terça-feira, 23 de maio de 2017

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO

TUCKER: UM HOMEM E SEU SONHO (Tucker: The man and his dream, 1988, Paramount Pctures/Lucasfilm, 110min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman, David Seidler. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Priscilla Nedd-Friendly. Música: Joe Jackson. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Armin Ganz. Produção executiva: George Lucas. Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Mako, Elias Koteas, Christian Slater, Jay O. Sanders, Peter Donat. Estreia: 12/8/88

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Os homens e seus sonhos: em 1945, logo depois da II Guerra Mundial, Preston Tucker tinha o sonho de construir um carro popular, eficiente, seguro e econômico - mas não conseguiu ir muito longe em seu objetivo, atropelado que foi pelos gigantes da indústria automobilística que não viam com bons olhos sua intrusão em seu meio. Em 1974, o cineasta Francis Ford Coppola, apaixonado pelo carro criado por Tucker, sonhava em realizar um filme contando a história de seu empreendimento e sua batalha judicial para manter-se no mercado. Tucker foi acusado de fraude e levado a julgamento, vendo seu sonho despedaçar-se tão logo tornou-se realidade. Coppola também penou para levar adiante seu projeto - em 1974, queria Marlon Brando no papel principal, mas o filme não foi adiante e ele foi realizar o problemático "Apocalipse now". Tão logo acabou o suplício das pós-produção, chamou Burt Reynolds para protagonizar sua história e mais uma vez o sonho não se tornou realidade. Foi somente em 1988, mais de uma década depois da primeira vez em que pensou no filme é que finalmente "Tucker: o homem e seu sonho" viu a luz dos refletores. No papel central, nem Brando, nem Reynolds nem Jack Nicholson (a quem também foi oferecido), e sim um Jeff Bridges vibrante, entusiasmado e bom ator como nunca. O sonho estava realizado, mas assim como o heroi visionário de Bridges, Coppola também sentiu o sabor agridoce da vitória parcial.

Enquanto Tucker se viu obrigado a encerrar a produção de seus carros depois de apenas 51 exemplares, Coppola não obteve, com seu filme, o reconhecimento esperado e devido, tanto da crítica quanto do público. Com uma renda doméstica insuficiente até mesmo para cobrir o orçamento modesto de 23 milhões de dólares e aplausos apenas mornos da imprensa e das cerimônias de premiação - recebeu tímidas 3 indicações ao Oscar e não converteu nenhuma em estatueta - a história de Preston Tucker acabou por refletir, como em um espelho, as batalhas do cineasta por manter seus princípios artísticos em uma indústria tão impiedosa quanto Hollywood. Dono de dois exemplares do carro de Tucker (outros dois são de propriedade do produtor do filme, George Lucas), Coppola tem uma trajetória de perdas e ganhos tão intensa que não é de espantar sua admiração pelo destemido empresário, que, como ele, era capaz de arriscar qualquer coisa para realizar o que considerava certo. Ele também uma vítima das corporações que ditam as regras de seu negócio, Coppola parece dizer que ele é o Preston Tucker do cinema: um homem de visão, talento e entusiasmo, mas que, como um Davi, infelizmente não tem a força necessária para derrotar poderosos Golias.


Fascinante enquanto reflexo de seu realizador, como cinema "Tucker: um homem e seu sonho" não chega a ser tão admirável quanto os melhores filmes de Francis Ford Coppola. Apesar da paixão que sente por seu biografado, o cineasta parece preso a uma narrativa convencional em excesso, mesmo que o roteiro tente inserir um pouco de humor no tom documental que abre o filme - uma referência aos documentários cinematográficos da época em que se passa a história. Visualmente requintado (a direção de arte e o figurino foram indicados ao Oscar e perderam para "Ligações perigosas", de Stephen Frears), o filme apresenta tudo o que se pode esperar de um cineasta do porte de Coppola: uma direção sensível, atores em composições admiráveis (Martin Landau também concorreu ao Oscar), uma fotografia deslumbrante do veterano Vittorio Storaro e uma edição ágil e criativa. Apenas o roteiro - construído sobre informações coletadas pelo diretor através da Justiça americana, que mantinha confidencialidade sobre o processo - carece de maior força, raramente atingindo todas as inúmeras possibilidades que oferece em um primeiro momento. Entre o início promissor e o final climático - onde a força do talento de Jeff Bridges ilumina tudo a seu redor - há um exagero de cenas redundantes, que parece reiterar, sem necessidade, a batalha de Tucker contra seus algozes.

A trama é simples: com o fim da II Guerra, Preston Tucker (Jeff Bridges) convence a família, os amigos e o público (através de anúncios em revistas), de que será o responsável por criar um carro capaz de concorrer com aqueles fabricados pelas grandes montadoras do país (GM, Ford e Chrysler). Obtendo financiamento com a ajuda do esperto e experiente Abe (Martin Landau) e contando com o apoio logístico do jovem engenheiro Alex Tremulis (Elias Koteas), ele consegue finalmente chegar ao protótipo de seu veículo - mas esbarra, então, nos todo-poderosos da indústria, que passam, então, a lutar contra ele até o ponto de acusá-lo criminalmente e levá-lo a julgamento. Coppola conduz com adequadas serenidade e leveza uma história que, apesar dos dramas, é fundamentada basicamente em esperança e paixão - paixão essa que era também a de Gian-Carlo, filho do diretor, morto aos 22 anos de idade e a quem o filme é dedicado. Emocionante sem ser piegas, "Tucker: um homem e seu sonho" é um sonho de Francis Ford Coppola a respeito do sonho de Preston Tucker. Pode não ser uma obra-prima, mas é movido a sentimentos positivos e uma bela nostalgia - o que já é bem mais do que se pode dizer de muitos filmes mais ambiciosos, mais elogiados e bem menos competentes.

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