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MEU NOME É DOLEMITE


MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my name, 2019, Netflix, 118min) Direção: Craig Brewer. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Billy Fox. Música: Scott Bomar. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Clay A. Griffith/Lisa K. Sessions. Produção executiva: Michael Beugg, Charisse Hewitt-Webster. Produção: John Davis, John Fox, Eddie Murphy. Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Keegan-Michael Key, Mile Epps, Craig Robinson, Kodi Smit-McPhee, DaVine Joy Randolph, Snoop Dogg. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Poucos astros de Hollywood eram tão poderosos na década de 1980 quanto Eddie Murphy. Graças a filmes como "48 horas" (1982), "Trocando as bolas" (1983), "Um tira da pesada" (1984) e "Um príncipe em Nova York" (1988), ele era o ator negro mais respeitado desde que Sidney Poitier conquistou o coração de toda uma geração, nos anos 1960. Porém, mesmo sucessos consecutivos de bilheteria não significam prestígio eterno, e, sob o peso de escolhas equivocadas e um ego inflado, sua queda foi igualmente espetacular. Relegado a um quase ostracismo e mantendo a carreira com espasmos de sucesso - com "O professor aloprado" (1996) fez as pazes, momentaneamente, com o público e com "Dreamgirls: em busca de um sonho" (2006) chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante -, Murphy parecia destinado a repetir ad infinitum a voz do simpático burro de "Shrek" até que a sorte voltou a lhe sorrir. Produzido pela Netflix e aclamado pela crítica, "Meu nome é Dolemite" lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical e ressuscitou mais uma vez uma carreira tantas vezes tida como definitivamente morta. A boa notícia é que o filme, dirigido por Craig Brewer (que comandou Terrence Howard em sua indicação ao Oscar de melhor ator em "Ritmo de um sonho", de 2005) é não apenas um bem-vindo respiro em uma sucessão de trabalhos fracos, mas sim um dos melhores filmes de seu currículo.

"Meu nome é Dolemite" é uma história real, mas isso não faz dele menos divertido. Seu protagonista, Rudy Ray Moore, é um daqueles personagens inacreditáveis, cuja própria existência já é capaz de provocar gargalhadas na plateia. Tentando conquistar um lugar ao sol no showbusiness dos anos 1970, Moore se via repetidamente colecionando fracassos, seja como cantor ou humorista. Sua grande virada acontece quando, por acaso, ele vê nas palavras aparentemente sem sentido de um desabrigado que volta e meia surge na loja de discos em que trabalha, uma mina de ouro: com um personagem chamado Dolemite, que se veste como um cafetão e não economiza na linguagem pesada, ele se torna um sucesso absoluto da boemia negra de Los Angeles. Querendo ainda mais, ele grava um disco com suas piadas - e, para surpresa de muitos, o êxito é ainda maior, apesar do esquema amador de negócio. Para seu deleite, então, uma gravadora lhe oferece um contrato e novos discos são postos no mercado, expandindo o público de Moore/Dolemite. Cada vez mais ambicioso, o comediante resolve abraçar uma nova mídia e, para descrença de muitos, decide fazer um filme com seu personagem - tendo as plateias negras como público-alvo.

 

A partir daí, é impossível não traçar paralelos entre Moore e outro ilustre cineasta amador, o hoje celebrado Ed Wood - tema da obra-prima de Tim Burton e, coincidência ou não, escrito pelos mesmos Scott Alexander e Larry Karaszewski: tanto Wood quanto Moore tinham mais criatividade e energia em transformar seus sonhos em realidade do que noções básicas de como fazer um filme. Enquanto Wood contava com a experiência de um decadente Bela Lugosi, quem ajuda Moore é D'Urville Martin, um nome conhecido no universo da blaxploitation que entra no projeto de má-vontade e acaba não apenas atuando mas dirigindo o filme, escrito por Jerry Jones (Keegan-Michael Key), um dramaturgo de ambições sérias atônito com as sugestões do dono da produção - mesmo que sem muito sentido, Moore quer incluir no filme coisas como kung-fu (mesmo que ele não saiba lutar), mulheres nuas, piadas, perseguições de carro, e tudo mais que puder chamar público ("exorcismo eu deixo para um próximo"). E, assim como no filme estrelado por Johnny Depp e Martin Landau, são os bastidores das filmagens que deixam "Meu nome é Dolemite" deliciosamente trash - e surpreendentemente emocionante.

Acostumados a contar histórias sobre personalidades reais - também assinam os scripts de "O povo contra Larryy Flynt" (1996) e "O mundo de Andy" (1999), ambos dirigidos por Milos Forman -, Larry Alexander e Scott Karaszevski fazem de "Meu nome é Dolemite" um dos pontos altos de sua carreira. Equilibrado com perfeição entre o humor, o drama e um retrato acurado sobre a cultura negra nos EUA dos anos 1970, o filme não apenas lembra o público de como Eddie Murphy pode ser um bom ator quando deixa de lado sua vaidade como dá uma nova chance a outro ator cuja popularidade despencou depois de uma série de sucessos: na pele do afetado D'Urville Martin, o polêmico Wesley Snipes entrega talvez o melhor desempenho de um filme cujos atores coadjuvantes brilham sem fazer muito esforço - a ótima DaVine Joy Randolph é um exemplo claro dessa afirmação, com uma atuação que pode fazer rir e chorar na mesma cena. E se o roteiro é um achado, o mesmo pode ser dito da direção de Craig Brewer. Não é à toa que o próprio Eddie Murphy o tenha escolhido para dirigir a esperada continuação de "Um príncipe em Nova York", com estreia marcada para 2021.

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