segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ELA

ELA (Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13 (Festival de Nova York)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original

Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.

Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.


Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.

Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.

Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.

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