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ME CHAME PELO SEU NOME


ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your name, 2017, Frenesy Film Company/RT Features, 12min) Direção: Luca Guadagnino. Roteiro: James Ivory, romance de André Aciman. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Montagem: Walter Fasano. Figurino: Giulia Piersanti. Direção de arte/cenários: Samuel Deshors/Sandro Piccarozzi. Produção executiva: Naima Abed, Margharete Baillou, Tom Dolby, Nicholas Kaiser, Sophie Mas, Francesco Melzi d'Eril, Lourenço Sant'Anna, Derek Simonds. Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira. Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel. Estreia: 22/01/2017 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Mystery of love")

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

A Itália, com suas belas paisagens naturais, é cenário frequente para histórias de amor made in Hollywood. Desde clássicos absolutos, como "A princesa e o plebeu" (1954) e "Quando floresce o coração" até produções contemporâneas, como "Beleza roubada" (1996) e "Sob o sol da Toscana" (2003), o cinema sempre buscou o clima sensual da região para servir como um personagem a mais, capaz de, com seu ar romântico, ser o catalisador de paixões avassaladoras. "Me chame pelo seu nome" é um dos exemplos mais recentes dessa tendência já consagrada. Baseado em um livro de André Aciman publicado em 2007, o filme do italiano Luca Guadagnino conta um história arrebatadora, que ultrapassa o estigma de romance gay para se tornar uma das produções mais elogiadas e premiadas de sua temporada: de sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até a cerimônia do Oscar, em fevereiro do ano seguinte - e passando pelo New York Film Festival, de onde saiu ovacionado pelo público -, "Me chame pelo seu nome" passou por diversos festivais de cinema, sempre aplaudido pela crítica e querido pelo público. Adaptado para as telas por James Ivory, o filme - que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores - deu ao veterano cineasta sua primeira estatueta da Academia, e foi generosamente indicado em outras três categorias, incluindo melhor filme e ator (o jovem Timothée Chalamet).

O caminho do livro de Aciman até sua estreia em Sundance - de onde foi comprado pela Sony Pictures antes mesmo de sua primeira exibição pública - não chegou a ser problemática como se poderia esperar de uma história de amor homossexual, não exatamente um chamariz de bilheteria (o próprio Armie Hammer, que vive um dos protagonistas sabe muito bem sobre o assunto, depois do fracasso financeiro de "J. Edgar", de 2011, no qual vivia o amante do protagonista, interpretado por Leonardo DiCaprio). Em setembro de 2015, James Ivory, um diretor respeitado e de bastante prestígio junto à crítica, anunciou que estava em vias de dirigir uma adaptação do romance - e chegou a dizer que Shia LaBeouf e Greta Scacchi estariam no elenco da produção. Oito meses depois, no entanto, as coisas tinham mudado: Ivory continuava a bordo, mas como produtor e roteirista; Luca Guadagnino assumiu o posto de diretor e LaBeouf foi substituído pelo novato Chalamet - a quem já conhecia há alguns anos e que lhe parecia a escolha certa para o papel. Hammer entrou no projeto também pelas mãos do diretor, impressionado com seu desempenho em "A rede social" (2010). Filmado praticamente em ordem cronológica em pouco mais de um mês na pequena cidade italiana de Crema, "Me chame pelo seu nome" emana, em suas imagens e clima, a sensação perfeita de um verão inesquecível - um clima que, segundo o elenco, refletia a tranquilidade das filmagens e a intimidade entre a equipe. 

 

A trama de "Me chame pelo seu nome" se passa no verão europeu de 1983, em uma pequena vila italiana, onde a família de Elio (Timothée Chalamet) passa a temporada. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um renomado professor de cultura greco-romana, e sua mãe, Annella (Amira Casar), uma tradutora. Elio é rodeado de pessoas cultas, inteligentes e sensíveis, mas nem mesmo ele poderia imaginar que ficaria tão impressionado com Oliver (Armie Hammer), um estudante que chega para ajudar o veterano professor em suas tarefas universitárias. Charmoso e educado, Oliver imediatamente desperta sentimentos até então desconhecidos para o adolescente - que tenta escondê-los iniciando um romance passageiro com uma amiga de sua idade. Elio, apesar de toda a sofisticação intelectual à sua volta, ainda é um adolescente inexperiente em matérias do coração, e se deixa seduzir pelo brilhantismo de Oliver, com quem não simpatiza em seus primeiros dias. Igualmente atraído por Elio, que desperta nele sentimentos contraditórios, Oliver se deixa levar pela sensualidade do cenário que o cerca, e surge um violento romance entre os dois. Um romance que, logicamente, tem data certa para acabar, já que Oliver deve ir embora em poucas semanas.

O que mais chama atenção em "Me chame pelo seu nome", além da adaptação bastante fiel de James Ivory - que, aos 89 anos, tornou-se a pessoa de mais idade a ganhar um Oscar competitivo -, é a direção fluida de Luca Guadagnino. Com filmes bastante elegantes no curriculo - como "Um sonho de amor" (2009) e "Um mergulho no passado" (2015) -, Guadagnino conduz a trama sem pressa, concentrando-se em detalhes, em sutilezas, em pequenos gestos que se tornam gigantescos no contexto em que são apresentados. A química entre Chalamet e Hammer é preciosa, especialmente quando sublinhada pelas belas canções de Surfjan Stevens - uma delas, "Mysteries of love", também chegou a ser indicada ao Oscar - e suas cenas mais quentes são dirigidas com bom gosto e delicadeza, utilizando o sexo mais como forma de comunhão entre os personagens do que como um meio de chamar a atenção do público. E se não bastasse toda a elegância promovida por Guadagnino, seus momentos finais são simplesmente devastadores: um pequeno monólogo do pai de Elio (que oferece uma atuação brilhante de Michael Sthulbarg) sobre entregar-se ao amor e a bela cena em que o adolescente relembra seu primeiro amor (sem diálogos, apenas com o talento de Chalamet em se fazer compreender sem precisar de palavras) fazem com que "Me chame pelo seu nome" fique marcado no coração do espectador. É uma pequena obra-prima, antológica desde seu nascimento.

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