quarta-feira

COMER, REZAR, AMAR


COMER, REZAR, AMAR (Eat, Pray, Love, 2010, Columbia Pictures, 133min) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Ryan Murphy, Jennifer Salt, livro de Elizabeth Gilbert. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brad Buecker. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael Dennison. Direção de arte/cenários: Bill Groom. Produção executiva: Jeremy Kleiner, Brad Pitt, Stan Wlodkowski. Produção: Dede Gardner. Elenco: Julia Roberts, Javier Bardem, James Franco, Billy Crudup, Richard Jenkins, Viola Davis. Estreia: 13/8/10

O livro foi um fenômeno de vendas no mundo inteiro, conquistando leitoras com seu jeito despojado de misturar autoajuda com guia de viagem. O filme, que todos esperavam repetir o sucesso – especialmente com a presença da megaestrela Julia Roberts no papel principal – já não foi uma unanimidade tão grande assim. Com a crítica dividida e o público pouco entusiasmado (ao menos em comparação com a bilheteria imensa que se imaginava), a versão para as telas do best-seller “Comer, rezar, amar” pode ter decepcionado aos produtores, mas está longe de ser o desastre que muitos tentaram pintar. Carismática e boa atriz, Roberts foi a escolha perfeita para o papel principal, o da escritora Elizabeth Gilbert, que abandona suas raízes para tentar encontrar a paz de espírito que seus relacionamentos amorosos não lhe trazem. Por pouco não dirigida novamente por Garry Marshall – que lhe deu a chance para o estrelato em “Uma linda mulher” (90) e recusou o projeto pelas dificuldades logísticas que ele abrangia – ela é o corpo e a alma de um filme que tem em seus belos cenários personagens tão importantes quanto a própria Gilbert.

Bem dividido nos três capítulos que dão nome ao livro e ao filme, “Comer, rezar, amar” ainda se utiliza de alguns flashbacks para melhor dar ao espectador a chance de conhecer a protagonista e seus anseios. Tal artifício, que poderia atrapalhar a narrativa, serve, no entanto, como um respiro à jornada de Liz – uma personagem que pode parecer, a princípio, apenas como uma mulher chata e propensa a aumentar a proporção de seus problemas. O desafio do roteiro – escrito pelo próprio diretor Ryan Murphy em parceria com Jennifer Salt – era mergulhar a plateia nos pensamentos da protagonista, justamente para que ela não caísse na armadilha da autocomiseração e da complacência. Nem sempre funciona – a versão estendida, lançada em bluray, teve mais sucesso nesse ponto – mas quem leu o livro sabe que a busca de Gilbert servia mais como uma espécie de descanso sabático do que exatamente uma busca pelo sentido da vida. Rica, bonita e inteligente, ela sai em viagem pelo mundo (o que não é algo que muita gente consegue fazer, convenhamos) não para curar suas feridas, mas sim para encontrar novas perspectivas. E mesmo que o filme não tenha sido exatamente bem-sucedido em deixar isso muito claro – em alguns momentos sua decisão soa um tanto aleatória – não deixa de ser delicioso acompanhar Julia Roberts e seu belo sorriso por algumas das paisagens mais bonitas do mundo.


Escritora infeliz no amor, Liz Gilbert (uma Julia Roberts que batalhou pessoalmente para levar o livro às telas) acaba de terminar o namoro com um jovem ator (James Franco). Seu relacionamento, amoroso mas incompleto, segue um divórcio doloroso, do qual saiu praticamente exaurida emocionalmente. Incentivada pelas tendências religiosas do rapaz e pelas lembranças de uma viagem feita à Bali alguns meses antes, ela resolve, então, colocar os pés na estrada e, por um ano, afastar-se de sua rotina para, em três partes diferentes do planeta, reencontrar sua alma. Na Itália, dedica-se a experimentar os prazeres da culinária, da beleza e do dolce far niente que lhe ensinam os nativos. É a melhor parte do filme, leve, luminosa, engraçada e fotografada com um misto de contemplação e paixão pelo veterano Robert Richardson. Logo em seguida, ela passa por um período bem menos prazeroso, tentando acostumar-se com a rotina de um mosteiro indiano. Entre lavar o chão do local e procurar acertar-se com as rígidas regras de oração e meditação, ela trava contato com outro americano, o sofrido Richard (Richard Jenkins), que tem um motivo bem mais radical para estar buscando a paz espiritual – e é dono da cena mais emocional do filme, principalmente graças ao trabalho excepcional de Jenkins.

O terço final do filme é, talvez, o mais controverso e menos fascinante. Controverso por apresentar um Javier Bardem com tenebroso sotaque português interpretando um brasileiro, Felipe, por quem Liz acaba se apaixonando. Além da escalação de Bardem (um ator extraordinário mas inadequado ao papel), o roteiro inventa características bizarras ao povo brasileiro – segundo a produção, pais e filhos tem o costume de beijar-se na boca – e escolhe, para trilha sonora, a mesma “Samba da bênção”, cantada por Bebel Gilberto, que também esteve presente em “Closer, perto demais” (04), estrelado pela mesma Julia Roberts. No mínimo falta de imaginação. À parte isso, o romance entre Liz e Felipe não chega a encantar ou seduzir o público, até então envolvido com as duas primeiras partes da trajetória da protagonista. Mesmo as belas paisagens que os rodeia são insuficientes para dar liga ao casal e isso acaba por prejudicar seriamente o resultado final e encerrar a viagem com uma sensação de anti-clímax.

Mas, se no conjunto final “Comer, rezar, amar” não é uma obra-prima da sétima arte, é injusto não reconhecer suas qualidades. Ryan Murphy – criador de séries como “Nip/Tuck”, “Glee” e “American Horror Story” e em seu segundo longa-metragem – tem a receita de contar histórias que conquistam sem fazer muito esforço, e contar com Julia Roberts, uma das maiores estrelas de Hollywood no papel principal, não atrapalha em nada. Ainda que sua falta de experiência fique clara em alguns pontos – a edição poderia ser mais ágil e podar alguns momentos menos inspirados – é perceptível seu carinho pelo material e seu esforço em traduzir em imagens as palavras de Elizabeth Gilbert. Bom diretor de atores, extrai boas atuações do elenco masculino – que inclui também Billy Crudup como o primeiro marido de Liz – e consegue fazer com que o carisma de Roberts não fique no caminho da história. Muitas fãs do livro não se deixaram seduzir pela adaptação cinematográfica, mas é inegável que é um filme subestimado e com potencial para ser melhor avaliado no futuro. Nem sua duração excessiva chega a ser um defeito se o espectador se deixar levar pela viagem de Gilbert.

segunda-feira

ATRAÇÃO PERIGOSA

ATRAÇÃO PERIGOSA (The town, 2010, Warner Bros, 125min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Peter Craig, Aaron Stockard, romance "Prince of thieves", de Chuck Hogan. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: David Buckley, Harry Gregson-Williams. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: David Crockett, William Fay, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Basil Iwanyk, Graham King. Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner, Pete Postletwhaite, John Hamm, Blake Lively, Chris Cooper. Estreia: 08/9/10 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)


De promessa de astro no final da década de 90, quando ganhou o Oscar de roteiro original ao lado do amigo de infância Matt Damon, pelo filme “Gênio indomável”, nos anos seguintes o ator Ben Affleck parecia ter entrado em um inferno astral. Sucessos de bilheteria não faltavam – “Armaggedon” à frente – mas seus talentos dramáticos frequentemente eram postos à prova (quando não severamente criticados e motivo de piadas por parte da indústria e até do público). Filmes como “Pearl Harbor” (01), “Demolidor” (03) e principalmente “Contrato de risco, que fez ao lado da então noiva Jennifer Lopez, o colocaram em uma encruzilhada artística de que poucos conseguiriam sair ilesos. Foi então que o destino voltou a lhe sorrir. Iniciou uma nova carreira com o drama policial “Medo da verdade”, baseado em livro de Dennis Lehane (autor também de “Sobre meninos e lobos”) e, com elogios unânimes e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Amy Ryan, mostrou-se um cineasta promissor. Dois anos mais tarde, ao assumir para a Warner um projeto que o cineasta Adrian Lyne abandonou a meio caminho, mostrou que o sucesso do filme anterior não havia sido apenas sorte de principiante.

O mais interessante em “Atração perigosa” – um título nacional derivativo que esconde as grandes qualidades do filme – é a segurança com que Affleck comanda a narrativa, equilibrando com extrema eficiência sequências de ação impecáveis e um drama romântico que foge do clichê e do melodrama barato. Evitando erros comuns a diretores ainda inexperientes – que sempre querem colocar em sua primeira experiência todas as ideias que lhe vem à mente – Affleck opta por uma direção discreta, deixando que a história fale mais do que suas ambições estilísticas. Desse modo, o público acaba mergulhando sem reservas em uma trama repleta de violência (moderada mas ainda assim convincente) e romance (realista e envolvente). Com base no livro “Prince of thieves”, de Chuck Hogan, o roteiro (também com participação do ator/diretor) acompanha personagens que, mais do que simplesmente obrigados a lidar com a criminalidade que os cerca, são parte viva de um ambiente onde ela brota a cada esquina – e, pior ainda, atravessa gerações.



O protagonista é Doug MacRay, interpretado por Ben Affleck em registro sutil e surpreendentemente suave. MacRay trabalha como operário em Boston, mas não consegue renegar o sangue e, a exemplo do pai, Stephen (Chris Cooper), volta e meia acaba se envolvendo em assaltos a bancos, uma atividade rotineira na região onde mora, uma das mais violentas da cidade. É durante um desses ataques que ele conhece a bela Claire Keesey (Rebecca Hall), vítima involuntária do ímpeto de um de seus comparsas, James Coughlin (Jeremy Renner). Com medo que Claire possa reconhecer um deles depois de ter sido feita refém – apesar das máscaras que eles usam em todas as atividades ilegais de que participam – MacRay se aproxima dela e os dois acabam se apaixonando. Logicamente, ele precisa esconder seus sentimentos de todos à sua volta, especialmente de James, seu amigo de infância e irmão de uma ex-namorada, a vulgar Krista (Blake Lively) e do detetive do FBI Adam Frawley (John Hamm, da série “Mad men”), que se dedica ferozmente a capturá-lo. Não bastasse esse problema múltiplo – e o medo de que Claire o reconheça – o rapaz ainda precisa lidar com Fergus Colm (Pete Postlethwaite), o chefão local que o chantageia para que se mantenha no crime.

Há muito o que elogiar em “Atração perigosa”. Além das cenas de ação – inspiradas em filmes como “Fogo contra fogo” (95) e “Os infiltrados” (06) e dotadas de energia e segurança ímpares – o ator tornado diretor consegue a façanha de equilibrá-las com momentos de grande impacto dramático, amparado principalmente por um elenco esplêndido. Jeremy Renner substituiu Mark Whalberg – ocupado com as filmagens de “O vencedor” – na última hora, recomendado pelo irmão do diretor, Casey Affleck, e abocanhou uma justa indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas são duas participações pequenas que aumentam o valor do filme: como o pai criminoso de MacRay, o veterano Chris Cooper não precisa de muitos minutos em cena para roubar a atenção, e Pete Postletwhaite mostra porque era considerado um dos melhores atores do mundo ao fazer de seu Fergus um dos vilões mais assustadores do ano. Mostrando que é capaz de dirigir tanto cenas carregadas de adrenalina quanto momentos mais intimistas, Affleck pavimentou o caminho para que, três anos mais tarde, seu “Argo” conquistasse o merecido Oscar de melhor filme. Sem contra-indicações, “Atração perigosa” é um filme policial dos melhores.

quarta-feira

O PROFETA


O PROFETA (Un prophète, 2009, Why Not Productions, 155min) Direção: Jacques Audiard. Roteiro: Thomas Bidegain, Jacques Audiard, roteiro original de Abdel Raouf Dafri, Nicolas Peufaillit. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Juliette Wellfling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Michel Barthélémy/Boris Piot. Produção: Lauranne Bourrachot, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux, Marco Cherqui. Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Reda Kateb. Estreia: 16/5/09 (Festival de Cannes)


Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2009

A expressão "obra-prima" não costuma ser muito usada quando se refere ao cinema dos últimos anos, onde a criatividade e a ousadia parecem ingredientes cada vez mais raros. Sintomaticamente, são produções off-Hollywood - ou que pelo menos fogem do padrão idiotizado que o cinema americano vem adotando como regra há um bom tempo - que vem merecendo com mais entusiasmo o cobiçado adjetivo. Uma dessas pérolas é "O profeta", filme que representou a França na luta pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e faturou nada menos que 9 Cesar (o Oscar francês), além de ter concorrido em outras 4 categorias. Poucas vezes o cinema recente foi capaz de mostrar um filme tão consistente e surpreendente quanto ele, que, a despeito de suas duas horas e meia mantém o interesse da plateia aceso do seu início avassalador até seu final sutil e extremamente inteligente.

O claustrofóbico roteiro co-escrito pelo diretor Jacques Audiard se passa em sua maioria esmagadora dentro de um presidío francês, onde vai parar o jovem Malik El Djebena (Tahar Rahim). Com 19 anos e semi-analfabeto, o rapaz é condenado a seis anos de prisão por agredir um policial. Dentro da cadeia, ele não tarda a perceber que as coisas são bastante parecidas com o que acontece nos reformatórios onde passou boa parte da vida. Procurado pelo italiano Cesar Luciani (Neils Arestrup), ele se vê obrigado a assassinar um desafeto do poderoso manda-chuva do presídio, para assim ficar sob sua proteção. No entanto, devido a sua origem árabe, nunca é visto como mais que um empregadinho, que realiza as tarefas mais insignificantes do grupo de carcamanos. Tudo começa a mudar quando, ao perceber a solidão de Luciani, ele espertamente passa a ser seu braço-direito, utilizando inclusive seu direito à saídas do aprisionamento para resolver os problemas do chefe. Aos poucos, depois de estudar e observar o que acontece à sua volta, Malik começa a fazer suas próprias jogadas, ambicionando um poder que a vida honesta não é capaz de proporcionar-lhe.


O que mais surpreende em "O profeta" é sua total falta de medo em ser violento e amoral. Mesmo sabendo que Malik não é um homem honesto - pelo menos na concepção mais convencional do termo - é impossível à plateia deixar de torcer por ele, talvez porque de certa forma ele é uma espécie de vira-lata, um Davi tentando se impor contra um Golias truculento e impiedoso (que tanto pode ser o italiano quanto a própria sociedade preconceituosa e racista que ele conhece). Há pelo menos duas sequências impressionantes de uma violência quase inacreditável para aqueles acostumados com a sanguinolência de papel que Hollywood oferece a cada semana: o primeiro assassinato cometido por Malik com uma gilete e a quase chacina - perto do final - onde tiros são realmente ouvidos e sentidos como tiros por uma audiência boquiaberta e silenciosa. É mérito do diretor, inclusive, fazer com que Malik não se torne uma máquina assassina fria e sem compaixão no decorrer do filme. Mesmo com toda a violência que o cerca, ele sabe ser carinhoso, leal e amoroso, além de nunca deixar pra trás a lembrança traumática de seu primeiro homicídio.

Mas a genialidade do roteiro, da direção e da edição primorosa seriam inúteis sem a atuação do protagonista Tahar Rahim. Em uma interpretação desconcertante, ele consegue transmitir toda a vasta gama de emoções de sua complexa personagem com uma segurança admirável, dizendo com o olhar muito mais do que dezenas de Bens Afflecks tentam dizer com horas de discursos verborrágicos. Sem medo de entregar-se a cenas angustiantes e chocantes, ele mostra que seu Cesar de melhor ator não foi absolutamente imerecido. Um filme imperdível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...