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O MÉDICO E O MONSTRO

O MÉDICO E O MONSTRO (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931, Paramount Pictures, 98min) Direção: Rouben Mamoulian. Roteiro: Samuel Hoffenstein, Percy Heath, romance de Robert Louis Stevenson. Fotografia: Karl Struss. Montagem: William Shea. Figurino: Travis Banton. Direção de arte: Hans Dreier. Produção: Adolph Zuckor. Elenco: Fredric March, Miriam Hopkins, Rose Hobart, Homes Herbert. Estreia:31/12/31

Três indicações ao Oscar: Ator (Fredric March), Roteiro, Fotografia
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Fredric March)


Na história do Oscar poucos momentos foram tão insólitos quanto um ocorrido em 18 de novembro de 1932, ainda nos primórdios de sua existência: por sua performance em “O médico e o monstro” – adaptação do clássico de Robert Louis Stevenson – o inglês Fredric March foi eleito o melhor ator da temporada. Para surpresa de todos, porém, algum tempo depois, ainda na cerimônia de entrega dos prêmios, o Presidente da Academia, Conrad Nagel subiu ao palco e anunciou a novidade: March não havia sido o único vitorioso e teria que dividir a glória com Wallace Beery (até então tido como o favorito por “O campeão”). O caso é que Beery havia perdido a votação por um único voto e as regras da Academia na época ditavam que, se a diferença entre o primeiro e o segundo lugares fosse menor que três votos, um empate seria declarado. Regra é regra, claro – e atualmente um empate só é considerado empate no caso do Oscar quando o número de votos for rigorosamente igual – mas o fato é que a interpretação de March se mantém, apesar da distância de mais de oitenta anos, extremamente atual e impressionante. Mérito de seu talento como ator, obviamente, mas também da força de seu diretor, Rouben Mamoulian.

 Ao adaptar uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial – e que já havia sido levada às telas treze vezes antes de sua versão, escrita por Samuel Hoffenstein e Percy Heath – Mamoulian imprimiu, em seu terceiro longa-metragem, uma personalidade e uma inteligência raras no cinema dos grandes estúdios (no caso, a Paramount). Fazendo uso elegante da fotografia de Karl Struss e da edição ágil e inovadora, repleta de fusões que contrastam os mundos díspares que convivem na Londres do século XIX, o cineasta acabou por construir uma narrativa em que convivem pacificamente um brilhante filme de horror, um suspense de grande sofisticação e, surpresa, um drama romântico dos mais interessantes. Mantendo o interesse da plateia do primeiro ao último minuto mesmo contando uma história já muito conhecida, Mamoulian pavimentou seu caminho como um dos diretores mais versáteis e populares de Hollywood – ao menos até o final dos anos 50, quando sua tendência à independência lhe arrumou sérios problemas com o sistema vigente na terra do cinema.

Depois de “O médico e o monstro”, Mamoulian deixaria sua marca em filmes tão variados quanto o romântico “Ama-me esta noite” (32) – que fazia exemplar uso da trilha sonora – e o inesquecível “Rainha Christina” (34), um dos melhores papéis de Greta Garbo em Hollywood. Assinou “Vaidade e beleza” (35) – primeiro filme a utilizar o Technicolor de três tiras – e comandou o dramático “Sangue e areia” (41), com Tyrone Power e Rita Hayworth. Foi já em 1944 que sua carreira começou a sofrer as consequências de seu espírito indômito: foi afastado da direção do icônico “Laura” e substituído por seu produtor Otto Preminger (que acabou sendo indicado ao Oscar) e ainda teve de amargar outras duas situações idênticas: em 1959, quando o mesmo Preminger ficou em seu lugar na cadeira de diretor nas filmagens de “Porgy e Bess” e em 1963, quando foi afastado do problemático “Cleópatra” para dar lugar a Joseph L. Mankiewicz. Cineasta de sensibilidade teatral, Mamoulian acabou pagando um alto preço por seu bom-gosto em meio à falta de imaginação generalizada da indústria de cinema norte-americana. Mas é justamente esse seu diferencial que transforma “O médico e o monstro” em algo mais do que simplesmente um filme de terror.
Absolutamente impecável, Fredric March dá vida ao Dr. Jekyll, um médico brilhante, gentil, inteligente e caridoso que julga ter encontrado uma fórmula capaz de separar o bem e o mal que ele acredita existir dentro de todo ser humano. Alvo de piadas e desacreditado pelos colegas, ele resolve testar a experiência em si mesmo e, para sua surpresa, ele liberta um monstrengo de aparência semi-animal, grosseiro, violento e cruel a que dá o nome de Mr. Hyde. Enquanto seu lado afável tenta convencer o futuro sogro a antecipar seu casamento com a doce (Miriam Hopkins), sua desprezível segunda personalidade se envolve com a bela prostituta Ivy (Rose Hobart) e passa a tratá-la como sua propriedade – o que a levará, sem que ela saiba disso – aos braços do doce médico.
Com um roteiro fluido e que vai direto ao ponto, “O médico e o monstro” se beneficia de três grandes atrativos: a direção clara de Mamoulian, a atuação avassaladora de March – convincente em qualquer uma das personalidades do protagonista – e os efeitos de maquiagem nunca aquém de excepcionais, a cargo do mestre Wally Westmore (a quem March agradeceu nominalmente em seu discurso de aceitação do Oscar). A confluência dessas três qualidades dá ao filme – dotado de uma ousadia sexual surpreendente, pré-Código Hayes – um palpável ar de atualidade de que nem todos os seus congêneres podem se gabar. Um trabalho excepcional, desde seu visual caprichado até os detalhes narrativos de grande impacto dramático. Uma pequena obra-prima!

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