quarta-feira, 25 de novembro de 2015

CAMILLE CLAUDEL 1915

CAMILLE CLAUDEL 1915 (Camille Claudel 1915, 2013, 3B Productions/Arte France Cinéma, 95min) Direção: Bruno Dumont. Roteiro: Bruno Dumont, cartas de Camille Claudel e Paul Claudel. Fotografia: Guillaume Deffontaines. Montagem: Basile Belkhiri, Bruno Dumont. Figurino: Alexandra Charles, Brigitte Massay-Sersour. Direção de arte: Laurent Dupire-Clément. Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat, Muriel Merlin. Elenco: Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Robert Leroy, Marion Keller, Emmanuel Kauffman. Estreia: 12/02/13 (Festival de Berlim)

Em 1990, Isabelle Adjani concorreu ao Oscar de melhor atriz por seu intenso desempenho em "Camille Claudel", de Bruno Nuytten, onde interpretava com corpo e alma a brilhante escultora francesa que foi aluna e amante de Rodin e que acabou seus dias presa em um sanatório para doentes mentais. O filme também foi indicado na categoria de produção estrangeira e é, até hoje, o poderoso retrato de uma mulher apaixonada por sua arte e por um homem que acabou por ser o responsável por seu declínio. "Camille Claudel 1915", dirigido por Bruno Dumont e lançado no Festival de Berlim de 2013 pode ser considerado - sem que haja demérito nessa afirmação - uma continuação da história contada por Nuytten. Enquanto a produção estrelada por Adjani acabava com sua internação, o filme de Dumont se concentra em um período específico da vida da artista - justamente o inverno de 1915 citado no título - para mostrar sua triste rotina como interna em uma instituição no sul da França. Contando com mais uma arrebatadora atuação de Juliette Binoche, ele pode não ter conseguido a mesma potência dramática no todo, mas seu filme serve para jogar um pouco mais de luz na celebrada figura de Claudel.

Em um filme de momentos, cujo roteiro baseia-se nas cartas escritas por Camille e seu irmão, o poeta Paul Claudel - um dos responsáveis por sua internação - Dumont conduz sua narrativa com uma placidez que contrasta violentamente com o turbilhão emocional da protagonista, pontuando-a com silêncios contemplativos e alguns (poucos) longos diálogos que iluminam muitos dos demônios que afastavam Camille de sua família e do convívio social. Com alto grau de paranoia, a escultora acreditava (hoje sabe-se que não tão erroneamente assim) que Rodin e seus alunos tinham por objetivo apossar-se de sua arte sem dar-lhe o devido crédito e, na tentativa de se fazer ouvir, encontrava resistência no cristianismo exarcebado de seu irmão, que o filme evita de apontar como vilão ou outra vítima da história. Em uma tentativa honesta de mostrar os dois lados da questão, o roteiro de Dumont dá espaço para as dúvidas de Paul Claudel tanto quanto para o desespero de sua irmã. Mas é impossível não sensibilizar-se bem mais com a solidão de Camille.


Com uma interpretação avassaladora, Juliette Binoche transmite, pelo simples olhar, toda uma vasta gama de emoções, em cenas de extrema simplicidade que se transformam, graças a seu talento, em grandes momentos dramáticos. É assim, por exemplo, quando ela esculpe um pássaro com a lama que junta do chão da floresta que circunda sua "prisão" e principalmente quando cai em prantos ao assistir ao ensaio de uma versão amadora - feita por suas colegas de reclusão - de "Don Juan": quando o diálogo que fala de amor e casamento cai em seus ouvidos, é impossível segurar as lágrimas, e com Binoche (e Claudel), o público se comove sem que uma única frase a respeito de sua situação seja dita. Sua explosão emocional - seguida de um acesso de fúria arrepiante - mostra tanto a imensidão da solidão e da tristeza da personagem quanto do talento de sua intérprete, em mais um grande momento da carreira.

Contando com pacientes reais como elenco de apoio - o que explica a sensação palpável de um confinamento em uma instituição psiquiátrica - Bruno Dumont fez de seu "Camille Claudel 1915" uma espécie de documentário dramático, uma homenagem delicada e ao mesmo tempo devastadora a uma das maiores artistas plásticas da história. Pode não ter tido o mesmo impacto do filme estrelado por Isabelle Adjani - também um belo espetáculo - mas merece aplausos pela coragem e sensibilidade. E nunca é perda de tempo testemunhar mais um desempenho irretocável de Juliette Binoche.

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