segunda-feira, 18 de agosto de 2014

DIVÃ

DIVÃ (Divã, 2009, Globo Filmes/ Lereby Productions, 90min) Direção: José Alvarenga Jr.. Roteiro: Marcelo Saback, peça teatral de Marcelo Saback, romance de Martha Medeiros. Fotografia: Nonato Estrela. Montagem: Diana Vasconcellos. Figurino: Ellen Millet. Direção de arte: Cláudio Domingos. Produção executiva e produção: Walkiria Barbosa, Iafa Britz, Marcos Didonet, Vilma Lustosa. Elenco: Lília Cabral, José Mayer, Reynaldo Giannechini, Cauã Reymond, Alexandra Richter, Eduardo Lago, Paulo Gustavo. Estreia: 17/4/09

Se existe uma forma de definir o filme "Divã" - novo trabalho de José Alvarenga Jr., diretor televisivo que também assinou a versão para o cinema da série "Os normais" - essa forma é "show de uma mulher só". Na pele de Mercedes, a dona-de-casa quarentona que põe sua vida em balanço quando passa a frequentar um analista, Lília Cabral, velha conhecida dos fãs de telenovelas, mostra que tem capacidade mais do que suficiente para segurar uma protagonista sem precisar apelar para nada mais do que carisma e talento. Flutuando admiravelmente entre o humor - do mais popular ao mais sofisticado - e o drama, Lília domina o filme com um pé nas costas, mesmo quando o roteiro escorrega em alguns clichês manjados. Coisas de quem conhece a personagem quase tão bem quanto a si mesma.

Enorme sucesso de bilheteria quando ainda era um peça teatral - inspirada livremente no romance da escritora gaúcha Martha Medeiros - "Divã" registrou mais de 175 mil espectadores, o que encorajou o ator Marcelo Saback (que adaptou o livro para os palcos) a levar a história de Mercedes a um público mais amplo. Substituindo o ótimo ator Marcello Valle, que interpretava todos os personagens masculinos da trama quando ela ainda era uma peça de teatro por nomes mais vendáveis à grande audiência - leia-se os galãs televisivos José Mayer, Cauã Reymond e Reynaldo Giannechini - os produtores não ousaram, porém, trocar Lília por nenhuma outra atriz. Confortável e indissociável de Mercedes, a eterna coadjuvante global deu seu pulo do gato: transformou o filme em série de TV e pouco tempo depois ganhou seu primeiro papel principal no horário nobre. Nada mais justo a uma atriz capaz de transitar entre os mais variados papéis sem nunca perder sua personalidade.


Mas vamos à "Divã", o filme em si. Mercedes, a protagonista, como dito anteriormente, é uma dona-de-casa de 40 anos que tem a pintura como hobby e a dedicação à família como norma. Casada há dezoito anos com Gustavo (José Mayer, que não faz nada além do que costuma fazer na televisão) e mãe de dois adolescentes, ela segue os conselhos de uma amiga e resolve fazer terapia. Em suas conversas com seu psicanalista (que jamais mostra o rosto ao espectador), Mercedes passa em revista sua infância e juventude, mas é na sua vida amorosa que encontra o xis da questão: percebendo a frieza de seu relacionamento, ela parte para novas relações - com o galante Theo (Reynaldo Giannechini), que lhe dá um vislumbre de um novo amor, e com o pós-adolescente Murilo (Cauã Reymond), que a mostra um novo mundo de baladas e diversão descompromissada. Sempre contando com a melhor amiga Mônica (a ótima Alexandra Richter) como confidente, Mercedes amadurece conforme toma consciência das possibilidades de sua vida.

Em comparação a "Os normais", José Alvarenga Jr. dá um passo à frente em sua carreira como diretor de cinema, ainda que esteja longe de ser um novo Fernando Meirelles. Preso a um roteiro que não tem a coragem de romper o cordão umbilical que o une à peça de teatro - afinal de contas não se mexe em time que está ganhando, manda o ditado popular - Alvarenga extrai o melhor de seu elenco, em especial nos momentos cômicos (com destaque para um ainda desconhecido Paulo Gustavo, que anos depois também transferiria seu espetáculo "Minha mãe é uma peça" para as telas), mas não consegue fugir, em certas sequências, da impressão de estar fazendo televisão no cinema. Um defeito pequeno, porém, que não mancha a experiência divertida e honesta de "Divã", uma das poucas comédias nacionais da retomada que consegue fazer rir sem subestimar a inteligência do público - e que ainda pode até mesmo arrancar algumas lágrimas. Nada mal!

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