OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in their eyes, 2015, IM Global, 111min) Direção: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray, roteiro original de Juan José Campanella, Eduardo Sacheri, romance de Eduardo Sacheri. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Jim Page. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Andrea Joel. Produção executiva: Matt Berenson, Juan José Campanella, Stuart Ford, Russell Levine, Jeremiah Samuels, Robert Simonds, Lee Jea Woo, DEborah Zipser. Produção: Matt Jackson, Mark Johnson. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Alfred Molina, Joe Cole. Estreia: 12/11/15 (Itália)
Ao menos dois motivos podem justificar o remake de uma produção estrangeira dentro dos moldes de Hollywood. Primeiro: por mais sucesso que o original possa fazer no mercado norte-americano, seu alcance ainda é muito limitado, principalmente pela barreira do idioma (não é segredo para ninguém a aversão do público médio a legendas). E segundo: poucos produtores conseguiriam resistir à ideia de ganhar uma bela grana ao copiar um êxito já comprovado - chancelado, preferencialmente, por nomes e rostos conhecidos da plateia. Isso explica "Olhos da justiça", refilmagem (bastante) livre do excepcional "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Baseado em um romance de Eduardo Sacheri, o filme de Juan José Campanella derrotou produções badaladas, como "A fita branca", de Michael Haneke, e "O profeta", de Jacques Audiard, e se tornou um dos filmes mais elogiados da temporada, com uma mistura perfeita de romance, drama e policial, além de uma atuação quase mágica de Ricardo Darín. Sua releitura hollywoodiana, porém, não teve a mesma sorte: recebida com frieza pela crítica, também falhou em conquistar o público, e, apesar da presença de Julia Roberts e Nicole Kidman (dois chamarizes fortes), mal conseguiu arrecadar 20 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá). De uma certa forma esse resultado foi até previsível.
Sua bilheteria tímida (leia-se fracasso monumental, em linguagem de Hollywood) deixou claro para todo mundo que nem sempre grandes estrelas são garantia de sucesso, especialmente quando elas não estão a função de uma franquia que pode caminhar por si mesma (caso dos filmes de super-heróis) ou em busca de um Oscar, com uma campanha milionária de marketing na retaguarda. Bancado por uma companhia independente, a IM Global (depois que a Warner abandonou o projeto a meio caminho) e dirigido por Billy Ray (um cineasta competente mas sem grandes êxitos comerciais no currículo), "Olhos da justiça" talvez tenha confiado demais no interesse do público por uma história já consagrada e no poder de fogo de seu elenco. Mais um exemplo de como refilmagens não são exatamente o caminho das pedras para o sucesso financeiro (raras vezes a ideia dá certo, como no caso de "A gaiola das loucas", dirigida por Mike Nichols em 1996), o filme de Ray amargou uma esnobada geral - e no fim das contas nem merecia tamanho descaso. Visto como um filme independente (o que é especialmente difícil, principalmente para os fãs do original), "Os olhos da justiça" até tem suas qualidades e pode ser digerido facilmente pelo público que procura um drama policial. Visto sem expectativas irreais, é uma produção competente - mesmo que tenha momentos que lembrem mais telefilmes do que grande cinema.
A principal mudança na estrutura da trama - em relação ao filme argentino - é a alteração do gênero de um dos personagens principais (e sua relação com os demais protagonistas). Enquanto na produção de Campanella a vítima do crime brutal que dá início à ação era uma jovem recém-casada cuja morte transforma a busca pelo culpado uma obsessão do marido, na versão americana quem morre é uma adolescente que vem a ser filha de uma investigadora policial, especializada em contra-terrorismo - uma mudança que também serve para definir de forma decisiva o tempo e o local da primeira parte do enredo, saindo da Argentina da ditadura militar dos anos 70 para a Los Angeles pós-11/9. Jess Cobb, a policial que sofre a traumática perda, é vivida por uma Julia Roberts despida de qualquer glamour e escondendo seu famoso sorriso - o personagem, masculino no livro de Eduardo Sacheri, no roteiro de Campanella e até no primeiro tratamento de Billy Ray, foi reescrito especialmente para ela, que se sai bastante bem apesar de dividir o foco da narrativa com o drama romântico que se desenrola a seu lado - este sim, bem menos potente do que aquele apresentado pelo material original.
No filme de Campanella, o romance entre os protagonistas interpretados por Ricardo Darín e Soledad Villamil é intenso, repleto de silêncios, olhares e uma química palpável, que conduz a trama com a mesma força do enredo policial. Em "Olhos da justiça" a mágica não se repete. Por mais talentosos que sejam, Nicole Kidman (substituindo Gwyneth Paltrow) e Chiwetel Ejiofor não conseguem reproduzir a tensão sexual entre seus personagens. Enquanto Kidman interpreta a promotora Claire Sloane, que se divide entre a carreira e sentimentos mais pessoais (a atração que sente pelo colega, o desejo de quebrar as regras para vingar a amiga), Ejiofor faz o possível para dar consistência a um personagem que o próprio roteiro não desenvolve a contento - o dedicado Ray Kasten, que passa dez anos preso a duas obsessões: encontrar o assassino da filha de Jess e conquistar o amor de Claire, por quem se apaixonou à primeira vista e a quem jamais esqueceu. As duas tramas paralelas (o romance e o policial) caminham juntas em uma edição repleta de flashbacks pouco inventivos e atuações em registro quase automático: com exceção de alguns momentos inspirados de Julia Roberts, o filme não chega a empolgar (e até a famosa sequência em um estádio de futebol, aqui devidamente alterado para beisebol, é muito mais intensa no filme original, ainda que Ray faça esforço para criar a tensão necessária). Um filme apenas mediano, "Olhos da justiça" se beneficia do elenco (ainda que não em dias excelentes), uma trama forte (ainda que diluída por mudanças um tanto desnecessárias e um final diferente) e pela produção bem cuidada. Serve como entretenimento, mas não passará ao status de cult de seu material original.
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A MISSÃO
A MISSÃO (The Mission, 1986, Warner Bros, 125min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Robert Bolt. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Jim Clark. Música: Ennio Morricone. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Stuart Craig. Produção: Fernando Ghia, David Puttnam. Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Aidan Quinn, Ray McAnally, Cherie Lunghi. Estreia: 16/5/86 (Festival de Cannes)
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".
"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.
O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.
Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Roland Joffé), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Roteiro, Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
Não é à toa que a Igreja Católica tem grande carinho e admiração por "A missão", a ponto de colocá-lo frequentemente em listas dos melhores filmes religiosos de todos os tempos: ao romantizar a exploração jesuíta entre indígenas do século XVIII e torná-la menos violenta e colonizadora do que realmente foi, a produção dirigida por Roland Joffé elege, como um de seus heroicos protagonistas, um padre espanhol dedicado e corajoso, capaz de qualquer sacrifício para proteger seus pupilos - inclusive opor-se com veemência contra o reino de Portugal, que se torna seu maior inimigo. No entanto, se como História o filme pode ser questionado em sua visão um tanto simplista, como cinema é um filme de enormes qualidades - qualidades estas que lhe renderam a Palma de Ouro no Festival de Cannes 86 (além do Grande Prêmio do Júri) e sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Uma produção imponente, séria e adulta, "A missão" comprova a tendência de seu diretor em tratar de temas relevantes e socialmente interessantes - a despeito de seu potencial comercial. Prova disso é a renda do filme no mercado doméstico (EUA e Canadá): apenas 17 milhões de dólares, uma renda que não pagou nem mesmo o custo total da produção. Seu relativo fracasso não chega a ser surpreendente: em uma época em que as salas de cinema lotavam de espectadores dispostos a aplaudir superproduções caras como "Aliens: o resgate" ou despretensiosas como "Crocodilo Dundee", o filme de Joffé surgiu como uma opção "difícil" e "densa", mirando um público mais sofisticado - que também não lhe deu a atenção devida, preferindo, assim como a Academia, o Vietnã de Oliver Stone, em "Platoon".
"A missão" é um grande filme, valorizado pela direção segura de Joffé, pela belíssima fotografia de Chris Menges (premiada com o Oscar), pela trilha sonora arrebatadora de Ennio Morricone - e pela presença magnética de Robert De Niro e Jeremy Irons nos papéis principais. O primeiro interpreta (com toda a carga dramática com que o público já está acostumado) Rodrigo Mendoza, um conhecido caçador de indígenas - a quem captura para vender como escravos na colônia onde vive, na América do Sul do século XVIII. Irons vive o Padre Gabriel, jesuíta que tem como objetivo de vida catequizar os mesmos índios caçados por Mendoza. O caminho dos dois se cruza quando o caçador, depois de uma tragédia familiar, procura abrigo nas missões comandadas pelo sacerdote: convertido ao catolicismo, ele se torna parte integrante da companhia, convivendo com religiosos e seus catequizandos - até que a Espanha vende o território onde eles trabalham para Portugal e os obriga a pegar em armas para defender a continuidade de seu projeto.
O roteiro de Robert Bolt se divide claramente em três capítulos, cada um com ritmo e desenvolvimento próprios. A primeira parte apresenta os protagonistas, sem muitos diálogos e concentrando seu foco em imagens fortes e poderosas, que estabelecem a personalidade dos personagens e sua relação com o meio em que vivem. Essa primeira etapa acaba quando Mendoza abandona a vida de caçador de escravos para tentar encontrar uma redenção espiritual - e para isso conta com o apoio de Gabriel, outros padres e a comunidade jesuítica fundada por ele. O terceiro capítulo é o mais intenso: confrontados com a possibilidade de perder tudo que foi construído até então, os dois homens tão diferentes entre si se unem - um com a palavra, o outro com a ação - para defender o que acreditam ser um bem maior. Mesmo a violência que surge a partir daí parece sagrada e justificável - e da maneira como é mostrada por Joffé, até poética.
Questões históricas e éticas à parte - é discutível o benefício das missões jesuíticas em termos de colonização, nem sempre tão pacífica como mostrada no filme -, "A missão" funciona perfeitamente como cinema. Roland Joffé é um cineasta que sabe emocionar sem soar panfletário ou melodramático, e essa característica é essencial para que o espectador não se sinta manipulado diante de uma história que já é poderosa por si mesma. O tom quase seco do diretor torna o resultado final menos impactante dramaticamente (a quem já está acostumado a catarses gigantescas e pirotécnicas), mas ressoa com muito mais potência na alma do público. Ao mostrar dois protagonistas tão opostos, o roteiro acerta em cheio, especialmente porque seus atores estão no auge do talento e da maturidade artística - De Niro já tinha dois Oscar em casa e Irons levaria o seu poucos anos mais tarde - e porque não há, entre eles, a busca pelo brilho fácil ou previsível. Assim como fez com Sam Waterston Haing S. Ngor em "Os gritos do silêncio" - uma dupla improvável que se completa ao encontrar uma missão na vida -, Joffé deu a seus dois atores principais a chance de fugir do óbvio e do já visto. Por essas e outras é que seu filme acaba sendo uma experiência tão gratificante e inesquecível!
sexta-feira
MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA
MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth, 2015, See-Saw Films/DMC Film, 113min) Direção: Justin Kurzel. Roteiro: Todd Louiso, Jacob Koskoff, Michael Lessie, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Chris Dickens. Música: Jed Kurzel. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie/Alice Felton. Produção executiva: Jenny Borgars, Oliver Courson, Danny Perkins, Tessa Ross, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Iain Canning, Laura Hastings-Smith, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Marion Cottilard, Paddy Considine, David Thewlis, Jack Reynor, Sean Harris, Elizabeth Debicki. Estreia: 23/5/15 (Festival de Cannes)
Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.
Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.
E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.
E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!
Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.
Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.
E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.
E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!
quinta-feira
QUEREM ME ENLOUQUECER
QUEREM ME ENLOUQUECER (Nuts, 1987, Warner Bros, 116min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Tom Topor, Darryl Ponicsan, Alvin Sargent, peça teatral de Tom Topor. Fotografia: Andrzej Barkowiak. Montagem: Sidney Levin. Música: Barbra Streisand. Figurino: Joe Tompkins. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Anne McCulley. Produção executiva: Cis Corman, Teri Schwartz. Produção: Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Richard Dreyfuss, Maureen Stapleton, Karl Malden, Eli Wallach, Leslie Nielsen, James Whitmore, Robert Webber. Estreia: 11/12/87
Quando "Querem me enlouquecer" estreou nos EUA, no final de 1987, já fazia quatro anos que o público não via Barbra Streisand nos cinemas. Em seu último filme, "Yentl" (83), ela havia assumido as múltiplas funções de diretora, roteirista, produtora, atriz e compositora das canções da trilha sonora, e sua ausência das telas era sentida pelos fãs e pela crítica, à espera de seu novo trabalho. Para surpresa de muitos, no entanto, a estrela multimídia retornou com menos ambição e em registro completamente diferente. Adaptado de uma peça de teatro de Tom Topor lançada em 1980 em Nova York, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal que ofereceu à atriz uma chance de mostrar que nem só de comédias e musicais era feita sua carreira: com um pagamento recorde (à época) de cinco milhões de dólares, Streisand novamente acumulou cargos (atuou, produziu, compõs a trilha sonora e, dizem, colaborou no roteiro), mas deixou a direção a cargo de Martin Ritt e entregou-se de corpo e alma à sua personagem, dividindo a cena com um elenco de vencedores do Oscar que valorizam cada cena da produção.
O primeiro é Richard Dreyfuss - vencedor da estatueta por "A garota do adeus" (77). Primeira escolha para o papel do advogado Aaron Levinsky, Dreyfuss recusou o papel, cobiçado por nomes como Alan Arkin, John Malkovich e Sean Penn (!!) e obrigou a Warner a uma busca árdua para substituí-lo. Depois que Dustin Hoffman saiu definitivamente do projeto (devido a questões salariais e as famosas "diferenças criativas", nomes fortes foram cotados para fazer frente a Streisand. De Marlon Brando a Richard Gere - passando por Paul Newman, Al Pacino, Kevin Kline, Robert De Niro, Robert Duvall e Jeff Bridges -, parecia que qualquer ator com o mínimo de visibilidade estava na lista dos produtores. Quando finalmente Dreyfuss capitulou e assinou contrato, o filme não apenas teve um problema sério resolvido (a escalação de seu protagonista masculino), mas também ganhou em prestígio e popularidade - no mesmo ano, o ator era o principal nome da comédia policial "Tocaia", grande sucesso de bilheteria nos EUA. Dando continuidade a seu cuidado na escalação do elenco, os produtores ainda contaram com a presença de Maureen Stapleton (Oscar de atriz coadjuvante por "Reds", de 1981) e Karl Malden (vencedor por "Sindicato de ladrões", de 1954, também na categoria de coadjuvante). Malden, na pele do padrasto da personagem principal, ficou com um papel oferecido a veteranos como Kirk Douglas, Gregory Peck, Burt Lancaster e Robert Mitchum - e saiu-se muito bem em seu delicado papel, responsável pela desistência da Universal Pictures em produzir o filme.
Diante de alguns elementos polêmicos da trama de "Querem me enlouquecer", os executivos da Universal abandonaram o projeto, que seria dirigido por Mark Rydell e estrelado por Debra Winger, escolhida pelo diretor em detrimento de Streisand - já interessada em protagonizar o filme. Com a saída de Winger, não demorou para que o próprio Rydell também demonstrasse desinteresse pela produção. Era o que a atriz/cantora/produtora precisava para tomar as rédeas da situação: contratou Martin Ritt para a direção, ficou com o papel principal e encarou a controvérsia que fatalmente iria ser suscitada pelo filme. O resultado, se não foi um sucesso estrondoso de bilheteria, ao menos conquistou parte da crítica e chegou a ser indicado a três Golden Globes: melhor filme, ator e atriz. Dessa vez a Academia não se deixou encantar pelos dotes artísticos de Barbra, mas o espectador que passar por cima desse pequeno detalhe tem tudo para se deixar envolver com um drama de tribunal da melhor qualidade, com um texto inteligente, direção segura e interpretações inspiradíssimas - e que apresenta Leslie Nielsen em seu último papel dramático no cinema, antes de encarar de vez a persona mais popular de sua carreira, na série de filmes "Corra que a polícia vem aí".
A protagonista do filme é Claudia Draper, uma garota de programa de luxo que é presa logo depois de matar um cliente. Ela alega legítima defesa, mas sua família, para evitar um escândalo maior, decidem que declará-la mentalmente incapaz será mais eficaz. Revoltada com a decisão tomada sem seu consentimento, Claudia conta com a ajuda do defensor público Aron Levinsky (Richard Dreyfuss) garantir seu direito a um julgamento justo e imparcial - o que pode trazer à tona um passado repleto de traumas e segredos inconvenientes. Em sua luta, Levinsky bate de frente com médicos e promotores, além de brigar também (e principalmente) com a mãe e o padrasto de sua cliente, preocupados em ver seus nomes nas páginas policiais. O roteiro conduz com relativo equilíbrio a denúncia social e o suspense, oferecendo momentos de brilho para todos os seus ótimos atores, mas Martin Ritt peca em ser excessivamente convencional em sua narrativa e não dar a seu poderoso clímax a força que poderia dar. Apesar disso, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal realizado com a seriedade e o talento apreciados pelos fãs do gênero, que não terão do que reclamar quando acabar a sessão - que mais uma vez prova a extensão do talento de sua atriz central.
Quando "Querem me enlouquecer" estreou nos EUA, no final de 1987, já fazia quatro anos que o público não via Barbra Streisand nos cinemas. Em seu último filme, "Yentl" (83), ela havia assumido as múltiplas funções de diretora, roteirista, produtora, atriz e compositora das canções da trilha sonora, e sua ausência das telas era sentida pelos fãs e pela crítica, à espera de seu novo trabalho. Para surpresa de muitos, no entanto, a estrela multimídia retornou com menos ambição e em registro completamente diferente. Adaptado de uma peça de teatro de Tom Topor lançada em 1980 em Nova York, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal que ofereceu à atriz uma chance de mostrar que nem só de comédias e musicais era feita sua carreira: com um pagamento recorde (à época) de cinco milhões de dólares, Streisand novamente acumulou cargos (atuou, produziu, compõs a trilha sonora e, dizem, colaborou no roteiro), mas deixou a direção a cargo de Martin Ritt e entregou-se de corpo e alma à sua personagem, dividindo a cena com um elenco de vencedores do Oscar que valorizam cada cena da produção.
O primeiro é Richard Dreyfuss - vencedor da estatueta por "A garota do adeus" (77). Primeira escolha para o papel do advogado Aaron Levinsky, Dreyfuss recusou o papel, cobiçado por nomes como Alan Arkin, John Malkovich e Sean Penn (!!) e obrigou a Warner a uma busca árdua para substituí-lo. Depois que Dustin Hoffman saiu definitivamente do projeto (devido a questões salariais e as famosas "diferenças criativas", nomes fortes foram cotados para fazer frente a Streisand. De Marlon Brando a Richard Gere - passando por Paul Newman, Al Pacino, Kevin Kline, Robert De Niro, Robert Duvall e Jeff Bridges -, parecia que qualquer ator com o mínimo de visibilidade estava na lista dos produtores. Quando finalmente Dreyfuss capitulou e assinou contrato, o filme não apenas teve um problema sério resolvido (a escalação de seu protagonista masculino), mas também ganhou em prestígio e popularidade - no mesmo ano, o ator era o principal nome da comédia policial "Tocaia", grande sucesso de bilheteria nos EUA. Dando continuidade a seu cuidado na escalação do elenco, os produtores ainda contaram com a presença de Maureen Stapleton (Oscar de atriz coadjuvante por "Reds", de 1981) e Karl Malden (vencedor por "Sindicato de ladrões", de 1954, também na categoria de coadjuvante). Malden, na pele do padrasto da personagem principal, ficou com um papel oferecido a veteranos como Kirk Douglas, Gregory Peck, Burt Lancaster e Robert Mitchum - e saiu-se muito bem em seu delicado papel, responsável pela desistência da Universal Pictures em produzir o filme.
Diante de alguns elementos polêmicos da trama de "Querem me enlouquecer", os executivos da Universal abandonaram o projeto, que seria dirigido por Mark Rydell e estrelado por Debra Winger, escolhida pelo diretor em detrimento de Streisand - já interessada em protagonizar o filme. Com a saída de Winger, não demorou para que o próprio Rydell também demonstrasse desinteresse pela produção. Era o que a atriz/cantora/produtora precisava para tomar as rédeas da situação: contratou Martin Ritt para a direção, ficou com o papel principal e encarou a controvérsia que fatalmente iria ser suscitada pelo filme. O resultado, se não foi um sucesso estrondoso de bilheteria, ao menos conquistou parte da crítica e chegou a ser indicado a três Golden Globes: melhor filme, ator e atriz. Dessa vez a Academia não se deixou encantar pelos dotes artísticos de Barbra, mas o espectador que passar por cima desse pequeno detalhe tem tudo para se deixar envolver com um drama de tribunal da melhor qualidade, com um texto inteligente, direção segura e interpretações inspiradíssimas - e que apresenta Leslie Nielsen em seu último papel dramático no cinema, antes de encarar de vez a persona mais popular de sua carreira, na série de filmes "Corra que a polícia vem aí".
A protagonista do filme é Claudia Draper, uma garota de programa de luxo que é presa logo depois de matar um cliente. Ela alega legítima defesa, mas sua família, para evitar um escândalo maior, decidem que declará-la mentalmente incapaz será mais eficaz. Revoltada com a decisão tomada sem seu consentimento, Claudia conta com a ajuda do defensor público Aron Levinsky (Richard Dreyfuss) garantir seu direito a um julgamento justo e imparcial - o que pode trazer à tona um passado repleto de traumas e segredos inconvenientes. Em sua luta, Levinsky bate de frente com médicos e promotores, além de brigar também (e principalmente) com a mãe e o padrasto de sua cliente, preocupados em ver seus nomes nas páginas policiais. O roteiro conduz com relativo equilíbrio a denúncia social e o suspense, oferecendo momentos de brilho para todos os seus ótimos atores, mas Martin Ritt peca em ser excessivamente convencional em sua narrativa e não dar a seu poderoso clímax a força que poderia dar. Apesar disso, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal realizado com a seriedade e o talento apreciados pelos fãs do gênero, que não terão do que reclamar quando acabar a sessão - que mais uma vez prova a extensão do talento de sua atriz central.
quarta-feira
MAMÃEZINHA QUERIDA
MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie dearest, 1981, Paramount Pictures, 129min) Direção: Frank Perry. Roteiro: Frank Yablans, Frank Perry, Tracy Hotchner, Robert Getchell, livro de Christina Craword. Fotografia: Paul Lohmann. Montagem: Peter E. Berger. Música: Henry Mancini. Figurino: Irene Sharaff. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Richard C. Goddard. Produção executiva: David Koontz, Terence O'Neill. Produção: Frank Yablans. Elenco: Faye Dunaway, Diana Scarwid, Steve Forrest, Howard da Silva, Mara Hobel. Estreia: 16/9/81
Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.
Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?
É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.
Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...
Em 1978, a publicação de "Mamãezinha querida" nos EUA causou comoção geral e polêmicas infindáveis. Escrito por Christina, filha adotiva da atriz Joan Crawford, o livro mostrava um lado cruel e violento de uma das maiores estrelas da era de ouro de Hollywood, falecida então há apenas quatro anos. Ao contar em detalhes os tormentos físicos e psicológicos pelos quais passou durante sua infância e sua adolescência com uma das mulheres mais conhecidas do mundo nas décadas de 40 e 50, Christina tornou-se autora de um enorme best-seller internacional, mas ao mesmo tempo, arriscou-se a - como realmente aconteceu - ser taxada de mentirosa e oportunista, especialmente por ter sido deixada de fora do testamento de sua mãe. A controvérsia, ao contrário de prejudicar o sucesso do livro, apenas jogou ainda mais lenha na fogueira - e não demorou para que os produtores de cinema vissem no explosivo material a chance de um grande êxito comercial (e possíveis estatuetas douradas). No final das contas, as bilheterias não foram exatamente milionárias - apesar de quintuplicar o orçamento, sua renda não chegou nem aos 20 milhões de dólares no mercado doméstico - e as únicas estatuetas que levou não foram nem um pouco lisonjeiras.
Sofrendo de críticas impiedosas desde sua estreia nos cinemas, "Mamãezinha querida" logo tornou-se uma dor de cabeça inesperada para a Paramount - até que o limão se transformou em limonada: percebendo que boa parte do público repetia a sessão do filme e frequentava as salas de exibição como uma espécie de happening, inclusive repetindo parte de seus diálogos, os executivos tomaram uma decisão arriscada. Para fúria do diretor estreante Frank Perry e de sua atriz principal, Faye Dunaway - o marketing da produção mudou radicalmente, enfatizando o tom exagerado do roteiro e das interpretações. Para quem esperava no mínimo uma indicação ao Oscar, não deve ter sido fácil para Dunaway - que divide com Crawford o gênio bastante forte - ser eleita a pior atriz do ano no famigerado Framboesa de Ouro. Aliás, é importante salientar que o filme simplesmente provocou um arrastão: além de Dunaway como pior atriz, "Mamãezinha querida" ainda saiu "vitorioso" nas categorias de pior filme, pior ator coadjuvante (Steve Forrest), pior atriz coadjuvante (Diana Scarwid) e pior roteiro - sem falar que foi eleito o pior filme da década, em 1990, e pior drama dos 25 anos do prêmio, em 2005. Mas será que, apesar de tantas críticas, o filme de Perry é realmente tão ruim quanto reza a lenda?
É impossível negar que existe, por todo o filme, uma atmosfera camp, artificial e pouco naturalista. O enfoque do primeiro roteiro - que seria dirigido por Franco Zefirelli e teria Anne Bancroft no papel principal mas acabou sendo substituído posteriormente - ainda conseguia fugir do maniqueísmo sensacionalista (e Crawford não seria retratada com tanta fúria), mas a produção estrelada por Dunaway usa e abusa de sua música dramática (composta por Henry Mancini), dos closes que transformam o rosto de atriz em assustadoras caretas e de uma gratuidade que chega a ser, em alguns momentos, quase risível. Não ajuda que o elenco secundário seja péssimo (em especial Diana Scarwid como Christina adolescente) e a direção de arte capriche em reconstruir os frequentemente cafonas cenários da época, que colaboram com o tom excessivo do texto e da direção. Sempre um tom acima do normal, Dunaway (uma excelente atriz, mas infelizmente dirigida sem a força necessária) mal consegue transmitir a ideia de que, por trás da monstruosa mãe, existe uma pessoa com sentimentos reais e (logicamente) sérios transtornos psicológicos. Esse erro crucial - a falha em obter qualquer simpatia da plateia, por mais complicado que isso fosse, levando-se em conta a trama - é o que desvia o filme de suas possibilidades mais sérias e o conduz a uma comédia involuntária.
Rejeitado para sempre por Dunaway - que se recusa terminantemente a falar sobre o filme que ela acreditava poder lhe render um segundo Oscar -, "Mamãezinha querida" é um festival de atrocidades. Na pele de Joan Crawford, a bela atriz de "Chinatown" (74) e "Rede de intrigas" (76) simplesmente transforma a vida de sua filha em um inferno na Terra (o roteiro ignora que além de Christina e Christopher, mostrados no filme, a estrela tinha ainda outros dois filhos): surras, gritos, ataques histéricos em meio à madrugada, castigos desproporcionais e até uma inesperada e patética rivalidade profissional estão na lista de crueldades que Christina descreveu em seu livro - em parte desmentido por pessoas que conviveram com a família durante os anos em que a história é contada. Nas mãos de um diretor mais experiente e menos afeito ao sucesso fácil, a adaptação poderia ter sido um filme sério, capaz de desnudar os bastidores do glamour de Hollywood. Como foi feito, acabou por tornar-se motivo de piada por parte da crítica e foi salvo pelo status de cult movie, que o mantém vivo até hoje como um exemplo de absoluto exagero dramático. Serve como curiosidade, mas artisticamente é bem sofrível...
terça-feira
LADY MACBETH
LADY MACBETH (Lady Macbeth, 2016, BBC Films, 89min) Direção: William Oldroyd. Roteiro: Alice Birch, romance de Nikolai Leskov. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Nick Emerson. Música: Dan Jones. Figurino: Holly Waddington. Direção de arte/cenários: Jacqueline Abrahms/Thalia Ecclestone. Produção executiva: Lizzie Francke, Christopher Granier-Deferre, Steve Jenkins, Christopher Moll, Jim Reeve. Produção: Fodhla Cronin O'Reilly. Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hinton, Naomi Ackie, Christophe Fairbanks. Estreia: 10/9/16 (Festival de Toronto)
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, apesar do título, o filme "Lady Macbeth", dirigido pelo britânico William Oldroyd, não é uma adaptação da famosa tragédia de William Shakespeare, mas sim de uma novela escrita pelo russo Nikolai Leskov e publicada em 1865. Apenas inspirada na personagem clássica do teatro, a trama de Leskov - chamada "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" - é uma crítica mordaz à hipocrisia e ao papel submisso da mulher na Europa do século XIX e, já filmada uma vez em 1962 pelo cineasta polonês Andrzej Wajda, encontrou em Florence Pugh a protagonista ideal. Com apenas 20 anos de idade na ocasião do lançamento do filme, Pugh está simplesmente avassaladora no papel principal, uma mulher à frente de seu tempo, capaz de manipular os homens a seu redor para praticar os mais cruéis atos de violência em nome de um sentimento que apenas ela é capaz de compreender completamente. Essa semelhança com a personagem de Shakespeare - que também servia como incentivo e má influência ao marido - é o que transforma a protagonista em uma das mais complexas e fascinantes, mesmo que ela nem precise falar muito para provocar tempestades à sua volta.
O roteiro de Alice Birch é econômico no uso de diálogos, assim como a trilha sonora de Dan Jones, sutil mas pontual, como um comentário discreto a respeito das imagens que se desenrolam na tela - belíssimas paisagens inglesas captadas pela câmera de Ari Wegner e que marcam a passagem de tempo e o estado de espírito de seus personagens. Com um elenco de rostos desconhecidos do grande público a seu favor, o diretor conduz o espectador a uma trama de paixão, adultério, mentiras e intrigas que, além de tudo, discute a situação feminina na sociedade da época: longe da submissão que se esperava de uma mulher na Inglaterra do século XIX (cenário do filme), a protagonista, Katherine, não aceita submeter seu futuro e sua vida a decisões de homens que considera inferiores intelectual e emocionalmente. Nem sempre suas atitudes são exatamente corretas (quase nunca, pode-se dizer), mas não deixa de ser empolgante ver uma mulher forte e dominadora sendo responsável pelos rumos da própria vida (e das alheias, por consequência). O mais surpreendente, no caso, é que seja a aparentemente frágil Florence Pugh o corpo e a alma por trás de todas as desgraças da trama.
Katherine é uma jovem de 17 anos vendida por seu pai para um casamento de puro interesse na Inglaterra rural dos anos 1860. Seu marido, Alexander (Paul Hilton), é muito mais velho que ela, e seu sogro, Boris (Christopher Fairbank), é um homem agressivo e frio, que a trata como propriedade. Além disso, Katherine nota que não há nenhum interesse de Alexander em consumar o casamento, o que a deixa ainda mais frustrada e solitária. Uma viagem dos dois homens da casa acaba por permitir à recém-casada a possibilidade de explorar o mundo fora das paredes da fazenda - e é assim que ela acaba tendo a oportunidade de conhecer Sebastian (Cosmo Jarvis), um dos novos empregados do marido. Imediatamente surge uma atração física incontrolável entre os dois - que não demoram em se envolver em um tórrido caso de amor. Seu romance é percebido por Anna (Naomi Ackie), sua aia, e chega aos ouvidos de seu sogro. Começa, então, uma violenta história de assassinatos, que não poupa ninguém que atravessa o caminho dos amantes - sempre orientados pela mente calculista de Katherine.
Revelar os desdobramentos da trama seria privar o espectador de experimentar uma viagem imprevisível e chocante à mente de uma psicopata atípica - que acredita cometer atrocidades em nome de um amor avassalador. Florence Pugh se entrega com paixão total à sua personagem - que gradualmente vai se transformando de adolescente meiga em mulher fria e à beira da vulgaridade. Suas cenas com Cosmo Jarvis são quentes e filmadas com extremo bom gosto, mesmo quando sua relação não parece exatamente romântica e sim puramente carnal. Polêmicas à parte - o primeiro encontro sexual entre os protagonistas pode incomodar aos politicamente corretos -, o filme de Oldroyd é de uma inteligência rara, por permitir que seus personagens ajam livres de qualquer ética e construam um suspense que vai se avolumando até o desfecho poderoso e melancólico. Uma pequena obra-prima que merece ser descoberta!
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, apesar do título, o filme "Lady Macbeth", dirigido pelo britânico William Oldroyd, não é uma adaptação da famosa tragédia de William Shakespeare, mas sim de uma novela escrita pelo russo Nikolai Leskov e publicada em 1865. Apenas inspirada na personagem clássica do teatro, a trama de Leskov - chamada "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" - é uma crítica mordaz à hipocrisia e ao papel submisso da mulher na Europa do século XIX e, já filmada uma vez em 1962 pelo cineasta polonês Andrzej Wajda, encontrou em Florence Pugh a protagonista ideal. Com apenas 20 anos de idade na ocasião do lançamento do filme, Pugh está simplesmente avassaladora no papel principal, uma mulher à frente de seu tempo, capaz de manipular os homens a seu redor para praticar os mais cruéis atos de violência em nome de um sentimento que apenas ela é capaz de compreender completamente. Essa semelhança com a personagem de Shakespeare - que também servia como incentivo e má influência ao marido - é o que transforma a protagonista em uma das mais complexas e fascinantes, mesmo que ela nem precise falar muito para provocar tempestades à sua volta.
O roteiro de Alice Birch é econômico no uso de diálogos, assim como a trilha sonora de Dan Jones, sutil mas pontual, como um comentário discreto a respeito das imagens que se desenrolam na tela - belíssimas paisagens inglesas captadas pela câmera de Ari Wegner e que marcam a passagem de tempo e o estado de espírito de seus personagens. Com um elenco de rostos desconhecidos do grande público a seu favor, o diretor conduz o espectador a uma trama de paixão, adultério, mentiras e intrigas que, além de tudo, discute a situação feminina na sociedade da época: longe da submissão que se esperava de uma mulher na Inglaterra do século XIX (cenário do filme), a protagonista, Katherine, não aceita submeter seu futuro e sua vida a decisões de homens que considera inferiores intelectual e emocionalmente. Nem sempre suas atitudes são exatamente corretas (quase nunca, pode-se dizer), mas não deixa de ser empolgante ver uma mulher forte e dominadora sendo responsável pelos rumos da própria vida (e das alheias, por consequência). O mais surpreendente, no caso, é que seja a aparentemente frágil Florence Pugh o corpo e a alma por trás de todas as desgraças da trama.
Katherine é uma jovem de 17 anos vendida por seu pai para um casamento de puro interesse na Inglaterra rural dos anos 1860. Seu marido, Alexander (Paul Hilton), é muito mais velho que ela, e seu sogro, Boris (Christopher Fairbank), é um homem agressivo e frio, que a trata como propriedade. Além disso, Katherine nota que não há nenhum interesse de Alexander em consumar o casamento, o que a deixa ainda mais frustrada e solitária. Uma viagem dos dois homens da casa acaba por permitir à recém-casada a possibilidade de explorar o mundo fora das paredes da fazenda - e é assim que ela acaba tendo a oportunidade de conhecer Sebastian (Cosmo Jarvis), um dos novos empregados do marido. Imediatamente surge uma atração física incontrolável entre os dois - que não demoram em se envolver em um tórrido caso de amor. Seu romance é percebido por Anna (Naomi Ackie), sua aia, e chega aos ouvidos de seu sogro. Começa, então, uma violenta história de assassinatos, que não poupa ninguém que atravessa o caminho dos amantes - sempre orientados pela mente calculista de Katherine.
Revelar os desdobramentos da trama seria privar o espectador de experimentar uma viagem imprevisível e chocante à mente de uma psicopata atípica - que acredita cometer atrocidades em nome de um amor avassalador. Florence Pugh se entrega com paixão total à sua personagem - que gradualmente vai se transformando de adolescente meiga em mulher fria e à beira da vulgaridade. Suas cenas com Cosmo Jarvis são quentes e filmadas com extremo bom gosto, mesmo quando sua relação não parece exatamente romântica e sim puramente carnal. Polêmicas à parte - o primeiro encontro sexual entre os protagonistas pode incomodar aos politicamente corretos -, o filme de Oldroyd é de uma inteligência rara, por permitir que seus personagens ajam livres de qualquer ética e construam um suspense que vai se avolumando até o desfecho poderoso e melancólico. Uma pequena obra-prima que merece ser descoberta!
segunda-feira
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA
BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: The Dawn of Justice, 2016, Warner Bros, 151min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer, personagens criados por Bob Kane e Bill Finger (Batman), Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman) e William Moulton Marston (Mulher Maravilha). Fotografia: Larry Fong. Montagem: David Brenner. Música: Junkie XL, Hans Zimmer. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Patrick Tatopoulos/Carolyn "Cal" Loucks. Produção executiva: Wesley Coller, David S. Goyer, Geoff Johns, Benjamin Melniker, Steven Mnuchin, Christopher Nolan, Emma Thomas, Michael E. Uslan. Produção: Charles Roven, Deborah Snyder. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne, Jesse Eisenberg, Gal Gadot, Diane Lane, Kevin Costner, Holly Hunter, Jeremy Irons, Michael Shannon, Jeffrey Dean Morgan. Estreia: 20/3/16
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
Primeiro foi a polêmica em torno do nome de Ben Affleck para viver o Cavaleiro das Trevas, praticamente imortalizado por Christian Bale na trilogia dirigida por Christopher Nolan entre 2006 e 2012. Depois, as críticas generalizadas a "O Homem de Aço" (2013), que recomeçava a apresentar o Superman às novas gerações de cinéfilos - depois do inesquecível Christopher Reeve e do pouco memorável Brandon Routh. Por fim, havia a dúvida se Zack Snyder (cujo currículo incluía o sucesso "300", de 2008, e o fracasso "Sucker punch", de 2010) seria capaz de apagar a má impressão de seu primeiro filme estrelado pelo herói de Krypton - criticado principalmente pelo excesso de violência e efeitos visuais supérfluos. Com um orçamento generoso de aproximados 250 milhões de dólares, a volta do britânico Henry Cavill à pele de Clark Kent e uma trama que daria origem ao esperado filme sobre a Liga da Justiça (daí o subtítulo "Dawn of justice"), "Batman vs Superman: a origem da justiça" chegou aos cinemas cercado de expectativas e medos. Como era de se esperar, dividiu opiniões: puristas e fãs dos quadrinhos surgiram com listas intermináveis de reclamações; a imprensa não exatamente ficou entusiasmada, mas o público não deixou de correr às salas de exibição. Com uma renda mundial de quase 900 milhões de dólares, o filme de Snyder conseguiu o principal: deixou felizes os executivos da Warner, preparou terreno para um próximo capítulo ainda mais explosivo e, para alegria dos espectadores, apresentou em primeira mão sua arma mais poderosa e esperada, a Mulher Maravilha do século XXI, interpretada pela israelense Gal Gadot.
Protagonista de seu próprio filme de origem, que viria a ser lançado em 2017, a Mulher Maravilha é apenas uma pequena (mas crucial) peça no roteiro escrito por David S. Goyer e Chris Terrio (Oscar por "Argo") a partir de uma ideia surgida em 2001, quando o roteirista Andrew Kevin Walker (de "Seven: os sete crimes capitais") propôs um filme em que o Batman, enfurecido pela perda de sua noiva nas mãos do Coringa, parte em busca de vingança e se vê impedido pelo Superman. Diz-se que, na época, o script ficaria a cargo de Akiva Goldsman (Oscar por "Uma mente brilhante"), a direção seria do alemão Wolfgang Petersen e os protagonistas seriam George Clooney (voltando ao papel do Homem Morcego) e John Travolta. Felizmente a ideia acabou não vingando nos termos imaginados por Walker, e depois de mais de quinze anos no limbo, o que parecia meio absurdo começou a tomar forma. Com sérias mudanças, é verdade, mas com seu principal trunfo intacto: o encontro entre dois dos maiores super heróis dos quadrinhos (e do cinema) em uma produção caprichada, repleta de astros e, felizmente, bem melhor do que o público médio poderia esperar (apesar das ressalvas da crítica especializada e dos leitores mais radicais).
Começando dois anos depois dos eventos de "O Homem de Aço" - ou seja, após o show de destruição comandado pelo Superman em sua luta contra o General Zod (Michael Shannon) -, o filme de Snyder mostra uma população dividida entre acreditar nas boas intenções do misterioso alienígena de Krypton e temer por ainda mais tragédias na Terra. Mesmo defendido ferrenhamente pela jornalista Lois Lane (Amy Adams), o Superman é constantemente atacado pela mídia e pela congressista June Finch (Holly Hunter), que o intima a comparecer a uma sessão no Capitólio para defender-se diante da população. A explosão de uma bomba - plantada pelo milionário Lex Luthor (Jesse Eisenberg) - acaba por dar ainda mais credibilidade a quem o considera uma ameaça: acusado de ser o responsável pelo atentado, Superman abandona o planeta. Acreditando que tem o dever de proteger a humanidade dos poderes daquele que considera uma temeridade à população, Bruce Wayne assume a responsabilidade de, como Batman, destruí-lo sem compaixão. De certa forma manipulado por Luthor, ele bate de frente com Superman - mas não demora para que ambos, auxiliados pela corajosa Mulher Maravilha, se unam diante de um perigo ainda maior, representado por um monstro criado por Lex Luthor.
A princípio, parece que a trama de "Batman vs Superman" é um tanto forçada, criada mais pela necessidade de unir seus protagonistas do que exatamente contar uma história interessante ou plausível. No entanto, é surpreendente como as peças se encaixam, de forma a prender a atenção do público e construir uma base razoavelmente verossímil para o explosivo conflito final - esse sim, mais uma vez, exagerado e sem muita criatividade. Por incrível que pareça, Snyder se sai melhor quando estabelece o clima e as causas de todo o desfecho do que quando finalmente põe as mãos no clímax. Para isso, claro, ele conta com um elenco coadjuvante de nomes como Holly Hunter, Jeremy Irons e Laurence Fishburne, com o poder de fogo de seus personagens e com a produção caprichada - da fotografia de Larry Fong à trilha sonora, dividida entre Hans Zimmer e Junkie XL, tudo funciona muito bem, sem maiores percalços. Infelizmente nem tudo são flores, e a luta final - que finalmente coloca os heróis todos ao mesmo lado - é desnecessariamente longa, minando a força de um final que poderia ter sido ainda mais poderoso. Sem muito o que fazer em cena, Amy Adams e Diane Lane (como Martha, a mãe adotiva de Clark Kent), apenas enfeitam o filme com seu talento e beleza, e Jesse Eisenberg talvez esteja a um passo do overacting, mas o que era motivo de mais questionamentos antes da estreia acabou por ser um ponto positivo: emprestando prestígio a uma produção de objetivos claramente comerciais, o premiado Ben Affleck não compromete como Batman, mesmo estando à sombra de Christian Bale e assumindo as rédeas de um dos mais icônicos personagens da cultura popular mundial. Sua criticada escalação é, por fim, uma das maiores qualidades de um filme que, mesmo não sendo inesquecível ou artisticamente potente, serve muito bem como entretenimento. É só deixar o mau-humor de lado e embarcar na viagem!
domingo
JULIE & JULIA
JULIE & JULIA (Julie & Julia, 2009, Columbia Pictures, 118min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, livros de Julie Powell e Julia Child e Alex Prud'homme. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Richard Marks. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, Dana Stevens. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson, Eric Steel. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Kelly Lynch, Frances Sternhagen, Linda Emond. Estreia: 30/7/09
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep)
Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!
Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.
Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.
Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep)
Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!
Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.
Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.
Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!
sábado
JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES
JOVENS, LOUCOS E MAIS REBELDES (Everybody wants some!!, 2016, Paramount Pictures, 117min) Direção e roteiro: Richard Linklater. Fotografia: Shane F. Kelly. Montagem: Sandra Adair. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Bruce Curtis/Gabriella Villarreal. Produção executiva: Sean Daniel, Stephen Feder, John Sloss. Produção: Megan Ellison, Richard Linklater, Ginger Sledge. Elenco: Blake Jenner, Juston Street, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Glenn Powell, Temple Baker, J. Quinton Johson, Will Britain. Estreia: 11/3/16
Depois que "Boyhood: da infância à juventude" (2015) foi unanimemente (e merecidamente) incensado como um dos melhores filmes de sua carreira, era esperado que Richard Linklater surgisse, na sequência, com uma obra igualmente poderosa. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta resolveu voltar os olhos ao passado e, com toda a nostalgia possível, lançou o despretensioso "Jovens, loucos e mais rebeldes" - uma continuação informal de "Jovens, loucos e rebeldes", lançado em 2003 com um então desconhecido Matthew McConaughey no elenco. Ao centrar sua trama na chegada de um jovem na universidade, no entanto, Linklater parece mesmo disposto a seguir também a narrativa de seu premiado filme anterior - que acabava justamente onde começa sua nova história. Fracasso de bilheteria nos EUA (rendeu pouco mais de 3 milhões de dólares, contra um custo de estimados 10 milhões), a comédia juvenil do diretor é prejudicada por sua temática um tanto restrita, mas não deixa de ser agradável o bastante para justificar uma sessão - ao menos não apela para a escatologia explícita ou a vulgaridade que tanto frequenta o gênero.
Inteligente e sempre bom em diálogos, Richard Linklater oferece a seu público uma trama tênue e frágil - mas que serve de base para uma bem-humorada visita ao início dos anos 80, ainda com resquícios da década anterior e não contaminados pelo conservadorismo dos períodos vindouros. Com uma trilha sonora impecável - que começa com "My sharona", do Knack e apresenta nomes indispensáveis da época, como Blondie, Dire Straits, Patti Smith e Van Halen (cujo hit "Everybody wants some!!" dá título ao filme) -, "Jovens, loucos e mais rebeldes" é uma celebração da juventude, da irresponsabilidade que antecede a maturidade e da amizade masculina. Não à toa, apenas uma personagem feminina tem destaque no roteiro - mas apesar de parecer apenas o interesse romântico do protagonista, é a voz da razão e do equilíbrio em um grupo de pós-adolescentes movidos a hormônios. Ao contrário das garotas seminuas que serviam apenas de objeto de lascívia em filmes como "Porky's" (83), Beverly (Zoey Deutch) serve como um oásis de sensatez - a ponto de conquistar não apenas o desejo, mas o amor do ainda ingênuo Jake Bradford.
Interpretado por Blake Jenner (da série "Glee"), Jake é uma espécie de alter-ego de Linklater - e uma versão menos tímida de Mason, o protagonista de "Boyhood": quando o filme começa (precisamente no dia 28 de agosto de 1980), Jake está chegando ao campus universitário onde passará os próximos anos, graças a uma bolsa de estudos conseguida através de seu talento como jogador de beisebol. Enquanto as aulas não começam, ele aproveita para aproximar-se de seus colegas, todos morando na mesma casa, reservada a atletas como ele. É nessa propriedade que ele trava conhecimento com um grupo bizarro, barulhento e paradoxalmente leal, que o irá acompanhar em suas primeiras aventuras no mundo dos adultos. Cada um dono de uma personalidade que o destaca dos outros estudantes, os novos amigos de Jake formam uma espécie de panorama da jovem masculinidade texana da década de 80, com seus exageros, idiossincrasias e códigos de honra. Linklater não se preocupa em aprofundar nenhum de seus personagens, optando por interligar uma série de anedotas com uma trilha sonora popular, atores desconhecidos que vivem de forma intensa a trama e um tom nostálgico contagiante.
Logicamente o público que esperava de Richard Linklater algo mais grandioso vai se decepcionar com a quase informalidade de "Jovens, loucos e mais rebeldes". Porém, no âmago do filme, há a sinceridade de sempre do cineasta, pródigo em diálogos que mesclam inteligência e coloquialismo e sempre capaz de fazer rir e pensar - mesmo que o espectador não perceba isso logo de cara, soterrado de uma aparente futilidade. É inegável que "Jovens, loucos e rebeldes" é um filme menor do diretor, mas nem mesmo sua falta de pretensão chega a incomodar a quem procura um entretenimento rápido e inofensivo. Nem todo cineasta precisa realizar obras-primas atemporais o tempo todo - e Linklater já tem no currículo a trilogia "Antes do amanhecer" para garantir seu lugar no olimpo dos grandes e "Boyhood" para comprovar seu talento e sua sensibilidade como realizador. Uma brincadeira como esse seu trabalho menos aplaudido será sempre bem-vinda.
Depois que "Boyhood: da infância à juventude" (2015) foi unanimemente (e merecidamente) incensado como um dos melhores filmes de sua carreira, era esperado que Richard Linklater surgisse, na sequência, com uma obra igualmente poderosa. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta resolveu voltar os olhos ao passado e, com toda a nostalgia possível, lançou o despretensioso "Jovens, loucos e mais rebeldes" - uma continuação informal de "Jovens, loucos e rebeldes", lançado em 2003 com um então desconhecido Matthew McConaughey no elenco. Ao centrar sua trama na chegada de um jovem na universidade, no entanto, Linklater parece mesmo disposto a seguir também a narrativa de seu premiado filme anterior - que acabava justamente onde começa sua nova história. Fracasso de bilheteria nos EUA (rendeu pouco mais de 3 milhões de dólares, contra um custo de estimados 10 milhões), a comédia juvenil do diretor é prejudicada por sua temática um tanto restrita, mas não deixa de ser agradável o bastante para justificar uma sessão - ao menos não apela para a escatologia explícita ou a vulgaridade que tanto frequenta o gênero.
Inteligente e sempre bom em diálogos, Richard Linklater oferece a seu público uma trama tênue e frágil - mas que serve de base para uma bem-humorada visita ao início dos anos 80, ainda com resquícios da década anterior e não contaminados pelo conservadorismo dos períodos vindouros. Com uma trilha sonora impecável - que começa com "My sharona", do Knack e apresenta nomes indispensáveis da época, como Blondie, Dire Straits, Patti Smith e Van Halen (cujo hit "Everybody wants some!!" dá título ao filme) -, "Jovens, loucos e mais rebeldes" é uma celebração da juventude, da irresponsabilidade que antecede a maturidade e da amizade masculina. Não à toa, apenas uma personagem feminina tem destaque no roteiro - mas apesar de parecer apenas o interesse romântico do protagonista, é a voz da razão e do equilíbrio em um grupo de pós-adolescentes movidos a hormônios. Ao contrário das garotas seminuas que serviam apenas de objeto de lascívia em filmes como "Porky's" (83), Beverly (Zoey Deutch) serve como um oásis de sensatez - a ponto de conquistar não apenas o desejo, mas o amor do ainda ingênuo Jake Bradford.
Interpretado por Blake Jenner (da série "Glee"), Jake é uma espécie de alter-ego de Linklater - e uma versão menos tímida de Mason, o protagonista de "Boyhood": quando o filme começa (precisamente no dia 28 de agosto de 1980), Jake está chegando ao campus universitário onde passará os próximos anos, graças a uma bolsa de estudos conseguida através de seu talento como jogador de beisebol. Enquanto as aulas não começam, ele aproveita para aproximar-se de seus colegas, todos morando na mesma casa, reservada a atletas como ele. É nessa propriedade que ele trava conhecimento com um grupo bizarro, barulhento e paradoxalmente leal, que o irá acompanhar em suas primeiras aventuras no mundo dos adultos. Cada um dono de uma personalidade que o destaca dos outros estudantes, os novos amigos de Jake formam uma espécie de panorama da jovem masculinidade texana da década de 80, com seus exageros, idiossincrasias e códigos de honra. Linklater não se preocupa em aprofundar nenhum de seus personagens, optando por interligar uma série de anedotas com uma trilha sonora popular, atores desconhecidos que vivem de forma intensa a trama e um tom nostálgico contagiante.
Logicamente o público que esperava de Richard Linklater algo mais grandioso vai se decepcionar com a quase informalidade de "Jovens, loucos e mais rebeldes". Porém, no âmago do filme, há a sinceridade de sempre do cineasta, pródigo em diálogos que mesclam inteligência e coloquialismo e sempre capaz de fazer rir e pensar - mesmo que o espectador não perceba isso logo de cara, soterrado de uma aparente futilidade. É inegável que "Jovens, loucos e rebeldes" é um filme menor do diretor, mas nem mesmo sua falta de pretensão chega a incomodar a quem procura um entretenimento rápido e inofensivo. Nem todo cineasta precisa realizar obras-primas atemporais o tempo todo - e Linklater já tem no currículo a trilogia "Antes do amanhecer" para garantir seu lugar no olimpo dos grandes e "Boyhood" para comprovar seu talento e sua sensibilidade como realizador. Uma brincadeira como esse seu trabalho menos aplaudido será sempre bem-vinda.
sexta-feira
INVOCAÇÃO DO MAL 2
INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The conjuring, 2016, New Line Cinema, 134min) Direção: James Wan. Roteiro: Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, David Leslie Johnson, estória de Chad Hayes, Carey W. Hayes, James Wan, personagens criados por Chad Hayes, Carey W. Hayes. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kirk Morri. Música: Joseph Bishara. Figurino: Kristin M. Burke. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/Liz Griffiths, Sophie Neudorfer. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter. Produção: Rob Cowan, Peter Safran, James Wan. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Frances O'Connor, Madison Wolfe, Lauren Sposito, Benjamin Haigh, Patrick McCauley. Estreia: 13/5/16
Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.
Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.
A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.
O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.
Não foi surpresa para ninguém quando surgiu o anúncio de uma sequência para "Invocação do mal", afinal de contas o filme de James Wan, que custou meros 20 milhões de dólares, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de 2013, rendendo mais de 300 milhões pelo mundo todo e devolvendo ao gênero um respeito há muito perdido e poucas vezes retomado pela crítica e pelo público. Com um orçamento duplicado e as expectativas nas alturas, "Invocação do mal 2" repetiu o êxito do primeiro filme ao manter a receita que havia dado tão certo: um roteiro sério (e baseado em uma história real), personagens densos e a preferência por um clima de suspense contra um festival de sustos vazios. Contando novamente com Patrick Wilson e Vera Farmiga como o casal Ed e Lorraine Warren e o diretor Wan no comando (depois de sua recusa em dirigir "Velozes e furiosos 8"), "Invocação do mal 2" não decepciona os fãs do gênero ou do primeiro capítulo da série: é elegante, convincente e, mais importante que tudo, respeita o espectador e a história que está contando.
Tudo bem que algumas alterações foram feitas para melhor aproveitar a dupla de protagonistas conhecida do público, que na verdade não foram os principais investigadores do caso narrado no filme, mas o roteiro faz o possível para manter a essência dos acontecimentos que aterrorizaram uma família londrina em 1977. Considerado até hoje como o caso mais longo de atividade poltergeist registrado na história, o fenômeno que tomou conta da residência de Peggy Hogdson (Frances O'Connor) e seus quatro filhos chamou a atenção da mídia e rendeu livros, polêmicas e outros filmes, como "The Einfield Haunting", de 2015. Para cada estudioso do caso que o levava a sério e comprovava os fenômenos, havia outro que levantava questões bem racionais - para o que colaborava o fato de que a filha mais envolvida nos ataques, Janet, tenha confessado ter forjado alguns dos assustadores sons gravados pelos investigadores no percurso do caso. Para maior impacto nas bilheterias, a New Line espertamente deslocou os maiores responsáveis pelas investigações para a ala dos coadjuvantes e colocou Ed e Lorraine - já devidamente testados no primeiro filme - como centro da narrativa. Funcionou muito bem: não apenas reafirmou o êxito da franquia como deu à plateia alguém com quem identificar-se, um ponto de vista externo que a leva pelas mãos rumo ao pesadelo que se desenrola na tela.
A primeira sequência do filme já demonstra sua vocação de tratar a plateia com respeito ao mesmo tempo em que faz referência a outra história clássica do gênero - "Terror em Amityville", filmado por Hollywood em duas ocasiões, em 1979 e 2005. Traumatizada com visões que anunciam uma tragédia em sua vida pessoal, Lorraine abandona a casa assombrada pelos crimes cometidos no local disposta a afastar-se por tempo indeterminado de sua desgastante rotina como estudiosa de fenômenos paranormais. Sua decisão, no entanto, é frustrada quando, algum tempo depois, ela e seu marido são procurados por um padre, preocupado com acontecimentos inexplicáveis que vem atormentando uma família londrina. Mesmo relutante, o casal aceita visitá-la e ao menos tentar ajudar a afastar o que quer que seja que esteja causando tanto terror. Para sua surpresa, eles descobrem que o responsável é o espírito de um antigo morador da casa, que se aproveita da sensibilidade de uma das meninas da família para marcar sua presença e sua recusa em abandonar seu lar.
O diretor James Wan mantém o tom do primeiro filme, equilibrando momentos de aparente calma com terror puro na reta final - quando, compreensivelmente, alguns exageros tomam conta da narrativa. Ironicamente, no entanto, são as cenas menos tensas que acabam por destacar-se, especialmente devido às atuações de Vera Farmiga e Patrick Wilson, que transmitem com extrema competência a serenidade de seus personagens, que mesmo diante de situações apavorantes conseguem manter a calma e a fé. Mesmo que o roteiro faça algumas alterações no rumo dos acontecimentos conforme eles surgiram na vida real - incluindo até o fantasma de uma freira com o objetivo único de criar uma personagem para um novo filme - e não haja nenhuma novidade na forma de contar sua história, "Invocação do mal 2" cumpre muito bem seu papel de entreter aos espectadores que procuram por um bom par de horas de tensão. É elegante e adulto, duas qualidades redentoras que o elevam acima da média, mas está longe de ser uma obra-prima inesquecível.
quinta-feira
HOLDING THE MAN
HOLDING THE MAN (Holding the man, 2015, Screen Australia/Goalpost Pictures, 127min) Direção: Neil Armfield. Roteiro: Tommy Murphy, livro de Timothy Conigrave. Fotografia: Germain McMicking. Montagem: Dany Cooper. Música: Alan John. Figurino: Alice Babidge. Direção de arte/cenários: Jo Ford/Rolland Pike. Produção executiva: Rosemary Blight, Ben Grant, Cameron Huang, Andrew Mackie, Richard Payten, Tristan Whaley. Produção: Kylie Du Fresne. Elenco: Ryan Corr, Craig Stott, Sarah Snook, Guy Pearce, Kerry Fox, Anthony LaPaglia, Camilla Ah Kin, Geoffrey Rush. Estreia: 14/6/15 (Festival de Sydney)
Em 1976, o aspirante a ator e escritor Tim se apaixonou perdidamente por John, seu colega de classe e capitão do time de futebol americano da escola. Durante 15 anos, seu relacionamento transformou-se de paixão colegial para um amor profundo e um companheirismo à toda prova - que desafiou preconceitos, brigas familiares e crises existenciais e sexuais. A única coisa que realmente impôs uma barreira intransponível entre eles foi a AIDS, ainda uma doença cuja cura ou tratamento eram apenas utopias médicas. Essa é a trama central de "Holding the man", filme australiano que conquistou seis indicações da Academia Australiana de Cinema em 2016 (incluindo melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e deu a Ryan Corr o prêmio de Melhor Ator do ano pela Associação de Críticos de Cinema do país. Mas, haja visto que nem o assunto nem seu enfoque são exatamente originais ou inovadores, o que faz da produção dirigida por Neil Armfield algo diferente de dezenas de outros filmes com temática LGBT lançados a cada ano? A resposta é simples: poucos desses filmes tratam sobre tais questões com tanta honestidade e sinceridade quanto este. Adaptado do livro escrito pelo próprio Timothy Conigrave, inspirado em sua própria história de amor, "Holding the man" pode não surpreender ou acrescentar muito à pauta homossexual no cinema, mas é emocionante o suficiente para merecer aplausos e respeito.
Lançado no Festival de Cinema de Sydney, "Holding the man" é uma feliz reunião de jovens talentos (Ryan Corr e Craig Stott como os dois rapazes apaixonados) com nomes já consagrados por Hollywood (Guy Pearce, Anthony LaPaglia e uma participação pequena mas especialíssima de Geoffrey Rush como um professor de teatro). Comandado pelo mesmo cineasta que deu a Heath Ledger um de seus papéis mais desafiadores - no drama "Candy", de 2006 - e narrado fora de ordem cronológica como forma de manter um tom confessional e emotivo, o romance entre Tim Conigrave John Caleo atravessa mais de uma década acompanhando mudanças comportamentais e o começo da epidemia da AIDS - que os atinge impiedosamente. Tal característica permite ao diretor realizar uma crônica agridoce a respeito de um período crucial na luta pelos direitos gays, atacados violentamente pelo recrudescimento do preconceito, encorajado pela desinformação generalizada a respeito da doença. A ameaça - que começa sob a forma de entrevistas feitas por Tim com homens doentes, para a realização de uma peça de teatro - assume formas assustadoras quando inesperadamente toca o casal e, ao contrário do que se poderia esperar, o aproxima ainda mais. A partir daí, o roteiro vai e volta no tempo, iluminando a trajetória de seu casal protagonista enquanto enfrenta o desejo de aventurar-se em novas relações pessoais e profissionais. Não bastasse isso, o conservadorismo das famílias (em maior ou menor grau) também se impõe como barreira para sua felicidade completa.
A trama, que se estende de 1976 a 1991, é retratada por Neil Armfield com delicadeza e a dose certa de sensualidade - nada do puritanismo do cinema norte-americano nem tampouco os excessos de alguns autores europeus. O romance entre Tim e John, pela visão de Armfield, soa natural e verdadeiro, com o perfeito equilíbrio entre companheirismo e tesão, lealdade e paixão. Principalmente em seu terço final, quando o romance dá lugar ao drama, é impossível não acreditar na sinceridade do amor entre os dois - especialmente porque Ryan Corr alcança o tom ideal de seu personagem, dotando Tim de uma complexidade extremamente verossímil: vulnerável em certos momentos, impulsivo em outros e apaixonado em quase todos, o jovem ator convence em todas as fases da história, desde a adolescência até atingir a vida adulta, quando abandona a leveza do romance idílico para mergulhar no drama da doença e da angústia da perda iminente. Amparado por uma edição ágil e uma trilha sonora que não assume a protagonização apesar de ter sido escolhida a dedo, "Holding the man" cativa, mais do que tudo, pela honestidade que emana de cada cena, de cada diálogo, de cada questão levantada pelo roteiro (mérito também do livro que lhe deu origem, inédito no Brasil).
Mesmo que "Holding the man" não seja completamente inovador, é inegável que existe, dentro dele, uma história poderosa sobre amor, respeito e amizade. Segue as regras do cinema comercial, sim, mas faz isso sem medo de ser sentimental e sem tentar oferecer mais do que promete. Equilibrando os problemas românticos do casal central com as dificuldades familiares e sociais que os cercam, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis e causar empatia em um mundo cada vez mais carente dessa qualidade tão importante. Não é um filme para mudar a história do cinema, mas é de suma importância e de uma delicadeza impar.
Em 1976, o aspirante a ator e escritor Tim se apaixonou perdidamente por John, seu colega de classe e capitão do time de futebol americano da escola. Durante 15 anos, seu relacionamento transformou-se de paixão colegial para um amor profundo e um companheirismo à toda prova - que desafiou preconceitos, brigas familiares e crises existenciais e sexuais. A única coisa que realmente impôs uma barreira intransponível entre eles foi a AIDS, ainda uma doença cuja cura ou tratamento eram apenas utopias médicas. Essa é a trama central de "Holding the man", filme australiano que conquistou seis indicações da Academia Australiana de Cinema em 2016 (incluindo melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e deu a Ryan Corr o prêmio de Melhor Ator do ano pela Associação de Críticos de Cinema do país. Mas, haja visto que nem o assunto nem seu enfoque são exatamente originais ou inovadores, o que faz da produção dirigida por Neil Armfield algo diferente de dezenas de outros filmes com temática LGBT lançados a cada ano? A resposta é simples: poucos desses filmes tratam sobre tais questões com tanta honestidade e sinceridade quanto este. Adaptado do livro escrito pelo próprio Timothy Conigrave, inspirado em sua própria história de amor, "Holding the man" pode não surpreender ou acrescentar muito à pauta homossexual no cinema, mas é emocionante o suficiente para merecer aplausos e respeito.
Lançado no Festival de Cinema de Sydney, "Holding the man" é uma feliz reunião de jovens talentos (Ryan Corr e Craig Stott como os dois rapazes apaixonados) com nomes já consagrados por Hollywood (Guy Pearce, Anthony LaPaglia e uma participação pequena mas especialíssima de Geoffrey Rush como um professor de teatro). Comandado pelo mesmo cineasta que deu a Heath Ledger um de seus papéis mais desafiadores - no drama "Candy", de 2006 - e narrado fora de ordem cronológica como forma de manter um tom confessional e emotivo, o romance entre Tim Conigrave John Caleo atravessa mais de uma década acompanhando mudanças comportamentais e o começo da epidemia da AIDS - que os atinge impiedosamente. Tal característica permite ao diretor realizar uma crônica agridoce a respeito de um período crucial na luta pelos direitos gays, atacados violentamente pelo recrudescimento do preconceito, encorajado pela desinformação generalizada a respeito da doença. A ameaça - que começa sob a forma de entrevistas feitas por Tim com homens doentes, para a realização de uma peça de teatro - assume formas assustadoras quando inesperadamente toca o casal e, ao contrário do que se poderia esperar, o aproxima ainda mais. A partir daí, o roteiro vai e volta no tempo, iluminando a trajetória de seu casal protagonista enquanto enfrenta o desejo de aventurar-se em novas relações pessoais e profissionais. Não bastasse isso, o conservadorismo das famílias (em maior ou menor grau) também se impõe como barreira para sua felicidade completa.
A trama, que se estende de 1976 a 1991, é retratada por Neil Armfield com delicadeza e a dose certa de sensualidade - nada do puritanismo do cinema norte-americano nem tampouco os excessos de alguns autores europeus. O romance entre Tim e John, pela visão de Armfield, soa natural e verdadeiro, com o perfeito equilíbrio entre companheirismo e tesão, lealdade e paixão. Principalmente em seu terço final, quando o romance dá lugar ao drama, é impossível não acreditar na sinceridade do amor entre os dois - especialmente porque Ryan Corr alcança o tom ideal de seu personagem, dotando Tim de uma complexidade extremamente verossímil: vulnerável em certos momentos, impulsivo em outros e apaixonado em quase todos, o jovem ator convence em todas as fases da história, desde a adolescência até atingir a vida adulta, quando abandona a leveza do romance idílico para mergulhar no drama da doença e da angústia da perda iminente. Amparado por uma edição ágil e uma trilha sonora que não assume a protagonização apesar de ter sido escolhida a dedo, "Holding the man" cativa, mais do que tudo, pela honestidade que emana de cada cena, de cada diálogo, de cada questão levantada pelo roteiro (mérito também do livro que lhe deu origem, inédito no Brasil).
Mesmo que "Holding the man" não seja completamente inovador, é inegável que existe, dentro dele, uma história poderosa sobre amor, respeito e amizade. Segue as regras do cinema comercial, sim, mas faz isso sem medo de ser sentimental e sem tentar oferecer mais do que promete. Equilibrando os problemas românticos do casal central com as dificuldades familiares e sociais que os cercam, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis e causar empatia em um mundo cada vez mais carente dessa qualidade tão importante. Não é um filme para mudar a história do cinema, mas é de suma importância e de uma delicadeza impar.
quarta-feira
O AGENTE DA U.N.C.L.E.
O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)
Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.
Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.
A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.
Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.
Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.
Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.
A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.
Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.
terça-feira
O INÍCIO DO FIM
O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89
Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.
Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.
Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).
Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.
Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.
Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.
Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).
Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.
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