segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

 

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO (The adventures of Priscilla, queen of the desert, 1994, Polygram Filmed Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Stephan Elliott. Fotografia: Brian J. Breheny. Montagem: Sue Blainey. Música: Guy Gross. Figurino: Lizzy Gardiner, Tim Chappell. Direção de arte: Owen Paterson. Produção executiva: Rebel Penfold-Russell, Sue Seeary. Produção: Al Clark, Michael Hamlyn. Elenco: Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce, Bill Hunter. Estreia: 10/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Figurino

Nos anos 60, o britânico Terence Stamp chegou a ser considerado o homem mais bonito do mundo. Astro do polêmico "Teorema", do italiano Pier Paolo Pasolini, amante de nomes como Julie Christie e Brigitte Bardot e capa do single "What difference does it make", do grupo The Smiths, foi dirigido por nomes como Federico Fellini, Howard Hawks e Stephen Frears. Praticamente desconhecido da geração de cinéfilos acostumados a filmes-evento, Stamp reapareceu sob os holofotes depois dos 50 anos em um papel surpreendente: Bernardette, um transexual amargurado e devastado pela morte do amante na comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto". Discreta, cheia de classe e dona de um humor irônico e sarcástico, Bernardette é provavelmente uma das personagens mais marcantes de sua carreira.

Escrito e dirigido por Stephan Elliot, "Priscilla, a rainha do deserto" foi um dos mais interessantes filmes da onda que colocou a cinematografia australiana no mapa, durante os anos 90. Engraçado sem ser bobo e tocando com bom humor em temas polêmicos e até mesmo pesados - como preconceito e violência doméstica - o roteiro de Elliot oferece a seus três atores centrais papéis que surpreendem pela naturalidade e veracidade. Como agradecimento, todos eles tem performances impecáveis, o que suas subsequentes carreiras comprovaram. Além da ressurreição da carreira de Stam - que surpreendentemente foi quem menos se beneficiou do sucesso do filme, haja visto a quantidade de títulos pálidos e sem expressão dos quais participou depois - o filme deu um senhor empurrão para Hugo Weaving (vilão da série "Matrix") e Guy Pearce (que participou dos excelentes "Los Angeles, cidade proibida" e "Amnésia").

Na verdade o protagonista de "Priscilla" é Ticky (Hugo Weaving), que trabalha de drag-queen em casas noturnas de Sydney, nem sempre obtendo o sucesso e o respeito que deseja. Quando ele recebe o convite de uma amiga - na verdade, ex-mulher e mãe de seu filho - para uma série de shows no hotel em que ela trabalha, ele vê a chance de tentar uma nova oportunidade na carreira. Para isso, ele convida a amiga Bernardette (Stamp, genial), um transexual de meia-idade que acaba de perder o amante, para acompanhá-lo na viagem. A eles junta-se o jovem, impetuoso e debochado Adam (Guy Pearce), que imediatamente inicia uma relação de implicância com Bernardette. Comprando um ônibus - que batizam com o nome do filme - eles embarcam em uma viagem pelo deserto da Austrália, enfrentando o preconceito dos moradores de cidades do interior, abismando os mais conservadores e, por incrível que pareça, fazendo inimagináveis amizades.



A exuberância e a irreverência dos protagonistas - refletidas principalmente no espirituoso e criativo figurino vencedor do Oscar - talvez sejam os principais atrativos de "Priscilla", e são certamente os maiores responsáveis pelo sucesso do filme até mesmo junto a uma parcela do público que não é exatamente o alvo dos produtores. Espertamente, Stephan Elliot brinca com a imagem e os ícones gays para passar uma mensagem de tolerância e respeito, sem denegrir nem idealizar nada nem ninguém - ao menos de forma inconsequente e rasa. A convivência forçada entre suas personagens principais - de personalidades bem marcadas mas nunca previsíveis - serve como reflexo de uma sociedade ainda preconceituosa e que precisa lidar com a diversidade (seja ela pessoal, sexual ou de qualquer tipo). É uma metáfora inteligente e sutil, ainda que retratada de maneira propositalmente exagerada.

E falar de "Priscilla, a rainha do deserto" sem mencionar sua trilha sonora seria um crime hediondo. Dançantes e alto-astral, as músicas escolhidas por Stephan Elliot são o que há de melhor no que convencionou-se chamar de "música gay": ABBA, Pet Shop Boys e Gloria Gaynor batem o ponto, normalmente em cenas que tornaram-se clássicas justamente pela combinação perfeita das canções, das coreografias e das roupas pra lá de extravagantes que pontuam uma narrativa alegre, de bem com a vida e capaz de comprovar a vitalidade do cinema australiano.

Quem nunca assistiu a "Priscilla, a rainha do deserto" não sabe o que está perdendo! É diversão certa, com atores perfeitamente escalados - Guy Pearce é um show à parte com sua desaforada Felicia - e um clima de festa mesmo em seus momentos mais delicados.

Um comentário:

Rodrigo Mendes disse...

Priscilla e Para Wong Foo...são os melhores e únicos filmes do tema desta década!

Abs.
Rodrigo

Ótimo texto e adoro este filme!