EMBRIAGADO DE AMOR (Punch-drunk love, 2002, New Line Cinema/Revolution Studios/Ghoulardi Film Company, 95min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Leslie Jones. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold/Jay R. Hart. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Mary Lynn Rajskub, Luiz Guzmán. Estreia: 19/5/2002 (Festival de Cannes)
Vencedor do Melhor Diretor (Paul Thomas Anderson) no Festival de Cannes
Durante uma coletiva de imprensa para o lançamento de "Magnólia" (1999), o cineasta Paul Thomas Anderson declarou a um jornalista britânico que seu próximo projeto seria uma comédia estrelada por Adam Sandler. Ninguém levou a sério tal informação - afinal o que poderia haver em comum entre um dos diretores mais festejados do momento, com filmes de narrativas densas e dramaticamente consistentes, e um ator de comédias ligeiras, relativamente populares mas de prestígio quase nulo junto à crítica? -, mas, três anos depois, também no Festival de Cannes, o que antes parecia uma piada mostrou-se uma realidade quase surreal. Distante das ambições dos projetos anteriores de Anderson - inclusive na duração de pouco mais de noventa minutos -, "Embriagado de amor" surpreendeu aos fãs, à indústria e à imprensa ao substituir o tom pesado de suas produções mais famosas por uma (aparentemente) singela história de amor. Considerado pela crítica como o melhor trabalho de Sandler até então, o romance atípico, com toques de um humor melancólico, deu a Anderson o prêmio de melhor diretor no festival francês e mostrou ao mundo uma faceta diferente de seu talento - ainda que sem abrir mão de algumas das características que o fizeram destacar-se no final dos anos 1990. De estrutura simples mas personagens complexos, o filme até tenta distanciar-se da sofisticação das produções anteriores do diretor, mas não pode ser considerado convencional (nem que seja graças à personalidade de seu protagonista).
Barry Egan (Adam Sandler em registro dramático e discreto) é um homem relativamente bem-sucedido. Dono de uma pequena empresa de objetos domésticos e independente, ele sofre, no entanto, com uma insegurança que o impede de manter contatos sociais duradouros ou românticos. Único homem de uma família de sete irmãs pouco amistosas, Barry sofre de uma angústia com a qual só consegue extravasar através de repentinos ataques de raiva. Sua rotina modorrenta sofre um baque, no entanto, através de duas situações inusitadas. Primeiro ele passa a ser chantageado por Georgia, atendente de telessexo com quem teve uma conversa em uma noite solitária - e seus violentos irmãos não brincam em serviço quando o assunto é "proteger" a irmã. E em segundo lugar, Barry conhece Lena Leonard (Emily Watson), amiga de uma de suas irmãs, que não hesita em deixar claro suas intenções amorosas com ele apesar de sua personalidade hesitante. Enquanto tenta fugir da pressão exercida por Georgia e dar a devida atenção a Lena, o complicado empresário busca o equilíbrio mental que somente a paz de espírito (que lhe é rara) pode proporcionar.
Uma espécie de patinho feio dentro da filmografia de Paul Thomas Anderson - foi solenemente ignorado pelo Oscar, por exemplo -, "Embriagado de amor" não deixa de ser um precursor de algumas obras menores do diretor que surgiriam alguns anos depois, como "Licorice Pizza", de 2021 (também uma história de amor entre pessoas pouco glamourosas). Sem o peso de seus primeiros trabalhos - que não poupavam seus personagens e os oprimia em situações extremas -, seu primeiro romance demonstra um pequeno raio de luz em uma obra frequentemente guiada pela escuridão. Não é tão marcante, nem tão poderoso. Mas não deixa de ser simpático.


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