sexta-feira, 19 de março de 2010

JANELA INDISCRETA



JANELA INDISCRETA (Rear window, 1954, Paramount Pictures, 112min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um conto de Cornell Woolrich. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr. Estreia: 01/8/54

4 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores, Som

Se o cinema é a arte do voyeurismo, então "Janela indiscreta" é cinema em sua mais pura essência. Baseado em um conto de Cornell Woolrich (recentemente republicado no Brasil pela Cia das Letras), um dos clássicos mais famosos de Alfred Hitchcock (e um dos poucos que o mestre do suspense não renega fervorosamente, como várias de suas criações) é também um dos filmes seminais do gênero, utilizando elegância, ironia e até mesmo um certo olhar carinhoso sobre as pessoas em geral para contar uma história de assassinato onde o crime, no final das contas, é o que menos interessa.

A primeira cena de "Janela indiscreta" já é um primor de concisão e uma prova do talento inconteste de Hitchcock em falar muito em pouco tempo: um único movimento de câmera e o espectador já percebe que a ação se passará em um verão bastante quente e que seu protagonista é um fotógrafo profissional que sofreu um acidente durante um trabalho e está com uma das pernas engessadas. O tal fotógrafo é L.B. Jefferies (James Stewart), que, entedidado com sua falta de opções de lazer passa os dias bisbilhotando as vidas dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Munido de um binóculo e de uma luneta, ele acompanha as aventuras românticas de uma mulher solitária, a lua-de-mel de um jovem casal, as noites animadas de uma bela dançarina, etc. As únicas exceções a seu programa solitário são as visitas de sua tagarela massagista/enfermeira Stella (Thelma Ritter) e de sua namorada, a bela socialite Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), que tenta convencê-lo, inutilmente, a abandonar a vida de solteiro para casar-se com ela. Sua pasmaceira é sacudida, no entanto, quando ele passa a desconfiar que um de seus vizinhos, Lars Thornwald (Raymond Burr), matou a esposa e esquartejou o corpo para escondê-lo da polícia. A princípio desacreditado inclusive por seu amigo policial (Wendell Corey), logo Jefferies passa a convencer a todos de sua certeza, uma vez que inúmeras evidências apontam para a culpa de Thornwald.


"Janela indiscreta" é uma aula de cinema. Conciso e direto, o roteiro de John Michael Hayes não perde tempo com cenas desnecessárias à estória que conta: tudo que é mostrado através da lente de Jefferies é extremamente importante para o desenrolar de alguma ramificação da trama - se não para levar adiante as desconfianças do protagonista em relação ao assassinato, ao menos para convidar o público a acompanhar os inúmeros dramas humanos mostrados pelo cineasta. O prédio observado pela personagem de James Stewart não deixa de ser um microcosmo da vida - pelo menos em seu lado mais humano, sentimental e sensível. Enquanto renega um envolvimento mais sério com a namorada, o fotógrafo tem à sua vista inúmeros exemplos de relações bem ou mal resolvidas - e logicamente a mais extrema (que resulta em homicídio) é a que mais lhe interessa.

No entanto, por mais que a trama principal seja justamente a que envolve sangue e violência, são as pequenas histórias cotidianas contadas praticamente sem diálogos por Hitchcock e sua equipe que conquistam pela simplicidade e delicadeza: o casal sem filhos que transmite todo o amor a um cachorro, a solteirona que é salva do suicídio pela música composta pelo vizinho compositor e a bela mulher que é casada com um soldado nada atraente são, entre outros, protagonistas de sua própria história, cada uma delas coadjuvante de uma trama maior, tecida com a ironia e a elegância do mestre inglês.

E por falar em elegância, seria injusto não citar a presença grandiosa de Grace Kelly. Vestida por Edith Head, a futura princesa de Mônaco brilha intensamente em cada cena em que está (sua primeira aparição - em um close quando se inclina para beijar seu namorado adormecido - merece figurar em qualquer antologia dos momentos mais sexies do cinema). E não deixa de ser irônico que ela desperte a paixão do protagonista justamente quando sai de sua vida "cor-de-rosa" das colunas sociais para enfrentar o monstro assassino, transformando-se, assim, de mocinha indefesa e fútil em mulher determinada e corajosa.

Uma das melhores obras da carreira de Alfred Hitchcock, "Janela indiscreta" é o tipo de filme que quanto mais vezes é assistido melhor fica. Graças ao número imenso de pequenos detalhes lançados pelo cineasta em cena (que aparece arrumando um relógio no apartamento do compositor) é praticamente impossível não descobrir mais qualidades a cada revisão. Uma obra-prima indiscutível!

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