sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O TURISTA ACIDENTAL

O TURISTA ACIDENTAL (The accidental tourist, 1988, Warner Bros, 121min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Frank Galati, romance de Anne Tyler. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Bo Welch, Cricket Rowland. Produção executiva: Phyllis Carlyle, John Malkovich. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Bill Pullman, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr.. Estreia: 23/12/88

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)

A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.

Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.


A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.

"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Eu vi esse filme tem uns dois anos. E lendo o seu texto agora me toquei que não lembro de praticamente nada. Só sei que já vi.

Ou seja...