quinta-feira, 16 de junho de 2011

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

4 comentários:

alan raspante disse...

É um filme com muitas qualidades e que eu gosto muito, mas não acho que merecia tantos Oscars. Concordo com o Roteiro Original/ Atriz Coadjuvante e Figurino. Apenas isso...

p.s.: acho que vou rever o filme! rs

Abs.

renatocinema disse...

Adoro o filme. Porém, Gwyneth Paltrow uma atriz razoável, não poderia ter vencido o Oscar por sua atuação.

No final das contas isso queimou, um pouco, entre os críticos, o filme.

Mas, a produção realmente tem um belo roteiro, trilha sonora.

Filmes para ver, rever, rever e ver de novo.

Kahlil Affonso disse...

É um bom filme, mas não tão bom a ponto de ser considerado o MELHOR FILME DO ANO. Ainda assim, é divertido e bastante original!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Cristiano Contreiras disse...

O filme é bom sim, eu gosto, revejo e acho que tem inúmeras qualidades, principalmente técnicas. Mas, os prêmios foram um exagero. Judi Dench merecia em tantos outros trabalhos e não aqui, falam tanto de Paltrow, pra mim besteira foi Dench ter vencido num papel tão pequeno e supericial como este. E concordo, Paltrow cativa aqui e é carismática demais, por isso deram o prêmio a ela. E Fiennes, coitado, sequer foi indicado. Antes ele que o quase sempre caricato Rush.

Abraço!