrimento de outras. Sua saída da programação abre espaço, então, para a chegada de Sheldon Mopes (Edward Norton), contratado para, com seu personagem Smoochy - um rinoceronte cor-de-rosa -, preencher o horário na programação. Idealista, ingênuo e bem-intencionado, Sheldon nem de longe imagina que, apesar das promessas da emissora, ele não passa de uma peça em uma vasta engrenagem comercial. Enquanto tenta transmitir mensagens positivas e educativas em seu programa, nos bastidores ele é visto apenas como objeto de marketing - algo que a executiva Nora Wells (Catherine Keener) tenta esconder a todo custo. Não bastasse tal ruído na comunicação, Sheldon passa a ser o alvo de Randolph, que, obcecado por ter sido substituído, arma diversas formas de acabar com seu rival - nem que seja através de assassinato.

 

Considerado o pior filme de 2002 pelo respeitado crítico Roger Ebert, "Morra, Smoochy, morra" é, realmente, uma produção bastante problemática. Nem mesmo Robin Williams - que ficou com o papel depois que Jim Carrey preferiu fazer o igualmente pouco celebrado "Cine Majestic" - é capaz de dar consistência a um roteiro indeciso, que impede o público de ter qualquer tipo de empatia por seus protagonistas - seja ele qual for. Danny DeVito, que já alcançou bons resultados em produções anteriores, aqui demonstra ter perdido a mão em suas tentativas de fazer rir de situações aparentemente dramáticas e/ou trágicas, entregando soluções pouco efetivas para os conflitos e apostando em um visual carregado de cores que contrastam com o tom escuro da trama.e causam mais estranhamento que admiração. É perceptível, no entanto, a entrega de Edward Norton a um personagem atípico em sua carreira: na pele do ingênuo Sheldon Mopes - cujo otimismo e positividade chegam a irritar ao mais feliz dos seres humanos -, o ator consegue destacar-se mesmo estando ao lado de um craque do humor como Williams. E Catherine Keener também surpreende, dando dignidade a uma personagem cujos objetivos e reais intenções estão sempre no limiar entre a honestidade e o cinismo.

Tornado cult com o passar do tempo - algo que normalmente acontece quando uma produção encontra um público disposto a abraçá-la a despeito (ou justamente por causa) de seus equívocos -, "Morra, Smoochy, morra" passou à história como um passo em falso no currículo de seus astros, acostumados ao sucesso e ao prestígio de boa parte de suas trajetórias. Pouco lembrado mesmo pelos maiores fãs de Williams e Norton, também machucou a carreira de Danny DeVito - que só voltaria à cadeira de diretor cinco anos mais tarde com "Duplex" - mais um exemplar de seu humor sombrio, mas dessa vez iluminado pelas presenças de Ben Stiller e Drew Barrymore. Uma comédia que não consegue sustentar a contento sua piada única, "Morra, Smoochy, morra" mergulha no camp - mas não é capaz de assumir completamente sua aura trash.

 

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...