segunda-feira

ATRAÍDOS PELO DESTINO

 


ATRAÍDOS PELO DESTINO (It could happen to you, 1994, TriStar Pictures, 101min) Direção: Andrew Bergman. Roteiro: Jane Anderson. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Barry Malkin. Música: Carter Burwell. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Joseph Hartwick. Produção: Mike Lobell. Elenco: Nicolas Cage, Bridget Fonda, Rosie Perez, Stanley Tucci, Isaac Hayes, Wendell Pierce, Seymour Cassel, Red Buttons, Richard Jenkins. Estreia: 13/7/94

Antes de surpreender o mundo com seu desempenho em "Despedida em Las Vegas" (1995), que lhe rendeu dezenas de prêmios e um merecido Oscar, Nicolas Cage dividia seu tempo entre produções de razoável prestígio junto à crítica - como "Feitiço da lua" (1987) e "Coração selvagem" (1990) - e filmes pouco memoráveis, que nada acrescentavam à seu currículo. "Atraídos pelo destino" faz parte do segundo grupo. Uma comédia romântica recheada de bons ideais e esperança na humanidade que faria a glória nas mãos de Frank Capra, o filme dirigido pelo pouco inspirado Andrew Bergman não fez barulho nas bilheterias, mas serviu para oferecer ao ator uma oportunidade rara de mostrar um lado doce e sensível que destoava dos personagens excêntricos pelos quais era conhecido até então. De quebra, dava à promissora Bridget Fonda a chance de mostrar seu talento como mocinha romântica - algo que não voltaria mais a acontecer até sua precoce aposentadoria, em 2002. Leve e esquecível, é uma inofensiva sessão da tarde, com tudo isso que tem de bom e de ruim.

Livremente inspirado em uma situação real ocorrida em 1984, "Atraídos pelo destino" contrasta com o cinismo dos anos 1990 ao apostar em uma trama sobre sentimentos nobres, personagens centrais dotados de ética e caráter bem definidos e uma visão otimista de um país que, à época, lutava por uma reestruturação social que amenizasse a criminalidade urbana e os conflitos raciais. Fugindo de qualquer controvérsia e/ou discussão mais séria, Andrew Bergman - que já havia dirigido Cage em "Lua-de-mel a três" (1992) e atingiria seu auge (não necessariamente de forma positiva) por "Striptease", estrelado por Demi Moore em 1996 - conduz seu filme sem nenhum lampejo de criatividade, amparado por um roteiro que usa e abusa do maniqueísmo e de camadas excessivas de açúcar. Porém, se a trama em si é difícil de comprar - a não ser em um universo utópico de contos de fadas ou produções da Disney -, a sorte do cineasta é contar com um elenco que quase consegue equilibrar a equação: Nicolas Cage, com sua cara de bobo alegre, convence em sua persona James Stewart, e Bridget Fonda (em papel recusado por Madonna e Marisa Tomei) está apaixonante em sua mescla de heroína clássica e mocinha sofredora - mas ao mesmo tempo independente e pouco afeita a lágrimas desnecessárias. E enquanto Rosie Perez mais uma vez surge no papel de perua desagradável, é uma pena que um jovem Stanley Tucci tenha tão pouco espaço - assim como um quase figurante Richard Jenkins.

 

O filme de Bergman começa com uma situação quase banal: durante mais um dia rotineiro pelas ruas de Nova York, o policial Charlie Lang (Nicolas Cage) - um homem de moral rígida, que leva seu trabalho a sério, a ponto de ajudar velhinhas a atravessar a rua - chega a um café onde trabalha a jovem Yvonne Biasi (Bridget Fonda), cuja vida financeira está à beira do caos. Sem dinheiro para lhe dar uma gorjeta, ele promete à simpática garçonete voltar no dia seguinte com o valor em dobro ou metade do prêmio da loteria na qual jogou - o que for mais. Para sua surpresa, ele acaba ganhando (junto com outras dezesseis pessoas) e, de posse de quatro milhões de dólares, volta ao local para cumprir o que foi prometido, para desespero de sua mulher, a ambiciosa Muriel (Rosie Perez). Sem acreditar no tamanho de sua sorte - e na honestidade de Charlie -, Yvonne muda de vida, compra a lanchonete onde trabalhava e reorganiza suas finanças. Charlie, por sua vez, começa a distanciar-se cada vez mais da esposa ao perceber suas falhas de caráter - e, ao aproximar-se de Yvonne, acaba por se apaixonar por ela.

A premissa inicial do roteiro não se sustenta por muito tempo, dando espaço à relação tóxica entre Charlie e Muriel e às desventuras românticas de Yvonne - também parte de um casamento atribulado. Ao deixar de lado as consequências do ato inesperado do policial e concentrar-se nas engrenagens já muito óbvias das comédias românticas, o filme acaba por apresentar ao público um resultado morno, com um desenvolvimento em nada empolgante ou inspirador. A química entre Cage e Fonda inexiste, e até mesmo os momentos de humor - cortesia de Rosie Perez - são em número insuficiente para transformar o produto final em algo marcante. A direção apática de Andrew Bergman tampouco ajuda, e somente a simpatia de seus astros é capaz de manter o interesse até o previsível final feliz. "Atraídos pelo destino" não é um filme ruim a ponto de irritar, mas é doce demais, meigo demais, otimista demais. Recomendável somente aos mais ardorosos fãs do gênero - ou àqueles que não perdem nenhuma produção com Nicolas Cage mesmo que não seja repleta de adrenalina.

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