sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (The curious case of Benjamin Button, 2008, Warner Bros/Paramount Pictures, 166min) Direção: David Fincher. Roteiro: Eric Roth, conto de F. Scott Fitzgerald. Fotografia: Claudio Miranda. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Victor J. Zolfo. Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Tilda Swinton, Julia Ormond, Elias Koteas. Estreia: 25/12/08

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Fincher), Ator (Brad Pitt), Atriz Coadjuvante (Taraji P. Henson), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais

Um dos mais inventivos e inteligentes cineastas americanos surgidos a partir da década de 90, o americano David Fincher - egresso da indústria do videoclipe, onde assinou trabalhos célebres como "Freedom '90", de George Michael e "Vogue", de Madonna - demorou a ser reconhecido pela Academia de Hollywood, a despeito do prestígio de filmes como "Seven, os sete crimes capitais" e "Clube da luta", ambos estrelados por Brad Pitt e que obtiveram receptividade antagônicas junto à plateia - enquanto o primeiro tornou-se um grande sucesso, a adaptação do anarquista livro de Chuck Palahniuk tornou-se cult movie junto a uma parcela injustamente pequena dos fãs de cinema. Ignorado mesmo pelo excelente "Zodíaco", um drama policial que contava a busca por um dos assassinos seriais mais famosos dos EUA, Fincher só recebeu sua primeira indicação ao Oscar por "O curioso caso de Benjamin Button", filme livremente inspirado no célebre conto de F. Scott Fitzgerald, cujos direitos já haviam sido comprados para o cinema nos anos 70. Finalmente, em 2005, depois de anos de projetos infrutíferos - com nomes como Steven Spielberg, Ron Howard e Spike Jonze cotados para a direção - a bela história de um homem que sofre de uma rara condição que o faz rejuvenescer ao invés de envelhecer.

Trabalhando pela terceira vez com Brad Pitt - assumindo um papel que felizmente não ficou nas mãos de John Travolta e Tom Cruise, que eram as possibilidades quando Howard e Spielberg estavam atrelados ao projeto - Fincher criou uma obra-prima pictoria, repleta de uma poesia visual impressionante e uma qualidade narrativa fascinante que justificaram suas generosas 13 indicações ao Oscar. Se não tivesse batido de frente com o ótimo mas superestimado "Quem quer ser um milionário?" - visita de Danny Boyle ao cinema indiano que fez um arrastão na Academia - seu filme tranquilamente teria saído da cerimônia de premiação com mais estatuetas do que as míseras três conquistadas pela direção de arte, maquiagem e efeitos visuais. Uma história de amor que equilibra com precisão a tecnologia do cinema hollywoodiano com a sensibilidade da prosa de Fitzgerald, expandida pelo texto do premiado Eric Roth - que usa em seu roteiro elementos já vistos em seu oscarizado "Forrest Gump, o contador de histórias", o que deu motivo para várias críticas dos detratores - "O curioso caso de Benjamin Button" é deslumbrante, emocionante e dotado de um clima de melancolia que somente os grandes filmes possuem.


O protagonista que deu a Brad Pitt sua segunda chance de ganhar um Oscar é, provavelmente, um dos personagens mais interessantes da literatura americana do século XX e, na versão de Roth e Fincher - que apresenta algumas diferenças cruciais em relação ao original, desde seu cenário (alterado de Baltimore para Nova Orleans) até detalhes importantes na vida do próprio Button, transformados com o objetivo de aumentar a dramaticidade da premissa central - ele é apresentado como uma mistura de heroi romântico e aventureiro incurável. Abandonado no nascimento pelo pai viúvo - incapaz de lidar com sua condição - e criado pela responsável por um lar para idosos na Nova Orleans do começo do século XX (a excepcional Taraji P. Henson, indicada ao Oscar de coadjuvante), Button aos poucos acostuma-se com sua situação, mesmo quando ela o afasta da mulher que ama. Viajando pelo mundo em um barco pesqueiro, ele passa por situações que o aproximam de pessoas que acabam sendo importantes para ele, com uma excêntrica socialite que sonha atravessar o Canal da Mancha (Tilda Swinton, quase roubando o filme com suas poucas cenas) e, surpreendentemente, até mesmo seu pai.

Fotografado majestosamente por Claudio Miranda - que dá às imagens o tom exato para cada momento de espírito de seu protagonista - "O curioso caso de Benjamin Button" é uma experiência única, capaz de envolver a plateia com um visual estonteante e uma história comovente, interpretada por atores brilhantes e conduzida com mão firme por um dos cineastas mais inteligentes da Hollywood contemporânea. Uma pequena obra-prima.

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