sábado, 8 de agosto de 2015

O ESCRITOR FANTASMA

O ESCRITOR FANTASMA (The ghost writer, 2010, R.P. Productions/France 2 Cinéma, 128min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Robert Harris, romance de Robert Harris. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Albrecht Konrad/Bernhard Henrich. Produção executiva: Henning Molfenter. Produção: Robert Benmussa, Roman Polanski, Alain Sarde. Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Catrall, Tom Wilkinson, Timothy Hutton, Jon Bernthal, James Belushi. Estreia: 12/02/10 (Festival de Berlim)

Não é qualquer diretor que consegue a façanha de comandar um thriller político sem cair nas armadilhas do gênero, criando uma trama anacrônica e/ou confusa demais para o espectador médio. Como todo mundo sabe, porém, Roman Polanski não é qualquer diretor. Vencedor do Oscar por "O pianista" e autor de obras consagradas pelo tempo, como "O bebê de Rosemary" e "Chinatown", o cineasta polonês demonstrou, na adaptação do romance "O escritor fantasma", que nem mesmo a idade avançada - 76 anos de idade durante as filmagens - ou a impossibilidade de pisar em território americano sob pena de prisão - resultado da condenação por ter feito sexo com uma menor de idade em 1978 - são empecilhos para quem tem talento. Concisa, elegante e extremamente eficiente, a transição do livro de Robert Harris para as telas é uma prova inconteste de sua energia e inquietude como cineasta: filmado na Alemanha e finalizado quando Polanski estava preso na Suíça, o filme acabou lhe rendendo o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim - a que ele não pode atender por causa da prisão domiciliar a que estava condenado à época - e tornou-se um de seus mais elogiados trabalhos pós-Oscar. Um sucesso merecido, principalmente pela feliz escolha de todos os elementos de produção.

Escrito pelo jornalista e colunista político Robert Harris - que nunca escondeu sua simpatia pelo primeiro-ministro Tony Blair até que o evento da Guerra do Iraque os separou ideologicamente - "O escritor fantasma" se utiliza de várias referências a Blair em seu enredo, mas procurar similaridades entre ele e o primeiro-ministro retratado na trama, Adam Lang é um exercício inútil: apesar de ser um tanto divertido buscar tais semelhanças, o espectador teria também que achar referências a outros líderes, como Bill e Hilary Clinton e o primeiro-ministro paquistanês Benazir Bhutto, todos citados de forma velada durante o desenrolar da história, em níveis mais ou menos óbvios, dependendo do conhecimento de história da plateia. Tais elementos, porém, são apenas detalhes que, se aumentam o interesse dos mais antenados, não atrapalham o divertimento daquele público que espera apenas uma boa história, contada com competência e seriedade. E isso, felizmente, "O escritor fantasma" faz com maestria, calcado principalmente na inspirada atuação de Ewan McGregor.


Ficando com o papel recusado por Hugh Grant e que quase foi de Nicolas Cage - Deus nos proteja! - McGregor está em um dos melhores momentos de sua carreira. Ele interpreta um escritor inglês que ganha a vida escrevendo biografias para celebridades que não tem o dom das letras - o que se chama, no mercado editorial, um "escritor fantasma". Pouco interessado em política, ele é contratado, por um bom salário, para escrever as memórias do primeiro-ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan, explorando seu carisma canastrão com propriedade), justamente quando ele está passando por uma crise relacionada ao terrorismo internacional e a questões de direitos humanos. No meio do furacão, o inocente autor (nunca nomeado) acaba por descobrir, por conta própria, que a morte de seu predecessor pode não ter sido acidental - e que sua própria vida pode estar correndo sério risco. Envolvido com a esposa de Lang, a fria Ruth (Olivia Williams, substituta de Tilda Swinton), ele resolve investigar uma pista que liga seu novo patrão à CIA.

Contando sua história sem pressa, dando a cada cena o peso correto para criar um clima de tensão e claustrofobia que é sua marca registrada, Polanski faz de "O escritor fantasma" um entretenimento adulto e sério, sem espaço para piadas desnecessárias ou sequências de ação inócuas. Centrando sua trama basicamente no personagem de McGregor - que entrega um misto de coragem e fragilidade na medida exata - e deixando apenas para os últimos minutos a reviravolta final (coerente e inteligente), o roteiro prende a atenção do espectador do início ao fim mesmo sem apelar para a violência gratuita ou para o clichê do heroísmo individual. É um filme seco, direto e pontual, perfeito para quem procura um entretenimento maduro e inteligente.

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