segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO


O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (Birth of a nation, 1915, David W. Griffith Corp., 165min) Direção: D.W. Griffith. Roteiro: D.W. Griffith, Frank E. Woods, Thomas Dixon Jr., romance e peça "The Clansman: an historical romance of Ku Klux Klan, de Thomas Dixon Jr.. Fotografia: G.W. Bitzer. Montagem: D.W. Griffith, Joseph Henabery, James Smith, Rose Smith, Raoul Walsh. Música: Joseph Carl Breil, D.W. Griffith. Produção: D.W. Griffith, H.E. Aitken. Elenco: Lilian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall, Miriam Cooper, George Siegmann, Joseph Henabery. Estreia: 08/02/15

Pode um filme com uma ideologia repulsiva e desprezível tornar-se um dos maiores clássicos da história do cinema, mantendo-se como uma das grandes influências da sétima arte mesmo depois de mais de cem anos de sua realização? Se tal filme chamar-se “O nascimento de uma nação” a resposta é, infelizmente, positiva. Lançada por D.W. Griffith em 1915 – quando o cinema ainda engatinhava e a Guerra Civil americana ainda não estava cicatrizada na alma dos EUA – a ambiciosa adaptação para as telas da peça de teatro “The Clansman: na historical romance of the Ku Klux Klan”, de Thomas Dixon é um espetáculo admirável de técnica e narrativa, mas tem como base um viés tão explicitamente racista que não é de surpreender que mesmo em seu lançamento – quando o conceito de politicamente correto ainda inexistia – tenha sido alvo de protestos tão furiosos e indignados, especialmente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). O tom francamente preconceituoso da história de Dixon, que chega a usar atores brancos com o rosto pintado de preto para interpretar negros, é, sem dúvida, aviltante e monstruoso, mas isso não impediu seu imenso sucesso de bilheteria – uma prova inconteste de que o público já estava mais do que pronto para encarar filmes que ultrapassassem poucos minutos.

No caso de “O nascimento de uma nação”, bem mais do que poucos minutos. Alcançando a marca de 193 minutos de duração, o filme de Griffith é um épico monumental, que mostrou, pela primeira vez à plateia, inovações narrativas e técnicas que serviriam de base para toda e qualquer produção subsequente. Utilizando de forma exemplar movimentos de câmera até então inéditos e ideias brilhantes como a montagem paralela e a alternância de sequências, o cineasta (com 39 anos à época das filmagens) construiu um verdadeiro manual de técnicas cinematográficas hoje aplicadas à exaustão tanto por Hollywood como pelo resto do mundo. Visto com olhos modernos, o filme parece mais uma curiosidade do que exatamente genial do ponto de vista estético, mas basta contextualizá-lo para se perceber, sem muito esforço, os motivos que o levam a continuar sendo referência e base do cinema moderno apesar dos distorcidos valores éticos de sua trama.


Os absurdos já começam no texto que abre o filme, que debita à chegada forçada dos negros americanos aos EUA a semente da discórdia que resultaria, na segunda metade do século XIX, na Guerra de Secessão que contrapôs o Norte abolicionista e o Sul escravocrata – pano de fundo, como se sabe, do maior filme de todos os tempos, “...E o vento levou”. Essa guerra civil é o que empurra a trama criada por Dixon, um pregador de grande fama no país no início do século e que criou seu livro (e posterior peça de teatro) como forma de engrandecer e louvar os atos da Ku Klux Klan, que, segundo seu ponto de vista, salvou o Sul da anarquia do domínio negro depois da conclusão do conflito. Tendo em vista sua ideologia, é fácil compreender os mecanismos dramáticos que levam o roteiro a fazer o público comprar a ideia de que os violentos cavaleiros de capuz branco são, na verdade, os heróis da história. Não é de admirar, portanto, o choque das plateias mais esclarecidas, que viam diante de seus olhos, menos de 50 anos depois do final da guerra, o mais claro e explícito retrato de racismo jamais cometido na história do cinema até hoje. Felizmente, para Griffith, seu talento parecia maior que suas ideias equivocadas – provavelmente herdadas de seu pai, um soldado do Norte derrotado – e mesmo o fracasso de seu filme seguinte, “Intolerância”, de 1916 (praticamente um pedido público de desculpas) não o impediu de permanecer como um nome imprescindível para o desenvolvimento do cinema como arte – não à toa, ele fez parte, juntamente com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks Jr. e Mary Pickford (a quem descobriu, aliás) na criação da United Artists em 1919.

Mas, afinal, o que faz de “Nascimento de uma nação” um filme tão nocivo e revoltante a ponto de seu diretor ter que realizar um super-produção tão cara quanto “Intolerância” somente para implorar perdão? Aparentemente, sua trama é simples e nada ofensiva: a família Stoneman vive no Norte dos EUA e é liderada pelo político Ted (Robert Harron), que se identifica com os ideais abolicionistas do presidente Abraham Lincoln (Joseph Henabery). Por outro lado, no Sul do país, vivem os Cameron, escravocratas convictos que enviam seus três filhos homens para lutarem na guerra e defender seus interesses. Benjamin (Henry B. Walthall), o mais velho dos Cameron, torna-se Coronel, mas não consegue impedir a derrota para o sul, o que acaba por dar aos negros a liberdade e uma representatividade inédita no governo – para desespero dos vencidos. O assassinato de Lincoln – que tentava manter a paz e a ordem após a guerra – altera de vez os ânimos e dá início à segunda (e mais inacreditável) parte da trama.

Com maioria no Congresso, os negros passam a ser retratados pelo filme como ignorantes, indolentes, obcecados pelo poder, fascistas e incompetentes. Como seu maior representante, surge Silas Lynch (George Siegmann), um mulato que assume um cargo de liderança com o apoio de Ted Stoneman e se apaixona por sua filha única, Elsie (Lilian Gish), com quem tem intenção de casar-se. Acontece que Elsie é apaixonada por Benjamin Stoneman, a quem conheceu no hospital quando trabalhava de enfermeira voluntária. O romance acaba quando a jovem descobre que sua alma-gêmea é um dos líderes de uma organização secreta criada pelos brancos do Norte como retaliação à dominação negra no país – mas faz as pazes com ele quando seu grupo a salva de ser obrigada a casar-se com Lynch, um homem violento e cruel que não aceita suas recusas. É a Ku Klux Klan quem irá reestabelecer a ordem perdida a partir do momento em que os negros tomaram o poder.

E é assim o roteiro de Griffiths – escrito em parceria com Frank E. Woods – trata a história: os negros são descritos de forma estereotipada, caricata e francamente antipática, enquanto os homens brancos do Norte aparecem em cena como heróis fulgurantes, que surgem na hora certa para impedir que suas mulheres, crianças e velhos sejam submetidos a atrocidades vindas de “um povo inferior”. A retórica visual é grandiloquente, impactante e, fosse ela a serviço de uma visão menos absurda, louvável. O problema é que toda essa categoria e inteligência se perdem, diante de um discurso repugnante e ofensivo. “O nascimento de uma nação” é, sem dúvida, um grande filme, indispensável até. Mas seria ainda maior e mais genial se não colaborasse com a intolerância que seu próprio diretor iria criticar em sua obra seguinte.

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