sexta-feira, 13 de maio de 2011

CARNE TRÊMULA

CARNE TRÊMULA (Carne tremula, 1997, El Deseo SA, 103min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, romance de Ruth Rendell. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: José Maria Cossío. Direção de arte/cenários: Antxon Gomes/Felipe De Paco. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Liberto Rabal, Francesca Neri, Javier Bardem, Angela Molina, Penelope Cruz, Pilar Bardem. Estreia EUA: 16/01/98

O escritor francês Gustave Flaubert já declarou que "a medida de uma alma é a dimensão do seu desejo". Seguindo à risca essa afirmação, pode-se dizer com certeza que a alma de Victor é imensa, tamanho é o seu desejo/paixão/obsessão pela bela Elena Ayala. Desde uma transa inconsequente em um banheiro público (com a moça drogada e ele absolutamente inexperiente) que ele não tem outro pensamento senão conquistá-la, tê-la para si, amá-la e ser amado por ela. Nem mesmo anos de cadeia diminuiu o tal desejo, apenas misturou-o com um sentimento de vingança, e mesmo assim uma vingança regada a sexo, culpa e mais desejo. Victor é o protagonista de "Carne trêmula", inspirado no primeiro capítulo de um romance da americana Ruth Rendell e dirigido e adaptado pelo espanhol Pedro Almodovar. E se existe no mundo um cineasta que entende de desejo e de todas as suas consequências ele é Almodovar. Explorando ao máximo seu pendor para o melodrama e para as intenções carnais do ser humano, em "Carne trêmula" ele atinge um ápice de sofisticação que ainda renderia a um extasiado público as obras-primas "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela". Em "Carne trêmula", o desejo é o catalisador de uma trama que se rende sem medo a reviravoltas novelescas e paixões desmedidas.

Nascido em um ônibus parado nas ruas desertas de uma Espanha recém entrada na ditadura de Franco,  Victor (Liberto Rabal) trabalha como entregador de pizza e, depois de uma tórrida noite (para ele), se apaixona pela bela Elena Ayala (Francesca Neri), que em seguida nem lembra de sua existência. Obcecado, ele volta a procurá-la em seu prédio e, devido a uma série de mal-entendidos, envolve-se em um tiroteio com dois policiais. Alguns anos mais tarde, ao sair da prisão, ele decide tentar seduzir Elena e vingar-se de sua condenação. Para isso, ele inicia um caso com Clara (Angela Molina), a esposa de Sancho (José Sancho), um dos policiais responsáveis por sua prisão. Sua intenção é tornar-se um amante excepcional para impressionar a mulher que ama, que abandonou as drogas e casou-se com David (Javier Bardem), o outro policial que o mandou à cadeia e que ficou paraplégico depois do tiroteio de anos antes.



Depois de três filmes consecutivos retratando o universo feminino – em “Kika”, “De salto alto” e “A flor do meu segredo” – o diretor Pedro Almodóvar muda o sexo do protagonista ao entregar o comando da ação de “Carne trêmula” a Victor, um jovem um tanto desajustado que lembra o Ricki, personagem de Antonio Banderas em “Ata-me” e que, como ele, volta à sociedade com desejo de conquistar a mulher amada. Ao narrar a tentativa de Victor, um tanto ingênua e romântica, de conquistar a felicidade e o amor, o cineasta espanhol mais uma vez trai sua simpatia por personagens à margem da sociedade mas ainda assim extremamente humanos e verossímeis. Victor, um jovem que, apesar do tempo preso permanece fiel a sua paixão por Elena, acaba se envolvendo em um quadrilátero amoroso movido à violência, sexo e vingança, sem nunca perder de vista seu objetivo central, é vivido pelo desconhecido Liberto Rabal, que faz o que pode frente a colegas de cena espetaculares. Enquanto Francesca Néri e Ângela Molina desfilam suas belas e classudas figuras pela tela, são os dois policiais vividos por José Sancho e principalmente Javier Bardem que roubam cada cena de que participam, provando que Pedro Almodóvar, ao contrário do que pode-se pensar, é um exímio diretor de atores assim como o é de atrizes.

Se há uma única coisa que falta em "Carne trêmula" - mas mesmo assim sem que isso atrapalhe o resultado final - é o humor debochado, quase vulgar e divertidíssimo de suas obras anteriores. Esse vazio, no entanto, é mais do que compensado pelo erotismo registrado com veracidade e uma estética que passa longe das fumacinhas e lentes que transformam seres humanos em semideuses - ainda que plasticamente seja sempre muito excitante ver o sexo pela visão do diretor. Tecnicamente muito avançado em relação a seus filmes anteriores, "Carne trêmula" é um passo largo na carreira de Almodovar como um diretor único e destacado no cenário mundial.

Sexy, inteligente e surpreendente, "Carne trêmula" é um dos melhores "almodovars" da história. E ver Liberto Rabal e Francesca Neri em cenas calientes não é nada mal....

Um comentário:

renatocinema disse...

Gosto muito desse filme.

Concordo totalmente quando diz que falta humor debochado no filme, estilo do diretor. Mas, o resultado me agradou muito e me cativou para sempre.