segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A ESCOLHA DE SOFIA

A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie's choice, 1982, ITC/Keith Barish Productions, 150min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de William Styron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Evan A. Lottman. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John J. Moore. Produção executiva: Martin Starger. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Gunter Maria Halmer. Estreia: 08/12/82

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Considerada com mérito a maior atriz americana de sua geração - e possivelmente uma das mais extraordinárias de todos os tempos - Meryl Streep não precisou da vantagem que a experiência traz para consagrar-se junto ao público, à crítica e aos membros da Academia. Em abril de 1983, aos 33 anos, ela, grávida, subia pela segunda vez ao palco da entrega do Oscar para receber uma estatueta. Porém, se por "Kramer vs Kramer", três anos antes, ela foi eleita a melhor coadjuvante, por "A escolha de Sofia" ela foi escolhida como a melhor atriz principal do ano. Mais impressionante ainda? Não foi só a Academia que rendeu-se a seu espetacular desempenho: quando pôs as mãos em seu segundo Oscar, ela já havia sido premiada pelas associações de críticos de Los Angeles e de Nova York, pelo prestigiado National Board of Review, pela Associação Nacional de Criticos e pelos jornalistas estrangeiros que concedem o Golden Globe - ou seja, todos os grupos que escolhem os melhores do cinema de cada ano concordaram que estavam diante de uma obra-prima de interpretação dramática.

Baseado em romance de William Styron, "A escolha de Sofia" é um petardo emocional, capaz de impressionar ao mais cínico dos espectadores por evitar, inteligentemente, o caminho da emoção fácil. Não há dúvidas que a famosa cena da escolha do título (muitas vezes comentada e mostrada fora de contexto, o que de certa forma enfraquece sua potência, apesar de ainda arrepiar a cada revisão) é de triturar o coração de qualquer um, mas o roteiro do cineasta Alan J. Pakula não se reduz a contar apenas a trajetória de sua protagonista nos dias cinzentos de sua passagem por Auschwitz, preferindo dar importância também às cicatrizes emocionais incuráveis que ela deixou. São essas feridas que fazem de Sofia uma personagem complexa, vasta, imprevisível e fascinante - o que a atuação de Streep enfatiza a cada diálogo, a cada cena, seja ela das mais leves ou das mais catárticas. O que Sofia esconde, o que ela sente, o que ela pensa são incógnitas ao público - e ao atônito apaixonado Stingo, um aspirante a escritor que chega a Nova York em 1947 e se encanta com a misteriosa vizinha do apartamento de cima. O que ela revela, o que ela deixa transbordar e o que ela finalmente desabafa são uma aula de como utilizar o corpo, os olhos e a voz para deixar marcas no coração e na memória de cada espectador.


Vivido por Peter MacNicol, Stingo faz as vezes de narrador e espectador de uma tragédia anunciada que se desenha a partir do momento em que ele testemunha pela primeira vez uma beligerante discussão entre a polonesa Sofia e seu namorado, o biólogo judeu Nathan Landau (Kevin Kline em sua estreia no cinema, mostrando um talento que lhe renderia um Oscar de coadjuvante seis anos depois, pela comédia "Um peixe chamado Wanda"). Inconstante e frequentemente violento, Nathan torna-se amigo de Stingo e, junto com Sofia, forma com ele uma espécie de família, ainda que o jovem escritor tenha sentimentos mais fortes por Sofia - que por sua vez, os incentiva ao mesmo tempo em que os repele, demonstrando também uma instabilidade emocional que, aos poucos, Stingo vai compreendendo, e que remete a seu passado como prisioneira de um campo de concentração. É também aos poucos que Stingo percebe que a relação doentia entre seus amigos vem acompanhada de uma alta dose de auto-destruição e de fantasmas ainda vivos em suas memórias.

A direção de Pakula é elegante, sóbria, direta. Ele dá espaço ao brilho de seus grandes atores, em algumas sequências que lembram uma boa peça de teatro - enquanto em outros momentos ele aproveita sua experiência como cineasta para criar imagens poderosas, ajudado pela fotografia do mestre Nestor Almendros, que trabalha os flashbacks em frios tons de cinza e o presente em um colorido primaveril que contrasta com sutileza com o frequente estado de espírito dos personagens. E os personagens são um capítulo à parte: Peter MacNicol pontua com correção o show de Kline e Streep, que enchem a tela de energia e força sempre que estão presentes. Kline faz de seu bipolar Nathan um homem adorável em um momento e um monstro no momento seguinte, sempre com segurança e carisma. E Streep não ganhou todos os prêmios que ganhou à toa: ela não apenas vive a personagem com a alma inteira como aprendeu a falar alemão e polonês, para que pudesse tornar verossímil uma mulher polonesa que fala com sotaque alemão. Valeu a pena implorar pelo papel - que Barbra Streisand também queria e para o qual Natalie Wood foi cotada: seu trabalho é, sem dúvida, um dos mais impactantes da história.

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