segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

SOLDADO ANÔNIMO

SOLDADO ANÔNIMO (Jarhead, 2005, Universal Pictures, 125min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: William Broyles Jr., livro de Anthony Swofford. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Walter Murch. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Bobby Cohen, Sam Mercer. Produção: Lucy Fisher, Douglas Wick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Chris Cooper, Dennis Haysbert, Lucas Black. Estreia: 04/11/05

Depois de dissecar o que se escondia nos subúrbios da classe média ianque em "Beleza americana" - e levar um Oscar por isso - e revigorar os filmes de gângster com a poesia em forma de celulóide chamada "Estrada para Perdição" - último papel do grande Paul Newman - o inglês Sam Mendes mostrou mais uma vez que não gosta de se repetir. Em "Soldado anônimo" mira sua visão crítica na guerra do Iraque, baseado em nas memórias do jovem soldado Anthony Swofford, um jarhead - como são chamados os soldados rasos - que viu, na versão cinematográfica de sua obra o desaparecimento de boa parte de seu teor político. Optando por contar sua trama sem um viés político ainda mais crítico - principalmente por pressão do estúdio - Mendes focou sua trama na relação entre o protagonista (vivido por um Jake Gyllenhaal prestes a concorrer ao Oscar por "O segredo de Brokeback Mountain") e seus colegas de exército. Se por um lado perdeu uma boa chance de fazer o seu "Apocalypse now" ao menos conseguiu realizar um filme de guerra que abdica de sangue e oferece em seu lugar muita areia e suor.

Narrado em primeira pessoa pelo recruta Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal), "Soldado anônimo" não apresenta cenas de batalha épicas ou chocantes. Quase contemplativo - mas longe do tédio de "Além da linha vermelha" - o filme de Mendes acompanha o dia-a-dia de um grupo de soldados que, no início dos anos 90, é mandado para o Iraque e descobre que a guerra está longe de ser como eles imaginavam devido a filmes como "Apocalypse now" (citado em imagens e música). Entedidados, resta a eles inventarem brincadeiras, apelarem para a constante masturbação e, vez ou outra, encarar o duro treinamento comandado pelo Sargento Sykes (Jamie Foxx). Sentindo-se solitário, Swofford faz amizade com outro fuzileiro, o rebelde Alan Troy (Peter Sarsgaard), que vê no exército a única saída de uma vida medíocre.

 

Injustamente ignorada pelo Oscar, a magistral fotografia de Roger Deakins reflete com perfeição as cores quentes e secas do deserto iraquiano, se tornando quase uma personagem a mais na narrativa enxuta de Sam Mendes - que não hesita em intercalar momentos de angústia dos soldados com cenas de um insuspeito humor. Contado quase de forma episódica - mostrando acontecimentos que vão do bizarro ao melancólico - "Soldado anônimo" leva o espectador para dentro da guerra, mesmo que ela apenas ameace chegar junto das personagens. Essa ameaça velada - que surge em sons e histórias mas que nunca mostra sua real face - só chega realmente perto no terço final do filme, em uma sequência potente que revela o desequilíbrio que a situação tensa de meses a fio causa em alguns homens (no caso, em Troy, o que permite a Peter Sarsgaard uma cena de grande força emocional).

"Soldado anônimo" é um filme de guerra para quem não gosta de filmes de guerra. Não há vítimas, não há vilões, não há heróis. É apenas o retrato de uma situação extrema narrado com sobriedade e talento por um cineasta dos melhores de seu tempo. Merecia ter tido mais sorte na temporada de premiações.

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