segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MARNIE - CONFISSÕES DE UMA LADRA

MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (Marnie, 1964, Universal Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jay Presson Allen, romance de Winston Graham. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Direção de arte/cenários: Robert F. Boyle/George Milo. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Martin Gabel, Louise Latham, Diane Baker. Estreia: 09/7/64

Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.

A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.


Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.

O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.

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