O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011, Blueprint Pictures, 124min) Direção: John Madden. Roteiro: Oli Parker, romance "These foolish things", de Deborah Moggach. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Gill. Música: Thomas Newman. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Roberts. Produção executiva: Jonathan King, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin. Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie. Estreia: 30/11/11 (Festival de Torrento)
Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.
O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.
Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).
Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.
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sexta-feira
quinta-feira
O PALHAÇO
O PALHAÇO (O palhaço, 2011, Bananeira Filmes/Globo Filmes, 88min) Direção: Selton Mello. Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato. Fotografia: Adrian Tejido. Montagem: Selton Mello, Marília Morales. Música: Plinio Profeta. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte: Cláudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Vânia Catani. Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadu Fávero, Fabiana Karla, Danton Mello, Moacyr Franco, Erom Cordeiro, Jorge Loredo, Ferrugem. Estreia: 28/10/11
Em 2008, o ator Selton Mello lançou seu primeiro longa-metragem como
diretor, o denso "Feliz natal".
Quem achava que o sucesso crítico do filme era apenas sorte de
principiante deve ter ficado de boca aberta com sua segunda
incursão para trás das câmeras: "O palhaço" revela em Selton um cineasta
seguro, honesto e principalmente sensível às relações humanas. É
simplesmente impossível não encantar-se com essa pequena pérola do
cinema nacional, injustamente preterida pela Academia e deixada de lado na disputa pelo Oscar de produção estrangeira.
O jovem Benjamin (vivido pelo próprio Mello) está passando por uma grave crise de identidade. Apresentando-se pelo interior do Brasil (em especial Minas Gerais, terra do ator e diretor) com o circo Esperança - na pele do palhaço Pangaré, ao lado do pai, Puro Sangue (Paulo José, fantástico) e de um trupe de personagens felinnianos - ele sente que não está mais feliz ("quem vai me fazer rir?", ele pergunta melancólico a uma fã com segundas intenções). Sem carteira de identidade, nem CPF e muito menos comprovante de residência, ele sente-se solitário, perdido e desprovido de qualquer real motivação para manter-se na vida artística. Enquanto tenta encontrar um caminho - e sua paixão por ventiladores tanto pode significar a eterna busca circular pelos sonhos, como disse o cineasta, como a ideia da necessidade de um pouco de ar - Benjamin acompanha seus colegas por cidadezinhas tristes, modorrentas e áridas, que remetem ao país retratado na poesia brutal de "Central do Brasil".
Selton Mello acerta em cheio em não deixar-se contaminar totalmente pela tristeza que a história poderia provocar. Enquanto Benjamin se mantém como um anti-herói tragicômico (com ecos de Carlitos), em sua busca quixotesca por uma loja de auto-peças que pode significar seu rompimento com o passado, o elenco coadjuvante faz a festa em sequências de um humor puro, ingênuo e leve como um bom número de palhaços de circo. Moacyr Franco levou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia por sua atuação antológica como um delegado, mas é injusto não citar as participações de Emilio Orciollo Neto, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho em pessoa), Fabiana Karla, o sumido Ferrugem e até mesmo de Danton Mello, irmão de Selton, em uma aparição carinhosa.
Aliás, carinho parece ser a palavra-chave de "O palhaço". Nota-se perfeitamente em cada plano, em cada cena, o carinho de Selton por suas personagens, por sua história, por suas influências e principalmente por seus atores, todos extremamente bem dirigidos. Em tom quase anedótico, "O palhaço" é a prova viva de que, apesar da tradicional afirmação de que todo palhaço é triste - e não deixa de ser irônico que Selton, mais conhecido por seus papéis cômicos seja tão emocional em sua carreira de cineasta - fazer rir é não apenas uma vocação. É destino! Bravo, Selton! Que venha o próximo filme.
O jovem Benjamin (vivido pelo próprio Mello) está passando por uma grave crise de identidade. Apresentando-se pelo interior do Brasil (em especial Minas Gerais, terra do ator e diretor) com o circo Esperança - na pele do palhaço Pangaré, ao lado do pai, Puro Sangue (Paulo José, fantástico) e de um trupe de personagens felinnianos - ele sente que não está mais feliz ("quem vai me fazer rir?", ele pergunta melancólico a uma fã com segundas intenções). Sem carteira de identidade, nem CPF e muito menos comprovante de residência, ele sente-se solitário, perdido e desprovido de qualquer real motivação para manter-se na vida artística. Enquanto tenta encontrar um caminho - e sua paixão por ventiladores tanto pode significar a eterna busca circular pelos sonhos, como disse o cineasta, como a ideia da necessidade de um pouco de ar - Benjamin acompanha seus colegas por cidadezinhas tristes, modorrentas e áridas, que remetem ao país retratado na poesia brutal de "Central do Brasil".
Selton Mello acerta em cheio em não deixar-se contaminar totalmente pela tristeza que a história poderia provocar. Enquanto Benjamin se mantém como um anti-herói tragicômico (com ecos de Carlitos), em sua busca quixotesca por uma loja de auto-peças que pode significar seu rompimento com o passado, o elenco coadjuvante faz a festa em sequências de um humor puro, ingênuo e leve como um bom número de palhaços de circo. Moacyr Franco levou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia por sua atuação antológica como um delegado, mas é injusto não citar as participações de Emilio Orciollo Neto, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho em pessoa), Fabiana Karla, o sumido Ferrugem e até mesmo de Danton Mello, irmão de Selton, em uma aparição carinhosa.
Aliás, carinho parece ser a palavra-chave de "O palhaço". Nota-se perfeitamente em cada plano, em cada cena, o carinho de Selton por suas personagens, por sua história, por suas influências e principalmente por seus atores, todos extremamente bem dirigidos. Em tom quase anedótico, "O palhaço" é a prova viva de que, apesar da tradicional afirmação de que todo palhaço é triste - e não deixa de ser irônico que Selton, mais conhecido por seus papéis cômicos seja tão emocional em sua carreira de cineasta - fazer rir é não apenas uma vocação. É destino! Bravo, Selton! Que venha o próximo filme.
quarta-feira
ENTRE O AMOR E A PAIXÃO
ENTRE O AMOR E A PAIXÃO (Take this waltz, 2011, Joe's Daughter/Astral Media, 116min) Direção e roteiro: Sarah Polley. Fotografia: Luc Montpellier. Montagem: Christopher Donaldson. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Steve Chewchuk. Produção: Susan Cavan, Sarah Polley. Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman. Estreia: 10/9/11 (Festival de Toronto)
Em uma das sequências iniciais do filme "Entre o amor e a paixão", a
protagonista Margo diz a um desconhecido - que mais tarde lhe deixará
com o tesão à flor da pele - que não gosta de voos com conexões porque
não se sente confortável entre dois pontos. Essa afirmação,
aparentemente banal, é a base na qual se sustenta esse novo trabalho da
atriz Sarah Polley atrás das câmeras, cinco anos depois do belo "Longe
dela", que deu a Julie Christie uma merecida indicação ao Oscar de
melhor atriz. Agora trabalhando com um roteiro original, a jovem
cineasta demonstra novamente um grande conhecimento da alma humana assim
como uma surpreendente maturidade. Contando com mais uma atuação
superlativa de Michelle Williams, seu novo filme machuca, emociona e faz
pensar como poucos. Em uma época tão propensa a passatempos ligeiros e
inconsequentes, não deixa de ser um oásis.
Margo - vivida de corpo e alma por Williams - sonha em ser escritora e é casada com Lou (Seth Rogen), um chef de cozinha que está preparando um livro de receitas à base de frango. Durante uma viagem, ela conhece o sedutor Daniel (Luke Kirby) e sente-se irremediavelmente atraída por ele. Para seu azar, descobre que o rapaz mora em frente à sua casa, o que lhe faz questionar fortemente sua relação matrimonial - confortável mas carente de maiores arroubos de paixão. Dividida entre o casamento estável mas um tanto acomodado e o desejo carnal por outro homem, a Margo resta apenas lidar com suas dúvidas e tentar tomar a decisão correta. Na balança pesa a morna vida sexual que leva com o marido, sua insatisfação quanto à demora dele em querer aumentar a família e sua vontade de escapar de uma rotina conjugal que a deixa em constante frustração.
Assim como no livro "O mundo pós-aniversário", de Lionel Shriver - mesma autora de "Precisamos falar sobre o Kevin" - a protagonista se vê diante de uma encruzilhada em sua vida amorosa e precisa contar apenas com sua intuição para fazer a escolha certa. E, assim como no romance de Shriver, o questionamento passa a ser, em determinado momento, se existe realmente uma escolha que seja a certa. Tanto no livro quanto no filme de Polley, a protagonista e seus pretendentes são seres humanos complexos, com qualidades e defeitos e qualquer caminho a ser tomado é cercado de momentos bons e outros nem tanto. Essa questão crucial - também levantada brilhantemente no já clássico "As pontes de Madison" - é levada com delicadeza pelo roteiro da diretora, que intercala momentos leves com sequências desde já destinadas a antológicas.
A sequência em que Margo e Daniel conversam sobre como seria sua primeira noite, por exemplo, é chocante em sua crueza e ao mesmo tempo consegue ser romântica, sexy e - graças a seus atores - extremamente verdadeira: há muito tempo o cinema não conseguia apresentar uma cena tão erótica sem que nem ao menos haja um mísero toque de mãos. E é devastadora também a cena em que Margo finalmente toma sua decisão - sem querer estragar as surpresas, basta dizer que é quase impossível conter as lágrimas ou o nó na garganta e que Seth Rogen consegue deixar ver que, por baixo do ator de comédias inconsequentes, esconde-se um ator promissor e carismático.
Simbólico sem ser hermético, denso sem ser depressivo e realista sem deixar de ser poético nas horas certas, "Entre o amor e a paixão" tem tudo para despertar muitas e muitas discussões. Além disso, revela em Sarah Polley (mais uma vez) uma sensibilidade que ainda poderá render ótimos frutos em um futuro próximo: a forma como ela utiliza a bela canção-título, na voz de Leonard Cohen, é exemplar, traindo uma maneira feminina e sutil de enxergar um tema polêmico e que poderia resvalar no vulgar ou maniqueísta.
Margo - vivida de corpo e alma por Williams - sonha em ser escritora e é casada com Lou (Seth Rogen), um chef de cozinha que está preparando um livro de receitas à base de frango. Durante uma viagem, ela conhece o sedutor Daniel (Luke Kirby) e sente-se irremediavelmente atraída por ele. Para seu azar, descobre que o rapaz mora em frente à sua casa, o que lhe faz questionar fortemente sua relação matrimonial - confortável mas carente de maiores arroubos de paixão. Dividida entre o casamento estável mas um tanto acomodado e o desejo carnal por outro homem, a Margo resta apenas lidar com suas dúvidas e tentar tomar a decisão correta. Na balança pesa a morna vida sexual que leva com o marido, sua insatisfação quanto à demora dele em querer aumentar a família e sua vontade de escapar de uma rotina conjugal que a deixa em constante frustração.
Assim como no livro "O mundo pós-aniversário", de Lionel Shriver - mesma autora de "Precisamos falar sobre o Kevin" - a protagonista se vê diante de uma encruzilhada em sua vida amorosa e precisa contar apenas com sua intuição para fazer a escolha certa. E, assim como no romance de Shriver, o questionamento passa a ser, em determinado momento, se existe realmente uma escolha que seja a certa. Tanto no livro quanto no filme de Polley, a protagonista e seus pretendentes são seres humanos complexos, com qualidades e defeitos e qualquer caminho a ser tomado é cercado de momentos bons e outros nem tanto. Essa questão crucial - também levantada brilhantemente no já clássico "As pontes de Madison" - é levada com delicadeza pelo roteiro da diretora, que intercala momentos leves com sequências desde já destinadas a antológicas.
A sequência em que Margo e Daniel conversam sobre como seria sua primeira noite, por exemplo, é chocante em sua crueza e ao mesmo tempo consegue ser romântica, sexy e - graças a seus atores - extremamente verdadeira: há muito tempo o cinema não conseguia apresentar uma cena tão erótica sem que nem ao menos haja um mísero toque de mãos. E é devastadora também a cena em que Margo finalmente toma sua decisão - sem querer estragar as surpresas, basta dizer que é quase impossível conter as lágrimas ou o nó na garganta e que Seth Rogen consegue deixar ver que, por baixo do ator de comédias inconsequentes, esconde-se um ator promissor e carismático.
Simbólico sem ser hermético, denso sem ser depressivo e realista sem deixar de ser poético nas horas certas, "Entre o amor e a paixão" tem tudo para despertar muitas e muitas discussões. Além disso, revela em Sarah Polley (mais uma vez) uma sensibilidade que ainda poderá render ótimos frutos em um futuro próximo: a forma como ela utiliza a bela canção-título, na voz de Leonard Cohen, é exemplar, traindo uma maneira feminina e sutil de enxergar um tema polêmico e que poderia resvalar no vulgar ou maniqueísta.
terça-feira
KILLER JOE - MATADOR DE ALUGUEL
KILLER JOE, MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, Voltage Pictures, 98min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de Tracy Letts. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Darrin Navarro. Música: Tyler Bates. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Franco Giacomo-Carbone/Alice Baker. Produção executiva: Vicki Cherkas, Molly Conners, Zev Foreman, Roman Viaris, Christopher Woodrow. Produção: Nicolas Chartier, Scott Einbinder. Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Juno Temple. Estreia: 08/9/11 (Festival de Veneza)
William Friedkin tinha 77 anos de idade quando dirigiu "Killer Joe, matador de aluguel", sua segunda incursão no universo teatral do ator e dramaturgo Tracy Letts, de quem já havia adaptado o suspense psicológico "Possuídos", em 2006. A menção da idade do cineasta não é gratuita: mesmo perto de completar oito décadas de vida - metade dela dedicada à sétima arte - o homem por trás de sucessos de bilheteria e crítica como "Operação França" (71) e "O exorcista" (73) demonstra invejável energia e um mórbido senso de humor em uma trama regada à violência extrema, sensualidade mórbida e uma amoralidade de arrepiar os cabelos dos conservadores de plantão. Não à toa, foi um dos primeiros filmes a empurrar o ator Matthew McConaughey em direção ao prestígio que culminou com seu Oscar por "Clube de compras Dallas", lançado dois anos depois. Na pele de um assassino de aluguel sem vestígios de ética ou moral, o ex-galã de comédias românticas bobas e despretensiosas se despe de qualquer preconceito e entrega uma atuação corajosa e visceral, infelizmente ignorada pelas cerimônias de premiação justamente por sua ousadia.
McConaughey o personagem-título, um detetive de polícia que complementa (e muito) a renda fazendo servicinhos extras, como assassinar pessoas. Ele é procurado pelo desesperado Chris Smith (Emile Hirsch, cada vez melhor e mais intenso), que, acumulando dívidas de jogo com bandidos pouco cerimoniosos na hora de cobrar o que lhes é devido, precisa urgentemente de sua parte no seguro de vida de sua mãe, com quem tem uma relação pouco amistosa. Para contratar Joe, o rapaz convence a fazer parte do plano seu próprio pai, Ansel (Thomas Haden Church) - separado há anos da futura vítima e agora casado com a vulgar Sharla (Gina Gershon) - e sua irmã caçula, Dottie (Juno Temple), a beneficiária do seguro. Sem grana para pagar o adiantamento ao estranho assassino, Chris e Ansel aceitam oferecer-lhe como garantia a ingênua Dottie, por quem ele sente uma irresistível atração quase pedófila, mas as coisas, como se poderia esperar, saem do controle antes mesmo que eles decidam mudar de ideia a respeito do nefasto plano.
Sem poupar a audiência de uma violência rara e realista cada vez mais rara no anêmico cinema comercial americano, Friedkin também mergulha fundo em uma sexualidade perturbadora, explorando o relacionamento doentio entre Joe e Dottie - uma menina que, além de mais jovem tem perceptíveis problemas mentais - em cenas de deixar qualquer espectador mais conservador arrepiado de indignação. Sem hesitação em deixar seus atores vulneráveis (e portanto totalmente entregues a seus personagens), o veterano cineasta arranca de todos performances memoráveis, com um roteiro que abdica de um heroi, elegendo como protagonista um homem que, a despeito de sua profissão e preferências sexuais, tem um código de ética mais rígido do que qualquer integrante da família que o contrata. No entanto, por incrível que pareça, a falta de qualquer limite moral dos personagens criados por Letts - e sua consequente nulidade em conquistar a identificação da plateia - acaba sendo um de seus maiores trunfos: desobrigada de qualquer simpatia com Chris, Joe e demais envolvidos na trama, a audiência acaba por testemunhar suas desventuras com o distanciamento ideal, só rompido com a insistência de Friedkin em encharcar a tela de sangue e uma crueldade que chega às raias do humor negro - constatação que fica ainda mais evidente em seu clímax.
Comentado desde a estreia do filme no Festival de Veneza, o desfecho de "Killer Joe", quando todos os personagens são confrontados com verdades pouco confortáveis que levam a um banho de sangue de dar inveja a Quentin Tarantino e seus seguidores menos talentosos, é, no mínimo, desconfortável. Basta dizer que uma coxinha de frango frita nunca mais será vista da mesma forma depois do final da sessão - não à toa, um dos cartazes do filme estampava uma, em mais uma brincadeira ousada dos realizadores. Sem medo de ferir suscetibilidades e apostando na vontade do público em ser surpreendido e tratado como adulto, o trabalho de Friedkin é um dos policiais mais tensos, brutais e potentes de sua época. Coisa de quem sabe o que está fazendo.
William Friedkin tinha 77 anos de idade quando dirigiu "Killer Joe, matador de aluguel", sua segunda incursão no universo teatral do ator e dramaturgo Tracy Letts, de quem já havia adaptado o suspense psicológico "Possuídos", em 2006. A menção da idade do cineasta não é gratuita: mesmo perto de completar oito décadas de vida - metade dela dedicada à sétima arte - o homem por trás de sucessos de bilheteria e crítica como "Operação França" (71) e "O exorcista" (73) demonstra invejável energia e um mórbido senso de humor em uma trama regada à violência extrema, sensualidade mórbida e uma amoralidade de arrepiar os cabelos dos conservadores de plantão. Não à toa, foi um dos primeiros filmes a empurrar o ator Matthew McConaughey em direção ao prestígio que culminou com seu Oscar por "Clube de compras Dallas", lançado dois anos depois. Na pele de um assassino de aluguel sem vestígios de ética ou moral, o ex-galã de comédias românticas bobas e despretensiosas se despe de qualquer preconceito e entrega uma atuação corajosa e visceral, infelizmente ignorada pelas cerimônias de premiação justamente por sua ousadia.
McConaughey o personagem-título, um detetive de polícia que complementa (e muito) a renda fazendo servicinhos extras, como assassinar pessoas. Ele é procurado pelo desesperado Chris Smith (Emile Hirsch, cada vez melhor e mais intenso), que, acumulando dívidas de jogo com bandidos pouco cerimoniosos na hora de cobrar o que lhes é devido, precisa urgentemente de sua parte no seguro de vida de sua mãe, com quem tem uma relação pouco amistosa. Para contratar Joe, o rapaz convence a fazer parte do plano seu próprio pai, Ansel (Thomas Haden Church) - separado há anos da futura vítima e agora casado com a vulgar Sharla (Gina Gershon) - e sua irmã caçula, Dottie (Juno Temple), a beneficiária do seguro. Sem grana para pagar o adiantamento ao estranho assassino, Chris e Ansel aceitam oferecer-lhe como garantia a ingênua Dottie, por quem ele sente uma irresistível atração quase pedófila, mas as coisas, como se poderia esperar, saem do controle antes mesmo que eles decidam mudar de ideia a respeito do nefasto plano.
Sem poupar a audiência de uma violência rara e realista cada vez mais rara no anêmico cinema comercial americano, Friedkin também mergulha fundo em uma sexualidade perturbadora, explorando o relacionamento doentio entre Joe e Dottie - uma menina que, além de mais jovem tem perceptíveis problemas mentais - em cenas de deixar qualquer espectador mais conservador arrepiado de indignação. Sem hesitação em deixar seus atores vulneráveis (e portanto totalmente entregues a seus personagens), o veterano cineasta arranca de todos performances memoráveis, com um roteiro que abdica de um heroi, elegendo como protagonista um homem que, a despeito de sua profissão e preferências sexuais, tem um código de ética mais rígido do que qualquer integrante da família que o contrata. No entanto, por incrível que pareça, a falta de qualquer limite moral dos personagens criados por Letts - e sua consequente nulidade em conquistar a identificação da plateia - acaba sendo um de seus maiores trunfos: desobrigada de qualquer simpatia com Chris, Joe e demais envolvidos na trama, a audiência acaba por testemunhar suas desventuras com o distanciamento ideal, só rompido com a insistência de Friedkin em encharcar a tela de sangue e uma crueldade que chega às raias do humor negro - constatação que fica ainda mais evidente em seu clímax.
Comentado desde a estreia do filme no Festival de Veneza, o desfecho de "Killer Joe", quando todos os personagens são confrontados com verdades pouco confortáveis que levam a um banho de sangue de dar inveja a Quentin Tarantino e seus seguidores menos talentosos, é, no mínimo, desconfortável. Basta dizer que uma coxinha de frango frita nunca mais será vista da mesma forma depois do final da sessão - não à toa, um dos cartazes do filme estampava uma, em mais uma brincadeira ousada dos realizadores. Sem medo de ferir suscetibilidades e apostando na vontade do público em ser surpreendido e tratado como adulto, o trabalho de Friedkin é um dos policiais mais tensos, brutais e potentes de sua época. Coisa de quem sabe o que está fazendo.
segunda-feira
PRÉSUME COUPABLE
PRÉSUME COUPABLE (Présume coupable, 2011, Nord-Ouest Productions/France 3 Cinéma, 102min) Direção: Vincent Garenq. Roteiro: Vincent Garenq, colaboração de Hubert Delarue, Serge Frydman, livro de Alain Marécaux. Fotografia: Renaud Chassaing. Montagem: Dorian Rigal-Ansous. Figurino: Fanny Drouin. Direção de arte/cenários: Patrick Schmitt/Thierry Rouxel. Produção executiva: Éve Machuel. Produção: Christophe Rossignon. Elenco: Philippe Torrenton, Noémie Lvosky, Raphael Ferrett, Farida Ouchani. Estreia: 07/9/11
Um dos temas recorrentes na obra do mestre Alfred Hitchcock, "o homem errado", tem no francês "Présume coupable" um exemplar dos mais revoltantes. Uma história real narrada na autobiografia de mesmo nome de Alain Marécaux, o filme de Vincent Garenq - o mesmo cineasta do doce "Baby love", que narrava as aventuras de um casal gay atrás da oportunidade de ter um filho - é contundente e seco como um documentário, graças à câmera fluida e ao roteiro, que se atém aos fatos para deslindar um dos erros jurídicos mais graves da França moderna. Com um elenco liderado pelo expressivo Philippe Torrenton, a obra é imperdível para qualquer fã de filmes de tribunal - mesmo que não se encaixe exatamente nos parâmetros do gênero por dar espaço principalmente ao drama do protagonista em seu período de calvário.
Sem perder tempo com preliminares, "Présume coupable" já começa com a prisão de Marécaux (Torrenton) por estupro e abuso sexual contra um grupo de crianças. Atônito e incrédulo com a situação kafkiana, ele aos poucos vai tomando conhecimento de detalhes da acusação, feita por uma mulher presa por prostituir os filhos pequenos e que insiste na afirmação de que ele fazia parte de um grupo de adultos que se utilizavam do serviço. Enquanto tenta provar sua inocência, Marécaux vai perdendo a família - o filho mais velho inicia um processo de autodestruição e rebeldia, a esposa pede o divórcio e outros pequenos dramas se sucedem - e a fé na humanidade e nos tribunais que tanto defendeu quando trabalhava como oficial de justiça. A situação é ainda pior porque ele percebe, no decorrer do processo, que nem sempre os inocentes são reconhecidos e tratados como tal pelas pessoas que, em tese, deveriam buscar a verdade incondicional.
Inédito nos cinemas brasileiros - nem tem título em português - o filme de Garenq encontra especial ressonância no país, onde erros judiciários e injustiças arbitrárias são cometidas frequentemente. Mesmo que o roteiro se concentre basicamente nas reações do protagonista diante das provações a que é submetido, fica difícil não se deixar levar pela revolta e pela indignação retratados, em especial quando o desfecho mostra a verdade por trás dos fatos e fica claro para o espectador a mesquinharia e a crueldade com que alguns seres humanos lidam com seus semelhantes. Sem escorregar no dramalhão lacrimoso ou nos clichês de filmes de prisão e/ou tribunal, o cineasta mantém o interesse do público justamente por manter-se como uma testemunha racional dos acontecimentos, narrando-os de forma sóbria e contida. Não há excessos na narrativa, e o que poderia ser um problema acaba sendo um grande acerto: a história de Marécaux já é suficientemente dramática e um tom a mais na maneira de contá-la seria, sem sombra de dúvida, um exagero absolutamente dispensável.
E se a trama de "Présume coupable" é de revirar o estômago de tão absurda e cruel, é a atuação de Philippe Torrenton quem comanda o espetáculo. Construindo um protagonista nos limites do estoicismo, que vê se mundo desabar sem aviso prévio e vai perdendo tudo que conquistou, o ator evita ampliar seu sofrimento, com uma atuação silenciosa e que mostra sua força apenas quando necessário. Ao fugir do sentimentalismo piegas, ele consegue expressar com verdade os problemas de Marécaux sem fazer dele uma vítima chorosa e conformada, o que acaba fazendo uma enorme diferença no resultado final. É seu trabalho discreto e eficiente que valoriza ainda mais um filme que merece ser descoberto.
Um dos temas recorrentes na obra do mestre Alfred Hitchcock, "o homem errado", tem no francês "Présume coupable" um exemplar dos mais revoltantes. Uma história real narrada na autobiografia de mesmo nome de Alain Marécaux, o filme de Vincent Garenq - o mesmo cineasta do doce "Baby love", que narrava as aventuras de um casal gay atrás da oportunidade de ter um filho - é contundente e seco como um documentário, graças à câmera fluida e ao roteiro, que se atém aos fatos para deslindar um dos erros jurídicos mais graves da França moderna. Com um elenco liderado pelo expressivo Philippe Torrenton, a obra é imperdível para qualquer fã de filmes de tribunal - mesmo que não se encaixe exatamente nos parâmetros do gênero por dar espaço principalmente ao drama do protagonista em seu período de calvário.
Sem perder tempo com preliminares, "Présume coupable" já começa com a prisão de Marécaux (Torrenton) por estupro e abuso sexual contra um grupo de crianças. Atônito e incrédulo com a situação kafkiana, ele aos poucos vai tomando conhecimento de detalhes da acusação, feita por uma mulher presa por prostituir os filhos pequenos e que insiste na afirmação de que ele fazia parte de um grupo de adultos que se utilizavam do serviço. Enquanto tenta provar sua inocência, Marécaux vai perdendo a família - o filho mais velho inicia um processo de autodestruição e rebeldia, a esposa pede o divórcio e outros pequenos dramas se sucedem - e a fé na humanidade e nos tribunais que tanto defendeu quando trabalhava como oficial de justiça. A situação é ainda pior porque ele percebe, no decorrer do processo, que nem sempre os inocentes são reconhecidos e tratados como tal pelas pessoas que, em tese, deveriam buscar a verdade incondicional.
Inédito nos cinemas brasileiros - nem tem título em português - o filme de Garenq encontra especial ressonância no país, onde erros judiciários e injustiças arbitrárias são cometidas frequentemente. Mesmo que o roteiro se concentre basicamente nas reações do protagonista diante das provações a que é submetido, fica difícil não se deixar levar pela revolta e pela indignação retratados, em especial quando o desfecho mostra a verdade por trás dos fatos e fica claro para o espectador a mesquinharia e a crueldade com que alguns seres humanos lidam com seus semelhantes. Sem escorregar no dramalhão lacrimoso ou nos clichês de filmes de prisão e/ou tribunal, o cineasta mantém o interesse do público justamente por manter-se como uma testemunha racional dos acontecimentos, narrando-os de forma sóbria e contida. Não há excessos na narrativa, e o que poderia ser um problema acaba sendo um grande acerto: a história de Marécaux já é suficientemente dramática e um tom a mais na maneira de contá-la seria, sem sombra de dúvida, um exagero absolutamente dispensável.
E se a trama de "Présume coupable" é de revirar o estômago de tão absurda e cruel, é a atuação de Philippe Torrenton quem comanda o espetáculo. Construindo um protagonista nos limites do estoicismo, que vê se mundo desabar sem aviso prévio e vai perdendo tudo que conquistou, o ator evita ampliar seu sofrimento, com uma atuação silenciosa e que mostra sua força apenas quando necessário. Ao fugir do sentimentalismo piegas, ele consegue expressar com verdade os problemas de Marécaux sem fazer dele uma vítima chorosa e conformada, o que acaba fazendo uma enorme diferença no resultado final. É seu trabalho discreto e eficiente que valoriza ainda mais um filme que merece ser descoberto.
domingo
SETE DIAS COM MARILYN
SETE DIAS COM MARILYN (My week with Marilyn, 2011, The Weinstein Company, 99min) Direção: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges, livros "My week with Marilyn" e "The prince, the showgirl and me" de Colin Clark. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Adam Recht. Música: Conrad Pope. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Donal Woods/Judy Farr. Produção executiva: Kelly Carmichael, Simon Curtis, Christine Langan, Jamie Laurenson, Ivan Mactaggart, Bob Weinstein. Produção: David Parfitt, Harvey Weinstein. Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Judi Dench, Julia Ormond, Dominic Cooper, Emma Watson, Dougray Scott, Toby Jones. Estreia: 09/10/11 (Festival de Nova York)
2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)
2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)
Via de regra, cinebiografias
tropeçam nas próprias ambições e esbarram na maior das dificuldades do gênero:
contar em cerca de duas horas a vida inteira de alguém cuja existência
justifique um filme. Tal dificuldade resulta em produções frequentemente
superficiais que preferem passar ao largo de momentos cruciais na trajetória de
seus protagonistas como forma de resumir, em uma duração palatável ao gosto do
público médio, um arco de existência que vai do nascimento à morte. Às vezes,
nem mesmo uma minissérie de TV seria capaz de dar conta da quantidade de
informações e acontecimentos – e filmes como “Gandhi” e “Chaplin”, ambos, não
por coincidência, de Richard Attenborough, acabam por ficar aquém do que
poderiam. Como forma de sanar um pouco esse problema de superficialidade, o
cinema americano encontrou uma saída inteligente que acabou virando tendência:
escolher determinado momento na vida/carreira dos biografados e concentrar seu
foco em períodos de tempo muito mais compactos. Tal opção funcionou muito bem
em “Capote”, de Bennett Miller – que deu o Oscar de melhor ator a Philip
Seymour Hoffman e concorreu nas categorias de filme, diretor e roteiro adaptado
– e “Steve Jobs” – que apesar de ter dividido a crítica, deu a Michael
Fassbender e Kate Winslet chances de concorrer à estatueta e à Aaron Sorkin o
Golden Globe de melhor roteiro. Não deu tão certo assim em “Hitchcock”, de
Sacha Gervasi, que atolou-se em uma direção medíocre. E resultou apenas morna
em “Sete dias com Marilyn”.
Baseado em um livro escrito por Colin
Clark – diretor de documentários que registrou em diários sua relação fugaz com
Marilyn Monroe, a maior estrela de Hollywood nos anos 50 – o filme de Simon
Curtis acerta em não tentar contar em seus 90 minutos de duração toda a
existência conflituosa e recheada de complexos dramas psicológicos da atriz,
mas não consegue, infelizmente, ultrapassar a superfície de uma das mais
fascinantes personagens que o cinema americano já forjou – e que existia de
verdade, sem que houvesse a necessidade de acrescentar à sua vida nenhum tipo
de dramas. Apenas passando por cima da razão das carências emocionais de
Marilyn e tocando com uma rapidez quase tímida momentos de extrema importância
à vida futura da estrela (o aborto espontâneo sofrido no período de tempo
retratado pelo roteiro), o filme de Curtis funciona como entretenimento leve,
mas falha em ser uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema americano às
vésperas do 50º aniversário de sua morte.
O filme se passa em 1956, quando
Marilyn já era a atriz mais famosa e desejada de Hollywood e chega à Inglaterra
para estrelar a comédia romântica “O príncipe encantado”, convidada
especialmente pelo astro do filme, Laurence Olivier, disposto a conquistar uma
nova geração de espectadores que não se deixavam impressionar por seu currículo
shakespereano. O problema é que Marilyn não chega sozinha à pequena cidade onde
o filme será rodado: com ela, junto com uma dúzia de problemas de autoestima e
insegurança, está o marido Arthur Miller – autor de clássicos do teatro
americano - e sua instrutora de interpretação, Paula Strassberg, esposa do
infame Lee Strassberg, criador do Actor’s Studio. Dependente quase total da
opinião de Paula e dos remédios para dormir, Monroe não demora a desafiar a
paciência de toda a equipe, incluindo Olivier, que não parece estar disposto a
tolerar os atrasos constantes e a falta de compromisso da estrela. Apenas a
veterana Sybil (Judi Dench) e o terceiro assistente de direção do filme, Colin
(Eddie Redmayne) dão apoio incondicional à bela atriz – e ela acaba se
encantando com o rapaz, para surpresa e desespero de todos.
Michelle Williams concorreu ao Oscar
por seu desempenho na pele de Marilyn. Mereceu. Apesar de não ser exatamente
parecida com o mito, Williams injeta tanta personalidade e sensibilidade a seu
trabalho que o espectador não demora a comprar a ideia de que está realmente
diante da mulher que sacudiu o mundo em filmes como “O pecado mora ao lado” e
“Quanto mais quente melhor” – realizado logo em seguida e considerado o melhor
trabalho de sua carreira. Mesclando momentos de candura e timidez com outros em
que transmite o vulcão de sensualidade que fez de Monroe o mais duradouro
símbolo sexual da história, Williams explora com inteligência tudo que o
roteiro lhe oferece, tratando sua personagem com respeito e coerência, jamais
caindo na armadilha de fazer dela uma vítima ou retratá-la como a loira burra,
imagem que a estereotipou até sua trágica morte, em agosto de 1962. Sua
interpretação é de uma sutileza comovente – com apenas um olhar, Williams fala
mais do que outras estrelinhas que Hollywood insiste em empurrar para a plateia
em longos discursos.
Mas se Michelle Williams dá um
espetáculo com seu desempenho, seu elenco coadjuvante não fica atrás. Em um
toque de mestre, o diretor Simon Curtis escalou Kenneth Branagh – irlandês que
tornou-se famoso no cinema como uma espécie de representante oficial de Shakespeare
nos anos 90, com filmes como “Henry V”, “Muito barulho por nada” e “Hamlet” –
para interpretar Laurence Olivier – britânico que, nas décadas de 40 e 50,
fazia o mesmo, a ponto de ganhar um Oscar por “Hamlet”. Esse sutil toque
metalinguístico – Olivier chega a citar o bardo em uma sequência perto do final
do filme – é um rasgo de inteligência que quase torna perdoável escalar a
insossa Julia Ormond para viver a espetacular Vivien Leigh: mesmo que fosse
mais velha que Marilyn, Leigh ainda era linda e elegante em 1956, coisa que
Ormond apenas sonha em ser. Se na vida real era questionável alguém
apaixonar-se por Monroe tendo Leigh em casa, no filme tal opção torna-se muito
mais compreensível – se era essa a intenção do diretor, palmas a ele. Caso contrário,
foi um tiro no pé. Diante de Ormond nem é preciso muito para que Michelle
Williams brilhe e justifique o carisma imortal de Marilyn.
Quanto ao roteiro, “Sete dias com
Marilyn” fica apenas na média. Não aprofunda as relações entre a atriz e Colin
(Eddie Redmayne antes de ficar famoso e ganhar o Oscar por “A teoria de tudo”)
nem dá foco ao que poderia ser um delicioso retrato dos bastidores de uma
filmagem. Toda vez que o filme se concentra na fúria de Olivier em ter que
aturar os atrasos e inconstâncias de Marilyn, o filme de Curtis cresce e se
torna interessante. Quando se desvia para o romance hesitante entre Monroe e
Clark – um personagem mal escrito e interpretado com apatia por Redmayne – cai
no lugar-comum que acaba por transformá-lo em um filme apenas razoável. Serve
como curiosidade e para admirar o trabalho de Michelle Williams e Kenneth
Branagh – ambos, aliás, merecidos candidatos à estatueta da Academia.
sábado
SHAME
SHAME (Shame, 2011, See-Saw Films/Film4/UK Council, 101min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: Steve McQueen, Abi Morgan. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Harry Escott. Figurino: David Robinson. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Peter Hampden, Tim Haslam, Tessa Ross, Robert Walak. Produção: Iain Canning, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale. Estreia: 04/9/11 (Festival de Veneza)
Quem teve a oportunidade de assistir
ao devastador “Fome” (09) – estreia do artista plástico Steve McQueen como
cineasta – sabe do que ele é capaz com sua fé inabalável no poder da imagem em
detrimento das palavras. Construindo um filme calcado basicamente no visual
(mas com um longo diálogo de 12 minutos filmado em plano-sequência), McQueen –
homônimo do ator norte-americano famoso por filmes como “Papillon” e “Inferno
na torre” – contou a trágica história do irlandês Bobby Sands, que, lutando pelo
direito de ser tratado como preso político na Inglaterra dos anos 80, morreu em
consequência de uma greve de fome logo depois de eleito deputado. O segundo
filme do diretor, “Shame”, não foge muito de sua cartilha que prega a imagem
como principal ponto de referência do cinema, construindo toda a tensão de sua
trama – assim como seus desdobramentos e subtextos – sobre um poderoso alicerce
compartilhado de “Fome”: o extraordinário ator Michael Fassbender.
É o alemão Fassbender, com seu imenso
talento, que sustenta a ousadia formal de McQueen em contar sua história com o
mínimo possível de diálogos, privilegiando enquadramentos, luzes e a edição –
em suma, tudo aquilo que faz do cinema uma arte diferente do teatro e da
literatura. Não que os personagens de “Shame” não falem, mas sempre que isso
acontece o diretor parece fazer questão de mostrar que o mais importante é o
que está por trás do que é dito, escondido no que não é falado, disfarçado
tanto na polidez de encontros sociais quanto na violência verbal de discussões
familiares. “Shame” é um filme de olhares, de sensações, de silêncios – mas ao
mesmo tempo, é uma obra avassaladora em sua elegância calculada, que retrata,
como poucos filmes contemporâneos, o estado de espírito de sua época – o
famigerado zeitgeist. Quem espera
encontrar nele uma trama ágil e repleta de reviravoltas dramáticas certamente
irá se decepcionar – seu ritmo é muito mais europeu do que hollywoodiano – mas
aqueles que buscam no cinema um convite à reflexão e ao raciocínio não terão do
que reclamar.
Fassbender – no mesmo ano em que
viveu Carl Jung em “Um método perigoso”, de David Cronenberg e um androide em
“Prometheus”, de Ridley Scott, com a mesma desenvoltura – interpreta Brandon,
um homem bonito, bem-sucedido, charmoso e inteligente que circula em uma Nova
York igualmente fotogênica e glamourosa. Por trás de sua aparência tranquila,
porém, existe um turbilhão aparentemente incessante: ele é viciado em sexo. Não
satisfeito em dormir com qualquer mulher que cruze seu caminho, ele paga
prostitutas, tem uma coleção de vídeos eróticos e nem mesmo seu computador no
ambiente de trabalho é livre de todo tipo de material sensual. Entre sessões
contínuas de masturbação e um desfile de mulheres por sua cama – todas
sistematicamente afastadas de qualquer vínculo emocional que possam querer ter
– Brandon tenta esconder até de si mesmo um vazio existencial que ele sublima
com uma quantidade acima do normal de sexo. Esse vazio existencial – muito bem
enterrado sob toneladas de amor-próprio – acaba vindo à tona quando chega à
cidade sua irmã caçula, a cantora Sissy (Carey Mulligan), também portadora de uma
saudável dose de problemas psicológicos. A relação entre os dois – traumática?
incestuosa? puramente fraternal? – acaba por ser o catalisador de uma profunda
viagem de Brandon a seu mundo íntimo.
E essa justamente essa viagem de
Brandon ao âmago de sua personalidade que interessa a McQueen: dando ênfase a
inúmeros closes dos olhos azuis e inquietos de Michael Fassbender, o cineasta
os utiliza como guia a uma angustiante jornada dentro da mente de um homem
acostumado a ter o controle absoluto de sua vida (através do sexo casual e
insaciável) quando se vê diante do imponderável poder de uma mulher cujo
passado – e aí está outro grande acerto do filme – nunca é oferecido ao
espectador. O roteiro, do diretor e de Abi Morgan foge do óbvio e do corriqueiro ao negar ao público
informações essenciais de seus personagens, mostrando apenas o que a bela fotografia
alcança. Há algo de muito doloroso no passado de Brandon e Sissy – a inesquecível
sequência em que ela canta “New York, New York” e o leva às lágrimas deixa isso
bem claro – mas somente eles dois sabem e continuarão sabendo: não interessa a
McQueen o que aconteceu, e sim as consequências disso na existência de ambos.
Contrariando as regras, o diretor não hesita em filmar um diálogo importante
pelas costas de seus atores – deixando que suas entonações e vozes comandem as
emoções – e tampouco deixa que o puritanismo do cinema americano fique em seu
caminho: apesar de ser um filme calcado basicamente em sexo, as cenas eróticas
de “Shame” surgem mais como ilustração da busca desesperada do protagonista por
algo que nem ele mesmo sabe exatamente o que é do que como alavanca para
fantasias sexuais da plateia. E se Fassbender surpreende em cenas de nudez
frontal – o terror dos grandes estúdios – é porque sua confiança no diretor e
em suas ideias é total (não à toa eles voltariam a trabalhar juntos em “12 anos
de escravidão”, que deu ao ator sua primeira indicação ao Oscar, como
coadjuvante).
“Shame” não é um filme de fácil
leitura ou de absorção imediata. Steve McQueen é um diretor que mais pergunta
do que responde, que provoca discussões, que toca em feridas e tabus
inacreditáveis em pleno século XXI. Autor de soluções visuais extasiantes e
dono de pleno domínio da câmera – que soa por vezes intrusiva e por outras mera
testemunha neutra – ele convida a plateia a mergulhar em um universo
aparentemente familiar (afinal é Nova York, a capital do mundo) para logo em
seguida enfatizar, através da música e da fotografia, uma solidão dolorida e
que não demonstra intenção de ir embora. Por esse ângulo, o final em aberto é
extremamente coerente, deixando no espectador um sentimento de desconforto que
apenas coroa o belíssimo trabalho do diretor. “Shame” é, com certeza, um dos
filmes fundamentais de sua época.
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