quinta-feira, 25 de setembro de 2014

FESTIM DIABÓLICO

FESTIM DIABÓLICO (Rope, 1948, Warner Bros, 80min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Arthur Laurents, adaptação de Hume Cronyn, peça teatral de Patrick Hamilton. Fotografia: William V. Skall, Joseph Valentine. Montagem: William H. Zeigler. Direção de arte/cenários: Perry Ferguson/Howard Bristol, Emile Kuri. Produção: Sidney Bernstein, Alfred Hitchcock. Elenco: James Stewart, Farley Granger, John Dall, Edith Evanson, Douglas Dick, Joan Chandler, Sir Cedric Hardwicke, Constance Collier. Estreia: 26/8/48

O primeiro filme colorido do mestre do suspense Alfred Hitchcock - e também o primeiro em que ele assume o papel de produtor - é mais uma prova cabal de que o cineasta inglês tinha pleno domínio da técnica cinematográfica, além de seu talento quase sobrenatural para manipular os medos e tensões da plateia. Adaptando livremente a peça teatral de Patrick Hamilton (e por livremente leia-se com alterações bastante substanciais), Hitch resolveu manter na versão cinematográfica a sensação de tempo real do espetáculo através de um artifício ainda pouco utilizado no cinema de então e ainda hoje raramente visto: um plano único, que acompanha os personagens durante pouco menos de hora e meia. Logicamente, não há uma única tomada - algo impraticável devido a limitações técnicas - mas é inegável que a meta foi atingida: "Festim diabólico" é uma aula de narrativa, onde o diretor abdica de uma de suas maiores qualidades como artista (a decupagem cuidadosa e rica de planos, que privilegiava a montagem como forma de acentuar a importância emocional de determinadas cenas) para experimentar um novo modo de contar uma história.

Repleta de dificulades técnicas - fios espalhados pelo set, ruídos de móveis especialmente construídos sendo arrastados e um especial desafio em termos de iluminação que acabou afastando o diretor de fotografia William V. Skall - a ousadia de Hitchcock em criar um marco na história do cinema acabou disfarçando para o público e os censores uma ousadia ainda maior, desta vez creditada ao dramaturgo Patrick Hamilton: em sua peça teatral, os dois protagonistas são homossexuais, assim como o professor de um deles, vivido no filme por James Stewart. Na versão para as telas não há menção explícita à sexualidade dos rapazes - e o professor não só é hetero e mais velho do que no texto original como tem um interesse romântico feminino. Tais medidas da adaptação feita pelo também ator Hume Cronyn (que foi casado com Jessica Tandy até sua morte) não foram o bastante para que o filme fosse banido em diversas cidades dos EUA, ignorando que a trama foi inspirada em um caso real e ocorrido por dois estudantes da Universidade de Chicago.


E a trama, apesar de todo o tititi em torno das técnicas corajosas e então vanguardistas de Hitchcock, consegue se manter sólida e interessante mesmo mais de seis décadas desde seu lançamento. Dois jovens estudantes, Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger), que dividem um apartamento em Nova York resolvem testar sua teoria sobre um crime perfeito e matam um colega, David Kentley (Dick Hogan, que aparece apenas no primeiro take, sendo enforcado). Depois do ato cometido, eles colocam o corpo do rapaz em um baú, sabendo que na mesma noite receberão um grupo de convidados para um coquetel. Sua intenção é agir normalmente diante dos pais da vítima, de sua ex-noiva e de um professor, Rupert Cadell (James Stewart), a quem querem provar sua superioridade intelectual. Durante a noite, o nervosismo de Phillip quase põe tudo a perder, mas a frieza de Brandon não pretende se deixar subjugar pela inteligência de Cadell.

Se fosse rodado de maneira convencional - com todos os artifícios que fazem dos filmes de Hitchcock a delícia que são - "Festim diabólico" certamente seria um sucesso a mais em sua carreira brilhante. Como está, no entanto, ele se sobressai pela coragem de um diretor em romper a inércia de uma indústria e inovar a feitura de seus filmes mesmo correndo sérios riscos financeiros. O público pode até nem se dar conta da forma com que o filme foi feito - com seus truques inteligentes para disfarçar a mudança de um take para outro ou com as câmeras deslizando pelo cenário - mas fica hipnotizado pela maneira com que a história é contada e com seus personagens, bem defendidos por um elenco eficiente. Hitchcock sabia inovar, sem dúvida, mas ainda é, acima de tudo, um contador de histórias muito acima da média.

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