terça-feira, 23 de agosto de 2016

O GABINETE DO DR. CALIGARI

O GABINETE DO DR. CALIGARI (Das cabinet des Dr. Caligari, 1920, Descla/Bioscop, 78min) Direção: Robert Wiene. Roteiro: Carl Mayer, Hans Janowitz. Fotografia: Willy Hameister. Música: Alfredo Antonini, Giuseppe Becce. Figurino: Walter Reinman. Direção de arte/cenários: Walter Reinman, Walter Rohrig, Hermann Warm/Hermann Warm. Produção: Rudolf Meinert, Erich Pommer. Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover. Estreia: 26/02/20

Ao público contemporâneo, para quem filmes de horror precisam obrigatoriamente de sangue aos borbotões, assassinos mascarados e um susto a cada cinco minutos, uma obra como “O gabinete do Dr. Caligari” pode parecer uma comédia grotesca – e provavelmente sem muita graça. Mas em 1920, quando estreou na Alemanha, o filme de Robert Wiene – hoje um cineasta esquecido pelos compêndios de cinema – causou uma revolução estética das mais importantes na história da sétima arte. A partir dele – uma história fantástica que mistura assassinatos misteriosos, hipnotismo e loucura – teve início no cinema mundial uma série de obras de grande impacto visual e temático cuja herança pode ser sentida, em maior ou menor grau, em boa parte dos filmes do gênero lançados a partir de então – com influência extrema principalmente nos clássicos “filmes de monstro” da Universal Pictures, como “Drácula”, de Tod Browning e “Frankenstein”, de James Whale, ambos realizados mais de uma década depois.
            
Frequentemente ligado ao expressionismo alemão, “O gabinete do Dr. Caligari” na verdade vai além do movimento artístico nascido na Munique de 1912 ao extrapolar os limites do teatro e das artes plásticas e imaginar um universo particular na linguagem cinematográfica. Tendo como principal base o trabalho do pioneiro Georges Méliès – que fugia do realismo com suas criações altamente estilizadas e claramente fantasiosas – o filme de Wiene não se furta a recorrer a artifícios visuais que então soavam como altas inovações e que ainda hoje impressionam pela criatividade e ousadia. Não à toa, muitos críticos da época passaram a chamar a influência do filme em produções posteriores de “caligarismo” – em outras palavras, um expressionismo próprio do cinema.


           
Não deixa de ser irônico, porém, que as melhores ideias para a realização do filme não tenham sido de seu diretor – que assumiu a condução do projeto depois que Fritz Lang, que faria o clássico de ficção científica “Metrópolis” oito anos depois, recusou a oferta – mas sim de seu produtor, E. Pommer, que foi quem encomendou os cenários (inclinados, em escala fora de proporção e nitidamente criados para ressaltarem o efeito onírico da narrativa) aos expressionistas Hermann Warm, Walter Roehrig e Walter Reimann e quem impôs o final quase convencional – que, de certa forma, vai contra toda a rebeldia visual da história e que serve apenas para encerrar de forma menos heterodoxa um conto sombrio e perturbador que remetia ao autoritarismo prussiano da I Guerra Mundial (mais um toque do produtor Pommer) e antevia assustadoramente o destino da nação alemã sob o comando de Adolf Hitler. Talvez possa parecer exagero, mas a trama criada pelo roteirista Carl Mayer – a de um homem levado ao homicídio pelo controle mental que sofre de um mestre todo-poderoso – se encaixa perfeitamente como metáfora da lavagem cerebral orquestrada pelo nazismo.
           
 A trama é, levando-se em consideração todas as surpresas visuais, bastante simples: em conversa com um senhor de idade que se diz crente em entidades sobrenaturais, o jovem Francis (Friedrich Feher) conta os assustadores eventos que testemunhou um tempo antes, em companhia do melhor amigo, Alan (Hans Heinrich von Twardowski), na pequena cidade de Holstenwall. Visitada por uma feira de variedades, a localidade sente-se atraída pela presença do misterioso Dr. Caligari (Werner Krauss), que se apresenta como o mestre do vidente sonâmbulo Cesar (Conrad Veidt, tornado famoso por sua interpretação antológica). Segundo o veterano cientista, Cesar está dormindo há 26 anos ininterruptos, e só acorda para prever mortes (que realmente ocorrem logo em seguida). Uma das vítimas de tais premonições é o próprio Alan, mas Francis nem de longe desconfia de que o assassino é o próprio Cesar, cumprindo, inconscientemente, ordens de Caligari. Quando os dois sequestram Jane (Lil Dagover), sua namorada, cabe a ele resgatá-la e desmascarar Caligari.
            
O roteiro de Mayer é enxuto e dono de uma concisão admirável: em pouco mais de uma hora de duração, “O gabinete do Dr. Caligari” apresenta os personagens, expõe os conflitos, cria o suspense, atinge o clímax (quando Cesar carrega Jane por telhados com perspectivas visuais que sublinham a aura de pesadelo da história) e surpreende o espectador com um final que mostra claramente o objetivo do produtor em equilibrar os conceitos de filme de arte e cinema comercial. As atuações a um passo da caricatura encaixam-se perfeitamente no tom excessivo e teatral da proposta, que estabeleceu de forma inteligente os parâmetros que viriam a ser seguidos desde então. Não é um filme para ser visto com olhos de hoje, mas sim como uma das obras fundamentais dos primórdios do cinema de horror. Como tal, é imprescindível.

Um comentário:

Liliane de Paula disse...

Outra boa história. Vou procurar no OLDFLIX.
Não tenho medo de filmes de terror.
Mas precisa que a história tenha um sentido real.