segunda-feira, 26 de outubro de 2015

AS AVENTURAS DE PI

AS AVENTURAS DE  PI (Life of Pi, 2012, Fox 2000 Pictures, 127min) Direção: Ang Lee. Roteiro: David Magee, romance de Yann Martel. Fotografia: Claudio Miranda. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anna Pinnock. Produção executiva: Dean Georgaris. Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark. Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall, Andrea Di Stefano, Vibish Sivakumar, Ayaan Khan. Estreia: 28/9/12 (Festival de Nova York)

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Pi's lullaby"), Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Diretor (Ang Lee), Fotografia, Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original

Quando a mania de filmes em 3D tornou-se uma realidade - em especial depois do impressionante êxito comercial de "Avatar", de James Cameron - o público foi praticamente soterrado de produções de resultados sofríveis, que utilizavam a ferramenta apenas para ganhar mais dinheiro, em detrimento de qualquer preocupação com outros fatores que também fazem de ir ao cinema uma experiência única, como roteiro, atuações e até mesmo bom-senso. Dezenas de blockbusters erraram a mão em suas tentativas de conquistar os espectadores exigentes, concentrando-se mais nas bilheterias do que na qualidade de seus produtos. Se por um lado isso deixou bem claro que orçamentos milionários não bastam para transformar lixo cinematográfico em bons filmes, também mostrou que, aliada ao talento de cineastas realmente criativos e inteligentes, a tecnologia pode muito bem agregar emoção e encanto ao resultado final de uma obra. Martin Scorsese fez isso com perfeição em "A invenção de Hugo Cabret" - que lhe deu a oportunidade de homenagear o cinema em seus primórdios. E em seguida, Ang Lee também brincou com as possibilidades do formato com o belíssimo "As aventuras de Pi" - que lhe rendeu um merecidíssimo segundo Oscar de direção, acompanhado de outras três justas estatuetas (fotografia, trilha sonora original e efeitos visuais)

Baseado em um romance de Yann Martel - por sua vez inspirado no nacional "Max e os felinos", escrito por Moacyr Scliar - "As aventuras de Pi" é narrado de forma poética e lírica por Lee, um cineasta capaz de emocionar sem apelar para o sentimentalismo barato (que o digam as pessoas que saíram aos prantos das salas de exibição depois de "O segredo de Brokeback Mountain" ou em silêncio comovido após "Tempestade de gelo"). Com pleno domínio da arte cinematográfica, o diretor oriundo de Taiwan seduz a plateia com um visual arrebatador - a fotografia é deslumbrante e fez por merecer a estatueta dourada - e uma técnica invejável, mas jamais perde o foco da história que quer contar. Por mais que o público fique extasiado com as cenas criadas por ele - com auxílio de CGI, naturalmente, mas de forma tão sutil que parece real - em momento algum a técnica sobrepõe-se à emoção. Assim como em "O tigre e o dragão" as coreografadas lutas nunca eclipsavam os relacionamentos interpessoais entre as personagens, em "As aventuras de Pi" tudo serve à história, sem nenhum tipo de gratuidade.


Apesar de ter sido vendido como "a hístória de um rapaz indiano que sobrevive a um naufrágio e fica perdido no mar dentro de um bote, contando apenas com um tigre-de-benagala como companhia", o filme de Ang Lee é bem mais do que isso. Basta dizer que o tal naufrágio que dá o empurrão inicial para tais aventuras só acontece depois de 40 minutos de projeção. Antes disso, o roteiro faz questão de não ter pressa em contar a infância e a adolescência de seu protagonista, Piscina ou simplesmente Pi (Suraj Sharma), um jovem que mora com a família, proprietária de um zoológico na Índia. Até que todos decidam abandonar seu país de origem e embarcar para o Canadá - todos em termos, já que o rapaz não tem a menor vontade de abandonar sua vida e seu grande amor - o cineasta conta sua história de forma tranquila e encantadora. Depois da reviravolta da trama - com o acidente com o navio e a morte de todos os seus tripulantes - a magia acontece. Primeiramente tendo que dividir seu bote com o tigre, um orangotango, uma zebra e uma hiena, Pi chega à conclusão que precisa aprender a conviver com os animais - e também lutar arduamente pela sobrevivência.

Mesmo que a sinopse pareça um tanto chata e sem muitos atrativos senão o visual espetacular, "As aventuras de Pi" surpreende principalmente por manter um ritmo admirável, que impede a plateia de abandonar a surpreendente trama, ilustrada ainda com imagens impecáveis de uma natureza poucas vezes retratadas pelo cinema comercial. Narrada por Pi em sua maturidade para um jovem escritor, a trajetória do menino tornado homem pela experiência única chega a seu final com vastas possibilidades de emocionar o espectador, especialmente por tratá-lo com inteligência e sensibilidade - além de suscitar discussões a respeito de fé e resiliência. Fascinante e belo, é um dos poucos filmes indicados ao Oscar 2013 que realmente mereceram estar na lista final.

Nenhum comentário: