sexta-feira, 31 de maio de 2013

TROPA DE ELITE

TROPA DE ELITE (Tropa de elite, 2007, Zazen Produções, 115min) Direção: José Padilha. Roteiro: Bráulio Mantovani, José Padilha, livro "Elite da tropa", de Rodrigo Pimentel, Luiz Eduardo Soares. Fotografia: Lula Carvalho. Montagem: Daniel Rezende. Música: Pedro Bronfman. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte/cenários: Tulé Peak/Odair Zani. Produção executiva: Bia Castro, Eduardo Constanini, Genna Terranova. Produção: José Padilha, Marcos Prado. Elenco: Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira, Maria Ribeiro, Fernanda Machado, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, André Felipe, Fábio Lago. Estreia: 12/10/07

Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim

Antes mesmo de estrear nas telas brasileiras, em outubro de 2007, o filme "Tropa de elite" já tinha um rastro de polêmica atrás de si. Graças a uma cópia pirata que chegou aos camelôs antes de seu lançamento oficial, o longa de José Padilha - conhecido pelo ótimo documentário "Ônibus 174" (2002) - já era sucesso popular mesmo sem ter chegado às telas. Quando isso finalmente aconteceu, porém, é que a coisa se tornou ainda mais assustadora. Além de levar multidões às salas de exibição e ganhar o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, o filme foi acusado de fascismo na mesma medida em que conquistava a simpatia da plateia ao eleger como protagonista um anti-herói que acabou se tornando símbolo da insatisfação geral da população brasileira em relação à violência. Na pele de um impecável Wagner Moura, o Capitão Nascimento se transformou, de imediato, em uma das personagens seminais do cinema nacional.

 Interpretado com garra por Wagner, o Capitão Nascimento despertou discussões acaloradas nos meios de comunicação, nas mesas de bar e nas rodas de amigos. Para cada elogio à forma intolerante e violenta com que o policial resolvia as questões que lhe caíam ao colo, surgia uma outra visão menos complacente, que julgava a maneira beligerante dos homens da lei retratada no excelente roteiro co-escrito por Bráulio Mantovani - sintomaticamente, o escriba por trás de "Cidade de Deus", que de certa forma deu o pontapé inicial  para as discussões via cinema sobre o estado das coisas na terra brasilis. O que tais discussões nunca conseguiram esconder, no entanto, é a alta qualidade de "Tropa de elite" enquanto cinema. Forte, contundente, empolgante e dramaticamente bem construído, o filme de Padilha é mais um motivo de orgulho para a filmografia tupiniquim.


Apesar de não ser perfeito - a narração em off e algumas atuações se incluem em seus pequenos defeitos - o longa consegue o que poucos produtos populares do nosso cinema conseguem: unir a qualidade ao sucesso comercial. Utilizando-se dos mesmos elementos que fizeram de "Cidade de Deus" um dos filmes mais elogiados de todos os tempos - e que, pra variar, foram execrados por aqueles críticos que segundo Nelson Rodrigues são Narcisos às avessas - e assumindo sem medo seu ponto de vista um tanto radical, "Tropa de elite" tanto pode ser assistido como a um belo drama policial (com todos os ingredientes que fazem a glória do gênero) como consumido como um estudo sociológico (sem o ranço politicamente correto que frequentemente acompanha o estilo). É fácil, graças ao roteiro, simpatizar com a causa de Nascimento, posto como um paladino solitário em sua luta contra a corrupção, o tráfico de drogas e a violência exarcebada nas favelas cariocas. Mesmo que seus métodos estejam longe da aprovação de entidades como Direitos Humanos, fica difícil ser brasileiro e não querer aplaudir - ao menos em alguns momentos - as soluções da personagem. E é por isso que a polêmica se instaurou.

Visto apenas como um filme, porém, "Tropa de elite" é ainda melhor. Mesmo que apresente resquícios de um certo maniqueísmo - disfarçado pelo fato de Nascimento não ser exatamente um anjo - o roteiro é ágil, esperto, tem senso de humor e tem o mérito de jogar a plateia dentro da ação. Com a experiência adquirida com seus documentários, Padilha usa e abusa da câmera na mão, da edição cortada e do desenho de som impactante para ressaltar suas ideias, e o faz com competência assustadora. Centrando-se principalmente na presença magnetica de Wagner Moura - que tem um desempenho nunca aquém de espetacular - o filme é um soco na boca do estômago do espectador, que dificilmente fica impassível diante da história contada pelas fortes imagens criadas pelo cineasta.

Um dos grandes filmes da história do cinema nacional - independente da ideologia sociopolítica do espectador - "Tropa de elite" ainda conseguiu um fato raro: dar origem a uma continuação ainda mais excepcional.

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