quarta-feira

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.

terça-feira

CORRA LOLA, CORRA

CORRA LOLA, CORRA (Lola Rennt, 1998, 81min) Direção e roteiro: Tom Tykwer. Fotografia: Frank Griebe. Montagem: Mathilde Bonnefoy. Figurino: Monika Jacobs. Direção de arte/cenários: Alexander Manasse/Irene Otterpoh. Produção: Stefan Arndt. Elenco: Franka Potente, Moritz Bleibetreu, Nina Petri, Herbert Knaup. Estreia (Alemanha): 20/8/98

Ainda bem que não só de Wim Wenders vive o cinema alemão! Deixando de lado a imagem soporífera e intelectualoide das produções alemãs que alcançaram o grande público mundial, o divertido "Corra Lola, corra" rompe radicalmente com seus antepassados. Ágil, moderno e criativo, o filme de Tom Tykwer conquista a audiência justamente por ser absolutamente desligado de qualquer obrigação sócio-filosófica que o cinema europeu "engajado" empurra garganta abaixo do público. É entretenimento puro e simples, conectado absurdamente com a audiência jovem que fez dele um grande sucesso.

Apresentando o que convencionou-se chamar de "estética de videoclipe" (sem o sentido pejorativo do termo), "Corra Lola, corra" é praticamente isso, mesmo: um videoclipe estiloso e divertido que utiliza um fiapo de enredo para seduzir uma audiência sedenta por novidades na sétima arte. Pode ser quase fútil e até mesmo raso em termos de conteúdo, mas é tão fascinante que a falta de uma trama consistente quase nem é sentida. O truque é entrar na viagem de Tykwer e, ao lado da bela Franka Potente (que logo foi importada por Hollywood nos dois primeiros filmes da série Bourne), correr adoidado pelas ruas de uma Berlim bem diferente daquela mostrada pelos cineastas "sérios".



Lola, a protagonista vivida com garra e carisma por Potente, é uma jovem alemã que, na primeira cena do filme, recebe um angustiado telefonema do namorado Mannie (Moritz Bleibetreau), que acaba de perder uma sacola contendo 100 mil marcos que pertencem a seu chefe, um marginal perigoso e truculento. Para impedir que o rapaz assalte um supermercado, ela precisa arrumar a grana dentro de vinte minutos. A partir daí, a correria começa e o roteiro conta a mesma história três vezes, sempre com desdobramentos diferentes, tanto para Lola e Mannie quanto para as pessoas com as quais eles tem contato - entre elas, o pai de Lola (envolvido em uma relação extraconjugal) e o mendigo que encontrou a sacola com o dinheiro de Mannie.

Ao ritmo de música techno de qualidade (composta pelo próprio diretor e com vocais de Potente), "Corra Lola, corra" é dinâmico e imprevisível, utilizando-se de vários formatos para contar sua história, como animação e flashes fotográficos (que mostram o futuro das pessoas que cruzam o caminho da personagem central). Mesmo que os protagonistas não tenham exatamente um teor psicológico mais aprofundado - uma vez que a trama concentra-se basicamente nos vinte minutos cruciais de suas vidas - não é justo apedrejar o roteiro do cineasta, que brinca com todas as possibilidades do destino sem tentar ser filosófico ou sério demais. Isso o cinema alemão encontra em Wim Wenders, afinal...

"Corra Lola, corra" é um filme delicioso, com um visual atraente (é um achado a cabeleira vermelha de Lola esvoaçando enquanto ela percorre a passos largos as ruas de sua cidade) e um senso de timing extraordinário. Curto e enxuto (dura menos de hora e meia), é um filme com a cara de seu tempo, e é também um belo cartão de visitas para seu diretor, que, em Hollywood, assinaria o belo mas pouco visto "Paraíso", estrelado por Cate Blanchett e Giovanni Ribisi, com roteiro do polonês Krzystof Kieslowski.

segunda-feira

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

O RESGATE DO SOLDADO RYAN

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan, 1998, Amblin Entertainment/DreamWorks Pictures, 169min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Robert Rodat. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean Kavanaugh. Produção: Ian Bryce, Mark Gordon, Gary Levinsohn, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Dennis Farina, Paul Giamatti, Ted Danson, Adam Goldberg. Estreia: 24/7/98

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 5 Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Fotografia, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg)

Depois de ter ganho seus esperados (e merecidíssimos!) Oscar por "A lista de Schindler", era esperado que Steven Spielberg entrasse naquele limbo que muitas vezes aprisiona os escolhidos da Academia. A desnecessária continuação de "Jurassic Park" e o sonolento "Amistad" também acenavam em direção a essa possibilidade. Mas eis que, surpreendendo a todos, o homem que foi chamado de "o Peter Pan do cinema" mostrou que sua maturidade artística ainda estava por vir. Novamente visitando a II Guerra Mundial, mas sob uma nova ótica,  Spielberg lançou "O resgate do soldado Ryan", um dos mais espetaculares filmes de guerra da história. Indicado a 11 Oscar e favorito ao prêmio máximo, o assustador retrato do conflito que matou milhares de pessoas pelo mundo bateu de frente com o bonitinho "Shakespeare apaixonado" e foi relegado apenas a quatro prêmios técnicos e a estatueta de melhor diretor. Ainda que o vencedor do ano seja simpático e inteligente, são as imagens fortes e dolorosas de "Ryan" que vão ficar marcadas na história do cinema.

E essas imagens fortes e dolorosas já atingem a plateia em seus primeiros momentos, contrariando a regra de deixar-se o clímax para o final. São vinte minutos de extrema violência mostrada sem poesia e retoques: um pelotão de soldados americanos desembarca na Normandia em de junho de 1945, no famigerado Dia D, e a câmera nervosa de Spielberg e do diretor de fotografia Janusz Kaminski jogam o público em um confronto onde sangue, suor, mar e areia se confundem. E é nessa sequência impecável que é apresentando o protagonista, o Capitão John Miller, vivido por um intenso e discreto Tom Hanks, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator. É a Miller que caberá a missão que dará origem à verdadeira trama do filme, escrita com precisão por Robert Rodat (também concorrente à estatueta): como uma espécie de jogada de relações públicas, o exército norte-americano resolve tirar do conflito o único sobrevivente de uma família cujos filhos foram todos vitimados na mesma campanha. Para isso, ordena a Miller que, juntamente com um grupo de soldados escolhidos a dedo, saia à procura do jovem James Francis Ryan (Matt Damon). Mesmo questionando a lógica da missão (arriscar a vida de oito homens para salvar apenas um), Miller tem integridade o bastante para cumprí-la. Sendo assim, une-se a o Sargento Mike Horrath (Tom Sizemore) e a outros recrutas em busca do rapaz.



Como normalmente acontece em filmes de guerra, o destino não é tão importante quanto o percurso. Buscando o paradeiro de Ryan, o Capitão Miller e seus subordinados testemunham os horrores da guerra (como se já não o tivessem sofrido na pele, anteriormente), experimentando toda a sua glória e suas mesquinharias, sua grandiosidade e sua covardia. É sintomático que os próprios soldados tenham personalidades paradoxais, o que incentiva o conflito entre eles mesmo que eles precisem desesperadamente de uma união, por mais frágil que ela possa parecer. Sendo assim estão reunidos o fervoroso católico Daniel Jackson (Barry Pepper) e o furioso judeu Stanley Mellish (Adam Goldberg), o beligerante Adrian Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel de destaque) e o inexperiente Timothy Upham (Jeremy Davies), o médico Irwin Wade (Giovanni Ribisi) e o implicante nova-iorquino Richard Reiben (o diretor e roteirista Edward Burns, muito bem em cena). Unidos como pelotão e sozinhos em suas individualidades, eles apresentam à audiência um retrato fiel e assustador da guerra, deixando pouco espaço para o sentimentalismo típico do cineasta.

A fúria com que "O resgate do soldado Ryan" atinge o espectador é comparável com o enorme sucesso de bilheteria do filme de Spielberg. Apesar de sua violência explícita, o filme arrecadou mais de 200 milhões de dólares somente no mercado americano, tendo mais do que dobrado sua renda ao redor do mundo. Dirigido com um domínio invejável da técnica cinematográfica - sem que a preocupação com as personagens fosse deixada de lado - e dotado de uma força dramática arrebatadora, é um dos filmes indispensáveis dos anos 90 e quiçá o melhor de seu gênero na história do cinema. É, também, o último grande filme de seu diretor até a data. Seu Oscar de direção foi mais do que merecido: foi obrigatório.

sexta-feira

IRRESISTÍVEL PAIXÃO

IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of sight, 1998, Universal Pictures, 123min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Frank, romance de Elmore Leonard. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Anne V. Coates. Música: David Holmes. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Gary Frutkoff/Maggie Martin. Produção executiva: Barry Sonnenfeld, John Hardy. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Catherine Keener, Steve Zahn, Dennis Farina, Albert Brooks, Luis Guzman, Viola Davis. Estreia: 26/6/98

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Em 1998, o escritor norte-americano Elmore Leonard estava na crista da onda. Barry Levinson havia dirigido "O nome do jogo", elogiado pela crítica e premiado com um Golden Globe. O cultuado Quentin Tarantino tinha realizado "Jackie Brown" baseado em seu romance "Run Punch" e feito um trabalho excepcional. Para completar o quadro só faltava mesmo um diretor cult: Steven Soderbergh, premiado em Cannes com seu "sexo, mentiras e videotape" em 1988 deu às tramas de Leonard a sofisticação que faltava ao humor negro de Levinson e à violência de Tarantino. "Irresistível paixão" é um policial romântico com alto grau de sensualidade, tudo graças à química impecável entre Jennifer Lopez e George Clooney.

Jack Foley (vivido com o charme habitual de Clooney, exercitando seu lado Cary Grant anos 90) é um assaltante de bancos profissional. Durante uma fuga de uma de suas condenações, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Buddy Bragg (Ving Rhames), ele acaba ficando preso no porta-malas de um carro junto com Karen Sisco (a belíssima Lopez, melhor atriz do que se poderia esperar), uma agente do FBI que estava na penitenciária por acaso. Surge uma atração irresistível entre eles, mas logicamente eles se afastam sem consumar o desejo nascido de maneira tão absurda. Sem conseguir esquecer um do outro, eles vêem seus caminhos novamente cruzados quando, no processo de dar um de seus grandes golpes, Foley esbarra novamente em Karen, que, fascinada, se divide entre os novos sentimentos e os deveres profissionais.



Não é preciso ser um expert em cinema para perceber que "Irresistível paixão" foge dos padrões habituais do cinema policial. Primeiro, não há um herói típico, de moral ilibada e incorruptível. Depois, o mocinho é um criminoso, apesar de esbanjar charme e não abusar da violência. E por fim, em muitos momentos a plateia se vê torcendo por ele e por seu romance complicado com a policial. Além disso, o filme de Soderbergh deita e rola em uma edição inteligente, que privilegia as idas e voltas do roteiro, deixando o público sempre à espera dos próximos acontecimentos (que além de tudo são bastante imprevisíveis). E além da trama divertida e envolvente, o cineasta mostra-se, mais uma vez, um exímio diretor de atores, todos eles fantásticos (com a exceção, novamente, de Michael Keaton, que repete sua atuação pifia de "Jackie Brown" na pele do mesmo policial Ray Nicolette).

O elenco coadjuvante de "Irresistível paixão" é um de seus maiores trunfos. Um irreconhecível Albert Brooks vive um milionário que, depois de passar uma temporada na prisão, torna-se uma vítima em potencial das armações de Foley; Don Cheadle brilha como o marginal Maurice Miller e Steve Zahn volta a divertir a audiência como o atrapalhado Glenn Michaels. Mas não há como falar do filme sem que venha imediatamente à mente o excelente trabalho de sua dupla central. Linda, sensual e convincente mesmo como uma policial, Jennifer Lopez tem aqui um dos maiores destaques de sua carreira. E Clooney aproveita a desenvoltura da parceira para construir um Jack Foley que ele mesmo considera uma de suas melhores atuações.

"Irresistível paixão" é um divertido entretenimento de classe e categoria. Inteligente, sarcasticamente engraçado e absolutamente sexy, é um filme que, apesar da bilheteria decepcionante, merece ser descoberto e aplaudido por sua criatividade e por seu elenco impecável.

quinta-feira

ARQUIVO X, O FILME

ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98

Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.

Para quem não sabe,  o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.


Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.

Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.

Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.

quarta-feira

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (The Truman Show, 1998, Paramount Pictures, 103min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: William Anderson, Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McLeone, Peter Krause. Estreia: 05/6/98

3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original

Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.

Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.



No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon  (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.

O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).

"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.

segunda-feira

UM CRIME PERFEITO

UM CRIME PERFEITO (A perfect murder, 1998, Warner Bros, 108min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Patrick Smith Kelly, peça teatral "Dial M for Murder", de Frederick Knott. Fotografia: Darius Wolski. Montagem: Dov Hoenig. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Debra Schutt. Produção executiva: Stephen Brown. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott, Christopher Mankiewicz. Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen. Estreia: 05/6/98

Em 1954, o diretor inglês Alfred Hitchcock lançou "Disque M para matar", hoje um de seus trabalhos mais conhecidos. Baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, o filme estrelado por Ray Milland e Grace Kelly já utilizava elementos de 3D e contava com o habitual talento do cineasta para manter a plateia grudada na cadeira. Mais de 40 anos depois, o americano Andrew Davis - que comandou a versão para o cinema da telessérie "O fugitivo" e encheu os bolsos dos executivos da Warner - resolveu contar a mesma história, justificando a refilmagem com um batido "queremos ser mais fieis ao texto original". O resultado, por incrível que pareça, não é o desastre que se poderia esperar (como aconteceria com o remake de "Psicose", de Gus Van Sant), mas sim um filme elegante, de sustos discretos e reviravoltas bastante interessantes. Na verdade, é um filme muito diferente de seu original, o que é um elogio e tanto.

Fugindo da claustrofobia do original, que se passava quase que exclusivamente no apartamento dos protagonistas, a versão de Davis amplia o alcance da trama, levando suas personagens a galerias de arte, festas chiques e às ensolaradas ruas de Nova York. Michael Douglas, em uma atuação discreta, vive Steven Taylor, um aparentemente bem-sucedido empresário do mundo das finanças que, endividado, planeja o assassinato de sua esposa, a bela e mais jovem Emily (Gwyneth Paltrow). Para isso, ele chantageia o amante dela, o artista plástico David Shaw (Viggo Mortensen), que tem um histórico de golpes em mulheres ricas. Armando um plano meticulosamente calculado, Taylor precisa lidar com a frustração e a investigação policial quando as coisas fogem a seu controle.




Circulando pela sofisticação da alta sociedade nova-iorquina, Andrew Davis constrói um suspense eficiente, onde os acontecimentos importam mais do que os sustos ou a violência. Praticamente ignorando o filme de Hitchcock - com bastante propriedade - o cineasta conta sua história sem pressa, preferindo criar um clima sexy e opressivo. A química entre Gwyneth Paltrow - sempre de uma classe inquestionável - e Viggo Mortensen chama a atenção e proporciona algumas cenas bastante quentes, em especial na primeira metade do filme. Michael Douglas, por sua vez, brilha no papel de vilão sinistro, quase fazendo com que a audiência compactue com sua personagem. É preciso dizer, inclusive, que o trabalho de Douglas é tão interessante que, mesmo sendo o vilão do filme, é mais simpático do que a dupla Paltrow/Mortensen. A atriz está linda como sempre, mas sua personagem é quase apática, enquanto Mortensen não faz com que seu David Shaw conquiste o público, talvez por não ser exatamente o mocinho tradicional.

No final das contas, "Um crime perfeito" é um suspense que cumpre o que promete, mas que jamais atinge o nível de brilhantismo que poderia. Davis comprova seu talento em construir sequências de grande tensão, mas ao mesmo tempo deixa claro que lhe falta um talento maior para desenvolver personagens mais complexos - ainda que em seu filme ninguém seja exatamente santo. Essa falta de maniqueísmo o diferencia do corriqueiro, mas atrapalha suas intenções em fazer com que a audiência média se sinta absolutamente capaz de tomar partido de um dos lados da história. Gwyneth não está particularmente simpática nem Douglas completamente vilanesco. Se por um lado isso é bom (afinal de contas a realidade nunca é tão transparente) por outro foge dos padrões comerciais. "Um crime perfeito" é uma ótima opção para quem gosta do gênero, mas perde a chance de ser sensacional.

sexta-feira

A RAZÃO DO MEU AFETO


A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98

De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.

Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green,  sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.




Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês insistam em aparecer - o crítico de teatro, homossexual da terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd está encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Hawhtorne (indicado ao Oscar por "As loucuras do Rei George", também assinado por Nicholas Hytner) por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos para o cinema.

Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz das tradicionais comédias românticas - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo do gênero, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chuva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos LGBT e fãs de "Friends".

quinta-feira

CIDADE DOS ANJOS


CIDADE DOS ANJOS (City of Angels, 1998, Warner Bros, 114min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Dana Stevens, roteiro original de Wim Wenders, Peter Handke, Richard Reitinger. Fotografia: John Seale. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Gabriel Yared. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Gretchen Rau. Produção executiva: Robert Cavallo, Arnon Milchan, Charles Newirth. Produção: Charles Roven, Dawn Steel. Elenco: Nicolas Cage, Meg Ryan, Andre Braugher, Dennis Franz, Colm Feore. Estreia: 10/4/98

Os fãs que me perdoem, mas "Asas do desejo", o cultuado filme do alemão Wim Wenders é um porre. Chato, arrastado, verborrágico e pretensioso, ele tornou-se uma espécie de unanimidade entre os "bem pensantes" do final da década de 80, mas no fundo, não passava de uma parábola com uma premissa interessante e uma fotografia bem cuidada (a não ser que se considere as elocubrações típicas do cineasta, cujo currículo passa bem longe do chamado cinema mainstream). Todas as questões filosóficas/metafísicas do filme foram louvadas ad nauseum pela mídia, fazendo dele um produto superestimado a ponto de ser eleito como um dos melhores da década. Por isso a gritaria generalizada na ocasião do lançamento de "Cidade dos anjos", uma espécie de refilmagem americana. Acusado de diluir a poesia do filme original, a obra de Brad Silberling - cujo trabalho mais famoso até então havia sido a versão em carne-e-osso de "Gasparzinho", com Christina Ricci - foi violentamente execrada pelos fãs de Wenders. Já aqueles que não se deixaram convencer pelos exageros estilísticos do alemão gostaram - e muito - da versão ianque da história. Com uma renda superior a 100 milhões de dólares no mercado doméstico, "Cidade dos anjos" tornou-se mais um sucesso romântico na carreira de sua protagonista, a namoradinha da América, Meg Ryan.

Quando lançado, em 1987, "Asas do desejo" comoveu as plateias "antenadas" com seus discursos verbais e estéticos sobre amor, liberdade e imortalidade justo em um momento crucial da história política e social da Europa: a queda do mundo de Berlim. Ao deixar de lado qualquer ressonância social, sua refilmagem americana concentra-se apenas na história de amor esboçada no terço final do original. E conquista justamente por ser simples e direta. O roteiro de Dana Stevens troca uma melancólica Berlim por uma ensolarada Los Angeles, onde anjos convivem harmoniosamente entre os seres, ajudando-lhes a superar seus problemas (mas sem nunca aparecerem). Um desses anjos é Seth (Nicolas Cage, canastrão como sempre), que busca as pessoas no momento de suas mortes. Em uma dessas tristes missões ele conhece a competente cirurgiã Maggie Rice (Meg Ryan em uma atuação superior a seus trabalhos anteriores) e se apaixona por ela, apesar de saber que jamais poderá consumar seu amor. No entanto, quando trava conhecimento com Nathaniel Messinger (Dennis Franz), um paciente de Maggie que consegue enxergá-lo, descobre que os anjos podem, sim, transformar-se em mortais. Enlouquecido de amor, Seth, contando com o apoio de seu melhor amigo, Cassiel (Andre Braugher), decide abandonar a imortalidade para ficar ao lado da mulher que ama.



Sim, "Cidade dos anjos" é piegas, triste, exageradamente romântico. E é, também, um belo filme, um perfeito exemplo de como transformar uma obra com objetivos pretensiosos em uma delicada história de amor que comove às lágrimas e ainda por cima dá margem a discussões (ainda que superficiais) sobre vida, morte e destino. É um produto tipicamente hollywoodiano, com tudo que isso tem de bom e de mau, mas que aproveita todo seu aparato técnico para uma narrativa enxuta e visualmente impressionante, mérito da fotografia inspirada de John Seale, oscarizado por "O paciente inglês". As cenas em que os anjos se reúnem aos crepúsculos são deslumbrantes, assim como a bela trilha sonora de Gabriel Yared, que conta com uma lindíssima canção de Alanis Morissette em seus créditos finais.

Os fãs de "Asas do desejo" tem razões mil para odiarem cada minuto de "Cidade dos anjos", que é, paradoxalmente, uma refilmagem que não utiliza quase nada de seu original, a não ser a ideia central. Mas em compensação, certamente as multidões que saíram aos prantos em seus momentos finais também não se tornarão especialmente adoradoras da obra de Wim Wenders, que continua sendo pedante e monótona.

quarta-feira

CENTRAL DO BRASIL

CENTRAL DO BRASIL (1997, 120min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, história de Walter Salles. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Felipe Lacerda, Isabelle  Rathery. Música: Antonio Pinto, Jacques Morelenbaum. Figurino: Cristina Camargo. Direção de arte/cenários: Cássio Amarante, Carla Caffé. Produção executiva: Lillian Birnbaum, Thomas Garvin, Donald Ranvaud, Elisa Tolomelli. Produção: Robert Redford, Walter Salles. Elenco: Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Vinícius de Oliveira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira, Sôia Lyra, Otávio Augusto, Stela Freitas. Estreia: 03/4/98

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Filme, Melhor Atriz (Fernanda Montenegro)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Houve um tempo em que para se elogiar um filme nacional era preciso das duas uma: ou realmente gostar das tentativas pífias que os cineastas apresentavam como forma de crítica social ou ter vocação para polêmicas. Roteiros ruins, atuações forçadas, técnica sofrível e uma distribuição praticamente amadora fizeram com que o público corresse das produções brasileiras como o diabo da cruz (exceção feita aos filmes infantis da Xuxa e dos Trapalhões). A partir da década de 90, porém, o cinema brasileiro reconquistou, a duras penas e com muita paciência, o respeito da audiência e da crítica. "Carlota Joaquina" foi a ponta do iceberg, levando um surpreendente público às salas de exibição. "O quatrilho" e "O que é isso, companheiro?" arrebataram indicações ao Oscar de melhor produção estrangeira. Mas foi somente a partir de "Central do Brasil" que os ufanistas de plantão puderam respirar aliviados. Aplaudido unanimente do Oiapoque ao Chuí - passando pelo Festival de Berlim, de onde saiu multi-premiado - o filme de Walter Salles emocionou milhares de pessoas pelo mundo, e deu à extraordinária Fernanda Montenegro uma inédita (e ainda única) indicação ao Oscar de melhor atriz para uma artista sul-americana.

Vindo do ótimo "Terra estrangeira" - onde utilizou elementos de filmes noir para contar uma história de brasileiros desterrados - o diretor Walter Salles encontrou, em "Central do Brasil", o equilíbrio perfeito entre a técnica e a emoção, entre o clássico e o moderno, entre a linguagem e o ritmo europeus de fazer cinema com o sofrimento palpável e árido de um país onde as desigualdades sociais fomenta de forma impiedosa o desmoronamento sistemático de regras éticas e morais. Triste, engraçado e dotado de uma melancolia otimista, o filme é também o palco para o brilho intenso de uma das maiores atrizes vivas não só do país, mas do mundo. Na pele de Dora, a seca e desiludida protagonista de "Central do Brasil", Fernanda Montenegro mostra que é preciso muito mais do que um belo corpo e juventude para ser uma atriz de verdade. Em uma interpretação devastadora (premiada no Festival de Berlim), ela é o cerne de um filme capaz de comover o mais cínico dos espectadores sem que seja necessário apelar para nada mais do que a realidade de um país distante dos cartões-postais.

Dora é uma professora universitária aposentada que incrementa sua renda escrevendo cartas para analfabetos na estação de trens paulista que dá nome ao filme. Amargurada e solitária, ela tem como companhia para suas noites apenas a vizinha, Irene (Marília Pêra, também excelente), com quem divide a tarefa de escolher, ao chegar em casa, quais cartas vão para o lixo e quais vão para a gaveta da cômoda (uma espécie de limbo). Em um dia que parecia igual aos outros, porém, Dora escreve uma carta endereçada a um tal de Jeus. Sua mulher, Ana (Sôya Lira) quer que ele conheça seu filho caçula, Josué (o ótimo Vinícius de Oliveira), que nasceu em São Paulo. No dia seguinte, Ana morre atropelada e Dora, penalizada com a situação do menino, o leva para sua casa. Depois de salvá-lo de uma gangue de traficante de órgãos (a única situação meio capenga do roteiro), ela resolve acompanhá-lo em sua viagem para o Nordeste, para enfim, entregá-lo a seu pai e seus irmãos.



Inspirado na história real da presidiária Socorro Nobre (que foi tema de um documentário também dirigido por ele e que escrevia cartas para as outras detentas), Salles criou a primeira obra-prima do cinema brasileiro da retomada. Sensível ao extremo, seu filme conquista pela simplicidade de sua trama, pela honestidade de seus protagonistas e pelo carinho com que a fotografia realista de Walter Carvalho apresenta um Brasil árido externamente e caloroso por dentro. É impossível não se emocionar com a forma delicada do cineasta em aproximar público e personagens - e retratar sem maneirismos lados poucos mostrados do país (o sacro, o miserável, o solidário). Ao utilizar pessoas reais em suas primeiras cenas (pedindo cartas à Dora), o diretor imediatamente joga sua audiência dentro de uma viagem assustadora mas dona de uma ternura quase ingênua. A trilha sonora impecável de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum também colabora com o efeito emocional devastador provocado pelo roteiro de João Emanuel Carneiro (que depois seria autor de telenovelas) e Marcos Bernstein. A cena final, de uma pungência inegável, é a prova de que, herdeiro direto do neo-realismo italiano, "Central do Brasil" é a cara de seu país.

Antes que o cinema nacional se transformasse em sinônimo de "filmes violentos passados na favela" (onda que, sejamos justos, deu origem a excelentes produções), "Central do Brasil" mostrou às audiências acostumadas com a pasteurização global televisiva que há mais Brasil do que o Leblon, do que a Avenida Paulista, do que Fernando de Noronha. Mostrou que há aridez, há uma desigualdade social berrante e há amor onde menos se espera. Provou que gente é gente em qualquer parte do mundo (caso contrário, por que os alemães aplaudiriam tão entusiasticamente o trabalho puramente emocional de Montenegro?). E, acima de tudo, reiterou o talento de Walter Salles em envolver a plateia, em contar uma história simples de maneira eficiente. O road-movie de Salles não se preocupa tanto com o destino como o faz com a viagem e com as cicatrizes boas que deixa em Dora e Josué - em uma química mágica entre Fernanda Montenegro e o menino Vinícius de Oliveira. Por Josué, Dora volta a ser humana, volta a ser mulher (é belíssima a cena em que ela reencontra sua feminilidade em um banheiro de estrada). Por Dora, Josué abandona sua agressividade, seu medo e volta a ser uma criança esperançosa. Por eles, o Brasil pode voltar a se orgulhar de seu cinema.

PS - Como é que os eleitores da Academia puderam preferir a estética Renato Aragão de "A vida é bela" em detrimento da poesia de "Central do Brasil" será para sempre uma incógnita. Só mesmo a temática "holocausto" para justificar....

terça-feira

GAROTAS SELVAGENS

GAROTAS SELVAGENS (Wild things, 1998, Mandalay Entertainment, 108min) Direção: John McNaught. Roteiro: Stephen Peters. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Elena Maganini. Música: George S. Clinton. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward T. McAvoy/Bill Cimino. Produção executiva: Kevin Bacon. Produção: Steven A. Jones, Rodney Liber. Elenco: Matt Dillon, Kevin Bacon, Neve Campbell, Denise Richards, Bill Murray, Theresa Russell, Robert Wagner. Estreia: 20/3/98

"Garotas selvagens" é tão exageradamente cafona e e absurdo que a única maneira de assistí-lo e gostar é deixando de lado todo e qualquer senso crítico. Propositalmente over e excessivo, o filme produzido por Kevin Bacon foi vendido como um suspense, mas no fundo é uma comédia rasgada, repleta de reviravoltas inacreditáveis e um erotismo à la revista Playboy que, com certeza, é capaz de agradar à ala masculina da plateia. Para isso, o diretor John McNaught (outrora respeitado por seu filme de estreia, o violento "Henry, retrato de um assassino") foi feliz em escalar Denise Richards, a perfeita encarnação da Barbie sexy e descerebrada, para um dos papéis centrais. Ao lado da sempre péssima Neve Campbell, ela protagoniza cenas bastante quentes, o que talvez justifique o adjetivo "selvagens" do titulo.

Em sua primeira metade, "Garotas selvagens" tem a aparência de uma telenovela de baixa qualidade. Tanto seus diálogos quanto as atuações são canhestras, tudo envolvido em um cenário perceptivelmente exagerado e/ou cafona (sem a exaltação que diretores como Almodovar fazem do kitsch). Matt Dillon, exercitando sem pudor nenhum sua canastrice, vive Sam Lombardo, o conselheiro escolar de uma escola do sul da Flórida (em um papel recusado por Robert Downey Jr.). Admirado pelos colegas e pelos alunos, o rapaz tem sua vida transformada em um pesadelo quando uma estudante, a milionária Kelly Van Ryan (Denise Richards) o acusa de estupro. Para complicar a situação, outra aluna, a rebelde sem causa Suzie Toller (Neve Campbell) também o denuncia pelo mesmo motivo. Sentindo-se condenado mesmo antes do julgamento (a família de Kelly é praticamente a dona da cidade e sua mãe já passou pela cama do professor), Lombardo conta com o apoio do advogado Ken Bowden (Bill Murray, hilariante como sempre) e do investigador de polícia Ray Duquette (Kevin Bacon), que não parece acreditar muito nas acusações.


Depois da primeira reviravolta do roteiro, "Garotas selvagens" descamba para um samba do crioulo doido. A partir daí, nada é o que parece, ninguém é tão confiável (ou tão mau-caráter) e a impressão que se tem é que o elenco está se divertindo mais do que o público. O que parecia um melodrama transforma-se em um jogo de erotismo e violência, onde tudo pode acontecer. Vítimas transmutam-se em agressores. Agressores posam de vítimas. E resta a Duquette e sua parceira Gloria (Daphne Rubin-Vega) separar o joio do trigo e chegar a uma verdade absoluta. Que talvez não exista.

É justamente o fato de evitar o maniqueísmo que ajuda e ao mesmo tempo atrapalha "Garotas selvagens". Ao mostrar que ninguém é exatamente bom ou ruim o tempo todo, tanto o roteirista Stephen Peters quanto o diretor McNaughton tiram o prazer da audiência de assistir-se a um filme onde se está plenamente claro para quem se deve torcer. Por outro lado, a trama torna-se imprevisível, o que também é uma qualidade rara no cinemão americano (mesmo que essa imprevisibilidade esbarre muitas vezes no nonsense). Depois da terceira reviravolta, fica evidente que tudo não passa de uma grande brincadeira (mesmo porque levar Denise Richards, Matt Dillon e Neve Campbell a sério é difícil...), mas a questão que fica é se o público está disposto a participar dela ou não. Se sim, pode deixar o senso de realidade descansando e se divertir. Se não, é capaz de terminar o filme com um amargo gosto de decepção....

Enfim, "Garotas selvagens" é tão ruim que chega a ser bom. Melhor acreditar nas intenções de McNaughton do que considerá-lo um embuste.

segunda-feira

GIA - FAMA E DESTRUIÇÃO

GIA, FAMA E DESTRUIÇÃO (Gia, 1998, HBO Pictures, 120min) Direção: Michael Cristofer. Roteiro: Jay McInerney, Michael Cristofer. Fotografia: Rodrigo Garcia. Montagem: Eric Sears. Música: Terence Blanchard. Figurino: Robert Turturice. Direção de arte/cenários: David J. Bomba/Kathy Lucas. Produção: James D. Brubaker. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Faye Dunaway, Mercedes Ruhel, Eric Michael Cole.

Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/ Filme ou Minissérie para TV (Angelina Jolie) e Atriz Coadjuvante/Filme ou Minissérie para TV (Faye Dunaway)

Na metade dos anos 80, a bela Gia Marie Carangi chega à Nova York com o objetivo de tornar-se modelo. Dona de um estilo próprio e uma personalidade rebelde, logo ela passa a ser a mais requisitada modelo do mercado e da agência de Wilhelmina Cooper (Faye Dunaway), com quem tem uma relação materna bastante forte, uma vez que tem alguns conflitos com a mãe de verdade, Kathleen (Mercedes Ruhel)  desde o seu segundo casamento. Ao mesmo tempo em que se envolve em um relacionamento cheio de idas e vindas com Linda (Elizabeth Mitchell), Gia também começa a usar drogas cada vez mais pesadas, o que acaba prejudicando sua credibilidade profissional. Dependente dos tóxicos, ela se afasta da amante e, depois de um tempo, descobre ser portadora do vírus da AIDS, ainda praticamente desconhecida nos EUA no final da década.

Material perfeito para um drama hollywoodiano, a história real de Gia, a primeira supermodelo internacional, acabou sendo produzida pela HBO para exibição na televisão a cabo. Mesmo que a emissora apresente seu habitual capricho na produção, porém, fica evidente que o diretor e roteirista Michael Cristofer esbarrou na ousadia do tema, um tanto pesado para a família americana degustar no horário nobre. Narrado em tom semi-documental, seu filme tenta explorar todos os lados da personalidade selvagem da protagonista, ainda que se concentre quase que exclusivamente em sua história de amor com Linda (com cenas bastante ousadas) e em seu vício em drogas. Utilizando-se de uma edição fragmentada - talvez para combinar com o constante estado alterado da modelo - o cineasta conta ainda com uma trilha sonora repleta de hits dos anos 80, época em que se passa a história, e mostra, de maneira cruel em seus momentos finais, como a classe médica não estava nem perto de preparada para uma epidemia como a AIDS.


O roteiro de Cristofer tenta ainda explicar a dificuldade de Gia em seus relacionamentos. Com a mãe (muito bem interpretada por Mercedes Ruhel), problemas relacionados ao divórcio dos pais em sua infância. Com Wilhelmina Cooper (ótimo trabalho de Faye Dunaway, premiada com um Golden Globe de coadjuvante), uma relação de afeto verdadeiro e carinho. Com o jovem T.J. (Eric Michael Cole), uma amizade regada a uma paixão unilateral. E com Linda (Elizabeth Mitchell), amor, desejo e quase dependência. Segundo a narrativa, Gia era uma mulher intensa, avassaladora, extremamente desejada, mas muito carente e frágil ao mesmo tempo. E essa complexa personagem, capaz de ir do céu ao inferno em questão de horas, é vivida por uma arrebatadoramente linda e emocionante Angelina Jolie.

Filha do ator Jon Voigt, Jolie encarnou Gia com todo o furor de seu talento e sua juventude (quando o filme foi ao ar, ela tinha apenas 22 anos e já havia ganho um Golden Globe de atriz coadjuvante pela minissérie "George Wallace"). Em um impressionante desempenho, a bela atriz se entrega apaixonadamente a seu primeiro papel principal, ganhando o respeito da crítica e do público. Dona de uma beleza sensual e agressiva mas ainda assim clássica e atemporal, Jolie é praticamente uma força da natureza dentro do filme, sugando tudo à sua volta com a intensidade de seu trabalho. É ela quem transforma a história deprimente de uma mulher que tinha o mundo a seus pés e perdeu tudo para as drogas e uma doença incurável em um filme poderoso e marcante, que, mesmo tendo sido feito para a TV, consegue ter qualidade de cinema. Não foi à toa que Angelina levou pra casa um segundo Golden Globe (além de um Satelitte Award e um prêmio do Screen Actors Guild): sua atuação é esplêndida.

Logicamente "Gia, fama e destruição" não é uma obra-prima. As limitações do veículo para o qual foi planejado certamente fazem dele menos contundente, mas, dentro do que se propõe, é um eficiente drama feito com cuidado e dedicação. E além do mais, levou Angelina Jolie à Hollywood. Só isso já faz dele um programa obrigatório.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...