sábado, 29 de dezembro de 2012

BOA NOITE E BOA SORTE

BOA NOITE, E BOA SORTE (Good night, and good luck, 2005, Warner Independent Pictures, 93min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Jim Papoulis. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jim Bissell/Jan Mascale. Produção executiva: Marc Butan, Ben Cosgrove, Mark Cuban, Jennifer Fox, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Steven Soderbergh, Todd Wagner. Produção: Grant Heslov. Elenco: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Frank Langella, Ray Wise, Tate Donovan. Estreia: 23/9/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Clooney), Ator (David Strathairn), Roteiro Original, Fotografia, Direção de arte/cenários

Ser um dos mais populares atores de Hollywood tem suas vantagens e George Clooney sabe disso muito bem. Depois de ter conseguido sair incólume até mesmo do estrago geral causado pelo fracasso monumental de "Batman & Robin " o ex-galã de "Plantão médico" estreou na direção com o elogiado "Confissões de uma mente perigosa" , deu gordas bilheterias à Warner Bros com seus divertidos filmes como Danny Ocean e quando todo mundo achava que ele estava confortável em seu título de astro eis que ele resolve inovar novamente. Com o custo de apenas 7 milhões de dólares - o que não paga nem um terço de seu salário habitual - ele realizou uma pequena obra-prima que revelou suas preocupações políticas e sociais. Baseado em uma história real - e lançado em preto-e-branco - "Boa noite, e boa sorte" conquistou a crítica, o público (arrecadou uma bilheteria de mais de 30 milhões) e a Academia, conquistando seis indicações ao Oscar, incluindo filme, diretor, ator e roteiro original.

Assim como fez em seu primeiro filme como diretor - que contava a história do produtor de TV e agente da CIA Chuck Barris, mesmo que de forma anárquica - em "Boa noite, e boa sorte" Clooney optou por narrar uma história real, que não apenas mostra os bastidores da TV americana dos anos 50 como também lança luz sobre um dos períodos mais negros da política ianque: o macarthismo - quando o senador Joseph McCarthy comandou uma verdadeira caça às bruxas contra o comunismo ou uma simples suspeita relacionada a ele. O protagonista dessa vez é Edward R. Morrow (David Strathairn), apresentador de um dos programas jornalísticos mais populares da CBS que, em 1953 - no auge da histeria liderada pelo senador - resolve tomar partido contra ele, contando com o apoio de seu produtor, Fred Friendly (vivido pelo próprio ator/diretor). Mesmo sabendo que estão lutando contra uma causa perigosa que pode lhes custar os empregos e a liberdade, os dois batem de frente com McCarthy, com o objetivo de mostrar à população o enorme manancial de erros e ilegalidades que o político utiliza em sua cruzada.



Lançado em um período em que o governo americano não estava exatamente em seus melhores dias - com a rejeição aos desmandos de George W. Bush - "Boa noite, e boa sorte" recupera, em sua atmosfera e em seu roteiro enxuto e contundente, a importância de filmes engajados e de temática política (ainda que, felizmente, nunca tenha a intenção de soar didático ou panfletário). Inspirado em sua figura paterna (que era âncora de um telejornal da CBS), Clooney construiu um filme que vai se montando aos poucos, delicadamente, para dar à audiência uma visão ampla e fidedigna dos acontecimentos. A bela fotografia de Robert Elswit (indicada merecidamente ao Oscar) compõe o clima da obra, assim como a impecável reconstituição de época e os números de jazz simetricamente espalhados pela projeção. Dono também de um roteiro que confia na inteligência do seu público, o filme conta ainda com um elenco absolutamente excepcional, em que cada ator - por menos tempo que apareça em cena - colabora intensamente para o resultado final.

Além do próprio George Clooney em papel coadjuvante, "Boa noite, e boa sorte" apresenta em seus créditos nomes consagrados como Robert Downey Jr., Jeff Daniels, Frank Langella e Patricia Clarkson, além de uma interpretação espetacular de David Strathairn no papel de Edward R. Morrow. Sutil, econômico e no controle absoluto de seu desempenho, o vilão de "Los Angeles, cidade proibida" dá um show em sua primeira real oportunidade como protagonista - desde que não se contem seus trabalhos com o independente John Sayles, praticamente desconhecidos pelo grande público. Sua interpretação só não foi premiada com o Oscar porque esbarrou justamente em Philip Seymour Hoffman com seu desempenho espírita em "Capote" - e demonstra que mesmo sendo apenas uma atuação, ainda consegue ser mais crível do que as imagens do senador McCarthy: vários espectadores reclamaram que "o ator" que intrepretava o político era muito canastrão, ignorando se tratar de imagens de arquivo. E viva a arte!

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