sábado, 4 de março de 2017

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.

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