quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CISNE NEGRO

CISNE NEGRO (Black Swan, 2010, Fox Searchlight Pictures, 108min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz, John McLaughlin, estória de Andrés Heinz. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Tora Peterson. Produção executiva: Jon Avnet, Bradley J. Fischer, Peter Fructhman, Ari Handel, Jennifer Roth, Rick Schwartz, Tyler Thompson, David Thwaites. Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Brian Oliver. Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassell, Barbara Hershey, Mila Kunis, Winona Ryder. Estreia: 01/9/10 (Festival de Veneza)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Darren Aronofsky), Atriz (Natalie Portman), Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Natalie Portman)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Natalie Portman) 

A referência óbvia é o balé “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, que serve de pano de fundo para a trama central e seus desdobramentos dramáticos. Porém, o cineasta Darren Aronofsky não é exatamente um artista partidário do óbvio e, misturando elementos de literatura – “O duplo”, de Dostoievsky – e do próprio cinema – mais exatamente o claustrofóbico “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski e o clássico “Sapatinhos vermelhos”, de Preston Sturgess – ele construiu um dos mais sufocantes e angustiantes filmes de terror da história... e que nem mesmo é um filme de terror. Disfarçado de drama psicológico e envernizado com a aura de sofisticação inerente a filmes sobre uma arte tão nobre quanto a dança, “Cisne negro” surpreende o público com um estudo impiedoso sobre a busca pela perfeição, a repressão sexual e a entrega incondicional à arte sobrepondo-se à vida. Contando com uma atuação avassaladora de Natalie Portman – merecidamente premiada com o Oscar de melhor atriz – e um clima opressivo que vai se tornando mais e mais desconfortável conforme a trama avança, “Cisne negro” já nasceu com o status de clássico moderno.
            
Diametralmente oposto ao cartesianismo de seu filme anterior – o drama “O lutador”, que deu a Mickey Rourke e Marisa Tomei indicações ao Oscar – Aronofsky não hesita em fazer de “Cisne negro” uma obra recheada de símbolos e imagens que brincam com o surrealismo, sugerindo em cada sequência uma série de ideias que dialogam com precisão com seu principal tema: a dualidade da alma humana. Como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – personagens do famoso livro de Robert Louis Stevenson – a protagonista do filme vê travar-se, dentro de sua mente, uma batalha impiedosa por sua sanidade psicológica, uma luta inclemente que não poupa vítimas e se desvia frequentemente para os recônditos mais obscuros do inconsciente. Mas, como cineasta formado em Hollywood, Aronofsky – que também deixou crítica e público de queixo caído com a falta de piedade que demonstrou com seus personagens no inesquecível “Réquiem para um sonho” – não criou um tratado psiquiátrico ou uma obra hermética e/ou pedante. Antes de mais nada – antes até mesmo das várias leituras psicológicas que a narrativa permite ao espectador – “Cisne negro” é um filme. Um grande filme. Contado com maestria e com a energia de um cineasta ainda jovem e munido de um arsenal de ideias que faz de cada cena um espetáculo à parte para os fãs de cinema.


A trama, a princípio, é simples e quase dèja vu. O diretor de uma companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel, excelente) resolve aposentar a estrela do grupo, Beth (a sumida Winona Ryder) e escalar uma nova bailarina para protagonizar sua versão moderna do aclamado “O lago dos cisnes”. A jovem e dedicada Nina Sayer (Natalie Portman em papel que herdou de Rachel Weisz e Jennifer Connelly) vê, com isso, a melhor chance de sua carreira. Sua obsessão com a perfeição, porém, não é o bastante para Thomas, que diz a ela, sem rodeios, que lhe falta a ousadia necessária para que possa interpretar o lado obscuro da protagonista da história, o tal Cisne Negro que, no enredo do balé, rouba o príncipe pelo qual sua irmã gêmea e romântica é apaixonada. Desafiada pelo diretor a buscar dentro de si esse lado desconhecido de sua personalidade, Nina – que dorme em um quarto cor-de-rosa decorado com ursinhos de pelúcia e que deixa que sua mãe, a bailarina aposentada (Barbara Hershey) cuide dela como se fosse uma criança – passa a espelhar-se no comportamento livre e descontraído de uma colega, a bela Lily (Mila Kunis). Não demora para que inicie uma jornada perigosa e sem retorno para os desvãos de seus desejos mais recalcados.
           
 Decorando todos os cenários com espelhos que refletem a dualidade de seu jogo de aparências, o cineasta conta com a ajuda da fotografia quase expressionista de Matthew Libatique, que acompanha cada detalhe da jornada de Nina rumo à loucura como uma testemunha onipresente e onisciente, embaralhando diante do espectador as cartas de um roteiro que não tem medo de explorar todas as nuances de sua história, seja no nível físico quanto mental. As metáforas visuais criadas por Aronofsky – conforme Nina vai perdendo seus pudores e deixando de lado as convenções que lhe aprisionavam o público vai percebendo uma transformação física que chega ao ápice no arrepiante clímax do filme – são cortesia de efeitos visuais discretos mas extremamente eficientes, que substituem a grandiosidade pelo minimalismo e que não chamam a atenção mais do que a história em si. E é difícil não deixar-se envolver com o clima de crescente tensão que antecede o desfecho embalado pela consagrada música de Tchaikovsky utilizada durante toda a narrativa – uma cena tão brilhante que deixam mais do que óbvias as razões pelas quais Portman levou seu Oscar.
            
Transformando-se radicalmente da moça tímida e quase infantil das primeiras cenas em um furacão de sensualidade e fúria nos momentos finais, Portman – que estreou no cinema já causando furor com a vingativa ninfeta que interpretou em “O profissional”, de 1994 – transforma o pesadelo em forma de filme criado por Aronofsky em uma experiência única. Sem medo de entregar-se de corpo e alma a uma personagem de extrema complexidade física e psicológica, ela deita e rola na brincadeira quase metalinguística do diretor (afinal a trama do balé de certa forma reflete-se na trajetória da bailarina), dando uma dimensão trágica e poética a uma obra que, em mãos menos habilidosas, poderia virar facilmente mais um filme de terror com pretensões intelectuais jamais atingidas. Equilibrando-se com sensibilidade entre um paralisante drama psicológico e um brilhante filme de suspense, “Cisne negro” é uma obra-prima indiscutível. E pensar que perdeu o Oscar para aquele soporífero brega e previsível chamado “O discurso do rei”...

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