domingo, 14 de dezembro de 2014

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD (Postcards from the edge, 1990, Columbia Pictures, 101min ) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Carrie Fisher, livro de sua autoria. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Chris A. Butler. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: John Calley, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, Rob Reiner, Annette Bening, Simon Callow, CCH Pounder, Oliver Platt, Michael Ontkean, Anthony Heald. Estreia: 14/9/90

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("I'm checking out")

Carrie Fisher foi ao inferno e voltou - com um humor mordaz e venenoso à tiracolo. A eterna Princesa Leia da cinessérie "Star Wars" - filha de um ícone (Debbie Reynolds), ex-mulher de outro (Paul Simon), ídolo de uma (ou provavelmente mais de uma) geração de nerds - Fisher enfrentou um perigoso vício em drogas e sobreviveu para contar sua história. Disfarçada sob o rótulo de ficção, sua trajetória para recuperar sua carreira, aprender a conviver com as idiossincrasias da mãe estrela de cinema e de quebra fazer uma dura e mordaz crítica aos bastidores da indústria do cinema americano chegou às livrarias com o título de "Postcards from the edge" ("Cartões postais do abismo", em tradução literal) e, mais tarde, como não poderia deixar de ser, apesar da ironia, chamou a atenção dos produtores de Hollywood (que, sabidamente, adoram ser retratados nas telas, por pior que seja tal retrato). Dirigido pelo ótimo Mike Nichols - acostumado a lidar com os melindres da terra do cinema - "Lembranças de Hollywood" acabou resultando em uma agridoce comédia dramática que mesmo em seus momentos mais sentimentais nunca abandona sua tendência ao sarcasmo - em boa parte porque o roteiro ficou a cargo da própria Fisher, especialista em transformar aridez em saborosos diálogos.

E diálogos furiosos banhados a humor não faltam na história de Suzanne Vale, a protagonista interpretada com verve cômica por Meryl Streep (que obviamente concorreu ao Oscar por seu desempenho repleto de frescor e ironia). Famosa mais por seu vício em drogas e por ser filha da excêntrica, querida e popular Doris Mann (Shirley MacLaine, esplêndida), ela é obrigada a fazer um tratamento de desintoxicação como cláusula para ser contratada para um filme que ela nem mesmo está tão empolgada a fazer. O problema do tratamento é, além daqueles normalmente inerentes a ele, é a obrigação de voltar a conviver com a mãe, uma mulher carismática, adorada pelo público e de cuja sombra ela vem tentando sair há anos. Com seus próprios problemas de vício - dessa vez em álcool - Mann não chega a ser um exemplo para a filha, mas a convivência, apesar de difícil, passa a ser responsável por uma aproximação entre elas, principalmente quando demônios e traumas passados vem à tona. Não bastasse tudo isso, Suzanne ainda se vê diante de seus problemas amorosos, em especial quando se encanta por um ator metido a conquistador, Jack Faulkner (Dennis Quaid).


Lotado de participações especiais - Richard Dreyfuss como seu médico, Gene Hackman como um cineasta com o coração bem menos duro do que aparenta, o cineasta Rob Reiner como um produtor - "Lembranças de Hollywood" é um retrato tão sincero dos bastidores do cinema comercial americano que incomodou alguns (Lana Turner não gostou nem um pouco de ter sido citada em uma cena que a qualificava como uma má mãe), trouxe lembrnças a outros (Liza Minnelli encontrou ecos de sua relação com Judy Garland no filme) e despertou cobiça em outros tantos (Janet Leigh queria fazer o filme com a filha Jamie Lee Curtis e a própria Debbie Reynolds se interessou em interpretar Doris Mann). A coragem de Fisher em expor-se e seu mundo é admirável, em especial quando se nota que em momento algum existe resquícios de autopiedade ou sentimentalismo. Como uma metralhadora giratória, o roteiro brinca com o egocentrismo dos cineastas e atores, com o mundo de aparências em que vivem e até mesmo com o perigo do vício em entorpecentes (em vias de morrer de overdose, Suzanne se vê em um corredor decorado com fotos de Judy Garland, Elvis Presley, James Belushi e Marilyn Monroe). Mas é na problemática/amorosa/inconstante relação entre mãe e filha que está o âmago do filme de Mike Nichols, e é onde estão também seus maiores trunfos: Meryl Streep e Shirley MacLaine.

Se foi Streep quem concorreu ao Oscar - e perdeu para Kathy Bates em "Louca obsessão" - é MacLaine quem rouba a cena com sua histriônica Doris Mann, uma atriz capaz de fazer um mini-show em sua casa na festa que dá para comemorar o retorno da filha de uma clínica de reabilitação e de dar uma entrevista coletiva ao sair do hospital depois de ter sofrido um acidente por dirigir bêbada como se estivesse saindo de um espetáculo na Broadway. Os duelos entre as duas - repleto de farpas, rancores e uma indisfarçável inveja (a filha inveja o talento da mãe, a mãe queria a juventude da filha) - estão entre os melhores momentos do filme, a ponto de o público ficar constantemente querendo ver mais e mais arranca-rabos entre as duas. Mesmo que a diferença entre as duas atrizes não ultrapasse quinze anos, não existe dúvidas de que Nichols não poderia ter feito escolhas melhores para suas protagonistas: elas iluminam e dão calor humano a um filme que, a despeito de tratar de um assunto aparentemente tão distante da plateia que não é astro de cinema nem viciado em drogas, consegue atingir em cheio o coração e a mente do espectador graças a um belo roteiro, uma trilha sonora inspirada e duas atrizes extraordinárias.

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