segunda-feira, 10 de agosto de 2015

CÓPIA FIEL

CÓPIA FIEL (Copie conforme, 2010, MK2 Productions/Bibi Films/Abbas Kiarostami Productions, 106min) Direção: Abbas Kiarostami. Roteiro: Abbas Kiarostami, colaboração de Caroline Eliacheff. Fotografia: Luca Bigazzi. Montagem: Bahman Kiarostami. Direção de arte: Giancarlo Basili, Ludovica Ferrario. Produção executiva: Claire Dornoy, Marin Karmitz. Produção: Angelo Barbagallo, Charles Gillibert, Marin Karmitz, Nathanael Karmitz, Abbas Kiarostami. Elenco: Juliette Binoche, William Shimell. Estreia: 18/5/10 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Responsável pela popularização do cinema iraniano no Ocidente, através de filmes incensados como "Close-up" e "Gosto de cereja", Abbas Kiarostami surpreendeu o júri e o público do Festival de Cannes 2010 quando lançou "Cópia fiel" - que saiu com a estatueta de melhor atriz para Juliette Binoche: ao invés de retratar com senso crítico a sociedade de seu país, uma característica marcante de sua filmografia até então, o cineasta voltou sua atenção para uma história minimalista e centrada basicamente em diálogos sobre arte, filosofia e relações familiares, ignorando toda e qualquer referência política de sua obra anterior. O que poderia soar, no entanto, como um aborrecido e pedante exercício verborrágico acaba se tornando, diante dos olhos dos espectadores, um dos mais fascinantes, inteligentes e brilhantes filmes de sua época, graças a uma genial reviravolta em sua metade, que altera toda e qualquer percepção que a plateia porventura tenha experimentado até então. O que antes parecia um "Antes do amanhecer" mais maduro e erudito se transforma em um jogo de espelhos capaz de confundir até ao mais atento cinéfilo.

A princípio, a trama é simples e direta: em plena viagem de lançamento de um livro seu onde lança a teoria de que uma cópia bem feita tem tanto valor quanto uma obra original, o escritor britânico James Miller (o tenor William Shimell, saindo-se muito bem como ator) faz uma palestra na Toscana e aceita o convite da dona de um antiquário para visitá-la no dia seguinte. Bela e inteligente, a anfitriã - francesa, mãe solteira e não exatamente convencida das teorias artísticas do autor - o convence a visitar a região, enquanto discutem a respeito do assunto. Ele mantém-se firme na convicção de que tudo na vida é cópia de algo já existente e ela questiona seu ponto de vista até que chegam em uma pequena vila chamada Lucignano. Confundidos com um casal, eles passam a comportar-se como tal, como uma espécie de cópia de um relacionamento real. Mas será, realmente, que eles estão fingindo?


Sem nunca deixar que a questão principal do filme - o questionamento a respeito do valor de uma cópia perante um produto original - fique esvaziada diante da mudança de rumo da trama, Kiarostami criou um pequeno labirinto emocional, onde os personagens são frequentemente forçados a encarar suas próprias falhas e dúvidas enquanto travam longos e densos diálogos sobre arte e vida. Obrigados também a lidar com outros personagens que cruzam seu caminho - e fornecem pistas ao espectador a respeito da real relação entre eles - o escritor e sua leitora desfilam por belas paisagens italianas, visitam belas obras de arte e chegam a testemunhar uma festiva cerimônia de casamento que aprofunda ainda mais a dubiedade de sua associação: afinal de contas o que se passa entre os dois é um jogo de interpretação? Eles são realmente um casal? Ou já foram? Ou não é nenhuma dessas opções?

Abbas Kiarostami não responde diretamente essa questão crucial de seu filme, deixando nas mãos do espectador a resolução de seu quebra-cabeças - e como em qualquer bom filme, todas as respostas são possíveis, dependendo exclusivamente do ponto de vista de quem assiste. É uma obra-prima em pequena escala, brilhantemente escrita, dirigida e interpretada - Juliette Binoche não está menos do que avassaladora em sua atuação, plenamente merecedora do prêmio de Cannes. Mas, apesar de tudo, não é recomendável a quem prefere blockbusters ou cinemão hollywoodiano.

Nenhum comentário: