sábado, 27 de agosto de 2016

DRÁCULA

DRÁCULA (Dracula, 1931, Universal Pictures, 85min) Direção: Tod Browning. Roteiro: Hamilton Deane, John L. Balderston, peça teatral de Garrett Fort, romance de Bram Stoker. Fotografia: Karl Freund. Montagem: Milton Carruth. Direção de arte: Charles D. Hall. Produção: Tod Browning, Carl Laemmle Jr.. Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Edward Van Sloan, Herbert Bunston. Estreia: 12/02/31


Em 1922, o alemão F.W. Murnau não conseguiu a autorização necessária para adaptar o romance “Drácula”, escrito por Bram Stoker, e resolveu o problema à sua maneira: mudou o nome dos personagens, alterou algumas de suas características e lançou “Nosferatu, uma sinfonia de horror” – que acabou por tornar-se um dos mais influentes filmes de terror da história do cinema. O que poderia ter sido um caso de sucesso total, no entanto, foi maculado por um processo judicial, que levou o estúdio produtor do filme à falência. Menos de uma década depois, porém, a família do escritor irlandês parecia não estar tão irascível: nada menos do que duas peças de teatro baseadas no livro de Stoker já haviam sido inspiradas no romance - uma escrita por Hamilton Deane e outra por John L. Balderson – e finalmente a história do Conde mais famoso da Transilvânia pode chegar às telas de cinema sem disfarces ou artifícios. Produzido pela Universal – que se especializaria em filmes de monstros, como “Frankenstein” e “A múmia” – e adaptado diretamente dos dois espetáculos teatrais de sucesso, “Drácula” estreou no Dia dos Namorados americano de 1931 e, apesar de alguns deslizes no resultado final, acabou por assumir um lugar de destaque entre os clássicos do cinema. Especialmente porque foi o filme que deu origem ao mito Bela Lugosi.

Húngaro de nascimento, Lugosi já interpretava Drácula nos palcos, com seu forte sotaque estrangeiro servindo como uma das características mais marcantes de seu desempenho. Sua entrada no filme de Tod Browning, no entanto, não aconteceu graças aos méritos de sua inspirada atuação: o cineasta já havia escalado seu ator preferido, Lon Chaney – de “O corcunda de Notre Dame” (23) e “O fantasma da Ópera” (25) – para o papel, mas foi obrigado pelo destino a mudar de ideia: Chaney morreu precocemente, abrindo de forma trágica o caminho para Lugosi, que não deixou a chance escapar. Com o enorme sucesso de bilheteria do filme, seu rosto virou (ao lado de Boris Karloff) sinônimo de horror. Tudo bem que ele tentou aventurar-se por outros gêneros, mas nem o público nem a crítica o deixavam esquecer de seu maior êxito – aliás, nem Ed Wood, o pior diretor de todos os tempos, que tornou-se seu amigo nos últimos anos de sua vida e contou com ele em algumas de suas produções inenarráveis, como mostra a cinebiografia de Wood, que leva seu nome e foi dirigida por Tim Burton (no filme, Johnny Depp interpreta o cineasta e Martin Landau assombra como Lugosi, em atuação premiada com o Oscar de coadjuvante). O Conde Drácula criado por Lugosi é bem mais fiel ao personagem criado por Bram Stoker – um aristocrata gentil, sedutor e sofisticado – do que o monstro apavorante que Murnau mostrou ao mundo, e talvez esse seja o maior motivo da perenidade de sua caracterização.


Apoiado pela fotografia em preto-e-branco de Karl Freund – familiarizado com a escola expressionista alemã – e pelos cenários inspirados que refletem com precisão o estilo gótico pretendido pelo diretor Browning (especializado em filmes de terror pouco sutis), Lugosi faz de seu Conde um homem amável, que esconde sob seus bons modos e ar cavalheiresco, uma inesgotável sede de sangue traída apenas por seu eloquente olhar, sempre sublinhado pelo jogo de luz e sombras de Freund. Sem apelar para a violência explícita, o cineasta conduz o roteiro de Garrett Fort sem maiores sobressaltos, mas peca por não ousar narrativamente e transformar seu filme em uma obra um tanto quadradinha demais – é um filme de terror que, apesar de Lugosi, da trama e da ambientação, não assusta e nem surpreende. Isso faz dele um filme ruim? Absolutamente, já que nota-se claramente em todo o seu desenvolvimento um cuidado raro em obras do gênero. Mas é preciso admitir que, ao mudar alguns pontos importantes do romance original, o roteiro enfraquece muitas das consequências dramáticas da história. Um exemplo? Quando o filme começa, não é Jonathan Harker quem visita o Conde na Transilvânia e lhe vende uma propriedade em Londres, e sim Reinfield (Dwight Frye) – que no livro já é um escravo de Drácula desde as primeiras páginas e cujo desaparecimento empurra o jovem herói para o universo do vampiro-mor. No filme de Browning, Harker só conhece Drácula no teatro, quando o protagonista também é apresentado à Mina (Helen Chandler) – que aqui não é a reencarnação da amada do monstro, e sim apenas a filha do patrão de Reinfield. E, pecado dos pecados, o clímax da história, quando Drácula é finalmente confrontado por seu caçador, o professor Van Helsing (em boa atuação de Edward Van Sloan), é extremamente fraco e sem emoção, diluindo todo o clima de suspense construído até então.

O curioso é que a versão de “Drácula” que chegou aos cinemas foi encurtada em vinte minutos considerados desnecessários – o que talvez explique alguns pulos na trama e a falta de consistência de alguns personagens. A impressão que se tem é que Browning apostou mais na ambientação do que na história em si – opção que deu a Lugosi a chance de brilhar com um personagem cujo mistério é mais uma qualidade do que um defeito. Aliás, a ambientação atenciosa também serviu ao cineasta George Melford, que, à mesma época, usou os cenários para contar a mesma história, com roteiro e elenco diferentes... e em língua espanhola. No entanto, por melhor que possa ter saído o resultado do filme de Melford, ele não tinha o maior trunfo da versão de Browning: o olhar certeiro e inesquecível de Bela Lugosi, que apavorou (e ainda impressiona) gerações e gerações de cinéfilos.

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