Não que o grande público se incomode
com o fato de o roteiro abandonar a chance de discutir um problema sério como o
abuso de remédios controlados e a forma como a indústria que os fabrica conduz
sua comercialização. O problema é que os dois primeiros terços do filme
conduzem a narrativa por um caminho específico para, de uma hora para outra –
com o objetivo de espantar a plateia – distorcer a trama de forma a fazê-la
caber em um final-surpresa que enfraquece todo o tom sério e excitante que
vinha sendo mostrado até então. Em resumo, “Terapia de risco” tem um começo
promissor e um final decepcionante que não faz jus à carreira de seu diretor.
A trama tem início quando o jovem
Martin Taylor (Channing Tatum) sai da cadeia, depois de quatro anos preso pelo
crime de tráfico de informações financeiras. Quem o espera do lado de fora do
presídio é sua esposa, Emily (Rooney Mara, de “Os homens que não amavam as
mulheres, irreconhecível e sempre ótima atriz), que teve sua vida completamente
desestruturada com a condenação do marido. Depois de perder o bebê que esperava
e ter tido seu estilo de vida radicalmente transformado, a jovem acabou por
tornar-se dependente de antidepressivos e, mesmo com a volta do marido, parece
não dar sinais de melhora. Pelo contrário, duas tentativas de suicídio a levam
até o doutor Jonathan Banks (Jude Law), que depois de algumas consultas propõe
a ela que tome parte nos experimentos de uma nova droga que está sendo testada
em pacientes em avançado estado de depressão. Emily aceita fazer parte do
teste, mas um dos efeitos colaterais – sonambulismo – acaba por fazê-la cometer
um homicídio. No banco dos réus, ela acaba por tornar-se alvo de uma polêmica:
quem é, afinal, o responsável pelo crime? Ela, a indústria farmacêutica ou seu
médico?
Esse ponto de partida – que toma boa
parte dos dois terços iniciais do filme – é empolgante, inteligente e prende a
atenção do público sem fazer esforço, graças em boa parte às interpretações do
elenco e da direção segura e sóbria de Soderbergh. As coisas começam a
degringolar quando Banks, sentindo-se acuado diante das acusações de
irresponsabilidade e negligência médica, passa a investigar o passado de Emily
e chega até sua médica anterior, Victoria Seibert (Catherine Zeta-Jones), uma
mulher bem-sucedida que parece ter muito mais a esconder do que mostra em um
primeiro olhar. A real ligação entre Emily e Victoria – o grande segredo do
filme – vem à tona perto do final, e é aí que o roteiro põe tudo a perder. Sem
querer estragar a surpresa dos que se arriscarem a uma sessão (e no final das
contas até vale uma espiada, em especial pelo elenco), é um desfecho que parece
jogado na tela, sem a preocupação básica de parecer realista.
Ok, Steven Soderbergh já fez coisas
muito piores – “Magic Mike” à frente – mas é sempre triste ver um cineasta
capaz de pequenas obras-primas como “Irresistível paixão” e “Traffic” se deixar
cair na vala dos diretores puramente comerciais, optando pela mediocridade em
detrimento da criatividade e da ousadia. “Terapia de risco” é um filme de
gênero e logicamente deve seguir diretrizes já estabelecidas e consagradas, mas
isso não justifica o golpe baixo que é dado nas expectativas do espectador que
espera mais do que ser simplesmente pego de surpresa por um roteiro quase
preguiçoso. Felizmente o elenco faz o que pode para manter o interesse. E
consegue. Porém, Soderbergh poderia voltar a ser o diretor inteligente que um
dia se propôs a ser.
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