quarta-feira, 23 de setembro de 2015

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO  (Take this waltz, 2011, Joe's Daughter/Astral Media, 116min) Direção e roteiro: Sarah Polley. Fotografia: Luc Montpellier. Montagem: Christopher Donaldson. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Lea Carlson. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Steve Chewchuk. Produção: Susan Cavan, Sarah Polley. Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman. Estreia: 10/9/11 (Festival de Toronto)

Em uma das sequências iniciais do filme "Entre o amor e a paixão", a protagonista Margo diz a um desconhecido - que mais tarde lhe deixará com o tesão à flor da pele - que não gosta de voos com conexões porque não se sente confortável entre dois pontos. Essa afirmação, aparentemente banal, é a base na qual se sustenta esse novo trabalho da atriz Sarah Polley atrás das câmeras, cinco anos depois do belo "Longe dela", que deu a Julie Christie uma merecida indicação ao Oscar de melhor atriz. Agora trabalhando com um roteiro original, a jovem cineasta demonstra novamente um grande conhecimento da alma humana assim como uma surpreendente maturidade. Contando com mais uma atuação superlativa de Michelle Williams, seu novo filme machuca, emociona e faz pensar como poucos. Em uma época tão propensa a passatempos ligeiros e inconsequentes, não deixa de ser um oásis.

Margo - vivida de corpo e alma por Williams - sonha em ser escritora e é casada com Lou (Seth Rogen), um chef de cozinha que está preparando um livro de receitas à base de frango. Durante uma viagem, ela conhece o sedutor Daniel (Luke Kirby) e sente-se irremediavelmente atraída por ele. Para seu azar, descobre que o rapaz mora em frente à sua casa, o que lhe faz questionar fortemente sua relação matrimonial - confortável mas carente de maiores arroubos de paixão. Dividida entre o casamento estável mas um tanto acomodado e o desejo carnal por outro homem, a Margo resta apenas lidar com suas dúvidas e tentar tomar a decisão correta. Na balança pesa a morna vida sexual que leva com o marido, sua insatisfação quanto à demora dele em querer aumentar a família e sua vontade de escapar de uma rotina conjugal que a deixa em constante frustração.


Assim como no livro "O mundo pós-aniversário", de Lionel Shriver - mesma autora de "Precisamos falar sobre o Kevin" - a protagonista se vê diante de uma encruzilhada em sua vida amorosa e precisa contar apenas com sua intuição para fazer a escolha certa. E, assim como no romance de Shriver, o questionamento passa a ser, em determinado momento, se existe realmente uma escolha que seja a certa. Tanto no livro quanto no filme de Polley, a protagonista e seus pretendentes são seres humanos complexos, com qualidades e defeitos e qualquer caminho a ser tomado é cercado de momentos bons e outros nem tanto. Essa questão crucial - também levantada brilhantemente no já clássico "As pontes de Madison" - é levada com delicadeza pelo roteiro da diretora, que intercala momentos leves com sequências desde já destinadas a antológicas.

A sequência em que Margo e Daniel conversam sobre como seria sua primeira noite, por exemplo, é chocante em sua crueza e ao mesmo tempo consegue ser romântica, sexy e - graças a seus atores - extremamente verdadeira: há muito tempo o cinema não conseguia apresentar uma cena tão erótica sem que nem ao menos haja um mísero toque de mãos. E é devastadora também a cena em que Margo finalmente toma sua decisão - sem querer estragar as surpresas, basta dizer que é quase impossível conter as lágrimas ou o nó na garganta e que Seth Rogen consegue deixar ver que, por baixo do ator de comédias inconsequentes, esconde-se um ator promissor e carismático.

Simbólico sem ser hermético, denso sem ser depressivo e realista sem deixar de ser poético nas horas certas, "Entre o amor e a paixão" tem tudo para despertar muitas e muitas discussões. Além disso, revela em Sarah Polley (mais uma vez) uma sensibilidade que ainda poderá render ótimos frutos em um futuro próximo: a forma como ela utiliza a bela canção-título, na voz de Leonard Cohen, é exemplar, traindo uma maneira feminina e sutil de enxergar um tema polêmico e que poderia resvalar no vulgar ou maniqueísta.

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