quarta-feira

DOGMA

DOGMA (Dogma, 1999, Miramax Pictures, 130min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: Howard Shore. Figurino: Abigail Murray. Direção de arte/cenários: Robert Holtzman/Diana Stoughton. Produção executiva: Jonathan Gordon. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Matt Damon, Linda Fiorentino, Chris Rock, Alan Rickman, Salma Hayek, Janeane Garofalo, Jason Lee, Jason Mewes, Kevin Smith, Alanis Morissette. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Em 1998, o diretor/ator/roteirista Kevin Smith descobriu na pele, algo que o veterano Martin Scorsese já sabia no mínimo há dez anos, quando lançou seu "A última tentação de Cristo: poucos temas são tão espinhosos e capazes de exaltar ânimos quanto a religião - especialmente a católica. Antes mesmo da estreia de "Dogma" - adiada por seis meses justamente devido a celeumas relativas a seu conteúdo -, o filme de Smith já era alvo de virulentas manifestações, campanhas negativas, ameaças de boicote e todo tipo de controvérsia. O motivo era um só: falar de Deus e religião em uma comédia iconoclasta que misturava anjos renegados, uma descendente de Cristo que trabalhava em uma clínica de aborto, questionamentos a respeito da interferência da Igreja na manutenção de uma mitologia que dá margens a tanto, e algumas ousadias "imperdoáveis", como mostrar um apóstolo negro e Deus na forma feminina. Baseados em uma das várias versões do roteiro - vazada de forma anônima pela Internet -, grupos religiosos ergueram a voz contra a produção a ponto de assustar até mesmo suas distribuidoras: sorte da pequena Lions Gate, que herdando o filme da Disney (cujo histórico de filmes familiares não condizia com o tom do filme) e da então toda-poderosa Miramax (que preferiu não arriscar seu prestígio mesmo acreditando no projeto), lançou aquele que seria seu produto mais rentável até o advento do oscarizado "Crash: no limite" (2004): apesar (ou por causa) das acaloradas discussões, "Dogma" rendeu mais de 30 milhões de dólares - três vezes o seu custo estimado e um êxito surpreendente para os padrões de Smith.

Acostumado com seu status de cineasta cult, com filmes de orçamento baixo e repercussão restrita, Kevin Smith viu-se, graças à "Dogma", no olho de um furacão. A controvérsia ao redor do filme (somada à presença de Ben Affleck e Matt Damon no começo de sua ascensão popular), ajudou a alçá-lo a um patamar nunca antes experimentado - "O balconista" (1994), "Barrados no shopping" (1995) e "Procura-se Amy" (1997), suas produções anteriores, eram conhecidas e aclamadas por uma parcela específica de cinéfilos, fãs de cinema independente e/ou alternativo. Com "Dogma" e seu elenco recheado de nomes conhecidos, seus efeitos visuais e o marketing espontâneo oferecido pela Liga Católica norte-americana, seu alcance tornou-se internacional - um alento para aqueles que não conheciam sua filmografia, repleta de um humor tão inteligente quanto chulo, tão sofisticado quanto popular (leia-se nerd). E não deixa de ser irônico que, mesmo demonizado pelos fieis mais agressivos, Smith tenha se declarado, à época do lançamento do seu polêmico filme, um católico - da mesma forma que Scorsese, apedrejado sem piedade por sua adaptação do livro de Nikos Kazantzakis mesmo tendo passado por um seminário.

 

Smith escreveu o primeiro tratamento de "Dogma" antes mesmo de "O balconista", seu primeiro longa, lançado em 1994. E quando finalmente acreditou que já estava na hora de transformar o script em realidade, quase terceirizou a produção: felizmente o cineasta Robert Rodriguez - queridinho do cinema independente desde sua estreia com o baratíssimo "El mariachi", de 1991 - percebeu que o projeto de "Dogma" era pessoal demais para que outra pessoa que não Smith assumisse a direção. Começava então uma odisseia de trocas, substituições e possibilidades que poderiam ter tornado o filme em algo completamente diferente. Para o principal papel feminino, Bethany, a última descendente de Cristo na Terra, Smith pensou inicialmente em Gillian Anderson - em alta com o sucesso da série "Arquivo X". Nomes como Shannen Doherty e Joey Lauren Adams, antigas colaboradoras do cineasta, também surgiram - até que a cantora Alanis Morissette foi escolhida e posteriormente descartada: por problemas de agenda com a turnê de seu novo álbum, Morissette acabou ficando com um papel menor, mas de importância fundamental (para o qual foram seriamente cotadas Holly Hunter e Emma Thompson). Linda Fiorentino - tornada estrela por filmes como "O poder da sedução" (1994) e "MIB: Homens de preto" (1997) - foi a escolha definitiva para o elenco, para desgosto do próprio Smith, que se arrependeu amargamente da decisão: os dois não se deram nada bem durante as filmagens, a ponto do diretor declarar em entrevistas que teria sido melhor escalar a coadjuvante Janeane Garofalo como protagonista (uma situação delicada que só foi resolvida anos mais tarde). Além disso, outros nomes de Hollywood foram cogitados para papéis cruciais: Matt Damon só entrou no elenco para viver Loki, o anjo da morte, porque o ator inicialmente escalado, Jason Lee, não estava disponível para filmagens longas (o que fez com que interpretasse Azrael, consideravelmente menor para o qual também foram considerados Bill Murray, John Travolta e Adam Sandler). Samuel L. Jackson e Will Smith foram pensados para viver Rufus, o apóstolo negro que revela histórias inéditas da vida de Cristo - antes que Chris Rock fosse contratado. E Alan Rickman - provavelmente o ator de maior prestígio do elenco - surpreendeu ao aceitar viver Megatron depois de confessar ser fã de "Procura-se Amy".

A trama de "Dogma" é um primor de criatividade e nonsense. Dois anjos renegados, Loki (Matt Damon) e Bartleby (Ben Affleck) querem forçar sua reentrada no céu ao atravessar o portal de uma igreja em Nova Jersey: com a bênção do Papa, todos que o fizerem terão seus pecados perdoados automaticamente. Tal situação é um perigo, segundo Metatron (Alan Rickman), pois acabará com a ideia da infalibilidade de Deus e consequentemente acabará com a humanidade. Para isso, o mensageiro divino procura Bethany (Linda Fiorentino), funcionária de uma clínica de abortos que passa por uma séria crise de fé e que, sem que ela mesma saiba, é a última descendente de Cristo - e portanto a única pessoa capaz de impedir que os anjos atinjam seu objetivo. Para ajudá-la, Bethany contará com a ajuda de dois "profetas", Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith) - personagens recorrentes na filmografia do diretor -, um apóstolo cuja existência foi apagada da Bíblia por racismo, Rufus (Chris Rock), e a stripper Serendipity (Salma Hayek) - também conhecida como Musa. Contra Bethany e seu grupo não estão apenas Loki e Bartleby: o demônio Azrael (Jason Lee), que tem seus próprios motivos para chegar até Nova Jersey e desafiar o poder do Criador.

Mas, afinal, "Dogma" é blasfemo ou ofensivo? Depende. Se o espectador é daqueles que se ofende facilmente e não desliga o senso crítico diante de uma produção com a missão nítida de fazer rir, logicamente é possível que acabe a sessão furioso - Smith não poupa nada de suas piadas, e equilibra-se entre tiradas inteligentes e surpreendentes e momentos de puro constrangimento (é uma característica sua falar de flatulências e outras escatologias). Porém, se existe a consciência de que tudo é uma grande brincadeira (e no final das contas bastante reverente), é certo de que a produção rende boas e várias gargalhadas. Alguns diálogos fazem pensar - será que foi isso que incomodou tanto? - e a mensagem final, de que Deus é amor e compaixão, deixa claro que, mesmo com tantas bobagens saídas de sua mente, Kevin Smith ainda é o menino católico praticante que foi na infância. Se alguém tem dúvidas que escute a bela "Still", composta e interpretada por Alanis Morissette nos créditos finais.

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