quinta-feira, 20 de outubro de 2016

COMO CONQUISTAR AS MULHERES

COMO CONQUISTAR AS MULHERES (Alfie, 1966, Sheldrake Films, 114min) Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Bill Naughton, peça teatral "Alfie", de sua autoria. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Thelma Connell. Música: Sonny Rollins. Direção de arte: Peter Mullins. Produção: Lewis Gilbert. Elenco: Michael Caine, Shelley Winters, Millicent Martin, Julia Foster, Jane Asher, Shirley Anne Field, Vivien Merchant. Estreia: 29/3/66

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Vivien Merchant), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Alfie")

Em 1966, alguns assuntos ainda eram tabu no cinema, apesar dos ares mais progressistas que a década do amor livre havia apresentado ao mundo. Hollywood, por exemplo, ainda engatinhava em questões mais relevantes socialmente e o público ainda se chocava com os agressivos diálogos de Edward Albee que transformaram "Quem tem medo de Virginia Woolf?" em um dos mais surpreendentes sucessos de público e crítica do ano. Assim como a adaptação do então estreante Mike Nichols não tinha papas na língua para tocar em temas controversos, outro filme com origem nos palcos chegava à festa do Oscar amparado em um roteiro ousado e que não deixava pedra sobre pedra ao levar para as telas um protagonista tão francamente cafajeste que não deixava outra opção à plateia senão compreendê-lo e, em última instância, simpatizar com ele. Era Alfie Elkins, o mecânico sedutor que, na pele de Michael Caine, transformou "Como conquistar as mulheres" em um dos maiores êxitos do cinema inglês da década. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme e ator - a comédia dramática dirigida por Lewis Gilbert marcou época por sua mistura de coragem, cinismo e uma certa melancolia, equilibrados em um roteiro que também quebrava paradigmas narrativos, como a quebra da quarta parede, que fazia com que o protagonista falasse diretamente com o espectador - um artifício que ajudava a aproximar público e personagem.

Interpretado por um Michael Caine que herdou o papel de seu amigo pessoal Terence Stamp - que recusou-se a retornar ao personagem que havia defendido nos palcos - Alfie Elkins é, indubitavelmente, um canalha irrecuperável. A forma com que Caine o representa, no entanto, ameniza a antipatia que a plateia poderia sentir por ele: exalando um charme abjeto, o ator inglês, em seu primeiro grande papel, desfila pela tela fazendo comentários sexistas e pouco elogiosos às mulheres - o que, no mínimo, enfatiza a ironia do título em português. Com um texto ácido e contundente, cortesia do dramaturgo Bill Naughton adaptando sua própria peça de teatro, "Como conquistar as mulheres" oferece à Caine um personagem repleto de nuances que vão se revelando aos poucos, chegando até o melancólico discurso final que justifica sua indicação ao Oscar de melhor ator. Já nessa época apostando na sutileza e na elegância como pilares de interpretações vitoriosas, Michael Caine acerta o tom em todas as cenas, indo da ironia à tristeza, da arrogância à sedução e agressividade ao carinho em questão de segundos. É um trabalho de mestre que valoriza cada momento - mérito também do diretor Lewis Gilbert, que, à época, ainda não havia comandado as três aventuras de James Bond que lhe dariam fama em seguida - "Com 007 só se vive duas vezes" (67), "O espião que me amava" (77) e "007 contra o foguete da morte" (79) - e que voltaria a adaptar um texto teatral para o cinema em 1988, com "Shirley Valentine", que deu à Pauline Collins uma indicação ao Oscar de melhor atriz.


O filme acompanha de perto as aventuras amorosas de Alfie, um mecânico metido à Don Juan que não hesita em seduzir qualquer espécime feminino que cruze seu caminho. Logo de cara, o público conhece Siddie (Millicent Martin), uma mulher casada com quem ele acaba de terminar seu caso. Deixando claro sua ojeriza a compromissos, ele vive um relacionamento aberto com Gilda (Julia Foster), que aceita os termos da relação até engravidar, ter um filho dele e perceber que deseja formar uma família nos moldes tradicionais - o que inclui um casamento que ele não quer lhe oferecer. Um problema de saúde o leva a uma clínica de repouso, onde ele simultaneamente seduz uma enfermeira e a honrada Lily (Vivian Merchant, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), esposa de um de seus colegas de enfermaria. É Lily e uma gravidez inesperada que serão os catalisadores de uma mudança de perspectiva em Alfie - o aborto da amante o leva a repensar seu modo de vida e ele se aproxima, então, da ricaça americana Ruby (Shelley Winters), que lhe dará mais uma grande lição de vida.

Nitidamente sessentista, o visual de "Como conquistar as mulheres" dialoga com perfeição com o tom naturalista/moderno proposto por Gilbert, que explora sempre que possível os espaços abertos de uma Londres em plena revolução sexual e de costumes. Quando o clima fica mais pesado, no terço final do filme, a fotografia de Otto Heller acompanha a descida da alma de Alfie à tristeza e ao desespero - em especial na dolorosa cena em que ele finalmente toma consciência dos seus atos. A trilha sonora vibrante - que inclui a famosa versão da canção-título na voz de Cher - também tem sua importância no panorama geral criado pelo diretor, um quadro vívido e pulsante de um estilo de vida que, com o passar dos anos, tornou-se tão ou ainda mais cruel - basta lembrar que, quase quarenta anos depois de seu lançamento, em 2004, o texto voltou quase literal às telas de cinema em uma versão dirigida por Charles Shyer e estrelada por Jude Law - que criou um Alfie mais charmoso e menos cruel, mas igualmente de conduta questionável. Um sinal da coragem do original é que quase nada precisou ser mudado na transposição para o século XXI. Pode ser chocante ou desagradável para uma comédia, mas "Como conquistar as mulheres" é, sem dúvida, ousado e muito atual, especialmente em um mundo tão antenado às conquistas femininas.

Nenhum comentário: