sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD

O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011, Blueprint Pictures, 124min) Direção: John Madden. Roteiro: Oli Parker, romance "These foolish things", de Deborah Moggach. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Gill. Música: Thomas Newman. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Roberts. Produção executiva: Jonathan King, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin. Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie. Estreia: 30/11/11 (Festival de Torrento)

Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.

O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.


Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).

Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.

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